segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Jorge Amado, o nosso capitão de areia


Artigo para a revista PRINCÍPIOS, Outubro de 2012, escrito a partir de dois outros, já publicados neste blog e na obra Entre Livros (São Paulo, Plêiade, 2012.)

No centenário do nascimento de Jorge Amado, um romance significativo de sua obra, Capitães de Areia, cuja primeira edição foi incinerada pela ditadura do Estado Novo, em 1937, continua a assombrar mentalidades reacionárias, atormentadas por um fantasma que ameaça seu mundo: a justiça social.





No ano de 2009 tive a honra de defender Jorge Amado junto ao Ministério Público do Estado de São Paulo. Este, como Carlos Gardel –  que depois de morto canta cada vez melhor –, continua atazanando as consciências culpadas das elites paulistas egressas da revolução de 32.

Setores empedernidamente reacionários da sociedade paulista, que plantam conservadorismo nas consciências desavisadas para colher votos nas eleições, continuam enxergando no grande escritor baiano inúmeras vezes cotado para o prêmio Nobel um subversivo instigador da juventude e, agora, a esta altura do século XXI, um aliciador de menores.

Esse setor, acérrimo adversário do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por entender que esse mecanismo de preservação de direitos “protege bandidos”, recorreu ao próprio ECA para sustentar suas argumentações inquisitoriais e falso-moralistas. Segundo essa parcela de mentalidade medieval da sociedade brasileira, o livro Capitães de Areia contém trechos pornográficos que ferem o Estatuto da Criança e do Adolescente, o que justificaria sua cassação do currículo escolar - o mesmo livro que, queimado pela ditadura do Estado Novo, foi aceito no currículo escolar por uma outra ditadura igualmente ou talvez mais feroz, qual seja a militar.

Milton Hatoum, no prefácio da edição mais recente dessa obra (São Paulo, Cia. Das Letras, 2008) em circulação há décadas na rede pública estadual, discorre sobre o impacto que em sua formação, toda ela ocorrida nos anos de chumbo, exerceu esse livro contundente, multipremiado, objeto de um sem número de dissertações de mestrado e teses de doutorado pelo Brasil e pelo mundo afora, e traduzido para mais de 20 diferentes idiomas da Terra.

A defesa técnico-pedagógico-literária que fui convidado a realizar na oportunidade, na condição de Doutor em Letras especializado na obra do escritor soteropolitano, foi contundente e convincente, o que sustentou a permanência dessa obra essencial de nossa literatura na sala de aula de nossas escolas públicas e nas mãos e nos corações de nossos estudantes.

Porém, no ano de 2010, em agosto, sempre esse mês aziago, um promotor público, movido por estranhos e impulsos, mandou recolher Capitães de Areia das escolas de uma cidade do interior de São Paulo, o que foi  feito sob o silêncio sorridente do então governo Serra.


Capitães de areia, convertido para o cinema e cuja estreia ocorreu em outubro de 2011 (Dir. Cecília Amado, neta do escritor, e Guy Gonçalves), é uma obra significativamente representativa da fase da obra de Jorge Amado que o projetou no cenário literário brasileiro e dele para o mundo.  A seguir, reproduzo o texto de um documento histórico, bastante esclarecedor da relevância desse livro para a literatura brasileira e para a consciência democrática:

ATA DE INCINERAÇÃO
Aos dezenove dias do mês de novembro de 1937, em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros, nesta cidade do Salvador e em presença dos senhores membros da comissão de buscas e apreensões de livros, nomeada por ofício número seis, da então Comissão Executora do Estado de Guerra, composta dos senhores capitão do Exército Luís Liguori Teixeira, segundo-tenente intendente naval Hélcio Auler e Carlos Leal de Sá Pereira, da Polícia do Estado, foram incinerados, por determinação verbal do sr. coronel Antônio Fernandes Dantas, comandante da Sexta Região Militar, os livros apreendidos e julgados como simpatizantes do credo comunista, a saber: 808 exemplares de Capitães da areia, 223 exemplares de Mar morto, 89 exemplares de Cacau, 93 exemplares de Suor, 267 exemplares de Jubiabá, 214 exemplares de País do carnaval, 15 exemplares de Doidinho, 26 exemplares de Pureza, 13 exemplares de Bangüê, 4 exemplares de Moleque Ricardo, 14 exemplares de Menino de Engenho, 23 exemplares de Educação para a democracia, 6 exemplares de Ídolos tombados, 2 exemplares de Ideias, homens e fatos, 25 exemplares de Dr. Geraldo, 4 exemplares de Nacional socialismo germano, 1 exemplar de Miséria através da polícia.
Tendo a referida ordem verbal sido transmitida a esta Comissão pelo sr. Capitão de Corveta Garcia D'Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque e a incineração sido assistida pelo referido oficial, assim se declara para os devidos fins.
Os livros incinerados foram apreendidos nas livrarias Editora Baiana, Catilina e Souza e se achavam em perfeito estado.
Por nada mais haver, lavra-se o presente termo, que vai por todos os membros da Comissão assinado, e, por mim segundo-tenente intendente naval Hélcio Auler, que, servindo de escrivão, datilografei. (assinados)
Luís Liguori Teixeira, Cap. Presidente
Hélcio Auler, Segundo-Tenente Int. N.
Carlos Leal de Souza Pereira

