sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

TRF-4 TEM PRESSA EM CONDENAR LULA: VAI COMER CRU E QUENTE

O ano de 2018 começou nesta segunda quinzena de dezembro de 2017 quando o TRF-4, com sede em Porto Alegre, marcou em tempo recorde o julgamento de Lula. Como ensina o ditado popular, quem tem pressa come cru e quente.

Uma das  principais preocupações dos setores democráticos da sociedade era de que as eleições de 2018 não ocorressem. Porém esse preocupação vai se dissipando, pois a falta de entendimento entre os golpistas detonou o processo eleitoral, que a esta altura já é irreversível.
Manuela D'Ávila critica Ciro Gomes: Justiça boa respeita direto de defesa.
Embora tivesse a intensão de alijar sumariamente da disputa em 24 de janeiro de 2018 o líder das pesquisas - marcando seu julgamento arbitrário no recesso do STF e entre as férias de início do ano e o Carnaval, período de certa dispersão dos movimentos populares e da militância de esquerda - deu um tiro não no pé, mas no meio da própria testa, pois o TRF-4, antecipando o calendário, marcou uma data extremamente conveniente aos trabalhadores, que, aproveitando as férias, já marcam verdadeiro tsumani, para essa data em Porto Alegre, com um mês de antecedência e com todo esse tempo para se mobilizar.

Leia esta Zona crua.
A candidata a presidenta da República Manuela D'Ávila (PCdoB), que já se pronunciou sobre o oportunismo da data marcada e a arbitrariedade espúria do julgamento, gaúcha, estará presente com a multidão e com personalidades internacionais já confirmadas para perfilarem com Lula e o povo nesse dia histórico de mobilização contra o golpe e o arbítrio no Brasil.

O fato de o PCdoB ter lançado essa jovem guerreira na disputa de 2018 somou uma voz de peso na defesa de Lula, mas também ofereceu ao país mais um polo à esquerda a somar forças com o candidato do PT na luta pela restauração da democracia no Brasil. O belo candidato do PT mais a fera gaúcha têm tudo para tornar o 24 de janeiro de 2018 um ponto de viragem em favor da democracia no Brasil. Em terra de Getúlio Vargas, Leonel Brizona e Manuela D'Ávila, a estratégia de Moro e dos golpistas pode rolar ladeira abaixo. É a volta do cipó de aroeira  no lombo de quem mandou dar, nesse dia e nesse lugar .

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

POLÍCIA FEDERAL: UMA GESTAPO A SERVIÇO DO GOLPE

Juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima manda tropas para invadir UFMG
A invasão da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) por tropas especiais da Polícia Federal, a mando de uma juíza ególatra e de ideologia fascista, sacramenta de uma vez, para os que tinham dúvida, a natureza ditatorial do golpe de Estado.

Uma SP crua.
Nenhuma ditadura sobrevive à liberdade de pensamento e de sua expressão, por essa razão todos os regimes autoritários atiram seus cães raivosos sobre as universidades. Esse episódio é mais um de uma sequência perversa de arbitrariedades cometidas pela PF, sempre articulada com juízes afoitos em atropelar as garantias constitucionais e aparecer na imprensa.

A tarefa democrática mais importante a ser realizada tão logo o golpe de Estado seja debelado é o desbaratamento da estrutura fascista no interior do Judiciário e da Polícia Federal, por meio de uma reforma radical que ponha na cadeia os chefes dessa cadeia de comando criminosa.

PS.: Na manhã de hoje, a PF voltou a invadir a Universidade Federal de Santa Catarina. Não se trata apenas de provocação, mas de estratégia deliberada de amordaçar os possíveis focos de resistência, entre os quais se encontram as Universidade Públicas Federais, incentivadas por Lula e Dilma.

MANIFESTO EM DEFESA DO ESTADO DE DIREITO E DA UNIVERSIDADE PÚBLICA NO BRASIL (Enviado por Gilson Rocha)

Nós, intelectuais, professores, estudantes e dirigentes de instituições acadêmicas, vimos a público manifestar nossa perplexidade e nosso mais veemente protesto contra as ações judiciais e policiais realizadas contra a universidade pública que culminaram na invasão do campus da UFMG e na condução coercitiva de reitores, dirigentes e administradores dessa universidade pela Polícia Federal no dia 6 de dezembro de 2017.

O Brasil, nos últimos anos, vivencia a construção de elementos de exceção legal justificados pela necessidade de realizar o combate à corrupção. Prisões preventivas injustificáveis, conduções coercitivas ao arrepio do código penal tem se tornado rotina no país.

Neste momento amplia-se a excepcionalidade das operações policiais no sentido de negar o devido processo legal em todas as investigações relativas à corrupção violando-se diversos artigos da Constituição inclusive aquele que garante a autonomia da universidade.

É inadmissível que a sociedade brasileira continue tolerando a ruptura da tradição legal construída a duras penas a partir da democratização brasileira em nome de um moralismo espetacular que busca, via ancoragem midiática, o julgamento rápido, precário e realizado unicamente no campo da opinião pública.

