sexta-feira, 26 de junho de 2015

Malcolm X: Ainda não sei nada sobre esse cara

Durante todo o período em que empreendi a pesquisa que deu origem ao livro O jovem Malcolm X uma sensação muito agradável foi crescendo em meu espírito e não parou de crescer até agora, mesmo o romance-biografia já tendo sido publicado. Essa sensação acomete com frequência o pesquisador quando o assunto pesquisado é instigante - e quando ela persevera no tempo soma-se a ela a de que é preciso prosseguir na investigação.

Embora tenha buscado fontes relevantes de pesquisa, inclusive primárias, ao pôr o ponto final no livro uma frase veio a minha mente sem que eu a tivesse elaborado conscientemente, e a frase é esta: "Ainda não sei nada sobre esse cara".

Como o objetivo d'O jovem Malcolm X é iniciar o leitor ao conhecimento desse significativo líder afro-americano, contextualizando tanto quanto o possível essa viagem iniciática, procurei apresentar um aspecto da personalidade de Malcolm X pouco explorada: seu humor, sua jovialidade, seu lado cativante não pelas ideias, mas pela afetividade.

Porém, à medida que fui aprofundando a pesquisa, muitos aspectos relevantes de sua contribuição para a luta contra o racismo, pela justiça social e para as organizações de base dos trabalhadores ficaram de fora - senão o livro teria mais de 500 páginas, o que seria demais para conquistar jovens e novos leitores (o número de páginas assustaria).

Assim, O jovem Malcolm X é uma espécie de anzol para pescar o leitor (essa metáfora era usada por Malcolm X para conquistar novos adeptos a sua causa - ele literalmente saía pelas ruas do Harlem a pescar entre "trombadinhas", drogados, traficantes, prostituas, mas também entre operários e trabalhadores de baixa remuneração, aqueles e aquelas dispostos a trocar seu cotidiano de oprimidos por um cotidiano de luta contra a opressão).

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Porém, a sensação de que é preciso pescar mais fundo não parou de crescer, tanto mais quando a participação em diversos eventos deste Semestre Malcolm X tem me obrigado a ler e reler textos sobre ele, a assistir, reprisar e anotar trechos de suas entrevistas em TV e rádio, para extrair delas seus argumentos, nos quais repousam às vezes tranquila, às vezes conflituosamente os conceitos que ele foi elaborando e refinando ao longo de sua meteórica ascensão ao olimpo da luta do povo negro - que pode ser estendida legitimamente a todos os que lutam contra todo tipo de preconceito, por liberdade, por justiça social e por um mundo livre da opressão do homem sobre o próprio homem.

Continuo estudando o legado de Malcolm X, e as chaves que ele nos pôs em mãos abrem segredos que nos levam a outras chaves - que por sua vez nos levam à origem da opressão, afastada no tempo, mas também à portas abertas para o futuro.

Porém, uma convicção se construiu fortemente em meu espírito a partir dessa pesquisa que ainda não terminou: não há nenhuma possibilidade de se conhecer os prodígios do capitalismo sem se conhecer a fundo e no tempo as raízes e as consequências da escravidão negra, sobre a qual foi construído esse império de pouquíssimos bilionários e uma imensidão de pobres oprimidos - uma quantidade inumerável dos quais abaixo dos mais básicos níveis da condição humana, à deriva no mar Mediterrâneo, pelas favelas e pelos cortiços do mundo.

Noutras palavras, a pesquisa sobre Malcolm X confirmou as opções que fiz ainda na adolescência e impôs, àquilo que já vinha fazendo, um trabalho colossal para toda a vida - do tamanho da escravidão que gerou tanta riqueza e tanta dor (e gera ainda nos dias de hoje).


Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou o ano passado O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria). e lança em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Malcolm X: A união é a religião certa

De aluno exemplar e menino órfão, ele – abismado pela cidade grande, representada por Boston e, depois, por Nova Iorque –, abandonando os estudos, converte-se em trabalhador de baixa qualificação (engraxate, lavador de pratos, menino de ferrovia a vender sanduíches nos vagões, faxineiro de trem, balconista etc.); depois em pequeno vigarista, a dar golpes no carteado e a bater carteiras; até ingressar de  uma vez no tráfico de drogas, no comércio do sexo, na vida bandida e ser preso.

Sua conversão na cadeia ao islamismo (num momento em que o Islã se apresentou como alternativa de resistência ao racismo – não por acaso ídolos negros fizeram o mesmo, a exemplo do campeão de box Muhammad Ali), marca o nascimento de um dos maiores intelectuais negros dos EUA e do mundo. Porém, esse intelectual devorador de livros de linguística, história, geografia, sociologia, filosofia, literatura, atualidades, entre outros, teve como placenta não os currículos de bacharelado ou doutorado das universidades, mas apenas sua extraordinária capacidade autodidata e suas reconhecidas habilidades de linguagem e oratória.

