quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Um Mandela muito particular

Assista a entrevista à Opera Mundi sobre o legado de Mandela

O personagem que o leitor tem diante de si em O jovem Nelson Mandela é muito particular. Isto porque, na trilha dos acontecimentos extraordinários que envolveram a derrota final do apartheid na África do Sul e que repercutiram pelo mundo todo ao final do século XX, em sua voz ecoam vozes de poetas e de escritores, além de angústias de outros personagens mergulhados em dramas semelhantes. Assim, o leitor descobrirá, no Capítulo 3, intitulado “Luz para cegar”, que a luz a agredir os detentos da pedreira de calcário da ilha de Robben é irmã daquela reverberação torturante que ofende os olhos do sentenciado à pena de morte de O estrangeiro, de Albert Camus.

 Na voz do protagonista deste O jovem Mandela, reflexões sobre os impasses gerados pela luta contra o apartheid acolhem versos da “Canção amiga”, de Carlos Drummond de Andrade, no Capítulo 7, denominado “Universidade Mandela, uma aula”. A título de ilustração sobre a aventura dos portugueses pelo Cabo da Boa Esperança, hoje Cidade do Cabo, África do Sul, no Capítulo 8, “Universidade Mandela, outra aula”, o poema famoso “Mar portuguez”, de Fernando Pessoa, funciona como um marco da passagem de Bartolomeu Dias, em 1488, por esse ponto extremo sul do continente.

Quando a questão é pesar o drama do indivíduo instado a abrir mão do convívio familiar para enfrentar a luta contra o regime de segregação racial, no Capítulo 9, “Por quanto tempo pode ser prolongada a juventude”, versos de “Mensagem à poesia”, de Vinicius de Moraes, surgem na forma de prosa sutilmente modulada. No Capítulo 10, “Uma Johannesburg estranha demais”, uma cidade enevoada ecoa os “timbres tristes de martírios” do Livro azul, de Mário de Andrade. E em “Um homem não é uma ilha”, o Capítulo 11, a referência a Robinson Crusoé, de Daniel Defoe é direta.

Além dessas incrustações de fácil observação, ecos do Dostoiévski de Recordações da casa dos mortos (publicado pela Nova Alexandria) e do Graciliano Ramos de Memórias do cárcere podem ser rastreados por todo o texto, na forma de discurso indireto livre e de registro de fluxo de consciência, empregados tão magistralmente por ambos.

Assim, este O jovem Mandela que o leitor tem em mãos é ao mesmo tempo ficção e história, informação e condensação artística de expectativas, sonhos, frustrações e júbilo. Sua espinha dorsal é, sem dúvida, o personagem real de mesmo nome, mas este recebe a contribuição de outras vozes inventadas, representativas de dramas humanos igualmente verdadeiros.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

ZONA OESTE

 Reproduzo aqui o release que a jornalista Renata Vs fez para o lançamento de meu romance ZONA OESTE.

ZONA OESTE é o quarto e penúltimo romance do ciclo Era uma vez no meu bairro, do escritor paulistano Jeosafá Fernandez Gonçalves. Resultado de mais de vinte anos de pesquisa sobre a violência, particularmente contra crianças e jovens, em jornais, livros, documentos oficiais e a partir de entrevistas em trabalho de campo, ZONA OESTE é a quarta estação de uma obra cujo enredo, em forma de espiral, tendo partido da ZONA NORTE e passado por ZONA LESTE e ZONA SUL, atingirá o CENTRO, estação derradeira, em 2014. Cada região da metrópole, um romance enraizado na realidade e, como ela, cheio de surpresas, expectativas e, naturalmente, sonhos.

Quem por São Paulo ande sem destino certo pode ser que encontre o que não espera – e isso pode ser bom, ou não. Talvez esta seja a mensagem em torno da qual se articula o enredo deste ZONA OESTE. Neste romance – cujos personagens se movem pelas ruas da Lapa e Pompeia, por regiões da Paulista e além do rio Pinheiros  – as vozes se sucedem ao vivo, diante do leitor que, convertido em testemunha, acompanha, em tempo real, fatos e dramas ainda em processo, sem saber ao certo o rumo para o qual se encaminha a trama. 

Aqui se está no terreno escorregadio do “tudo é possível”, com a advertência de que o pano de fundo dessa geografia meio inventada, meio real, é uma cidade que oferece as maiores singelezas e os maiores horrores – às vezes simultaneamente. 