(Transcrito do jornal Estado da Bahia, de 17-12-37).
FONTE: Duarte, Eduardo Assis. “Literatura e Cidadania”. Campinas, UNICAMP Disponível em http://www.unicamp.br/iel/memoria/Ensaios/leitura%20e%20cidadania.htm. Acesso em 22 agosto 2012.

A queima dessa obra em 1937, em sua primeira edição pela Livraria José Olympio Editora, marca um dos períodos mais obscurantistas da vida brasileira. Porém, não deixa de ser curioso que, se essa ditadura condenou Capitães de Areia, a que veio depois não viu nesse livro qualquer grande risco, uma vez que em 1966 ele fazia parte do currículo oficial e era lido por adolescentes do país.

Sobre esse particular, é esclarecedor o Posfácio de Milton Hatoum à edição de Capitães de Areia realizada pela Cia. Das Letras. Diz o insigne ficcionista brasileiro à pagina 273:

"Em 1937 Capitães de Areia foi censurado e depois queimado em Salvador", disse minha professora de português, quando eu estudava no Ginásio Amazonense Pedro II, em Manaus. A frase da professora aumentou a curiosidade dos estudantes por esse romance, um dos livros obrigatórios do curso de literatura brasileira. Por sorte, a leitura deu prazer aos jovens leitores. Agora, ao reler a história dos meninos do trapiche, encontrei o mesmo deleite, mas com outro olhar: o leitor de 1966 não é o mesmo de 2008.

Milton Hatoum nasceu em 1952, portanto em 1966, em plena ditadura militar, aos 14 anos de idade, ele era “obrigado” a ler – com prazer, confessa – o mesmo livro que a muitos partidários da censura ainda hoje, em plena vigência do regime democrático, causa comichões e apoplexia, como a atitude desse agente do ministério público obscurantista bem serve de exemplo e alerta. 

Não deixa de ser espantoso que uma ditadura tenha queimado a obra, junto com outras do mesmo autor e de outros, enquanto outra ditadura, por muitos considerada mais feroz, a tenha acolhido para leitura de adolescentes em início de puberdade.

Ray Brabury, em seu Fahrenheit 451, trata exatamente desse triste assunto: o da censura e queima de livros por mentalidades e regimes obscurantistas.

Nesse excelente romance, que já nasceu clássico e que foi adaptado para o cinema por François Truffaut, Ray Bradbury discorre sobre um futuro não muito distante, quando os livros, proibidos, serão incendiados junto com seus possuidores, convertidos, por um modo de vida e um regime totalitários, em horda de leitores clandestinos e potencialmente perigosos . O livro é uma contundente alegoria contra regimes autoritários, para os quais nada pode haver de mais perigoso do que certos tipos de livros.
No posfácio da edição de 2003 (São Paulo, Editora Globo, 2003) o autor norte-americano diz:

Esfole, desosse, desmonte, escarifique, derreta, encurte, destrua. Todo adjetivo de quantidade, todo verbo de movimento, toda metáfora que pesasse mais que um mosquito – eliminados! Todo símile que teria feito a boca de um submentacapto se contorcer – desaparecido! Qualquer paralelo que explicasse a filosofia barata de um escritor de primeiro nível – perdido!

(...)

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos.

Algumas leituras apressadas de Capitães de Areia, ao acusarem o livro de “libidinoso”, “imoral”, e mesmo “pornográfico”, fazem eco a práticas da censura e da queima de livros, quando o que está em jogo nesse romance é o abandono de crianças largadas à sua própria sorte e obrigadas a realizarem sua aprendizagem nas ruas, onde são exploradas e violentadas todos os dias.