Do momento em que saiu da prisão, em 1952, até o momento em que foi vítima do atentado que o vitimou, aos 39 anos de idade, em 1965, Malcolm X teve apenas doze anos para se tornar no ícone que hoje serve de inspiração a jovens do mundo todo.

Em que pesem a críticas que possam ser feitas a aspectos de seu radicalismo – algumas realizadas por ele mesmo após sua viagem ao Oriente Médio –, deve-se reconhecer o verdadeiro prodígio realizado por Malcolm X nesse tão curto espaço de tempo.

E que prodígio foi esse? O de, recuperando sua história familiar, a dos negros nos EUA   e a dos oprimidos do mundo, operar uma radical metamorfose em si mesmo e oferecer-se de peito aberto como veículo de transformação e luta por justiça social.

Este livro é um instantâneo dessa metamorfose, em relação à qual, não fosse universalmente sabida, seria legítimo dizer: não é verdade, não aconteceu, é pura ficção.


Porém, ela aconteceu, continua pelo tempo a fora... e atende pelo nome Malcolm X.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Malcolm X: É preciso quebrar o muro de silêncios


MALCOLM X NOS DIZIA, DIREITOS TEM DE TODO DIA LUTAR
Poema hip hop enviado pelos companheiros e irmãos: Azuir Filho e Turmas de Amigos: do Social da Unicamp, Campinas, SP, de Rocha Miranda, Rio de Janeiro, RJ e de Mosqueiro, Belém, do Pará.

Não é pra ficar esperando, é trabalhar e construir.
É o tempo todo atuando, para a sua meta atingir.
É atuar cada dia, até as condições se concretizar.
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.

Direito é uma construção, não vem de mão beijada.
É sacrifício e aplicação, é uma duríssima jornada.
Exploração é patifaria, não temos nunca de aceitar
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.

Tem de haver cooperação, e todo entendimento.
Nada de fazer exploração. isso é perder o tempo.
A vida é uma travessia, para o espírito se acalmar;
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.


Há uma idéia reinante, que é feita pra confundir.
A exploração é revoltante, é forma inglória de agir.
O Humano na sua vilania, faz a seu irmão explorar.
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.

Todo tempo trabalhando, o coletivo fortalecendo.
Boa vontade compartilhando, Ensinando e aprendendo.
Vida é para ter alegria, pra em comunhão se juntar.
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.

Tem fazer com coração, pro entendimento ser total
Ódio e segregação, dificultam toda harmonia social.
A Luta é pra se ter harmonia, não tarda a hora chegar.
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.

Superar a miséria do mundo, e a todos povos unir.
O amor sendo profundo, nos levam a melhor porvir
Não abrimos mão da Utopia, o Mestres fez anunciar.
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.

É entender a contradição, e levar a luta com amor.
Coisa de companheiro irmão, de amigo trabalhador.
Não precisa de valentia, tem é do próximo amar.
Malcolm X nos dizia, Direitos tem de todo dia lutar.



terça-feira, 2 de junho de 2015

Malcolm X - Um grande ser humano, um revolucionário sempre

Desde quando sai da prisão, no segundo semestre de 1952, até o momento de seu assassinato, em 21 de fevereiro de 1965, Malcolm X evoluiu em seus pensamentos e suas práticas, abandonando o sectarismo e o ódio racial em favor de uma compreensão mais ampla da questão do negro e dos pobres nos EUA.

Em 1964, rompe com a Nação do Islã totalmente e encampa a luta pelos direitos civis, por chegar à conclusão de que o ódio e a segregação são empecilhos à justiça social e à superação do racismo. Em seus últimos discursos afirmava: “Uno-me a todos aqueles dispostos a superar a miséria deste mundo”. Superando a visão sectária da Nação do Islã que indispôs com líderes como Martin Luther King, afirmou: “A união é a religião certa”, e ainda: “Quando for lutar contra o racismo, deixe sua religião em casa, no guarda-roupa”.


Se forem descontextualizadas, muitas de suas formulações parecerão erráticas, pois umas se chocarão com outras. Porém, respeitado seu percurso de aprendizagem contínua (retratado em sua Autobiografia, concluída no mês de seu assassinato), o que se observará é um homem de extrema inteligência e coragem, que jamais teve preguiça de estudar, pesquisar e, desde que convencido, mudar de ideia e de prática. Malcolm X não teve medo de romper com o passado, mesmo com o custo da própria vida, porque não teve tempo de ter medo. É esse exemplo, é esse homem, é esse jovem, que inspira tanta gente no mundo todo, que o leitor tem agora em mãos.