Nos últimos meses, essas ações passaram a ter como alvo a universidade pública brasileira. Cabe lembrar aqui que a universidade pública, diferentemente de muitas das instâncias do sistema político, está submetida ao controle da CGU e do TCU, respeita todas as normas legais e todos os princípios da contabilidade pública em suas atividades e procedimentos. Portanto, não existe nenhum motivo pelo qual devam se estender a ela as ações espetaculares de combate à corrupção.

A universidade pública brasileira tem dado contribuições decisivas para o desenvolvimento da educação superior, da pós-graduação, da ciência e tecnologia que colocaram o Brasil no mapa dos países em desenvolvimento. Somente universidades públicas brasileiras estão entre as 20 melhores instituições de ensino e pesquisa da América Latina, de acordo com o Times Higher Education Ranking. A UFMG, sempre bem colocada nesses rankings internacionais, possui 33.000 alunos de graduação, 14.000 alunos de pós-graduação, conta com 75 cursos de graduação, 77 cursos de mestrado e 63 cursos de doutorado. Além de sua excelência em educação e pesquisa, a UFMG se destaca por suas ações de assistência e extensão nas áreas de saúde e educação.

Nesse sentido, intelectuais e membros da comunidade universitária exigem que seus dirigentes sejam respeitados e tratados com dignidade e que quaisquer investigações que se mostrarem necessárias com relação a atividades desenvolvidas na universidade sejam conduzidas de acordo com os princípios da justiça e da legalidade supostamente em vigência no país e não com o objetivo da espetacularização de ações policiais de combate à corrupção. Está se constituindo uma máquina repressiva insidiosa, visando não só coagir, mas intimidar e calar as vozes divergentes sob o pretexto de combater a corrupção. Seu verdadeiro alvo, porém, não é corrupção, mas o amordaçamento da sociedade, especialmente das instituições que, pela própria natureza de seu fazer, sempre se destacaram por examinar criticamente a vida nacional.

Não por acaso o alvo dessa violência contra a universidade e seus dirigentes foi exatamente um memorial que tenta recompor os princípios da justiça e do estado de direito extensamente violados durante o período autoritário que se seguiu ao golpe militar de 1964. O Memorial da Anistia tem como objetivo explicitar os abusos autoritários perpetrados nesses anos de exceção porque apenas a sua divulgação permitirá que as gerações futuras não repitam o mesmo erro.
Nesse sentido, intelectuais, professores e estudantes conclamamos todos os democratas desse país a repudiarem esse ato de agressão à justiça, à universidade pública, ao estado de direito e à memória desse país.

*Assinam:*

Paulo Sérgio Pinheiro_ (ex ministro da secretaria de estado de direitos humanos)
Boaventura de Sousa Santos_ (professor catedrático da Universidade de Coimbra)
André Singer_ (professor titular de ciência política usp e ex-secretário de imprensa da presidência)
Ennio Candotti_ (ex-presidente e presidente de honra da SBPC)
Newton Bignotto_ (professor do Departamento de Filosofia da UFMG)
Leonardo Avritzer_ (ex-presidente da Associação Brasileira de Ciência Política)
Fabiano Guilherme dos Santos_ (presidente da ANPOCS)
Maria Victória Benevides_ (professora titular da Faculdade de Educação da USP)
Roberto Schwarz_ (professor titular de Literatura da Unicamp)
Renato Perissinoto_ (presidente Associação Brasileira de Ciência Política)
Fábio Wanderley Reis_ (professor Emérito da UFMG)
Cícero Araújo_ (professor do Departamento de Ciência Política da USP)
Sérgio Cardoso_ (professor do Departamento de Filosofia da USP)
Marilena de Souza Chauí_ (professora titular do Departamento de Filosofia da USP)
Fábio Konder Comparato_ (professor Emérito da Faculdade de Direito da USP)
Angela Alonso_ (professora do Departamento de Sociologia da USP)
Juarez Guimarães_ (professor do Departamento de Ciência Política da UFMG)
Michel Löwyv_ (pesquisador do CNRS, França)
Adauto Novaes_ (Arte e Pensamento)
Maria Rita Kehl_ (psicanalista)
Thomas Bustamante_ (professor da Faculdade de Direito da UFMG)
Lilia Moritz Schwarcz_ (professora do Departamento de Antropologia da USP)
Gabriel Cohn_ (ex-diretor da Faculdade de Filosofia da USP)
Marcelo Cattoni_ (professor da Faculdade de Direito da UFMG)
Amélia Cohn_ (professora do Departamento de Medicina Preventiva da USP)
Dulce Pandolfi_ (Historiadores pela Democracia)
Oscar Vilhena Vieira_ (Diretor e professor da Faculdade de Direito da FGV-SP)
Bruno Pinheiro Wanderley Reis_ (Vice-diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - Fafich e professor do Departamento de Ciência Política da UFMG)

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O partido que manda na escola privada


A realidade da escola privada, com ou sem "Escola sem Partido," é diferente da pública. Na rede privada há reprovação, não há progressão continuada na sua versão perversa: aprovação automática. Ao final do ano letivo, todas as escolas, inclusive as públicas, realizam (ou deveriam) o Conselho de Classe. A diferença é que nas públicas ele deveria tratar dos problemas de aprendizagem dos alunos com déficit (estratégias de atendimento, inclusão, reinclusão etc.), enquanto nas privadas está em pauta estritamente a recuperação de notas anuais ou a retenção dos que não obtiveram média determinada pelo Regimento Escolar.