A lógica aparentemente fantástica deste ZONA OESTE é a mesma que permeia os romances anteriores da série: a partir de pesquisas bibliográficas, históricas, urbanísticas, documentais, de reportagem fotográfica e de entrevistas com pessoas reais o autor teceu uma teia em que o real parece absurdo (a exemplo de depoimentos de moradores e ocupantes ocasionais de túmulos da necrópole homônima da cidade) e em que o ficcional é contrabandeado para o interior do enredo como fato aceitável (uma vez que, em São Paulo, cidade ou necrópole, nada é de duvidar). 

Quando um organismo social de despedaça as consequências – quem não sabe? – são sempre dramáticas. Quando esse organismo é uma família, nem sempre sobra quem possa recolher os cacos, os escombros, os espólios. Porém... às vezes sobra. Neste romance, com um dos pés fincados na realidade e outro na possibilidade legitimada pela fantasia, a sobrevivente de um desses eventos dramáticos, em busca de aquietar seu coração despedaçado, reinsere numa narrativa mais humana e amorosa os cacos de vida que colecionou, em surdina, durante os anos de aprendizagem e maturidade.


JEOSAFÁ Fernandez Gonçalves nasceu em São Paulo, em 24 de novembro de 1963. Trabalhou como jornaleiro, operário metalúrgico, vendedor de roupas, porteiro de cineclube, entre outros, até ingressar no curso de Letras da Universidade de São Paulo e tornar-se professor, carreira que exerceu por dezesseis anos, na Educação Básica e no Ensino Superior. Doutorou-se em Literatura pela mesma Universidade em 2002, publicou seu primeiro livro em 1986 e reúne hoje em sua obra, entre poesia, ficção, ensaio e ensino, mais de cinquenta títulos.

Para ver algumas fotos do lançamento, clique aqui.



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Todo mundo quer Vinicius só para si

PROJEÇÃO NA PAREDE
Comemoração de 100 ano de Vinícius de Moraes na Editora Nova Alexandria

O Colégio Pioneiro adotou meu livro O jovem Mandela para turmas finais de Ensino Fundamental e inicial do Ensino Médio. A conversa foi muito legal com os alunos. Como nesse livro há incrustações de trechos do poema Mensagem à Poesia, acabei sendo convidado a participar do evento comemorativo dos 100 anos do Poetinha.

Quando eu concluíra o então Segundo Grau, hoje Ensino Médio, cometi uma de minhas maiores ousadias. Sucede que, desde que entrei na escola, ler foi uma atividade mágica, de prazer fruído ora com euforia, ora com concentração, ora com sofreguidão - porém, livros, só  os das bibliotecas públicas, oásis em que me livrei de tanto deserto de humanidade semeado pela metrópole.

A ousadia foi que, comprometendo a renda familiar, entrei em uma livraria do centro da cidade e comprei, de uma só tacada, dois volumes de poesia de Cecília Meireles; Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto; uma antologia de Carlos Drummond de Andrade; e, de Vinicius de Moraes, além da Antologia Poética por ele organizada, os livros Para uma menina com uma flor e Para viver um grande amor. Era o ano de 1982, anotado nas folhas de rosto desses exemplares, que trago até hoje, amarelecidos no papel, mas sempre intactos no coração.

Eu tinha então 19 anos. E quando apanho esses livros, continuo tendo. Esses poetas eu já frequentava em namoros sempre interrompidos pela necessidade de devolver o exemplar à biblioteca circulante. Levá-los em definitivo para casa selou um casamento desejado e sempre adiado pela falta de dinheiro. Minha família não ficou mais pobre por causa dessa ousadia e, passado o sentimento de culpa, vi que tinha feito a coisa certa.

Vinicius, sedutor como lhe é característico, adiantou-se sobre os outros poetas e dominou minha preferência por anos. Ainda mais que eu era tímido e, numa época em que todos os meus amigos estavam namorando e se casando, eu disfarçava essa timidez jogando futebol quatro vezes por semana e me enterrando nos livros o restante do tempo que sobrava do trabalho.

Decorei textos inteiros de Vinicius, a exemplo do Poema de Aniversário, que eu recitava de memória no ônibus superlotado para um amor platônico meu de então:

Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte...
Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. 
Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma.

O mistério da poesia e da vida estava todo lá, nos versos articulados que transpiravam angústia, exasperação e tristeza - mas também amor, entrega e verdade. Foi Vinicius de Moraes quem acabou me empurrando para a escrita da poesia e para o violão, que toco canhestramente. Ouvir sair de meus dedos pela primeira vez os acordes de Onde anda você, que as pessoas insistem em chamar de "E por falar em saudade", foi a suprema glória para um jovem, encantado com a beleza de viver os seus menos de vinte anos, em meio à música e à poesia.

