quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Uma certa mulher negra e guerreira

CANTAR, DANÇAR E LUTAR ESTÃO NO SANGUE
Sharylaine, rapper, cantora, compositora, arte-educadora
e candidata a  vereadora em São Paulo.
Na célebre metáfora de John Lennon, a mulher é o negro do mundo, em razão do peso do machismo que pesa sobre ela em todos os países da terra. E quando se é mulher e negra, mesmo, sem a licença poética da metáfora? Entrevista com a ativista, compositora, cantora, arte-educadora e candidata a vereadora em São Paulo Sharylaine.

JEOSAFÁ: Sharylaine, o que a levou para a música e para a dança?

SHARYLAINE: Em primeiro lugar, fora Temer (risos). Em segundo, a música e a dança estão na minha família acho desde que meus antepassados foram sequestrados na África e trazidos naquelas verdadeiras fábricas flutuantes de morte que eram os navios negreiros. Lógico que houve um momento na adolescência em que tive plena consciência de meu corpo e de minha voz, mas cantar e dançar já estavam em cada molécula do meu corpo e sangue antes mesmo de essa consciência despertar.

JEOSAFÁ: Ouvindo suas composições, a gente sente logo que a razão, na forma de protesto social e e gênero, e a emoção, na forma de composições que tocam o coração da gente, estão equilibradas. Você busca esse equilíbrio ele vem naturalmente, digamos assim, por inspiração...

SHARYLAINE: Olha, Josa, nada contra a inspiração, mas a artista intuitiva passou longe de mim. Embora eu sinta quando uma música está "redonda" e uma composição, digamos assim, bonita, eu batalho muito, pesquiso muito, ouço muito os outros músicos e levo para casa o sorriso de contentamento e o olhar de reprovação que está no rosto de quem me ouve ou assiste aos meus videoclipes. Nenhum artista gosta de que uma obra sua seja recebida friamente, mas é preciso humildade para assimilar a crítica, que às vezes vem muito sutil ou indiretamente, e melhorar o próprio trabalho. A criatividade, para mim, vem depois de muito, muito, muito suor.

JEOSAFÁ: A mulher em geral, a mulher negra em particular, o jovem em geral, o jovem negro em particular, estão sempre em seus textos, canções e trabalhos sociais na periferia. É uma opção?

SHARYLAINE: Ai, Josa... quem dera. Não é opção, não, é uma ditadura (risos).

JEOSAFÁ: Ditadura? Como assim, logo você, que põe a liberdade a cada vírgula de suas composições. Explica melhor esse conceito.

SHARYLAINE: A palavra é horrível, mas é isso mesmo. A música é tirana. Ela te tiraniza. É ela quem puxa as mulheres e o jovens para dentro do meu coração quando estou compondo e cantando. Quando vejo, estão lá, com toda suas dores e esperanças, alegrias e decepções. Nesse sentido, não é opção, não. Se eu não deixar que eles brotem na minha letra e na minha voz, perigas que eu tenha um colapso nervoso (risos).



JEOSAFÁ: E porque você decidiu se candidatar a vereadora em São Paulo?

SHARYLAINE: Isso é um papo engraçado (risos).

JEOSAFÁ: Engraçado?

SHARYLAINE: Não no sentido perverso que essa palavra às vezes pode ter, mas no sentido bonito. Alguns amigos, entre os quais você, fizeram uma campanha para que eu me candidatasse. Você sabe muito bem que conversamos muito, particularmente eu você e o Wel (Wel Legal, uma reconhecida liderança do movimento Hip hop), porque isso nunca tinha passado na minha cabeça. Mas, enfim, vocês me convenceram de que é uma vergonha (e eu reconheço) que entre 55 vereadores em São Paulo, haja apenas 5 mulheres - e nenhuma negra. E me convenceram também de que a música e a cultura tem seus limites: para reverter tanta injustiça na periferia é preciso mais do que canções, é preciso ação política, leis, programas. Pensei bastante e cheguei à conclusão de que posso ajudar.

JEOSAFÁ: Como está sendo sua campanha?