A rede privada é grande em todos os estados, e não atende só a elite. Uma grande fatia da classe trabalhadora põe seus filhos em escolas privadas de mensalidade acessível. Quando um jovem dessa rede apresenta problemas, ele vai sendo empurrado de escola em escola e vai sendo "reclassificado", sem que nenhum trabalho efetivo seja feito em seu proveito.

Aluno que vai para o Conselho de Classe na rede privada é porque está pendurado na brocha. A situação da educação é tal que, para se tornar alvo de apreciação do colegiado de professores, o aluno tem que ter contribuído com a lei da gravidade durante o ano todo, além de ter pendurado uma bigorna no pescoço na hora derradeira do último bimestre escolar e gritado “Jerônimooooo”.

Mas a questão não é essa. A questão é que nesse colegiado as paixões com frequência se transmutam em Flautista de Hamelin e, perdida toda a objetividade, alguém sempre puxa a fila dos que serão afogados com bigorna e tudo, como os camundongos da fábula.

O diretor tira o corpo da parte que cabe à gestão escolar no latifúndio do fracasso escolar, o coordenador discorre sobre tudo que fez para salvar as almas do purgatório e alguns docentes incorporam o espírito de Robespierre, quando não o de Freddy Krueger.

No final das contas, para justificar a reunião e o protocolo exigido pela burocracia institucional do Estado, alguns serão guilhotinados simbolicamente, não sem antes terem suas vidas fora dos portões e muros da escola escarafunchada por alguns paladinos da ordem e da moral. É o famoso “Que sirva de exemplo”. Assim é feita a salsicha.

Com frequência, nesse circo romano, alunos com desempenhos semelhantes têm destinos diversos. Perdida a objetividade de uma escola que não dá soluções a conflitos explícitos diários e não assume sua grande parcela de culpa no fracasso escolar, ao final do ano, com relação à faixa de alunos de desempenho insatisfatório, aponta-se o polegar para baixo em relação àquele que provocou mais antipatias, e o polegar para cima àquele que, se não produziu e mesmo dormiu durante as aulas, ao menos não tumultuou o recinto.

Nas decisões mais difíceis, em que a análise de conjunto e a objetividade deveriam ser convocadas, o que move o polegar para baixo ou para cima é a bile. Sob esse aspecto, a famigerada "Escola sem Partido" é uma idiotice que nem as escolas privadas engolem, pois o partido nelas é o de seus donos - e não é nenhum farisaico MBL ou um patológico Fernandinho Holyday que vão expulsar delas o partido do dono, que tem como contraponto da bile supracitada o dinheiro da mensalidade - e quem dá a palavra final é este.

Fui duro? Sou de Sagitário. Custou, mas assumi minha condição meio homem, meio cavalo. Infelizmente, quem é desse signo, meu caso, vai de uma metade à outra sem transição.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 26 de novembro de 2017

POESIA DE MÚLTIPLAS FRONTEIRAS E CONFRONTOS

Pé de Ferro & Outros Poemas, de Adalberto Monteiro, é um país de múltiplas fronteiras, no sentido simbólico, mas também no geográfico. Faz fronteira com o amor-carne, mas também com o amor-sonho, o amor-irmão, o amor-intimidade, o amor-distância, o amor-desamor. Na poesia de Pé de Ferro há uma fronteira com o trabalho, outra com a diversão; uma com a dor, outra com o prazer; uma com a experiência, outra com a linguagem; com a surpresa, outra com o susto; uma com o olho, outra com a saliva. Mas há também miríades de fronteiras geográficas: gente com gente, rua com rua, bairro com bairro... E as que cada qual, vindo de diversas partes do Brasil e do mundo, traz dentro de si, fronteiras íntimas, ambulantes, acalentadas ou rejeitadas, acolhidas com inexplicável fraternidade ou cuspidas com sarcasmo por uma metrópole a um tempo sedutora e crua.

Há carioca, baiano, belo-horizontino, teresinense e até goianiense da gema, mas não há paulistano da gema. Isso porque que o nativo da cidade de São Paulo é apenas um entre as milhares e diversas identidades que compõem a metrópole.