Nas viagens de trem para o interior de São Paulo que fazíamos para jogar futebol pelo Instituto Dom Bosco (comandado pelo rigoroso padre Rosalvino - que engolia muito mal derrotas de seu time e gritava da beirada do campo como um Muricy Ramalho mais raivoso), íamos de jeans e camiseta branca cantando Regra Três, Garota de Ipanema, Por que Será e outras do poeta que, morto em 1980, movia nossa geração, que começava a conhecer o amor, e ingressava na juventude por essa porta de beleza por ele aberta.

Imagem inline 1Alternando minha preferência, sempre retorno, após voltas e voltas, ao poeta que engarrafou o melhor amigo do homem e, hilariamente, caricaturou Magalhães Pinto, à banheira, colocando os óculos de aro grosso na base do próprio joelho:

Imagem inline 2
A foto eu conhecia de há muito, porém a particularidade da caricatura marota feita pelo poeta me foi revelada por sua filha, Georgiana, com quem estive recentemente em um evento em São Paulo.

A esse evento, uma feira cultural organizada pelo Colégio Pioneiro, de tradição japonesa, fomos convidados eu (em razão de meu livro O Jovem Mandela ter sido adotado pela  escola), Georgiana e Maria, filhas do poeta (em razão da comemoração do centenário de nascimento de Vinicius). Entre descidas e subidas de escadarias para participar de atividades com jovens e crianças, fomos trocando ideias e sentimentos; ela, de filha; eu, de leitor antigo da obra de seu pai. A informação óbvia sobre a brincadeira de Vinicius me foi transmitida num desses degraus pelos quais nos cansamos de subir e descer.

Num deles é que também revelei a Georgina o contrabando que fizera em O Jovem Mandela: num dos capítulos, aproveitando a deixa de o próprio herói da luta contra o apartheid ter-se declarado em sua autobiografia um romântico - no que diz respeito às relações amorosas -, incrustei na fala de seu personagem a transcriação de um trecho de Mensagem à Poesia, de Vinicius, talvez um dos mais belos poemas contra a guerra escritos em língua portuguesa.

Prof. Jeosafá, Georgiana e Maria de Moraes nos 100 anos de Vinícius - Colégio Pioneiro.
 Perguntei a Georgiana se era fácil ser filha de Vinicius de Moraes, ao que ela respondeu, entre risos: "Nada que mais de trinta anos de psicoterapia não dê algum jeito". Na verdade, continuou, mais ou menos nessas palavras: "Dividir o pai com todo mundo não foi e ainda não é fácil - afinal, toda filha quer o pai todo pra si". Disse isso e encaminhou-se para ouvir o coral da escola cantar Garota de Ipanema em japonês, numa homenagem emocionante. Depois, subiu ao palco, com sua irmã, Maria, para acompanhar as crianças e os jovens no restante da canção, agora em português, embalada também nas vozes da plateia.

A propósito, a plateia, além do coro, também queria Vinicius só para si.

Texto elaborado para a Revista Princípios.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Fernando “Pessoas”: seu nome é legião

Susana Ventura, o mais recente heterônimo de Fernando Pessoa descoberto

Era novembro de 1935, fazia frio e o céu de Lisboa insistia no gris e no chuvisco, que são a placenta de tudo que é aziago, informe e desconhecido. Era manhã e a recomendação médica estabelecia internação irrevogável.

Então ela ajeitou carinhosamente os volumes inéditos em uma arca, conferindo a ordem para que não dessem trabalho a quem por Ventura os visitasse, em futuro próximo ou não. Estava tudo lá, linha a linha, página por página, tudo devidamente apontado e corrigido. Assim deveriam ser todos os espólios. Baixou a tampa, apertou-a e impulsionou a arca para o mar de penumbra do quarto mal amanhecido.

Dobrou e acondicionou na pequena valise as poucas roupas necessárias para a estada digna no Hospital. Fechou-a. Ajeitou os óculos de aros redondos na face, calçou os sapatos, vestiu o impermeável, trouxe a valise pela alça, apagou a lâmpada pálida, abriu a porta, passou por ela, puxou-a até que encostasse no batente sem produzir palavra, que pensam? coisas também falam, olhando para a chave e depois para o chão. O chuvisco na rua Coelho da Rocha era uma eloquência de pontos finais, não os visse quem não quisesse, não esta, que sendo Ventura, nunca para a desventura fechou os olhos.