SHARYLAINE: Muito legal, porque nunca tive dinheiro sobrando na carteira, então tudo é muito na base da militância, que para mim não é estranha, pois atuo no movimento feminista há muito tempo, e também na cultura Hip hop e no samba, onde tudo é feito na raça.

Sharylaine entrega à filha de Malcolm X, Malaak Shabazz, livro de assinaturas
de amigos e amigas de Malcolm X no Brasil, a ser depositado no Memorial
Malcolm X, no Harlem, EUA., em 20 novembro de 2015, São Paulo.
(clique aqui e leia o artigo).
JEOSAFÁ: Em novembro do ano passado, para as comemorações do mês da Consciência Negra, você esteve na mesa que recebeu a filha de Malcolm X, Malaak Shabazz, com o também rapper Dexter, o Secretário da Igualdade Racial do Município de São Paulo e mais de 500 lideranças negras. Como foi essa experiência.

SHARYLAINE: Olha, foi muito bonito. Nunca pensei que conseguiríamos trazê-la, mas o coletivo quando está unido, faz coisas maravilhosas. Ver o auditório do cine Olido completamente lotado, com mais uma centena de pessoas do lado de fora, mostrou a nós mesmos uma força que pensávamos adormecida. Fiquei muito emocionada, como todos, como ela, também. Durante um semestre colhemos assinaturas em eventos do Movimento Malcolm X. Entregar o livro com essas assinatura para ela depositar ano memorial de Malcolm X no Harlem foi... sublime. Um pouco do Brasil agora está lá, como compromisso de luta e homenagem a esse herói que nos inspira.

JEOSAFÁ: Caso eleita, que prioridades você atacaria logo de início.

Capa do livro com milhares de assinaturas dos
Amigos e Amigas de Malcolm X  no Brasil.
SHARYLAINE: A violência contra jovens na periferia, negros em particular, a defesa de seus direitos e das mulheres, lógico, estão no centro do radar. A injustiça pesa mais sobre setores da população mais vulneráveis, e, se a gente quer fazer justiça, tem que tirar dessa situação de vulnerabilidade imediatamente quem mais sofre. São Paulo é uma cidade rica demais para virar as costas para seus jovens e suas mulheres. Mas, olha, a situação dos idosos em São Paulo é também muito difícil. São Paulo precisa se humanizar. Envelhecer não é doença, é condição humana. Por isso, Câmara Municipal, Prefeitura, órgãos públicos, hospitais, precisam encarar a especificidade da pessoa idosa.

JEOSAFÁ: Estamos a dias das eleições deste ano, que ocorrem no próximo domingo, 2 outubro. Que recado daria ao leitor desta entrevista e aos eleitores de domingo?

SHARYLAINE: O recado que eu dou é para que reflitam e votem contra todos aqueles que tiraram do poder, por meio de um golpe, a primeira mulher eleita presidenta da República. Em São Paulo, para prefeito, eu apoio Haddad (13), o único que se manifestou firmemente contra esse golpe vergonhoso. E se o eleitor ainda não escolheu seu candidato a vereador, peço que me dê seu voto de confiança, digitando o meu número: 65.030 na urna.

JEOSAFÁ: Como se faz para conhecê-la melhor, isso ajuda ao eleitor formar sua opinião.

SHARYLAINE: Para conhecerem meu trabalho, peço que digitem meu nome na internet. Tá tudo lá, vão ver que luto muito, e não é de hoje, nem é porque agora sou candidata a vereadora. A luta está no meu sangue, como a música e a dança.

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Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria),  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora, e no mesmo ano A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela Mercuryo Jovem. Leciona para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados de São Paulo.


domingo, 25 de setembro de 2016

REFORMA DO ENSINO MÉDIO DE TEMER: a maior catástrofe da história da educação brasileira

Presidente golpista Michel Temer e o ministro Mendonça Filho:
farsa e tragédia, respectivamente.
Não contente em despejar uma bomba atômica sobre o ENEM e arrasá-lo, dias depois Temer explode outra bomba atômica sobre todo o Ensino Médio brasileiro. São nossas Hiroshima e Nagasaki que, se consumadas, nos custarão décadas de esforços e recursos imensos para serem reconstruídas, não sem muita dor e ainda maiores perdas irrecuperáveis. Vamos permitir?

