quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Mário do quê?


Para a maioria dos paulistanos que já ouviu falar em Mário de Andrade, ele é apenas um nome de biblioteca no centro da cidade. Entre esses, poucos se dignaram sequer a entrar na biblioteca à qual ele emprestou o nome. 

No entanto, todos os que habitam, trabalham e sofrem no emaranhado de ruas de São Paulo lhe são devedores. Antes dele, esta cidade estava praticamente fora do mapa literário do país.

Aliás, quando da Semana de 22, cuja importância cresce quanto mais nos distanciamos  dela, São Paulo tinha 200 mil habitantes menos do que o Rio de Janeiro (mais ou menos 700 contra 500), e o centro cultural do Brasil era a então capital da República.

É Mário e os que o acompanharam, como Alcântara Machado e Oswald, que construíram a São Paulo literária, que chamaram a atenção para a poesia da neblina, da garoa ("garoa, sai dos meus olhos"), da noite urbana ("é noite, e tudo é noite"), do zum zum zum dos calhambeques  e das máquinas; e do clarão das lâmpadas elétricas da Pailiceia Desvairada.

Enquanto a capital federal comemorava o centenário da Independência, de pouca relevância para os dias de hoje, o espírito moderno nascia no Theatro Municipal da atual praça Ramos de Azevedo entre provocações e vaias.

A discussão estéril sobre quem tivera primeiro a ideia da Semana de 22 foi superada pelo que veio depois.  E o que veio depois transformou a cultura brasileira e tem no centro a monumental obra de Mário de Andrade.

Uma forma de os paulistanos de nascença e os de adoção reduzirem sua dívida para com este verdadeiro inventor da São Paulo moderna é visitar-lhe a obra, senão sempre, ao menos com alguma frequência.

Porém constato que milhões viveram, vivem e viverão nesta cidade sem sequer lhe ter ouvido o nome. E isto explica muito da indigência cultural e do fascismo político em que estamos  mergulhados.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Os 120 anos de Hemingway


Ernest Hemingway (Oak Park, Illinois, 21/07/1899) é até hoje um dos mais lidos romancistas norte-americanos em todo o mundo, suas obras estão diretamente relacionadas a três grandes eventos que moldaram o século XX: as Primeira e Segunda Guerra Mundiais e a Guerra Civil Espanhola - e ao final da vida se veria ainda em meio à Revolução Cubana, que estourou literalmente às cercas de seu quintal.

O projeto literário de Hemingway é explícito desde seus primeiros contos, em que a radiografia de sua geração de escritores, a chamada Geração Perdida, egressa da Primeira Guerra Mundial, é feita sem glamour, de forma direta, objetiva e crua. Porém, já nesses contos, dos quais saltará para o desafio do grande romance americano, a matéria autobiográfica compõe a massa de fatos e sentimentos dos quais o autor extrairá seu estilo.

Ocorre que para Hemingway o cotidiano por si não oferecia atrativos, daí a sua busca pelas emoções nascidas dos eventos de escala histórica e dos que revelavam o extraordinário, encoberto por sob a camada enganadora de tinta da vida ordinária de motoristas de ambulâncias, garçons, enfermeiras, camareiras... Noutras palavras: por sob cada trabalhador mora um herói em potencial - que sua literatura procura desvendar.

No conto A Capital do Mundo, ambientado numa Madri à beira da guerra civil, um modesto garçom sonha tornar-se toureiro. Na ausência de uma arena e de touro reais, seu colega de turno, já madrugada instaurada numa cozinha de pensão meio à penumbra, improvisará facas nos pés de uma cadeira e o atacará o mais realisticamente possível, para que ele apresente suas habilidades de drible, um guardanapo de mesas fazendo-lhe as vezes de lenço vermelho.

Paco morrerá nessa noite não vítima da chifrada de um miúra, mas ao ser atravessado por uma faca amarrada aos pés de uma cadeira, enquanto suas irmãs camareiras assistem a um filme de Greta Garbo, o qual o narrador considerará um passo em falso na carreira da atriz.