Nesse caso, pornográfico não é o livro, mas, a miséria que ele tem a coragem de denunciar na forma de romance.  Porém, quanto a isso, a mesma mentalidade que caça livros para incineração no interior de São Paulo, silencia, e ri, indecentemente.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Vidas Secas


Resumo de aula
Prezados Alunos do curso de Metologia II da História-USP:

Em primeiro lugar, devo agradecer ao Professor Marcos Silva e a vocês a oportunidade de voltar a ministrar uma aula para o Ensino Superior. Desde que pus o pé na estrada da vida de escritor profissional exclusivamente, há seis anos, não enfrentava uma turma de alunos. Fiquei emocionado e me senti  um tanto enferrujado – tomara não os tenha decepcionado, nem ao amigo que me convidou. Em segundo lugar, vamos ao que interessa:

Os métodos de uma ciência ou de uma atividade intelectual específica podem ser extrapolados  para outras, todavia, com os devidos cuidados e ajustes. Os métodos da história (mas também os da Sociologia, Antropologia, da Geografia e das ciências ditas da natureza) foram amplamente empregados pela literatura, particularmente a partir do século XIX, seja na produção de obras literárias estrito senso, tais como romances, contos, poesia e teatro, seja na produção teórica tais como história literária, crítica ensaística, literatura comparada etc.

O chamado naturalismo explorou descobertas do evolucionismo darwinista, do positivismo comteano, do pessimismo sterneano à larga para representar literariamente a vida das sociedades ou para criticar e estudar textos. Aluísio Azevedo, no Brasil desse mesmo século, enquanto artista das palavras, não foi o único, nem o último, tampouco Silvio Romero enquanto historiador e crítico.

A busca de representar por meio da literatura a realidade climática, social, intelectual, emocional de uma época foi experimentada por vários autores brasileiros, entre os quais, a nossa joia da coroa, Machado de Assis.

Porém, tanto o desenvolvimento incipiente das ciências sociais, quanto o império das ciências biológicas sobre as demais resultou, num momento em que essa ciências resvalavam para explicações rácicas e mesmo racistas do homem, numa hipervalorização de aspectos relativos ao meio e à genética para explicar as relações sociais.

Assim, a aplicação mecânica de métodos originários principalmente no campo da biologia e da botânica evolucionistas levaram a literatura a depositar muitas vezes na conta da natureza as injustiças sociais resultantes da exploração do homem pelo próprio homem, no âmbito do império do capital.

Euclides da Cunha, citado em nossa aula, buscou explicação na genética e na natureza para a resistência do homem nordestino, que para ele seria antes de tudo “um forte”, mas por razões de adaptação do indivíduo, ao longo do tempo, ao meio inóspito, responsável por selecionar os mais aptos e mais fortes - assim, ele encontrou séria dificuldade para explicar como Canudos, um ajuntamento de esfarrapados e fanáticos, derrotou por várias vezes um exército bem armado e treinado.

Para Graciliano Ramos de Vidas Secas, objeto de nossa aula, o sertanejo é também um forte, mas não apenas por gozar de boa compleição física: ele é forte porque tem um sonho: alcançar as terras do sul, que também são suas para ver seus filhos bem tratados e na escola. O sul também é seu, uma vez que é brasileiro, e todo o Brasil lhe diz respeito e lhe pertence.

Muito se tem enfatizado nesse clássico de nossa literatura o aspecto bruto de Fabiano, sua linguagem feita de ruídos guturais, sua resistência aparentemente animalesca. Porém, dói nele ter de matarem o papagaio para comerem, tanto quanto o tortura pôr fim à amiga baleia, tratada como membro da família até que o drama se impusesse de forma violenta e incontornável.

A apropriação da realidade feita por Graciliano Ramos em Vidas Secas, como de resto em todos seus demais romances e biografia (Memórias do Cárcere), apoia-se não numa aplicação mecânica de teorias, métodos analíticos e interpretativos oriundos de campos das ciências da natureza, mas da reflexão sobre conquistas teóricas já no campo das ciências humanas, entre as quais a História, a Geografia human e a Sociologia, que na chamada Escola do Recife desenvolve um pensamento autócone, voltado para nossa realidade, para o bem e para o mal, haja vista o luso-tropicalismo freyreano. Porém, Graciliano se apoia igualmente, e com crescente ênfase, no marxismo teórico e militante, de que tomará partido franca e definitivamente.