Antes mesmo que se recuperasse do pavor causado pelo anúncio da destruição do ENEM, estudantes, pais e professores recebem sobre suas cabeças outra explosão arrasadora que causa indignação no país inteiro.

Anunciada como o “Novo Ensino Médio”, a “reforma” da educação de Temer é na verdade uma bomba de demolição de tudo que foi construído no país deste a aprovação da LDB (lei 9394 de 1996). Mesmo o que foi realizado de proveitoso no governo FHC torna-se escombro, caso tudo que Temer e o ministro Mendonça Filho anunciaram ocorra.

A comoção geral à Medida Provisória n.o 746 de Temer nas redes sociais foi tão avassaladora e contundente que antes mesmo de os jornais a anunciarem em suas manchetes, ele já se desculpava: que “não era bem assim”, que o anunciado era apenas um rascunho, uma versão preliminar ou coisa parecida. Então um presidente organiza uma cerimônia para a imprensa, assina uma medida provisória na frente de todos e, eis quer era brincadeirinha: era só um rascunho.

O ator pornô Alexandre Frota, agora "conselheiro",
com  ministro da Educação Mendonça Filho.
Essa “reforma” na prática elimina do Ensino Médio Filosofia, Sociologia, Educação Física, Arte e Espanhol (opção ao inglês). Diante da raiva provocada em educadores, estudantes e pais de alunos, Temer mandou dizer que as coisas ficam como estavam até as discussões terminarem. Porém, com quem ele e seu ministro estão conversando? Com o artista pornô Alexandre Frota, convertido em conselheiro do ministro, e com chefes do Movimento Brasil Livre, um grupo juvenil abertamente fascista, que pretende impor sua ideologia a todas as escolas brasileiras.

A bomba de Temer sobre a educação brasileira também traz uma aberração: a substituição do professor por pessoas de “notório saber”. Isso significa não apenas que as escolas públicas e privadas estarão livres para contratar profissionais sem licenciatura: o próprio diploma de nível Superior fica abolido, pois o “notório saber” implica que o profissional, exato por não possuir diploma, tem que ter seu saber reconhecido por uma determinada instituição. Quem, em nome dessa instituição, o declarará portador do “notório saber”? Na unidade escolar, a figura do diretor.

Está aberta, assim, a porta por onde entrará o profissional desqualificado, com salário de escravo e direitos aviltados, e por onde sairá o professor que investiu anos de sua vida até conquistar o diploma de nível Superior. Como esse profissional desqualificado não é titulado, junto com ele sai o sindicato da categoria, que não tem jurisdição sobre um trabalhador a que não está habilitado a representar. Na melhor das hipóteses, isso é a institucionalização do famoso "bico" na educação, quando não, na pior hipótese ainda, a contratação de religiosos fundamentalistas para doutrinarem com sua fé, cevada em obscurantismo, os estudantes das escolas públicas pagos ainda com o dinheiro de nossos impostos.

Que resultará disso? Resultará, além da total destruição da educação pública (que receberá uma avalanche de profissionais desqualificados para formar mão de obra barata, apta apenas limpar latrinas de shopping centers), resultará, dizia, no achatamento radical dos salários dos professores da iniciativa privada, pois um oceano de professores bem formados terão de disputar as reduzidas vagas que o sistema privado oferece, e ao valor da hora-aula o mais rebaixado que o mercado tiver a oferecer.

Na tragédia anunciada por Temer, apenas Português e Matemática passam ser disciplinas obrigatórias. Porém, nem isso chega a ser uma boa notícia, pois qualquer um, sem diploma de formação específica, sem licenciatura e sem estudos na área da educação ou pedagogia, poderá ministrá-las: basta ser amigo do diretor – critério máximo para o notório saber, numa situação caótica como a anunciada.