Amálgama de sonhos e frustrações locais e de todas as partes do Brasil e do mundo, São Paulo não solda essas miríades de identidades sem antes triturá-las em suas relações sociais truculentas, em suas ruas de trânsito caótico, em sua atmosfera carregada de poluição e ruídos perturbadores. Noutras palavras, quem nasce em São Paulo ou vem para São Paulo nasce e vem para ser moído – e só depois colado, em fragmentos, se possível.

Adalberto Monteiro, poeta que no caco solto antevê o mosaico de identidades truncadas, recolhe neste Pé de ferro & outros poemas os fragmentos mal soldados que, ao se despregarem da colcha de retalhos algo rota da metrópole e do mundo, caíram-lhe às mãos como migalhas crocantes de pão fresco.

O pombo, que integrado à cidade, anda e, só depois de chutado, se lembra de que é ave e volta a voar – é uma dessas migalhas. Dois meninos, na falta de bola, chutando garrafa pet, enxotados da porta de um bar na rua Aurora – são mais duas migalhas. Do comerciante que dá seu bom dia com sua amabilidade de caixa registradora – caem mais algumas migalhas, estas, sórdidas. O sorvete a escorrer da boca da moça no verão derretente; o amor que se reconheceu multiplicado no perdão; a bala de hortelã trocada no beijo são outras tantas, estas, santas.

Porém há as migalhas do mundo: as que se desprendem do pão das Minas Gerais e do Araguaia, da Venezuela e de Cuba. A todas Adalberto apara com suas mãos de poeta e oferece ao leitor com a verdade e a potência dos versos escritos em guardanapos. Aliás, como registrou Milton Nascimento, a propósito dos poetas de sua cidade – esses catadores de migalhas, que não querem medalhas, nem tambores nem trombetas.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O ENEM DA EXCLUSÃO DOS POBRES

O segundo dia do ENEM 2017, que já perdeu 3 milhões de inscrições em relação ao último do governo Dilma, confirmou uma tendência que já se revelara no primeiro dia, quando foram avaliadas as áreas de Linguagens e Humanas: o aprofundamento do conteudismo nas questões de Exatas e Ciências da Natureza favoreceu os alunos egressos de escolas privadas.

Seja, por exemplos, em Filosofia (avaliada no primeiro dia), seja em Matemática, a própria imprensa registrou a dificuldade que mesmo professores enfrentaram em resolver certas questões. Isso aponta não para a elevação do nível da prova, mas para a eleição de certos conteúdos que certas escolas trabalharam e outras não.

Ora, o ENEM foi elaborado para avalizar competências e habilidades, não se o aluno se recorda de conteúdos específicos ministrados ao longo de sua formação na Educação Básica. Muitas questões, tanto de Linguagens, Humanas e Redação, quanto de Ciências da Natureza e Matemática privilegiaram a memória de conteúdos tratados anteriormente. As questões interpretativas, marca desse Exame, perderam peso claramente.

Ao invés de se avaliar aquilo que é comum a todos os alunos do Ensino Médio brasileiro, pôs-se em foco aquilo que escolas "top" do sistema privado têm trabalhado - muito além do que é comum a todas as escolas desse nível de ensino.

A insuspeita revista Veja elogiou esta edição do ENEM como a que "valorizou o bom aluno" em prejuízo do "paraquedista". O que ela chama de "bom aluno" é, na verdade, o aluno da escola privada de elite, que deseja uma vaga gratuita na universidade pública; e o que ela chama de "paraquedista" é na verdade o aluno da escola pública, que vinha sendo incentivado a buscar uma vaga (que sempre lhe fora negada) numa universidade paga com o suor do trabalho de seus pais. O MEC do golpe já nem disfarça: o ENEM do golpe é também um golpe contra os filhos dos trabalhadores. 

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

ENEM 2017: O ENEM DO GOLPE É TAMBÉM UM GOLPE


O segundo dia do ENEM 2017 confirmou uma tendência que já se revelara no primeiro dia, quando foram avaliadas as áreas de Linguagens e Humanas: o aprofundamento do conteudismo nas questões de Exatas e Ciências da Natureza favoreceu os alunos egressos de escolas privadas.

Leia esta São Paulo crua.
Seja, por exemplos, em Filosofia (avaliada no primeiro dia), seja em Matemática, a própria imprensa registrou a dificuldade que mesmo professores enfrentaram em resolver certas questões. Isso aponta não para a elevação do nível da prova, mas para a eleição de certos conteúdos que certas escolas trabalharam e outras não.

Ora, o ENEM foi elaborado para avalizar competências e habilidades, não se o aluno se recorda de conteúdos específicos ministrados ao longo de sua formação na Educação Básica. Muitas questões, tanto de Linguagens, Humanas e Redação, quanto de Ciências da Natureza e Matemática privilegiaram a memória de conteúdos tratados anteriormente. As questões interpretativas, marca desse Exame, perderam peso claramente.

Ao invés de se avaliar aquilo que é comum a todos os alunos do Ensino Médio brasileiro, pôs-se em foco aquilo que escolas "top" do sistema privado têm trabalhado - muito além do que é comum a todas as escolas desse nível de ensino.

