quinta-feira, 18 de abril de 2013

AMANDLA! NGAWETHU! (O poder! Tá com a gente!)

DAQUI A CINCO MIL ANOS um pai contará para seu filho dormir a lenda de um herói. Essa lenda dirá de um menino do Transkei, que calçou o primeiro par de sapatos quando ingressou um tanto tardiamente na escola, que viu e viveu os piores tormentos da vida humana, mas que, a despeito de todas as previsões funestas, liderou seu povo a uma vitória definitiva sobre as mais abomináveis formas de opressão e humilhação do homem sobre o próprio homem. Essa lenda que atravessará os milênios futuros terá um nome: NELSON ROLIHLAHLA MANDELA.


Num momento em que pelo Brasil se espalham manifestações nas quais se misturam anseios legítimos da população historicamente oprimida com palavras de ordem francamente racistas, autoritárias, suprematistas e intolerantes, e num momento em que o guerreiro Madiba, herói de Soweto, herói da África, herói da humanidade, parece querer dar paz a seu corpo já alquebrado por tantas lutas coletivas e pessoais, sempre é bom convocar sua força, que permanecerá em todos os democratas e revolucionários do mundo pelos séculos a afora.


A pobreza no sertão da África do Sul, as condições aviltantes dos trabalhadores nas minas de diamantes mais profundas do mundo, a miséria nas favelas de Johanesburgo, a opressão das populações negras e de origem indiana, concretizada no sistema de apartheid, levaram bem cedo o jovem Nelson Rolihlahla Mandela a escolher entre o conforto de uma vida alienada e os riscos da luta contra o regime de segregação racial.


Fundador da Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano (CNA), Nelson Mandela tornou-se o principal líder do mesmo CNA, e um dos mais significativos protagonistas da história humana contemporânea. Sua vida se confunde com  a própria luta pela democracia e pela liberdade e, embora o território principal de suas ações tenha sido sua África do Sul mergulhada em um dos sistemas políticos mais abomináveis conhecidos, o apartheid, a indignação contra a injustiça de que foi vítima e  os reflexos de sua vitória definitiva sobre o regime de segregação racial  ecoaram, e ecoam ainda, por todo o mundo.

Da infância de pés descalços no sertão africano, no início do século XX, à presidência da república, conquistada na primeira eleição verdadeiramente livre em seu país, ao fim do mesmo século, Mandela seguiu um roteiro de aprendizagem, persistência e esperança que lhe deu forças para suportar sucessivas perdas de amigos, assassinados sob tortura ou em confrontos com o apartheid; de familiares, com os quais sempre manteve fortes laços de afeto; além de uma sentença de prisão perpétua absurdamente injusta, a partir de um julgamento de exceção,  forjado nos mínimos detalhes para eliminar do caminho  os opositores do regime racista.

No interior da prisão da ilha de Robben, em que cumpriu a maior parte dos 27 anos em que esteve encarcerado, Madiba, como também é conhecido entre os amigos e parentes, organizou o que ficou conhecido como Universidade Mandela.

Essa iniciativa de educação geral e de formação política reuniu, anos a fio, em debates, palestras e verdadeiras aulas, com currículo estabelecido pelos próprios participantes, até mesmo os guardas do presídio. Muitos jovens condenados à ilha de Robben, após cumprirem a pena, voltaram para a luta antiapartheid mais bem preparados do que quando nela ingressaram. O amor de Mandela pela juventude está estampado em seu sorriso – que, quando se abre, o torna um menino novamente, um legítimo representante da “juventude do mundo”, expressão muito empregada por sua geração de “lutadores da liberdade”, como, com justiça, também se autodenominavam.

Torço com o coração apertado para que os jovens que agora tomam as ruas do país reflitam e se mirem na vida e na luta desse eterno jovem, que sacrificou tudo e a quem roubaram nada menos que 27 anos de vida, convertida em doação também para os jovens do Black Consciouness, de Steve Bico, quando estiveram presos com ele em na ilha de Hobben.


Se virarem as costas para esse verdadeiro gigante do humanismo e da luta pela justiça social, terão virado as costas para a própria história. Como sabemos, quem nega o passado, anda às cegas. Não posso esconder que, nestes dias de junho de 2013, os protestos sem rumo padecem dessa ignorância.


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Neste livro, Jeosafá Fernandez Gonçalves, Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, com especialização nas relações  Brasil-África, constrói um enredo ficcional em que literatura e realidade se articulam para dar corpo às angústias e às ações de um dos mais importantes personagens da história contemporânea mundial. A partir de cuidadosa pesquisa bibliográfica, o autor traça neste O jovem Mandela os passos decisivos da formação do homem e do líder que derrotou de maneira insofismável o apartheid.

Ao mesmo tempo em que retrata o homem (empregando para esse retrato, como um palimpsesto, o registro de outros que passaram por experiências análogas ),  o autor oferece ao leitor os fatos históricos, uns dramáticos e mesmo trágicos, outros gloriosos, que serviram de placenta a uma epopeia em si plena de grandeza – e que ecoará certamente pelos séculos afora.