"Ah! Mas o aluno poderá escolher o que quer estudar!", dizem os adeptos do caos.

Grande farsa: tem o aluno adolescente condições de dizer o que ele próprio precisa saber para atingir seus sonhos? Qual a função da escola, senão dar a base para ele, no momento certo, fazer suas escolhas profissionais, cidadãs e de vida? Na verdade, aqui, Temer empurra para um jovem de 14 anos, que apenas inicia o Ensino Médio, uma responsabilidade que é dos adultos, na figura do Estado. É ou não uma covardia maior que a de Pilatos?

Para esconder essa vilania, Temer anuncia a ideia de aumentar a carga horária das escolas, tornando-as de tempo integral. Trata-se de outra farsa ainda maior, pois sequer os sistemas têm infraestrutura para comportar em escala uma proposta como essa: estamos falando de mais de 6 milhões de alunos, segundo o próprio Inep (autarquia do MEC responsável pelo ENEM).


Em São Paulo, o secretário da Educação do Estado já se adiantou com uma “bela” sugestão: usar o meu, o seu, o nosso dinheiro público para alugar prédios de escolas privadas em períodos ociosos nelas (vide matéria do jornal O Estado de São Paulo, de 25/09/16). Só se esqueceu ele de que no ano passado e neste ano o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, fechou um número vergonhoso de salas de aula no estado todo para abarrotar as que permaneceram em funcionamento. Então a sugestão dele é esta: fechamos salas de aula em escolas públicas, para alugar salas de aula em escolas privadas dois quarteirões à frente.

À tragédia da destruição do ENEM, recentemente anunciada, se soma agora o desastre da destruição do próprio Ensino Médio. Fecha-se assim o ciclo de nosso horror: um exame que não servirá para nada para avaliar um Ensino Médio que, para filhos de trabalhadores e da classe média baixa, não prestará para nada.

                                                                    Leia também o artigo:

 O ENEM traído


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados de São Paulo.













segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O ENEM TRAÍDO: Temer dá uma facada nas costas de toda uma geração de jovens

A queda de 35% de inscrições no ENEM deste ano de 2017  é já reflexo da perda de confiança num exame que, durante os governos Lula e Dilma, cresceu ininterruptamente, assumindo escala de milhões, e que incluiu milhões de filhos de trabalhadores nas melhores universidades do país. Em 2016 foram 9.490.952 inscritos; em 2017, 6.194.034: 3.296.918 a menos!

A notícia dada pela presidenta do INEP em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo anuncia a maior marcha-à-ré da história da educação brasileira: o fim do ENEM como porta de entrada de universidades públicas e privadas.

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, a professora Maria Inês Fini, presidenta do INEP, autarquia do MEC responsável pelo ENEM, em palavras inequívocas diz:

"Ele [o ENEM] foi planejado para ser uma avaliação dos alunos ao final da escolaridade básica, que termina no ensino médio. E ele, em 2009, perde essa característica e ganha as do exame vestibular nacional."

Em linguagem inequívoca, sim, mas nebulosa, a professora responsável pelo 1o. ENEM, em 1998, considera que o ENEM em 2009 perde suas características originais, o que não é verdade, uma vez que continua empregando as matrizes de competências e habilidades baseadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNs), e ganha uma outra: que ela chama de "vestibular nacional" - o que também não é verdade, pois o ENEM exatamente extingue os vestibulares das universidades que o adotam.

Pobres e classe média alijados do Ensino Superior por Temer.
O que a professora em linguagem clara, pero torcida, diz é que o ENEM deixará de ser porta de acesso às universidades públicas, federais e estaduais, e privadas, que o empregam hoje como mecanismo de seleção de seus alunos. E ela emprega essa linguagem clara ma non troppo exatamente para esconder o projeto absolutamente excludente que vai por sob suas palavras.

Na mesma entrevista, a professora afirma que as modificações para 2017 serão feitas "sem que os jovens percam as vantagens oferecidas pelo Prouni, Sisu e Fies". Porém ela não explica como essas vantagens serão mantidas uma vez que o exame deixará de ter a característica, na linguagem dela, de "vestibular nacional".