A insuspeita revista Veja elogiou esta edição do ENEM como a que "valorizou o bom aluno" em prejuízo do "paraquedista". O que ela chama de "bom aluno" é, na verdade, o aluno da escola privada de elite, que deseja uma vaga gratuita na universidade pública; e o que ela chama de "paraquedista", é na verdade o aluno da escola pública, que vinha sendo incentivado a buscar uma vaga (que sempre lhe fora negada) numa universidade paga com o suor do trabalho de seus pais. O MEC tenta disfarçar, mas o ENEM do golpe, é também um golpe contra os filhos do trabalhadores.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 5 de novembro de 2017

REDAÇÃO DO ENEM 2017: TEMA TEM ERRO PRIMÁRIO DE PÚBLICO-ALVO


A redação do tema, tal como divulgada pelo INEP, volta-se claramente não ao público do Ensino Médio, mas para os profissionais responsáveis pela formulação de políticas, teorias e práticas relacionadas à educação de pessoas surdas ou com déficits auditivos severos - noutras palavras, volta-se para os agentes públicos e para pedagogos.

Em que pese a pertinência da escolha, o tema da redação do ENEM 2017 ofereceu aos jovens candidatos egressos do Ensino Médio dificuldades que não lhes dizem respeito. Isso porque o tema não é a inclusão de surdos ou do portador de deficiência auditiva severa , nem a necessidade de respeito à pessoa humana com limitações seja de que ordem for. O tema, explicitamente, é "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil."

Os textos de estímulos oferecidos, que envolveram legislação e informações do INEP, não resolvem o problema de equívoco de público-alvo cometido na redação da temática divulgada ainda durante a aplicação do Exame (insisto, o tema volta-se a educadores, pedagogos, professores, profissionais da educação com nível Superior e gestores do sistema, não a estudantes do Ensino Médio entre 16 e 18 anos em sua maioria).


Leia esta São Paulo crua.
Forçado a propor intervenções para um tema voltado a um público específico (gestores e pedagogos), a tendência do candidato não especialista será, em relação ao tema tal como proposto, tangenciá-lo - e quando o fizer estará correto, pois não cabe a um estudante de Ensino Médio dominar teorias pedagógicas que lhe proporcionem condições de apresentar propostas de intervenção concretas, que sequer estão no horizonte de pedagogos e agentes governamentais atuais. Aliás, quantos estudantes de pedagogia de nossas melhores universidades estariam em condições tratar desse tema tão específico? Aliás, desafio o ministro da educação a redigir esta redação, sem consulta, neste exato momento. Veremos como ele se sai - qual seria sua nota? Aliás, pergunta meu amigo Plínio de Mesquita: "Teriam sido os alunos das escolas privadas amigas da atual gestão do MEC pegos de surpresa"? Noutras palavras, o direcionamento (proibido em concursos públicos) do tema favoreceu quem? 

Sem saber o que fazer com a educação brasileira e menos ainda com a educação para surdos, com medo do MBL e da famigerada Escola Sem Partido, o INEP e o MEC atiram os jovens candidatos do ENEM aos leões, para ver se dessa massa de 6,7 milhões de jovens candidatos extraem luzes que iluminem as cabeças vazias e mal intencionadas que hoje dirigem os mesmos INEP, MEC e governo Temer. Obrigado a realizar esta edição do ENEM também em LIBRAS, INEP, MEC e Governo Temer tiram o corpo de sua responsabilidade e a delegam para jovens, que não têm nada a ver com a péssima qualidade da atual gestão do MEC que, fruto de um golpe de Estado, não consegue dar uma dentro, mesmo quando tenta "fazer média" com a sociedade.

O que ocorrerá na banca de correção do ENEM, em face do tema técnico de nível superior da área de educação mal redigido, é que o critério de pertinência temática terá de ser relativizado, melhor seria dizer afrouxado (melhor para os candidatos), caso contrário uma massa imensa de redações terá pontuação, nesse quesito, muito abaixo da média, puxando a média histórica do Exame, com certeza, para seu pior índice desde que o ENEM foi instituído em 1998. A expressão "formação educacional", em particular, terá de ser considerada com extrema larguesa, pois estudantes de Ensino Médio simplesmente não tem a menor obrigação de dominar as especificidades relativas à pedagogia voltada para surdos, principalmente quando a própria gestão atual do MEC tem tão pouco a dizer sobre esse assunto.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.




Morte aos judeus, aos negros, aos nordestinos, aos gays, aos deficientes: no ENEM pode


Leia esta São Paulo crua.
A presidenta do STF Carmen Lucia entra para a história  como uma das figuras mais asquerosas da República. Ao atender a solicitação da organização fascista Escola Sem Partido, ela permite que sejam praticados nas redações do ENEM (que que caiu de mais de 9 milhões de inscritos para pouco mais de 6,5 milhões) crimes contra a pessoa humana fortemente penalizados pela nossa legislação. Agora a prática da tortura, a injúria racial, o preconceito contra deficientes, idosos, migrantes e imigrantes, a violência contra mulher, a pedofilia entre outros crimes serão pontuados.