O autor é escritor de obras de ficção, poesia, teóricas e didáticas voltadas para temas de língua portuguesa e literatura. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo, doutorou-se também nessa área, na mesma USP, em 2002. Sua pesquisa de Doutorado voltou-se para as relações entre Brasil e África, o que impôs o estudo de vasta bibliografia sobre os movimentos de independência nesse continente e sobre os principais líderes africanos do século XX, entre os quais, Nelson Mandela.


Concentrando suas atividades nas fronteiras entre literatura e realidade, o autor tem desenvolvido nos últimos anos projetos em que pesquisas bibliográficas, documentais e de campo servem de fontes para a produção ficcional, a exemplo deste O jovem Mandela e do ciclo de romances urbanos sobre a cidade de São Paulo ERA UMA VEZ NO MEU BAIRRO, que põe em cena aspectos sociais e históricos das cinco grandes regiões de São Paulo: Zonas Norte, Leste, Sul, Oeste e Centro.

Artigos n'O Estado de S. Paulo
Um romancista da cidade: Na ficção, uma viagem por São Paulo.
120 anos do viaduto do Chá: Pequena chama pequena demais.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Flaubert é inocentado, mas por razões erradas

Selecionei alguns trechos do processo que envolveu Flaubert, quando da publicação de seu clássico Madame Bovary. O conjunto do processo faz parte da edição do romance publicado pela Editora Nova Alexandria (São Paulo, 2007), cuja tradução amplamente reconhecida e elogiada é de Fúlvia Moretto.


Tanto o libelo de acusação quanto a peça de defesa giram em torno de pretensas ofensas à moral pública e à religião. O promotor público acusa o romancista de imoral e de atentar contra a religião do Estado, enquanto o defensor o apresenta como um moralista da melhor cepa e de respeitador dos dogmas cristãos.

Ora, o judiciário, aqui também, se revela um teatro de gosto duvidoso, que nem de longe necessita quer da verdade (com o que devia se preocupar), quer da verossimilhança (que,no caso da literatura,  não é absolutamente de sua conta). Historicamente, para a "justiça" dos poderosos, uma história precária, contada de forma a dar álibi para Pilatos lavar as mãos, é o bastante.

É óbvio que a acusação contra o autor é uma forma ridícula de atores de segunda categoria (o promotor e a corte, que inclusive se arroga a prescrever na própria sentença o que deva ser a literatura), apanharem carona na notoriedade do escritor, o que obriga o defensor menos a provar a inocência de seu cliente e amigo, mais a livrá-lo da arapuca montada por invejosos, de má consciência e ainda pior caráter.

Seja como for, vão aí trechos que destaquei, entre outros que valem a pena conhecer, na mesma edição:

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O Ministério Público
Ação do ministério público interposta pelo advogado Imperial, Sr. Ernest Pinard

Assinalo aqui duas coisas, senhores, uma pintura admirável sob o ponto de visa do talento, mas uma pintura execrável do ponto de vista da moral. Sim, o sr. Flaubert sabe embelezar suas pinturas com todos os recursos a arte, mas sem a cautela da arte. Não há nele nenhuma gaze, nenhum véu, é a natureza em toda sua nudez, em toda a sua crueza!

Insipidez no casamento, poesia no adultério! Ora é a degradação do casamento, ora é sua insipidez, mas é sempre a poesia do adultério. Eis, senhores, as situações que o sr. Flaubert gosta de pintar e infelizmente pinta bem demais.


A defesa
Defesa apresentada pelo acusado por meio do advogado sr. Sénard

O sr. Flaubert não é um homem que vos pinte um encantador de adultério para fazer em seguida chegar o deus ex machina; saltas-te com demasiada rapidez da página que lestes para a última. O adultério em sua obra é somente uma sequência de tormentos, de pesares, de rermosos; e além disso, chega a uma expiação final, assustadora.

O advogado de defesa citando Lamartine em entrevista com Flaubert:

Ao mesmo tempo que vos li sem restrição até a última página, censurei as últimas. Fizeste-me mal, fizeste-me literalmente sofrer! A expiação é proporcionalmente maior do que o crime; criastes uma morte horrível, assustadora! Geralmente uma mulher que mancha o leito conjugal deve esperar uma expiação, mas esta é horrível, é um suplício como nunca se viu. Fostes muito longe, fizeste-me mal aos nervos; este poder de descrição, nos últimos instantes de morte deixou-me um indizível sofrimento!

A sentença

Visto que Gustave Flaubert protesta seu respeito pelos bons costumes e por tudo que está ligado à moral religiosa [...];

Que ele somente cometeu o erro de perder às vezes de vista as regras que todo escritor que se respeita nunca deve ultrapassar e de esquecer que a literatura, como a arte, para cumprir bem o que é chamada a produzir não somente deve ser casta e pura em sua forma e em sua expressão;


O tribunal os absolve [Flaubert, o escritor; Pichat, o editor; e Pillet, o gráfico!] da incriminação de que foram acusados e os dispensa sem custos.