Em 2009 o que ocorreu foi exatamente a democratização do acesso às vagas das instituições públicas de Ensino Superior, principalmente as federais e muitas estaduais (via Sisu), e às das privadas, que passaram a empregar o ENEM em substituição a seus vestibulares (para fins de adesão ao Prouni e Fies).
Romance de uma cidade violenta e injusta, porém onde cabe o amor, a amizade e poesia.
O que ocorre agora é que as elites econômicas que assumem o governo pela via ilegítima (na figura do mofado mordomo de filme de horror Michel Temer, cuja mentalidade cheira à naftalina) querem excluir os filhos dos trabalhadores e da classe média baixa (que tiveram no ENEM um mecanismo concreto de justiça social) das universidades públicas e das privadas de maior reputação - pois o Estado os vinha defendendo e incentivando por meio do Sisu – caso das públicas – e do Fies e do Prouni  caso das particulares.
  
No ano de 2015 quase 8.500.000 candidatos se inscreveram no ENEM com a esperança de, a partir de seu desempenho nesse exame, alcançar a tão sonhada vaga no Ensino Superior. É nas costas desses brasileiros que Temer dá agora essa facada traidora.

Jeosafá, professor doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela USP. Autor, entre outros títulos, de O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  O jovem Malcolm X, (mesma editora); A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução sua do francês e adaptada para HQ, com João Pinheiro, do clássico de Victor Hugo (editora Mercuryo Jovem). Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.



  





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

ENEM: Mais uma péssima notícia do "governo" Temer golpista

Matéria do dia 8 de setembro de (2016) do Jornal O Globo (G1) informa o que pretende fazer a nova presidente do INEP, Maria Inês Fini, com o ENEM: destruí-lo enquanto porta de acesso ao Ensino Superior para 8.500.000 estudantes.

Equipe de Língua Portuguesa do 1o. ENEM, maio de 1998. Eu, de touca.
Em 1998, quando realizava meu doutorado em Letras na USP, fui convidado pela prof.a Maria Inês Fini, com outros colegas da própria USP, da UNESP e UNICAMP, a participar da equipe de elaboração do 1o. ENEM. ainda no governo Fernando Henrique Cardoso.

(De 2008 a 2011, voltei a trabalhar com a prof.a Maria Inês, agora na SEED-SP, como cunsultor da Fundação Carlos Vanzonlini da USP, na área de Currículo e também nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor.)

Já tinha integrado as câmaras de discussão da Reforma do Ensino (1996-1998), de maneira que foi com alegria que reencontrei os e as colegas para elaborar as questões objetivas da área Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, particularmente as de Português. 

O exame constituía uma grande novidade, pois era a primeira experiência de avaliação nacional a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (depois vieram os do Ensino Fundamental e as Diretrizes Curriculares da Educação Infantil). Como tudo era novo, desde o formato até o desenho estratégico do Exame, não foram poucas as discussões para que os Parâmetros Curriculares fossem refletidos com maior rigor possível nas questões objetivas e na redação (nos anos seguintes, além da FUVEST, integrei também as bancas de correção de redação do ENEM).

O ENEM surgiu como um sistema de avalização de competências e habilidades dos estudantes do Ensino Médio ao final do curso. Tinha função, assim, de diagnosticar a qualidade do ensino e servir de base para políticas voltadas à melhoria dessa qualidade. Na prática o que ocorria, porém, era que as escolas privadas empregavam o desempenho obtido por seus alunos para "ranquear" sua posição frente a outras instituições. Como se tratava de um instrumento avaliativo exterior à escola a partir de parâmetros comuns, era possível compará-las.

Logicamente isso favorecia grandes instituições de ensino que, por meio de seus sistemas, promoviam ajustes em suas grades curriculares e em suas práticas, ministravam cursos intensivos internos para alunos dos 3os. anos e, com isso, conquistavam melhor desempenho no ENEM, a partir do que passavam a empregar esse resultado como merchandising para atrair novos alunos e, logicamente, justificar a elevação das mensalidades. Assim, ainda que custeado pelo governo, o ENEM tinha mais utilidade para as escolas privadas - principalmente as de ponta, caríssimas, e para aquelas que integravam grandes sistemas de ensino.