Assim, aquilo que não se admite sequer em pichações de muros, e que é objeto de vasta legislação punitiva no Brasil e no mundo, no ENEM será validado. Nossa corte suprema, em seu pior momento, nos oferece um raio X de sua própria estrutura imoral e antiética.

Tudo o que se conquistou em termos de civilização, consagrado em lei, desde o fim da II Guerra Mundial, foi vilipendiado pela mais alta corte do país, que, assim, se associa e dá vitória a uma organização criminosa (Escola Sem Partido), para esfregar na cara dos brasileiros além de sua covardia, o esgoto ideológico, com o qual concorda e o qual legitima.

Os corretores das redações do ENEM deste ano terão de revolver esse esgoto ideológico para pontuar textos que fazem abertamente apologia dos crimes mais abjetos a que mentes perturbadas pelo ódio podem chegar. Não zerada, a redação terá de ser considerada em todos os critérios de correção: tema, estrutura, linguagem, proposta de intervenção, envolvidos nas competências avaliadas. Não contendo erro de português, por exemplo, poderá receber até pontuação máxima em linguagem, embora a linguagem esteja sendo usada para destruir e desmoralizar o próprio Exame.

Diante de um Congresso Nacional roído pela corrupção, de um Executivo fugitivo da polícia e de um Judiciário sócio do crime, vão restando poucas alternativas para a democracia, que não sejam a vias de fato.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

SE HOUVER ELEIÇÕES HONESTAS, VENCEREMOS

O filme de horror que se instaurou no Brasil com o golpe segue firme seu roteiro. Não há um dia, desde a famigerada votação na Câmara Federal, em que fiquemos livres de péssimas notícias, seja no campo político, seja no econômico, seja no social, em que a miséria se generaliza e a violência explode em números eloquentes demais para serem empurrados para debaixo do tapete.

São Paulo nua e crua.
O mal estar ultrapassa em muito os setores da sociedade que apoiaram Dilma e Lula nas últimas eleições, pois os efeitos colaterais do golpe, mal calculados, terminaram por atingir em cheio os mesmos agentes que o promoveram.

Michel Temer e seu PMDB corroído de cupins; Aécio Neves, com seu PSDB convertido em pó; Sérgio Moro e sua reserva de mercado de delações forjadas, denunciados da Espanha; o STF, corte de marajás, identificado com a facilitação da vida de criminosos; o Congresso Nacional, que só vota sob o argumento explícito do dinheiro são miasmas demais para serem engolidos pelas urnas.

Conquistada a normalidade política em 2018, por mais que se esforcem, esses miasmas receberão das urnas o que plantaram. Resta-lhes, por isso, contar com a hipótese de golpear o próprio processo eleitoral de 2018. Há, portanto, apenas duas variantes em jogo: 1a.) o processo eleitoral ocorre normalmente e derrotamos o golpe; 2a.) o golpe se mantém e aprofunda por meio de um novo golpe, agora contra as próprias eleições. Tenho comigo que não terão forças para tanto.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O DINHEIRO SUJO DOS MERCENÁRIOS THINK TANKS

Uma rede alimentada por bilhões de dólares de multinacionais e corporações globalizadas com sede nos EUA se especializou em derrubar governos que ofereçam alguma resistência às estratégias de lucro predatório dessas mesmas multinacionais e corporações.

Sob o mantra do ultraliberalismo selvagem, escondem-se práticas criminosas que vão da fabricação de notícias falsas em escala astronômica nas redes sociais à compra de jornalistas da grande imprensa, passando pelo suborno de membros do Judiciário, do Legislativo e do Executivo de países vulneráveis.
São Paulo nua e crua.
Formada por uma articulação globalizada de órgãos, institutos, movimentos e personalidades de ultradireita, essa rede volta-se em primeiro lugar para a desmoralização e destruição de governos que tenham algum pendor social; num momento seguinte, para o entronamento de governos de direita ultraliberal, cujo programa nada mais é do que a entrega das riquezas dos respectivos países a essas multinacionais e corporações, em proveito obviamente dos EUA.

No Brasil, Instituto Millenium (ligado à rede Globo), movimentos como MBL e MCC (Movimento Contra a Corrupção), são células cancerígenas dessa rede. Como essas empresas e corporações não podem abertamente assumir seus propósitos, empregam mercenários digitais da política, que, enrolados em bandeiras nacionais, traem seus países por um preço que envergonharia Judas. (Leia aqui o que o próprio Insituto Millenium fala sobre think tanks).

Empregando semelhante estratégia, cujo motor principal é a disseminação viral de notícias falsas, a ultradireita racista alemã saltou dos magros 5%  para eloquentes 13%, nas eleições deste domingo. A mentira, a provocação, o suborno, o dinheiro de origem disfarçada e obscura são a placenta dessa rede que empurra o mundo para uma radicalização de consequências imprevisíveis.

Convido os amigos e lerem a esclarecedora reportagem do The Intercept Brasil, Esfera de Influência. Para quem tem dúvida do papel dos EUA na destruição da democracia na América Latina e no mundo, eis aí uma oportunidade de pôr essa dúvida a prova.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

EM BUSCA DO JUDAS PERFEITO

Sérgio Moro, o suposto juiz, nas palavras do jurista Bandeira de Melo, depende hoje totalmente de um judas perfeito para apanhar Lula em sua tocaia parajurídica. Suas estratégias sutis como rinocerontes apoiaram os pés no solo pantanoso de delações extraídas a fórceps - uma mais inverossímil que a outra, todas vazias de provas materiais, contraditórias e cujos enredos mal ajambrados envergonharia um estudante de Ensino Fundamental.

A dependência desse curinga é tal que Moro já abriu mão das aparências, já não se importando sequer com a verossimilhança. No depoimento patético de Palocci desta semana sequer preocupou-se com um bom ensaio: o depoente literalmente trouxe colinhas de papel com resposta pronta para cada respectiva pergunta.
São Paulo nua e crua.
Porém o teatrinho mal ensaiado, quando filmado, se torna bizarro. O suposto juiz pergunta, após o réu tecer acusações as mais pesadas que pode contra Lula: "O senhor estava nessa reunião", ao que Palocci responde: "Não, Excelência, mas no dia seguinte o presidente Lula me chamou e me contou". Noutra oportunidade, a mesma pergunta, agora sobre outra acusação. A resposta? A mesma: "Não estava, mas o presidente me contou no dia seguinte".

Palocci foi mais outro judas falho. Resta saber se receberá, ainda assim, os trinta dinheiros a que se candidatou, ao pôr em curso sua "delação implorada", na feliz expressão da presidenta Dilma - em resposta a suas bizarrices. Moro, esse mal jurista de uma nota só (Lula Lula Lula), terá de continuar sua busca por outro judas perfeito, pois não lhe resta outro recurso para enfrentar Lula. Não se enganem: esse cavalheiro já se encontra no mundo perturbado e sombrio da monomania.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O PACTO DE SANGUE MORO-PALOCCI

O ministro de Lula mais elogiado por FHC, Serra, Aécio e Alckmin, tendo inclusive palestrado sob aplausos para plateia tucana, enfim revela seu amor verdadeiro. Ao depor ao suposto juiz Sérgio Moro, sem provas do que diz, sustenta ter havido um "pacto de sangue" entre o PT e Lula com a empreiteira Odebrecht.
Porém o pacto por ele "revelado", à moda de filme infantil da sessão da tarde da rede Globo, esconde muito mal o verdadeiro, aquele que ensejou sua fábula infantil, contada a partir de "colinhas" de recortes de papel, e de enredo tosco: o pacto entre ele e o vendedor de sentenças do mercado de delações de Curitiba, que para lhe reduzir a pena, exige em seu depoimento o de sempre: a citação de Lula, a qualquer pretexto, com ou sem provas.
São Paulo nua e crua.
Palocci foi na era Lula a voz do mercado dentro do governo, todos o sabem, ele jamais fez questão de disfarçar, nem Lula tinha outro papel para ele a não ser esse. Afinal, ainda que em um governo de esquerda, num regime capitalista com um pé na escravidão e o resto do corpo na selvageria neoliberal, alguém tinha que ser o embaixador junto aos donos do "mercado" - e, nesse caso, ninguém mais qualificado do que um agente que carregava uma estrelinha do PT na lapela do paletó e que perseguia outra estrela mais sedutora e brilhante: a do dinheiro, que lhe garantia livre trânsito entre banqueiros e aplauso fácil de tucanos.
Palocci pede sempre mais uns minutinhos para continuar dedurando.

Quem não conhece a carreira de Palocci talvez se abisme agora com sua fábula infantil e seu pacto de sangue com Sérgio Moro. Porém, quem acompanha a política brasileira se surpreende por outra razão: a de ele não ter roído a corda há mais tempo, pois a estrela de Joaquim Silvério dos dos Reis estava cravada em sua testa desde quando, ainda no governo Lula, insinuou-se ao "mercado" como possível sucessor de Lula na presidência. Palocci é como aqueles conselheiros servis dos filmes de aventura da sessão da tarde da Globo: por sob seu rastejar, mora o frasco de veneno que deitará na taça do mocinho da história. E, como nesses filmes, se dará mal.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

UM PAÍS DOENTE SANGRA

A agressão sofrida pela professora Marcia Friggi, na cidade catarinense de Indaial, choca pela imagem, que ela teve a coragem de postar nas redes sociais. Porém, infelizmente, esse é o ápice previsível da rotina de ofensas verbais e atitudinais, e também de ameaças veladas ou explícitas, que tantos de nós professores das redes públicas e privadas do país sofremos todos os dias.

A agressão sofrida pela professora não parou no soco: nas redes sociais, embora em minoria, uma horda de linchadores virtuais entrou na área de comentários da postagem feita por ela para a achincalhar em virtude de sua postura política de esquerda.

Isso decorre do completo desprezo de governantes, de donos de escolas e de pais de alunos pela escola, convertida ora em depósito de crianças marcadas na mão para não repetir refeição, ora em espaço de explosão de conflitos não resolvidos no seio da família, ora em campo de descarga de tensões sociais, potencializadas pelo atual estágio do capitalismo ultraconsumista, que forma uma geração empurrada para a força bruta, educada na intolerância e incentivada ao linchamento.

A lógica do aluno que agrediu covardemente a professora de língua portuguesa e literatura é a mesma de Sérgio Moro, para o qual o que vale é o argumento da força, não a força dos argumentos. Abandonados os protocolos mínimos de civilidade, o que prevalece é o ódio, cego, furioso, que, não encontrando barreiras claras e inequívocas, avança sobre o outro para aniquilá-lo - sem contudo esgotar seu potencial destrutivo e caótico nesse ato de aniquilação.

Uma São Paulo que você tem que conhecer.
O que fez esse jovem é o mesmo que fez uma pequena multidão ensandecida no Guarujá há pouco tempo. Divulgada pelas redes sociais a imagem de uma suposta pedófila, uma senhora foi linchada até a morte. No mesmo dia ficou provado que a vítima cometera o grave crime de ser parecida com a acusada.

Nós professores, todos os dias, assistimos a um mar de gente passar a nossa frente nas extenuantes aulas que ministramos. Salvo raríssimas exceções, é preciso reconhecer, esse mar enfrenta uma ressaca colossal. É nesse mar que nos encontramos todos os dias, professores e estudantes - e é nele que os sinais de um país que se afunda são mais eloquentes, porque gritam... e sangram.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

sábado, 19 de agosto de 2017

GALINHA LOUCA NÃO GOSTA DE OVOS

Miguel Costa, que foi secretário de cultura de Carapicuíba (SP), filho do legendário general Miguel  Costa (cuja coluna compôs depois a não menos legendária Coluna Prestes, e que dá nome a estação de trem da CPTM de Carapicuíba), nos idos dos anos 80, já bem idoso, me contou como teria nascido o apelido "galinhas verdes", dado aos integralistas - versão brasileira do fascismo.

Segundo ele, numa reunião dos integralistas no Theatro Municipal de São Paulo, no início da década de 1930, um militante da juventude comunista, do alto de um dos balcões, atirou uma galinha pintada de verde sobre os participantes. A galinha, segundo ele, voava mal e curto, mas teria dado trabalho para ser apanhada pelos os camisas-verdes, furiosos com a brincadeira, que os destruiu pela piada.

Anos depois, ouvi a mesma história e um idoso militante comunista de São Paulo, porém a versão é de que a reunião havia se dado nas escadarias do Theatro Municipal, não dentro, e que a galinha fora atirada de uma das janelas superiores do mesmo Theatro Municipal, com igual efeito humorístico de caçada furiosa à galinha verde.

Muitos anos depois, no Rio de Janeiro, ouvi a versão da escadaria, porém o Theatro teria sido o do Rio de Janeiro, não o de São Paulo.

Seja como for, o fascismo brasileiro desde a origem ligações diretas com galinhas enlouquecidas pintadas de verde. A data de 7 de outubro de 1934 é marcada pelo confronto entre sindicatos, associações e organizações de esquerda comunistas, trotskistas e anarquisatas contra os integralistas, na praça de Sé, em São Paulo. A efeméride ficou conhecida como "Revoada das Galinhas Verdes"

Segundo Mário Pedrosa:

Toda a esquerda se uniu contra a manifestação integralista que seria realizada naquele dia. O objetivo dos integralistas era atacar a organização da classe operária, a sede da Federação Sindical de São Paulo e os sindicatos que tinham sede no edifício Santa Helena, na frente do qual haviam planejado o desfile. Nós lutamos contra os fascistas e impedimos a realização da manifestação.

Uma São Paulo que você tem que conhecer.
Nestes dias de agosto e 2017, os fascistas reencontraram sua histórica ligação com galináceos: Dória, Antônio Carlos Magalhães Neto e Bolsonaro, em busca ensandecida por holofotes, conquistaram, diante das câmeras, saraivadas de ovos voadores.

Ainda bastante jovens, eu e um amigo, agora professor e artista plásitico Claudinei Roberto, conversávamos sobre ações violentas de neonazistas em São Paulo. O pai dele, sr. Gumercindo, já falecido, cantor, músico e sambista da velha guarda, interrompeu nossa conversa e proclamou: "Esses tipos aí, deixem vir que a gente avacalha".

A melhor arma contra essa gente, certo estava seu Gumercindo, é a galhofa. Observando bem cacarejo, gestos, poses e caretas, Hitler e seus seguidores não parecem mesmo galinhas loucas?


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.