domingo, 31 de julho de 2016

Andrea, eu e o Grande Arrasador de Mundos

Andrea, eu e O grande arrasador de mundos.
No fim do ano passado, acho que em dezembro, visitando o amigo jornalista, presenteei-lhe com alguns livros infantis que publiquei por algumas boas editoras paulistas. Ele reservou um ou dois para seus netos e um, voltado a meninas, para uma de que gosta muito: O Grande Arrasador de Mundos - a história de uma mocinha que enfrenta em sonho um cruel alienígena de cabeça de lata.

Na semana seguinte ele, jornalista das antigas, que acompanha o desenvolvimento dos fatos de perto e às vezes de dentro, me voltou com a notícia: Andrea, pois ela assim se chama, de sete anos, já tinha lido esse livro na biblioteca da escola e adorara. Ficou feliz da vida de ter ganho o livro.

Na semana passada, a mãe da linda leitora nos convidou para um rápido jantar cubano em sua casa, para que nos conhecêssemos. Ivete, pois assim a mãe se chama, além do jantar, nos recebeu com um afeto de antigos amigos, identidade que talvez só o mundo do livro propicie.

Ao abrir a porta do apartamento, Andrea, que já nos esperava, pegou minha mão e me conduziu diretamente à mesa em que o livro esperava: eu tinha que autografar e deixar uma dedicatória especial para ela. Ela me mostrou alguns livros autografados por autores a sua mãe, entre os quais um de Frei Beto.

Jornalista Vitor Ribeiro
Assim, fiz, mas não sem antes recortamos papéis, desenharmos personagens e contarmos histórias um ao outro. Ela tem um caderno cheio delas, escritas por ela mesma, algumas com desenhos. Lemos várias e ganhei uma, que não mostro aqui pois é segredo. Ser escritor e professor tem seus espinhos, mas também tem seus momentos de grande felicidade - que dinheiro nenhum no mundo paga.

À saída, ficamos, eu e meu amigo jornalista, gastando um pouco de tempo na calçada do prédio, ele fumando e filosofando sobre o mundo cão em que vivemos; eu, esperando o halo do que acabara de acontecer se dissipar para dirigir em segurança, sim, pois a delicadeza também embriaga, e eu não queria ser pego numa blitz desse mundo supracitado.

Vitor Riberio, pois assim se chama meu amigo jornalista, jogou a guimba do cigarro dele em local apropirado e nos despedimos com olhar otimista, daqueles a quem foi dado o sortilégio de vislumbrar por um instante que o pior mundo cão não resiste ao calor da mão e do olhar de uma criança.


Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora. Leciona para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Podemos transformar a nós mesmos?

Escrevi este texto para trabalhar com alunos de 8o. e 9o. anos do Ensino Fundamental.

Muitas vezes não nos damos conta, mas certas ações, hábitos, costumes e valores que praticamos diariamente sem pensar podem nos prejudicar mediata ou imediatamente (ao longo do tempo). Como vivemos em sociedade, recebemos dela hábitos e costumes sobre os quais nunca nos ocorreu refletir. Todavia, os objetivos de nossos pais, avós, amigos, colegas de escola, rua ou bairro, não são os nossos, pois cada um tem que ir estabelecendo os seus próprios objetivos, em meio aos objetivos de cada grupo, instituição ou organização de que faz parte.

O problema é que poucas vezes somos alertados para os objetivos desses grupos, instituições e organizações - e menos ainda para a necessidade de estabelecermos claramente os nossos próprios objetivos. O resultado disso é que acabamos praticando ações, desenvolvendo hábitos, assumindo costumes que, se no curto prazo nos dão prazer, no médio e no longo podem liquidar nossos sonhos.

Uma ação praticada com frequência, torna-se hábito e rapidamente em costume. Não prestamos muita atenção a nossas ações, mas elas podem, quando irrefletidas, resultar em conflitos de pequenas, médias ou grandes consequências. Se estamos habituados a falar alto em qualquer circunstância, ou a usar o som alto em nossos celulares, sem perceber podemos fazê-lo em um ambiente, como o ônibus, ou falar em um tom de voz que incomodará os que estiverem ao redor.

Entre os incomodados, haverá aqueles que evitarão conflitos, suportando a contragosto o que se-lhe dá como mera gafe de um usuário distraído. Porém, um dia haverá o que, por razões quaisquer, buscará o conflito, não se preocupando com as consequências, menos ou mais trágicas.

Conflitos nos transportes coletivos ou no trânsito, infelizmente, com certa frequência, terminam em violência e mesmo morte.  Isso ocorre porque um hábito particular, imposto aos outros por quem o pratica, ainda que involuntariamente, detona uma situação que foge ao controle dos que estão nela envolvidos. É assim que muitos sonhos ficam interrompidos definitivamente por ações, hábitos, costumes e valores que, a rigor, são contrários a esses mesmos sonhos.

Refletir sobre nossas ações, hábitos, costumes e valores, em face da coletividade de que fazemos parte, dos objetivos dessa coletividade e dos nossos próprios é uma forma de evitar todo conflito desnecessário. Sim, pois, para conquistarmos nossos sonhos e objetivos, é necessário enfrentar e superar os conflitos a eles inerentes.

No final das contas, ações, hábitos, costumes e conflitos que não nos aproximam, ou nos distanciam de nossos objetivos, ou põem em risco nossos sonhos ou a nós mesmos, é energia e tempo desperdiçados.

Ah, não vou fazer nada disso. Vou só trabalhar a apostila que está bom demais.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Querem saber de uma coisa? Não vou fazer coisa nenhuma.

Hoje tive uma ideia que talvez ponha em prática numa de minhas turmas do Ensino Fundamental. Consiste essa ideia em estimular a fantasia dos alunos por meio de histórias sugestivas, oníricas, fantásticas, ou meramente fantasiosas, plenas de imagens visuais e sonoras, que remetam à memória ou à invenção de futuros imediatos ou remotos.

Feito isso, orientaria os alunos a empregarem estratégias para disfarçar suas letras, de maneira que se tornasse impossível, mesmo para os melhores amigos, reconhecer pela grafia o autor ou a autora da história que viesse a ser escrita - e aqui já estou denunciando o terceiro estágio dessa ideia: alunos e alunas seriam instados a produzir narrativas curtas, a partir dos estímulos oferecidos, e a registrá-las em letras disfarçadas. O penúltimo estágio dessa ideia seria cada aluno, cada aluna, assumir um codinome (que apenas ele ou ela e o professor saberiam). O último estágio corresponderia à circulação e leitura dos textos, livremente.

Fico imaginando o que essa despersonalização da autoria acrescentaria em termos de liberdade de escrita a cada um dos autores e autoras. Naturalmente o jogo de esconde-esconde não sobrevive se a possibilidade de ser descoberto não estiver implícita. Na verdade, o que confere graça ao jogo e exatamente esse risco. Seja por pistas deixadas inadvertidamente em meio à grafia disfarçada, seja pela menção e episódios comuns entre colegas, seja pelo uso de certa expressão, ou mesmo vício de linguagem, nem todos os pierrôs e colombinas permanecerão eternamente indescobertos - e é mesmo possível que nenhum deseje permanecer eternamente nessa condição de anonimato.

Haverá um momento em que as máscaras hão de querer ser retiradas, uma vez que o narcisismo de adolescentes é uma balestra cujo gatilho é de acionamento irrefreável: quanto mais esticada a linha e curvado o arco, mais próximo o momento fatal do disparo.

Querem saber de uma coisa? Não vou fazer coisa nenhuma. Dá muito trabalho.


Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora. Leciona para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.