Com a eleição de Lula e depois de Dilma, o ENEM manteve as matrizes baseadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, que receberam aperfeiçoamentos (os PCNs+), mas que não mudaram em essência. Ficaram assim mantidas a organização por Áreas (mais Matemática), a perspectiva das Competências e Habilidades e o caráter facultativo (não obrigatório, o que já era desde a primeira edição, em 1998).

As diferenças essencias foram duas: 1) o ENEM deixa de ser um exame apenas diagnóstico do Ensino Médio para tornar-se porta de acesso para o Ensino Superior público e privado; 2) o ENEM torna-se um exame de escala realmente nacional, geograficamente e nos números: a primeira edição teve 157.000 inscritos; a de 2015, mais de 8.478.000.

Esse interesse pelo exame, refletido no número gigantesco de inscritos, se deve, é claro, à possibilidade de ter acesso a excelentes universidades públicas e privadas sem a necessidade dos famigerados vestibulares, que sempre favorecem as elites das elites econômicas, que pagam colégios caríssimos a seus filhos para não pagarem uma universidade de ponta, pois o custo é muito mais elevado. Os favorecidos com o formato do ENEM nos governos Lula e Dilma, independente de se gostar ou não desses dois governantes, foram os filhos dos trabalhadores e das classes médias, pois uma boa pontuação no ENEM permite nesse modelo que eles escolham a instituição que, por essa pontuação, lhes faculta o ingresso. O estudante não tem que se deslocar de estado para disputar uma vaga: ele indica as instuições de seu interesse e, sua pontuação permitindo, matricula-se nela e ponto final.

O que se pretende fazer agora é retornar ao modelo antigo: quem quiser prestar vestibular para Direito, por exemplo, terá de se inscrever (e pagar) nos vestibulares de cada faculdade. Para tanto, se elas forem afastadas no espaço, terá de se deslocar para se inscrever e para prestar os exames e - O PIOR - terá de torcer para que os exames não ocorram em datas próximas, caso contrário, não conseguirá se deslocar de uma a outra para prestar os exames. O detalhe é que as instituições marcam os exames em datas COINCIDENTES exatamente para impedir que o canditato dispute vários vestibulares.

Logicamente que esse modelo que se quer reinstaurar é uma MAIORES MARCHAS-À-RÉ da história da educação brasileira. Significa o retorno ao velho sistema de vestibulares e um tiro no coração do ENEM, pois ninguém mais terá interesse em prestar um exame que não serve para nada, a não ser enquanto vitrine para grandes sistemas de ensino e instituições escolares voltadas para as elites das elites econômicas. Na prática, é reinstaurar um sistema de cotas para as elites garantirem o lugar de seus filhos nas melhores universidades públicas e gratuitas - pois essas elas não querem pagar, embora tenham dinheiro para tanto.

Pelo amor de Deus, prof.a Maria Inês Fini, você que é mãe do ENEM, e de quem eu gosto pessoalmente, entenda que ele cresceu e não pode mais voltar à infância nem ao útero materno. Se fizer o que diz na matéria d'O Globo, o estará matando. Aí, nós vamos brigar pra valer. Por mais que eu respeite sua imensa competência intelectual, não aceitarei, não aceitaremos NENHUM DIREITO A MENOS relativo ao que já foi conquistado por nossos educadores, estudantes e pais de alunos deste imenso Brasil. Pense que quase 8.500.000 estudantes, com seus professores, entre os quais me incluo, e pais não são um pequeno exército de descontentes.

Nas eleições que se aproximam, vote em candidatos contrários a isso em seu município.

Em São Paulo, indico para vereadora a mulher, negra, guerreira e batalhadora dos direitos das mulheres e da educação Sharylaine 65 030.  Click no nome dela e conheça-a.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.