Os poemas e outros escritos que ficaram na arca se salvariam, fossem quais fossem as posteriores notícias, afinal, para tanto servem as arcas. Porém os que ficaram na cabeça, os que se esvaíram durante o trajeto de pedras, os que penetraram a neblina da agonia, esses se perderam para sempre, pois uma coisa é ter o coração para aventuras, outra, para adivinhações.

Mas ficaram os rastros que, colhidos por Guazelli, comprovam a existência de mais uma pessoa em Fernando: Susana Ventura. Esta, ciente dos riscos de Alice através do espelho, não hesitou em colher dele um caco em que se mirar e, em forma de ensalmo evocatório, proferir as palavras mágicas: Eu, Fernando Pessoa. Passe um anjo, diga amém, e viva para sempre esse novo caco agora não  mais indescoberto.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O Jovem Mandela: Jardineiros e suas searas




DAQUI A CINCO MIL ANOS um pai contará para seu filho dormir a lenda de um herói. Essa lenda dirá de um menino do Transkei, que calçou o primeiro par de sapatos quando ingressou um tanto tardiamente na escola, que viu e viveu os piores tormentos da vida humana, mas que, a despeito de todas as previsões funestas, liderou seu povo em uma saga épica e o conduziu uma vitória gloriosa sobre as mais abomináveis formas de opressão e humilhação do homem sobre o próprio homem. Essa lenda que atravessará os milênios futuros terá um nome: NELSON ROLIHLAHLA MANDELA.

Jardineiros e suas searas

Comparações são sempre imprescindíveis na vida, caso contrário não saberíamos discernir entre o justo e o injusto, o correto e o incorreto, o bom e o ruim. Já analogias são perigosas, porém, guardando-se os devidos cuidados, podem ser úteis.

Quando entrei na universidade, em Fort Hare, parte de minhas atribuições era cuidar de jardim. Outros considerariam essa atividade um tanto sem graça, não eu, que vivi minha infância descalço, a observar a beleza de colinas, árvores, arbustos, gramíneas, e os insetos e animais que se beneficiavam da vegetação.

Naturalmente, quando menino, de pé no chão e pedra nas mãos para dar em passarinho, minha preocupação essencial era trepar nas árvores e sentir, lá do alto, a brisa fresca ou o mormaço quente a subir do chão empoeirado. E também observar o azulado das montanhas ou a linha perfeita do horizonte.

Na universidade, se tratava de aproveitar a quietude das plantas para pensar sobre o curso, sobre a vida e sobre o porquê de haver tantos pobres e tão poucos ricos sobre a face da terra. Uma ou outra vez levei uma ferroada de abelha enquanto pensava, mas, muitas vezes, meus pensamentos me ferroaram muito mais.

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Era verdadeiramente interessante observar como algumas flores eram abundantes e exuberantes, mas de vida breve, enquanto outras eram modestas em número, tímidas na beleza, mas duradouras. No início tinha pena das duas: das primeiras, pela brevidade; e das segundas, pela falta de maiores atrativos.

Porém, observei que alguns passarinhos e insetos polinizadores frequentavam apenas um dos tipos de flores, enquanto outros, apenas o outro. Também observei que a simples mudança de lugar de um vaso pode injetar novas energias numa planta ou arruiná-la de uma vez.

E não apenas o grau de incidência de sol era determinante de sucessos ou insucessos, mas também a exposição ao vento. Algumas plantas suportavam excelentemente correntes contínuas de vento, outras, em pouco tempo murchavam e perdiam as folhas, se expostas a elas.
Confesso que estraguei algumas plantas ao realizar poda errada ou, simplesmente, por temor, não realizar poda nenhuma. Embora um jardim pareça uma realidade uniforme, não é. Cada planta tem sua própria forma de ser e de viver. Uma poda mais cuidadosa é exigida por uma, enquanto outra, de tempos em tempos, necessita de uma poda radical para que novos ramos verdes e sadios surjam.

As particularidades chegam mesmo a minúcias inimagináveis para um iniciante, como era o meu caso. Em algumas ocasiões, doido para terminar rápido o trabalho e ir me divertir com os amigos, me precipitava no trato de alguns exemplares. Uma vez me surpreendi com o desenvolvimento insatisfatório de um tipo de trepadeira, e passei a observá-la com maior atenção. Ela lançava ramos até vigorosos para todos os lados, mas estes não chegavam a lugar algum.

Intrigado, quando um desses ramos avançava sobre o caminho, procurei, com o máximo cuidado, enredá-lo em uma haste que fixei no chão. Tudo ia bem, até que toquei na ponta do ramo. Apesar de a parte de baixo ser flexível, mesmo elástica e firme, a ponta era extremamente frágil e quebradiça. Então, me dei conta de que, toda vez que procurava ajeitar aleatoriamente o emaranhado de ramos, eu mesmo partia suas pontas e condenava a planta ao nanismo. Depois disso, procurei orientar para a posição adequada cada ramo individualmente, tocando apenas em suas partes mais firmes, inferiores. Demorou um pouco, mas a planta vicejou. A verdade é que, até aquele momento, a praga daquela planta era o seu jardineiro afobado.

Tratar cada planta como um indivíduo do jardim foi uma descoberta muito significativa. Enquanto algumas exigem cuidados diários, para outras esses cuidados diários se tornam um estorvo. Algumas aceitam ser manipuladas, outras, principalmente nas regiões de brotos, o simples calor humano ou toque das pontas dos dedos as condena à morte. É mesmo curioso, mas essas mesmas plantas que rejeitam o contato humano, por mais afeto que se imprima nele, aceitam bem ser manipuladas com hastes de metal ou de bambu.

E há eventos com as quais temos simplesmente que nos conformar: algumas plantas crescem rapidamente, tornam-se altas e frondosas, enquanto outras crescem lentamente, nunca atingem grandes alturas e seus galhos são, embora elegantes, finos como taquaras.

Some-se a isso que é necessário sempre contar com as ervas daninhas, que devem ser eternamente removidas, pois sempre voltam, seja por um pedaço de raiz ter permanecido oculto na terra, seja pela ação do vento, que não cessa de semeá-las.

Porém, há ainda, é preciso reconhecer os limites de nossa condição, as perdas, algumas inevitáveis e extremamente dolorosas. 

Quando uma planta é acometida por uma doença de difícil detecção, e cujo tratamento é tardio ou ineficaz, ela fatalmente fenecerá. Se foi bonita e frondosa, se foi frágil e elegante, dela ficará apenas a lembrança e, eventualmente, as sementes ou mudas que gerou. Nesse caso, o carinho para com as sementes e as mudas deve ser redobrado, para que o patrimônio da espécie não sofra risco de extinção e, pelo contrário, resulte em novos frutos e sementes.

Nossa luta por um mundo mais justo se parece muito com um jardim, em que os jardineiros são aqueles que pugnam por transformações verdadeiras, aqueles que os republicanos espanhóis, em sua luta contra o fascismo, chamavam “juventude do mundo”.

Mas isso é uma analogia, uma licença poética, que requer o máximo de cuidado e atenção da parte de quem a recebe, pois o mundo dos dias atuais não é exatamente um jardim para todos e, embora revolucionários sejam uma espécie de jardineiros, sua seara é de esperanças e sonhos, que não são nada se não brotarem do povo, se não estiverem enraizados no povo, e se não florescerem e frutificarem para o povo.

(Capitulo 13 d'OJovem Mandela)


NOTAS

1) Duas das atividades mais apreciadas por Nelson Mandela eram a jardinagem e a horticultura. Quando estudante cuidou do jardim de um dos professores de Fort Hare, como uma de suas atribuições extraclasse. Tão logo lhe foi permitido, cultivou na ilha de Robben hortaliças e tomates, que inclusive chegaram a abastecer modestamente a cozinha da penitenciária. Sem nunca perder oportunidade para extrair lições de tudo na vida, Mandela aproveitou essa sua inclinação para refletir sobre o movimento de luta contra o apartheid. Em sua autobiografia ele observou: “De certa forma, eu via a horta como uma metáfora para certos aspectos de minha vida. Um líder também deve cuidar de sua horta; ele também planta sementes, e então observa, cultiva e colhe o resultado. A exemplo do jardineiro, um líder deve se responsabilizar pelo que cultiva; ele deve ocupar-se com seu trabalho, tentar repelir os inimigos, preservar o que pode ser preservado e eliminar o que não pode prosperar” (Mandela, 2012, p. 597-598)

2) Em março 1980 o jornal Johannesburg Sunday Post estampa em primeira página o slogan da campanha internacional LIBERTEM MANDELA! Idealizada por Oliver Tambo e pelo CNA, agora uma força poderosa e irresistível, a campanha personaliza no prisioneiro 466 da ilha de Robben todo o esforço pela libertação dos presos políticos da África do Sul e pelo fim do apartheid. A partir desse momento, a história se acelera também dentro da penitenciária: a estratégia de aniquilação dos líderes da luta pela liberdade fracassou. A semente da liberdade, plantada com cuidado por todo o país, inclusive dentro das prisões, e regada amorosamente pelo sacrifício de milhões de africanos ao longo dos anos, tornou-se uma árvore frondosa, que começa a dar uma exuberante florada, cujos frutos eclodirão em abundância a partir do final dessa década.