Em Adeus às Armas, romance de 1929, os heróis não são generais ou políticos, mas um motorista de ambulância e uma voluntária do serviço hospitalar. Elaborado a partir de sua própria experiência na Primeira Guerra, quando engajou-se na Cruz Vermelha após ser reprovado no alistamento militar, o livro retrata o amor desesperado de dois jovens em meio à carnificina na fronteira entre Itália e Áustria. Ali o amor precisa ser realizado com urgência, pois a morte é o pano de fundo de todas as aspirações. O heroísmo não está nas trincheiras, mas na capacidade de amar em meio aos bombardeios que semeiam pedaços de corpos por todos os lados e às doenças que fazem o trabalho que as balas e morteiros não fizeram:

"No início do inverno, vieram as chuvas ininterruptas, e com as chuvas chegou o cólera. Felizmente a epidemia foi combatida a tempo, e apenas sete mil soldados morreram vítimas dela." 

Adeus às Armas, apenas três anos após sua publicação, foi às telas do cinema, estreando em 1932, tornando-se instantaneamente um clássico em preto e branco, com Gary Cooper no papel de alter-ego de Hemingway. O filme foi indicado ao Oscar em quatro categorias: Melhor Filme, Direção de Arte,  Fotografia e Gravação de Som, vencendo nas duas últimas. O impacto do romance foi tal que em 1957 ganha nas telas do cinema sua versão colorida, agora com Rock Hudson no papel do motorista de ambulância e não menos de que Vittorio de Sica como ator coadjuvante, com indicação ao Oscar na categoria.

Os grandes acontecimentos do mundo foram a obsessão de Hemingway, por isso ele buscou sempre de alguma forma se fazer de corpo presente neles, seja como motorista de ambulância na Primeira Guerra, seja como repórter engajado nos esforços das Brigada Internacionais na Guerra Civil Espanhola, seja como correspondente ao final da Segunda Guerra. Para ele há obrigatoriedade de se viver as experiências para se falar com honestidade delas.

Em Por Quem Os Sinos Dobram (1940), Robert Jordan, um jovem professor de espanhol norte-americano na Espanha da Guerra Civil, se envolve no conflito ao lado dos republicados. A ele cabe explodir uma ponte. Nos dias que antecedem à missão, ele constata a carnificina, acentuada pelo apoio dos fascistas italianos e dos nazistas alemães aos nacionalistas de Franco, reflete sobre os elos que ligam os republicanos à sua causa e se apaixona pela cigana Maria. O romance ganhará adaptação cinematográfica em 1943, com Gary Cooper no papel de Jordan e Ingrid Bergman, indicada para o Oscar, no papel de Maria.

A obra de Hemingway abasteceu com abundância Hollywood. Seu conto As Neves do Kilimanjaro (1936), estreou no cinema em 1952, com Gregory PeckSusan Hayward e Ava Gardner, que encheram as salas de cinema pelo mundo. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Direção de Arte e Fotografia. O conto retrata um safári com maus resultados para o protagonista, Harry Street, um escritor experiente que se fere num arbusto e tem a perna gangrenada. Preso a seu catre, ele revive, durante delírios da febre, suas aventuras pelo mundo, seus amores e seus sonhos juvenis - à sombra da morte, prenunciada na forma de abutres e hienas que rondam o acampamento.

Quando O Velho e o Mar foi publicado, muitos críticos consideravam que Hemingway, isolado na ilha de Cuba, tida como a sepultura de sua criatividade, não tinha mais nada a oferecer. A seu editor, o autor enviara, em 1952, os originais desse conto com um bilhete: “Eu sei que isso é o melhor que posso escrever na minha vida toda”. Sucede que esse livro, considerado hoje sua obra prima, ambientado na ensolarada Cuba, rendeu-lhe o prêmio Nobel - na verdade, foi o pretexto que faltava para a Academia Sueca premiá-lo pelo conjunto da obra.

E seguindo a mesma vocação de seus melhores textos, O Velho e o Mar rendeu outro clássico do cinema, em 1958. No papel do velho pescador que enfrenta com suas últimas forças a fúria da natureza na forma de um verdadeiro monstro marinho, não menos que Spencer Tracy, indicado para o Oscar como melhor ator e vencedor do Globo de Ouro na mesma categoria (o filme venceria o Oscar de 1959 na categoria Melhor Trilha Sonora).