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Assim, a sentença favorável a Flaubert, seu editor e o gráfico não se deu pelos motivos justos, quais sejam o de que não o romance ou seu autor são imorais, mas o de que a sociedade burguesa é que é imoral, e o de que há imoralidade no romance é o que vazou dessa sociedade para a literatura. Porém, não se diga que a sentença se deu por erro judicial: se deu pelo caráter farisaico do judiciário burguês, que vige hoje pelo mundo, quem há de negar?

Nesse caso, menos mau que o farisaísmo tenha resultado em justiça, ainda que enviesada, ao grande escritor francês



quinta-feira, 11 de abril de 2013

O albatroz, de Charles Baudelaire

Preparando um volume de ensaios de Silviano Santiago, dei com um poema de Baudelaire que li na adolescência e início de juventude, quando caí de cabeça nas Flores do Mal, do poeta francês. Pode não ter sido um sentimento bom, mas me acometeu a incontrolável vontade de traduzir o poema, que encontrou em nossa língua a versão de Guilherme de Almeida.

Se o sentimento incontrolável de traduzir pode ser desculpado, a tradução não tem esse benefício, pois pode ser julgado pelo leitor. Honesto que sou, dou ao leitor essa prova do crime: minha tradução. Porém, para que não me pese sobre os ombros uma sentença dura, dou ao leitor também, antes de meu crime, o texto em francês e a tradução de Guilherme de Almeida.

Leitor, deleite-se com os dois primeiros, e não julgue com excessiva severidade o último. Voilà.
 

L'albatros
Charles Baudelaire

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

BAUDELAIRE, Charles. "Les fleurs du mal". Oeuvres complètes. Paris: Robert Laffond, 1980.



O albatroz
Tradução: Guilherme de Almeida

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
A asa de gigante impedem-no de andar.

Baudelaire, Charles. "O albatroz". Tradução de Guilherme de Almeida. Magalhães Junior, R. Antologia de poetas franceses do século XV ao século XX. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.




O albatroz
Tradução: JeosaFá

Acontece de, gozação de marujos de convés,
Caçarem albatrozes, imensos pássaros dos mares,
Que seguem, preguiçosos companheiros de marés,
O navio deslizante sobre fossas tumulares.

Uma vez presos e jogados sobre pranchas da embarcação
Esses reis do anil, zonzos e desengonçados,
Despencam suas alvas asas tangidas de desolação
Para escorregando se equilibrarem com esses remos improvisados.

Que João-bobo, esse pássaro, forçado a voos de galinha!
No céu tão grácil, que palhaço de circo de periferia
Se torna esse bicho enxovalhado com brasa de cachimbo!
Já outro o moqueia imitando-o em sua pantomima!

O poeta é um tipo de príncipe do espaço sideral
Que brinca com a tempestade e se ri do arqueiro que o mira.
Porém, preso ao chão, em meio às galinhas de quintal,
Arrasta as asas pensas sem nenhuma serventia.




quarta-feira, 3 de abril de 2013

PASSEI DOS 50, UFA!

Foto do espaço do Museu Afro Brasil na Bienal Internacional do Livro de 2012.

Amigos, leitores, rodamundos da internet, repaginei este meu blog. Estava na hora. Agora, além das resenhas e ensaios sobre literatura, há também na barra superior links das páginas em que estão todos os livros que publiquei desde minha estreia em 1985.
  • No link INÍCIO, estão armazenadas todos os ensaios e resenhas literárias desde 2007, quando este egrégio espaço de cultura, lazer e às vezes polêmica e galhofa abriu as portas.
  • Em INFANTIS estão capas e breves sinopses de todos o livros infantis que escrevi.
  • No link JOVENS E ADULTOS estão armazenadas as capas e as sinopses de meus livros de poesia, romance, contos, HQ e humor.
  • PARA PROFESSORES é a página de todos os livros que escrevi para a formação de docentes de língua portuguesa e literatura.
  • Em DIDÁTICOS está o Projeto Escola e Cidadania, de que participei como autor didático de Ensino Médio em fins da década de 1990 e início de 2000.
Ao todo, são mais de 50 títulos publicados, e este ano ainda não está nem pela metade. O Jovem Mandela,  que será lançado pela Nova Alexandria em 18 de julho próximo, no Dia Internacional Nelson Mandela, instituído pela ONU em comemoração a seu nascimento, já se encontra na respectiva página: JOVENS E ADULTOS. Porém Zona Oeste, da série ERA UMA VEZ NO MEU BAIRRO, também Nova Alexandria, já pronto, ainda não foi inserido, pois, embora com originais finalizados, está em fase de editoração, e, pela editora Mercuryo Jovem, deve sair Pecopin e Bauldour, um conto de Victor Hugo por mim traduzido e adaptado para HQ pelo fera João Pinheiro.

Como disse no título, passei dos 50... livros publicados. Quanto a minha idade... Mistério... Só falta começar a ganhar dinheiro... K k Kk K!