3) Leia também: África do Sul faz festa para comemorar os 95 anos de Mandela.

4) Leia no formato youblisher clicando aqui.



Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.








quinta-feira, 18 de abril de 2013

AMANDLA! NGAWETHU! (O poder! Tá com a gente!)

DAQUI A CINCO MIL ANOS um pai contará para seu filho dormir a lenda de um herói. Essa lenda dirá de um menino do Transkei, que calçou o primeiro par de sapatos quando ingressou um tanto tardiamente na escola, que viu e viveu os piores tormentos da vida humana, mas que, a despeito de todas as previsões funestas, liderou seu povo a uma vitória definitiva sobre as mais abomináveis formas de opressão e humilhação do homem sobre o próprio homem. Essa lenda que atravessará os milênios futuros terá um nome: NELSON ROLIHLAHLA MANDELA.


Num momento em que pelo Brasil se espalham manifestações nas quais se misturam anseios legítimos da população historicamente oprimida com palavras de ordem francamente racistas, autoritárias, suprematistas e intolerantes, e num momento em que o guerreiro Madiba, herói de Soweto, herói da África, herói da humanidade, parece querer dar paz a seu corpo já alquebrado por tantas lutas coletivas e pessoais, sempre é bom convocar sua força, que permanecerá em todos os democratas e revolucionários do mundo pelos séculos a afora.


A pobreza no sertão da África do Sul, as condições aviltantes dos trabalhadores nas minas de diamantes mais profundas do mundo, a miséria nas favelas de Johanesburgo, a opressão das populações negras e de origem indiana, concretizada no sistema de apartheid, levaram bem cedo o jovem Nelson Rolihlahla Mandela a escolher entre o conforto de uma vida alienada e os riscos da luta contra o regime de segregação racial.


Fundador da Liga da Juventude do Congresso Nacional Africano (CNA), Nelson Mandela tornou-se o principal líder do mesmo CNA, e um dos mais significativos protagonistas da história humana contemporânea. Sua vida se confunde com  a própria luta pela democracia e pela liberdade e, embora o território principal de suas ações tenha sido sua África do Sul mergulhada em um dos sistemas políticos mais abomináveis conhecidos, o apartheid, a indignação contra a injustiça de que foi vítima e  os reflexos de sua vitória definitiva sobre o regime de segregação racial  ecoaram, e ecoam ainda, por todo o mundo.

Da infância de pés descalços no sertão africano, no início do século XX, à presidência da república, conquistada na primeira eleição verdadeiramente livre em seu país, ao fim do mesmo século, Mandela seguiu um roteiro de aprendizagem, persistência e esperança que lhe deu forças para suportar sucessivas perdas de amigos, assassinados sob tortura ou em confrontos com o apartheid; de familiares, com os quais sempre manteve fortes laços de afeto; além de uma sentença de prisão perpétua absurdamente injusta, a partir de um julgamento de exceção,  forjado nos mínimos detalhes para eliminar do caminho  os opositores do regime racista.

No interior da prisão da ilha de Robben, em que cumpriu a maior parte dos 27 anos em que esteve encarcerado, Madiba, como também é conhecido entre os amigos e parentes, organizou o que ficou conhecido como Universidade Mandela.

Essa iniciativa de educação geral e de formação política reuniu, anos a fio, em debates, palestras e verdadeiras aulas, com currículo estabelecido pelos próprios participantes, até mesmo os guardas do presídio. Muitos jovens condenados à ilha de Robben, após cumprirem a pena, voltaram para a luta antiapartheid mais bem preparados do que quando nela ingressaram. O amor de Mandela pela juventude está estampado em seu sorriso – que, quando se abre, o torna um menino novamente, um legítimo representante da “juventude do mundo”, expressão muito empregada por sua geração de “lutadores da liberdade”, como, com justiça, também se autodenominavam.

Torço com o coração apertado para que os jovens que agora tomam as ruas do país reflitam e se mirem na vida e na luta desse eterno jovem, que sacrificou tudo e a quem roubaram nada menos que 27 anos de vida, convertida em doação também para os jovens do Black Consciouness, de Steve Bico, quando estiveram presos com ele em na ilha de Hobben.