Vidas secas, diferentemente de Os sertões situa os problemas cruciais da literatura não nas relações entre homem e meio, mas nas relações injustas, desniveladas e de exploração do homem pelo próprio homem.

O drama que afeta a família de retirantes - representativa das milhares e mesmo milhões envolvidas no mesmo drama - é mais social do que climático , uma vez que a exploração rural aproveita o flagelo da seca para lançar seus tentáculos sobre as terras abandonadas pelo agricultores arruinados.

Estes vão-se embora, enquanto os donos do latifúndio, tão logo as terras sejam abandonadas, avançam suas cercas por sobre elas, de maneira que, superada a seca, seu império territorial se veja acrescido substantivamente, para uma nova fase de exploração concentrada da terra ainda mais aguda.

Subjacente ao drama de Fabiano, Sinhá Vitória, dos filhos mais velho e mais novo, Baleia e papagaio, está a luta de classes, que na nova etapa de acumulação de capital aberta pela revolução de 30, necessita de mão de obra para as lavoura de São Paulo e para a indústria nascente, com seus capitalistas ávidos por lucro fácil a partir de força de trabalho mal remunerada em escala industrial.

É por essa razão que Graciliano Ramos amargará futuramente o cárcere em Ilha Grande, e é também por essa razão que se filiará ao Partido Comunista: seu projeto literário, solidário da luta pelo fim da exploração do homem pelo próprio homem, não se contenta em pôr nas intempéries climáticas a culpa de injustiças decorrentes da ganância capitalista: os pobres sofrem na exata proporção em que os ricos concentram riqueza.

Agradeço a oportunidade de lhes ter ministrado aula na simbólica sala Edgard Carone, da Faculdade de História da USP.  E sendo o patrono dessa sala um guerreiro da liberdade e da justiça social, convido-os a lerem e a postarem comentários no Manifesto em defesa das bibliotecas públicas e escolares de São Paulo e por um política do livro e de incentivo à leitura em nosso município, clicando aqui:

Fórum de Cultura e Educação

Amplexos a todos do
Jeosa

domingo, 29 de julho de 2012

Leitura e Paródia

Este texto, foi publicado na década de 1990 em meu LIVRO DO PROFESSOR, volume sobre práticas de ensino de literatura para os Ensinos Fundamental e Médio, publicado pela Editora Plêiade. Nas próximas postagens, publicarei os demais, com eventuais atualizações.



Rir é o melhor remédio


COTA ZERO
Stop.
A vida parou
ou foi o automóvel? 
Carlos Drummond de Andrade

Fato ocioso para a literatura é o que o autor quis dizer com o que escreveu. No entanto não há dúvida mais presente e insolúvel do que esta. E, porque insolúvel, deve ser descartada?

Que pretenderá Drummond ter dito com o poema com que iniciamos este texto? Ponhamo-nos todos a fazer análises, conjeturas, indagações que vão da filologia à semiótica. E estejamos certos de que nenhuma explicação responderá à nossa questão inicial: nenhuma leitura que fizermos de nenhum texto será a leitura do autor: será sempre a nossa leitura. E, mais importante que nossa, uma nova.

O poema de Drummond é uma realidade textual. Ponhamos o poeta a lê-lo uma, duas, dez vezes. Cada leitura do poeta será uma paráfrase do poema. E por que a leitura do poeta é mais válida do que qualquer outra?  E por que haveria, dentre todas as leituras feitas pelo próprio poeta, uma que fosse a verdadeira, a original, a genética? Eis aqui uma questão a ser explorada.

Objetividade e subjetividade

Nas escolas, a maior parte do ensino de leitura restringe-se à decodificação mecânica dos signos linguísticos, silenciosa ou vocal.  O aspecto decodificador é o mais pobre e inexpressivo da atividade de leitura. Poderíamos chamá-lo até de grau zero da paráfrase, já que a referência ao texto que se lê é direta e a atualização deste na leitura é feita à base da quase não-ação do sujeito-leitor: a atividade do leitor restringe-se ao papel decodificador, não desdobrando-se em atividade interpretadora, portanto subjetiva.

Num outro estágio do ensino de leitura, joga-se com a hipótese de que haveria uma maneira correta de se ler o texto. Com base nessa hipótese, facilmente se encontrará falhas na leitura dos textos feita por alunos e mesmo pelo professor. Porém, falhas à luz de qual leitura correta? A do autor? A do professor, entendido como especialista da área? A dos críticos que contribuíram na formação do professor? A do senso comum?

