sexta-feira, 8 de abril de 2016

A palavra mais linda do mundo


Como o sonho, a poesia também condensa, sobrepõe, justapõe, associa, dissocia, inverte, aumenta, reduz, desfoca, deforma e assim sucessivamente. A verdade da poesia é também irmã da verdade do sonho. Por isso é um tanto ingênua, em se tratando de ambos, a pergunta: "Aconteceu, mesmo"?

Vladimir Kush, Pôr de sol no oceano.

Tudo que acontece no sonho e na poesia é verdade: verdade do sonho e verdade da poesia. Porém, muitos hão de concordar, embora verdades ambíguas, é mais fácil e prudente crer nessas duas do que naquelas que dizem pertencer à vida real. Por isso, uma vez tendo-se penetrado nas lógicas oníricas e poéticas, é praticamente impossível escapar-se de suas narrativas. por mais antinarrativas que pareçam, por mais ilógicas que sejam, por mais inverídicas também.


Porém, num sonho, somos tragados involuntariamente por sua narrativa, instaurada pelo sono e por mecanismos psíquicos longe ainda de serem desvendados. Na poesia, não. Vamos ao poema voluntariamente - ainda que por vezes instados por imposições sociais, como ocorre na vida escolar e acadêmica. Para que sejamos tragados pela narrativa do poema, precisamos, antes, tragá-la por mecanismos de leitura muito conhecidos de todos nós.

Do idioma ao vocabulário, da sintaxe às regras de pontuação e acentuação empregadas ou subvertidas, da organização das palavras na página aos jogos de linguagem etc., tudo é a um só tempo objeto de leitura e elemento de resistência. Somente quando vencidos totalmente os elementos de resistência - enigmas - é que, tornando-nos parte da própria narrativa que internalizamos concretamente no ato de ler, nos aproximamos da fruição, que no sonho é involuntária por natureza - talvez até mais que involuntária: compulsória.

Vladimir Kush, Cavalo de Troia.
Quando os elementos linguísticos de resistência do pema são plenamente assimilados e incorporados automaticamente no ato de ler, os encadeamentos e associações se deflagram na psicologia do leitor, também automaticamente, como nos sonhos.

E aqui observamos um mecanismo, agora, também involuntário: como no sonho (do qual podemos ser despertados, mas cujo encadeamento não podemos controlar) podemos interromper a fruição do poema simplesmente abandonando a leitura, mas não podemos controlar as associações que a fruição fará aflorar em nosso espírito, em nossas emoções, em nosso juízo.

Estamos, pois, diante de dois processos diversos que alcançam os mesmos efeitos, senão resultados: no sonho, é necessário estar-se dormindo, portanto inconsciente, para se estar completamente entregue a sua narrativa. Na poesia, é necessária a plenitude da consciência para, internalizada a narrativa, alcançar-se a plenitude da fruição, sobre a qual perdemos, então, o controle. Noutras palavras, a cerca entre sonho e poesia está no chão.


Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.