Se virarem as costas para esse verdadeiro gigante do humanismo e da luta pela justiça social, terão virado as costas para a própria história. Como sabemos, quem nega o passado, anda às cegas. Não posso esconder que, nestes dias de junho de 2013, os protestos sem rumo padecem dessa ignorância.


*          *          *




Neste livro, Jeosafá Fernandez Gonçalves, Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, com especialização nas relações  Brasil-África, constrói um enredo ficcional em que literatura e realidade se articulam para dar corpo às angústias e às ações de um dos mais importantes personagens da história contemporânea mundial. A partir de cuidadosa pesquisa bibliográfica, o autor traça neste O jovem Mandela os passos decisivos da formação do homem e do líder que derrotou de maneira insofismável o apartheid.

Ao mesmo tempo em que retrata o homem (empregando para esse retrato, como um palimpsesto, o registro de outros que passaram por experiências análogas ),  o autor oferece ao leitor os fatos históricos, uns dramáticos e mesmo trágicos, outros gloriosos, que serviram de placenta a uma epopeia em si plena de grandeza – e que ecoará certamente pelos séculos afora.

O autor é escritor de obras de ficção, poesia, teóricas e didáticas voltadas para temas de língua portuguesa e literatura. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo, doutorou-se também nessa área, na mesma USP, em 2002. Sua pesquisa de Doutorado voltou-se para as relações entre Brasil e África, o que impôs o estudo de vasta bibliografia sobre os movimentos de independência nesse continente e sobre os principais líderes africanos do século XX, entre os quais, Nelson Mandela.


Concentrando suas atividades nas fronteiras entre literatura e realidade, o autor tem desenvolvido nos últimos anos projetos em que pesquisas bibliográficas, documentais e de campo servem de fontes para a produção ficcional, a exemplo deste O jovem Mandela e do ciclo de romances urbanos sobre a cidade de São Paulo ERA UMA VEZ NO MEU BAIRRO, que põe em cena aspectos sociais e históricos das cinco grandes regiões de São Paulo: Zonas Norte, Leste, Sul, Oeste e Centro.

Artigos n'O Estado de S. Paulo
Um romancista da cidade: Na ficção, uma viagem por São Paulo.
120 anos do viaduto do Chá: Pequena chama pequena demais.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Flaubert é inocentado, mas por razões erradas

Selecionei alguns trechos do processo que envolveu Flaubert, quando da publicação de seu clássico Madame Bovary. O conjunto do processo faz parte da edição do romance publicado pela Editora Nova Alexandria (São Paulo, 2007), cuja tradução amplamente reconhecida e elogiada é de Fúlvia Moretto.


Tanto o libelo de acusação quanto a peça de defesa giram em torno de pretensas ofensas à moral pública e à religião. O promotor público acusa o romancista de imoral e de atentar contra a religião do Estado, enquanto o defensor o apresenta como um moralista da melhor cepa e de respeitador dos dogmas cristãos.

Ora, o judiciário, aqui também, se revela um teatro de gosto duvidoso, que nem de longe necessita quer da verdade (com o que devia se preocupar), quer da verossimilhança (que,no caso da literatura,  não é absolutamente de sua conta). Historicamente, para a "justiça" dos poderosos, uma história precária, contada de forma a dar álibi para Pilatos lavar as mãos, é o bastante.

É óbvio que a acusação contra o autor é uma forma ridícula de atores de segunda categoria (o promotor e a corte, que inclusive se arroga a prescrever na própria sentença o que deva ser a literatura), apanharem carona na notoriedade do escritor, o que obriga o defensor menos a provar a inocência de seu cliente e amigo, mais a livrá-lo da arapuca montada por invejosos, de má consciência e ainda pior caráter.

Seja como for, vão aí trechos que destaquei, entre outros que valem a pena conhecer, na mesma edição:

*     *     *

O Ministério Público
Ação do ministério público interposta pelo advogado Imperial, Sr. Ernest Pinard

Assinalo aqui duas coisas, senhores, uma pintura admirável sob o ponto de visa do talento, mas uma pintura execrável do ponto de vista da moral. Sim, o sr. Flaubert sabe embelezar suas pinturas com todos os recursos a arte, mas sem a cautela da arte. Não há nele nenhuma gaze, nenhum véu, é a natureza em toda sua nudez, em toda a sua crueza!

Insipidez no casamento, poesia no adultério! Ora é a degradação do casamento, ora é sua insipidez, mas é sempre a poesia do adultério. Eis, senhores, as situações que o sr. Flaubert gosta de pintar e infelizmente pinta bem demais.


A defesa
Defesa apresentada pelo acusado por meio do advogado sr. Sénard

O sr. Flaubert não é um homem que vos pinte um encantador de adultério para fazer em seguida chegar o deus ex machina; saltas-te com demasiada rapidez da página que lestes para a última. O adultério em sua obra é somente uma sequência de tormentos, de pesares, de rermosos; e além disso, chega a uma expiação final, assustadora.

O advogado de defesa citando Lamartine em entrevista com Flaubert:

Ao mesmo tempo que vos li sem restrição até a última página, censurei as últimas. Fizeste-me mal, fizeste-me literalmente sofrer! A expiação é proporcionalmente maior do que o crime; criastes uma morte horrível, assustadora! Geralmente uma mulher que mancha o leito conjugal deve esperar uma expiação, mas esta é horrível, é um suplício como nunca se viu. Fostes muito longe, fizeste-me mal aos nervos; este poder de descrição, nos últimos instantes de morte deixou-me um indizível sofrimento!

A sentença

Visto que Gustave Flaubert protesta seu respeito pelos bons costumes e por tudo que está ligado à moral religiosa [...];

Que ele somente cometeu o erro de perder às vezes de vista as regras que todo escritor que se respeita nunca deve ultrapassar e de esquecer que a literatura, como a arte, para cumprir bem o que é chamada a produzir não somente deve ser casta e pura em sua forma e em sua expressão;


O tribunal os absolve [Flaubert, o escritor; Pichat, o editor; e Pillet, o gráfico!] da incriminação de que foram acusados e os dispensa sem custos.


*     *     *

Assim, a sentença favorável a Flaubert, seu editor e o gráfico não se deu pelos motivos justos, quais sejam o de que não o romance ou seu autor são imorais, mas o de que a sociedade burguesa é que é imoral, e o de que há imoralidade no romance é o que vazou dessa sociedade para a literatura. Porém, não se diga que a sentença se deu por erro judicial: se deu pelo caráter farisaico do judiciário burguês, que vige hoje pelo mundo, quem há de negar?

Nesse caso, menos mau que o farisaísmo tenha resultado em justiça, ainda que enviesada, ao grande escritor francês



quinta-feira, 11 de abril de 2013

O albatroz, de Charles Baudelaire

Preparando um volume de ensaios de Silviano Santiago, dei com um poema de Baudelaire que li na adolescência e início de juventude, quando caí de cabeça nas Flores do Mal, do poeta francês. Pode não ter sido um sentimento bom, mas me acometeu a incontrolável vontade de traduzir o poema, que encontrou em nossa língua a versão de Guilherme de Almeida.

Se o sentimento incontrolável de traduzir pode ser desculpado, a tradução não tem esse benefício, pois pode ser julgado pelo leitor. Honesto que sou, dou ao leitor essa prova do crime: minha tradução. Porém, para que não me pese sobre os ombros uma sentença dura, dou ao leitor também, antes de meu crime, o texto em francês e a tradução de Guilherme de Almeida.

Leitor, deleite-se com os dois primeiros, e não julgue com excessiva severidade o último. Voilà.
 

L'albatros
Charles Baudelaire

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

BAUDELAIRE, Charles. "Les fleurs du mal". Oeuvres complètes. Paris: Robert Laffond, 1980.



O albatroz
Tradução: Guilherme de Almeida

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
A asa de gigante impedem-no de andar.

Baudelaire, Charles. "O albatroz". Tradução de Guilherme de Almeida. Magalhães Junior, R. Antologia de poetas franceses do século XV ao século XX. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.




O albatroz
Tradução: JeosaFá

Acontece de, gozação de marujos de convés,
Caçarem albatrozes, imensos pássaros dos mares,
Que seguem, preguiçosos companheiros de marés,
O navio deslizante sobre fossas tumulares.

Uma vez presos e jogados sobre pranchas da embarcação
Esses reis do anil, zonzos e desengonçados,
Despencam suas alvas asas tangidas de desolação
Para escorregando se equilibrarem com esses remos improvisados.

Que João-bobo, esse pássaro, forçado a voos de galinha!
No céu tão grácil, que palhaço de circo de periferia
Se torna esse bicho enxovalhado com brasa de cachimbo!
Já outro o moqueia imitando-o em sua pantomima!

O poeta é um tipo de príncipe do espaço sideral
Que brinca com a tempestade e se ri do arqueiro que o mira.
Porém, preso ao chão, em meio às galinhas de quintal,
Arrasta as asas pensas sem nenhuma serventia.