Para abastecer sua literatura, Hemingway se atirou à vida e se envolveu em conflitos de toda sorte, pessoais e coletivos, porém a Revolução Cubana lhe chegou sem que ele a buscasse. Embora simpático aos jovens guerrilheiros que derrubariam a ditadura de Batista, já bastante abatido, diabético, sofrendo de depressão aguda e lapsos de memória, o autor abandona a ilha para terminar seus dias no norte dos EUA, em meio às Montanhas Rochosas (Ketchum, Idaho, 2 de Julho de1961).


JEOSAFÁ é Pesquisador Colaborador do Departamento de História da Universidade de São Paulo, escritor e professor Doutor em Letras pela mesma Universidade. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);   O jovem Malcolm X A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. 





sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Meu Deus do céu, como é que eu não li esse livro antes?


Assim como a televisão criou uma ilusão inicial de que daria conta de tudo que o cinema dá – quem frequenta o bom cinema sabe que não há parâmetros de comparação entre uma e outro –, com o evento da internet disseminou-se o terror de que o livro físico sucumbiria ao livro e a outras formas digitais.

Ler no celular ou no computador tem suas vantagens, porém o leitor bem formado sabe que também há poucos parâmetros de comparação entre o livro físico e seu irmão caçula, o digital: são dois produtos culturais com finalidades convergentes, mas cada qual com suas particularidades, um complementando, jamais anulando, o outro, cada qual em seu leito próprio.

Não há ritual mais delicioso nas férias de final e início de ano do que ler um bom livro de carne e osso, no quintal de casa ou no sofá do apartamento; numa esteira de praia ou numa rede de casinha de sítio; durante o dia ou entrando pela madrugada.

Minha recomendação para este ano que vai terminando e para o próximo que se inicia vai para o delicioso livro, de corpo e alma – o livro digital é só alma – , Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo (São Paulo, Editora Global, 2004) – a obra completa de Câmara Cascudo encontra-se na Editora Global, de São Paulo. As edições são bem preparadas, com ótimo projeto gráfico, ótima encadernação e belas capas.

Esta edição dos Contos Tradicionais do Brasil traz uma curta nota sobre a reedição da obra e mantém o prefácio original do próprio Câmara Cascudo, em que ele versa sobre as particularidades do popular, da tradição e do folclore – e o que é para ele cada uma dessas dimensões da cultura, entendida como campo de articulação da sociedade, da história, e da psicologia de um povo.

Nesse prefácio, Câmara Cascudo, extraindo consequências da argumentação que alinhava, justifica e apresenta a divisão da coletânea: Contos de Encantamento; Contos de Exemplo; Contos de Animais; Falécias; Contos Religiosos; Contos Etiológicos; Demônio Logrado; Contos de Adivinhação; Natureza Denunciante; Contos Acumulativos; Ciclo da Morte; Tradição.
Pela segmentação pode-se avaliar a variedade que aguarda o leitor páginas a fio, porém é no interior dessas subdivisões que o mundo encantado da cultura popular floresce aos olhos e ao espírito, pois cada conto é um fragmento colorido de um verdadeiro caleidoscópio mágico.

As notas de Câmara Cascudo ao final de cada conto, mais que ilustrar, acrescentam sabor e densidade à leitura. Assim, à fruição proporcionada pela ficção, se acrescenta o elemento erudito na dose certíssima, que prolonga o prazer da leitura, fixando no espírito do leitor a narrativa, não mais somente por suas qualidades de linguagem e estéticas próprias – que por si só já justificariam a presença da peça na coletânea –, mas agora por sua relevância afetiva, psicológica, sociológica, histórica (e às vezes idiossincráticas, como é do estilo de Câmara Cascudo).

Fica, pois, o convite: Leitor, divida nestas férias sua espreguiçadeira com os Contos Tradicionais do Brasil, de Câmara Cascudo. Duvido que ao final da leitura você, ao fechar o livro, não exclame para si, estupefato: “Meus Deus do céu, como é que eu não li esse livro antes?”


JEOSAFÁ é Pesquisador Colaborador do Departamento de História da Universidade de São Paulo, escritor e professor Doutor em Letras pela mesma Universidade. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);   O jovem Malcolm X A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem.