sexta-feira, 8 de setembro de 2017

EM BUSCA DO JUDAS PERFEITO

Sérgio Moro, o suposto juiz, nas palavras do jurista Bandeira de Melo, depende hoje totalmente de um judas perfeito para apanhar Lula em sua tocaia parajurídica. Suas estratégias sutis como rinocerontes apoiaram os pés no solo pantanoso de delações extraídas a fórceps - uma mais inverossímil que a outra, todas vazias de provas materiais, contraditórias e cujos enredos mal ajambrados envergonharia um estudante de Ensino Fundamental.

A dependência desse curinga é tal que Moro já abriu mão das aparências, já não se importando sequer com a verossimilhança. No depoimento patético de Palocci desta semana sequer preocupou-se com um bom ensaio: o depoente literalmente trouxe colinhas de papel com resposta pronta para cada respectiva pergunta.
São Paulo nua e crua.
Porém o teatrinho mal ensaiado, quando filmado, se torna bizarro. O suposto juiz pergunta, após o réu tecer acusações as mais pesadas que pode contra Lula: "O senhor estava nessa reunião", ao que Palocci responde: "Não, Excelência, mas no dia seguinte o presidente Lula me chamou e me contou". Noutra oportunidade, a mesma pergunta, agora sobre outra acusação. A resposta? A mesma: "Não estava, mas o presidente me contou no dia seguinte".

Palocci foi mais outro judas falho. Resta saber se receberá, ainda assim, os trinta dinheiros a que se candidatou, ao pôr em curso sua "delação implorada", na feliz expressão da presidenta Dilma - em resposta a suas bizarrices. Moro, esse mal jurista de uma nota só (Lula Lula Lula), terá de continuar sua busca por outro judas perfeito, pois não lhe resta outro recurso para enfrentar Lula. Não se enganem: esse cavalheiro já se encontra no mundo perturbado e sombrio da monomania.

JEOSAFÁ, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O PACTO DE SANGUE MORO-PALOCCI

O ministro de Lula mais elogiado por FHC, Serra, Aécio e Alckmin, tendo inclusive palestrado sob aplausos para plateia tucana, enfim revela seu amor verdadeiro. Ao depor ao suposto juiz Sérgio Moro, sem provas do que diz, sustenta ter havido um "pacto de sangue" entre o PT e Lula com a empreiteira Odebrecht.
Porém o pacto por ele "revelado", à moda de filme infantil da sessão da tarde da rede Globo, esconde muito mal o verdadeiro, aquele que ensejou sua fábula infantil, contada a partir de "colinhas" de recortes de papel, e de enredo tosco: o pacto entre ele e o vendedor de sentenças do mercado de delações de Curitiba, que para lhe reduzir a pena, exige em seu depoimento o de sempre: a citação de Lula, a qualquer pretexto, com ou sem provas.
São Paulo nua e crua.
Palocci foi na era Lula a voz do mercado dentro do governo, todos o sabem, ele jamais fez questão de disfarçar, nem Lula tinha outro papel para ele a não ser esse. Afinal, ainda que em um governo de esquerda, num regime capitalista com um pé na escravidão e o resto do corpo na selvageria neoliberal, alguém tinha que ser o embaixador junto aos donos do "mercado" - e, nesse caso, ninguém mais qualificado do que um agente que carregava uma estrelinha do PT na lapela do paletó e que perseguia outra estrela mais sedutora e brilhante: a do dinheiro, que lhe garantia livre trânsito entre banqueiros e aplauso fácil de tucanos.
Palocci pede sempre mais uns minutinhos para continuar dedurando.

Quem não conhece a carreira de Palocci talvez se abisme agora com sua fábula infantil e seu pacto de sangue com Sérgio Moro. Porém, quem acompanha a política brasileira se surpreende por outra razão: a de ele não ter roído a corda há mais tempo, pois a estrela de Joaquim Silvério dos dos Reis estava cravada em sua testa desde quando, ainda no governo Lula, insinuou-se ao "mercado" como possível sucessor de Lula na presidência. Palocci é como aqueles conselheiros servis dos filmes de aventura da sessão da tarde da Globo: por sob seu rastejar, mora o frasco de veneno que deitará na taça do mocinho da história. E, como nesses filmes, se dará mal.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

UM PAÍS DOENTE SANGRA

A agressão sofrida pela professora Marcia Friggi, na cidade catarinense de Indaial, choca pela imagem, que ela teve a coragem de postar nas redes sociais. Porém, infelizmente, esse é o ápice previsível da rotina de ofensas verbais e atitudinais, e também de ameaças veladas ou explícitas, que tantos de nós professores das redes públicas e privadas do país sofremos todos os dias.

A agressão sofrida pela professora não parou no soco: nas redes sociais, embora em minoria, uma horda de linchadores virtuais entrou na área de comentários da postagem feita por ela para a achincalhar em virtude de sua postura política de esquerda.

Isso decorre do completo desprezo de governantes, de donos de escolas e de pais de alunos pela escola, convertida ora em depósito de crianças marcadas na mão para não repetir refeição, ora em espaço de explosão de conflitos não resolvidos no seio da família, ora em campo de descarga de tensões sociais, potencializadas pelo atual estágio do capitalismo ultraconsumista, que forma uma geração empurrada para a força bruta, educada na intolerância e incentivada ao linchamento.

A lógica do aluno que agrediu covardemente a professora de língua portuguesa e literatura é a mesma de Sérgio Moro, para o qual o que vale é o argumento da força, não a força dos argumentos. Abandonados os protocolos mínimos de civilidade, o que prevalece é o ódio, cego, furioso, que, não encontrando barreiras claras e inequívocas, avança sobre o outro para aniquilá-lo - sem contudo esgotar seu potencial destrutivo e caótico nesse ato de aniquilação.

Uma São Paulo que você tem que conhecer.
O que fez esse jovem é o mesmo que fez uma pequena multidão ensandecida no Guarujá há pouco tempo. Divulgada pelas redes sociais a imagem de uma suposta pedófila, uma senhora foi linchada até a morte. No mesmo dia ficou provado que a vítima cometera o grave crime de ser parecida com a acusada.

Nós professores, todos os dias, assistimos a um mar de gente passar a nossa frente nas extenuantes aulas que ministramos. Salvo raríssimas exceções, é preciso reconhecer, esse mar enfrenta uma ressaca colossal. É nesse mar que nos encontramos todos os dias, professores e estudantes - e é nele que os sinais de um país que se afunda são mais eloquentes, porque gritam... e sangram.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.