O fato é que toda leitura é uma paráfrase. E se a leitura do professor é uma paráfrase mais sofisticada, nada impede que ela não tenha nada a ver com o texto parafraseado, posto que a subjetividade é inerente a sua ação.

Então, qual é o problema?

O problema é que, enquanto fica-se à caça do que “teria sido a intenção do autor”, atividade frustrada na origem,  ou de uma verdade única que explique o texto, perde-se a oportunidade de explorar o texto na sua concretude e nas suas infinitas possibilidades de leituras, todas relativas, nunca absolutas, portanto, mais corretas ou menos corretas a depender do ponto de vista, dos critérios adotados e do desempenho tanto de quem lê quanto de quem eventualmente ouve a leitura.

Aliás, cada um lê em um texto o que quiser, inclusive o que está escrito. Ou não? Se não, então a paródia não existe. Sucede que a paródia existe.


Paródia e paráfrase

A realidade de que podemos ler num texto tudo quanto quisermos é exposta pela paródia. Enquanto a paráfrase encerra uma respeitosa reverência ao texto parafraseado - o que é uma excelente máscara para a atividade ostensiva do sujeito parafraseador, a paródia erige-se como peça abertamente desprendida do texto fonte.

A paródia explicita a subjetividade do sujeito que a constrói – contrariamente à paráfrase, que a mascara – e afirma o texto parodiado por constituir-se polo antitético, negativo e destruidor.

De que modo devemos ler  “Cota Zero” de Drummond? Devemos lê-lo rindo? Ou talvez com voz monótona? Devemos lê-lo com expressividade ou com uma voz grave e neutra? Devemos imitar Drummond? Mas, como era mesmo Drummond? Tímido? Como será ler um poema timidamente? Haveria mais de uma forma de leitura tímida? E se Drummond se permitisse, vez por outra, menos sisudez?

E mais, por que deveríamos ler um poema de Drummond à maneira drummondiana, se o que nos atraiu no seu poema foi o que vimos de nós nele, poema?

Questionar é sempre um ótimo passo, se bem que sempre em falso, porém, isso aqui não vem ao caso, e uma vez toda e qualquer leitura implica em risco de maior ou menor grau, então assumamos esses riscos e leiamos o poema à nossa moda. Mas qual mesmo é o nosso modo de ler?

A realidade é que se só temos uma maneira de ler, então somos muito pobres. Pobres como talvez não haja maior pobreza.


Paródia: um caso

A paráfrase é uma paródia amaneirada, que rouba do texto parafraseado a sua autoridade e que mascara a subjetividade do parafraseador. Penso que no ensino de leitura ou de literatura devemos acusar a paráfrase como Cristo acusou aquele beijo. A paráfrase é falsa. E não vai se enforcar nunca.

Numa atividade de leitura, entendida aqui como prática vocal e interpretativa, portanto hermenêutica – a leitura silenciosa não nos interessa aqui –, a paródia permite a destruição dos textos por meio de todas as armas que o sujeito parodiador detém. A leitura paródica permite, por isso, que o sujeito-leitor mobilize toda sua capacidade de leitor-apreendedor e criador, produtor de sentidos.

Todo sujeito possui meios de penetrar os sentidos possíveis de um texto. Se não o faz é porque os seus meios são desmobilizados ou simplesmente censurados, no caso da escola, muitas vezes pelo próprio professor, que considera válidos – dada a sua crença na paráfrase – somente os seus instrumentos de averiguação, sacralizados pela sua formação especializada – e se houvesse somente leitores especializados a própria literatura como a conhecemos hoje inexistiria!

Ao montar uma leitura paródica, o estudante é forçado a inventar os cânones da sua própria teoria literária. Em atividades de leituras paródicas, durante os muitos anos de docência para a Educação Básica e para o Ensino Superior, percebi que cada estudante realizava uma gama de tipos de paródias e não outra. Isto porque construiu em sua mente um instrumental de particular teoria literária que validava certas destruições de textos, mas que evitava outras.

Na leitura de um poema de Ferreira Gullar, “Verão”, uma turma toda de 7ª. série chegou à conclusão de que o poema não se prestava a uma leitura “melada”, lírica, por causa da incidência dos “ãos” e da mensagem de resistência que claramente encerra.

Isso, não seria um grau bastante elaborado de consciência acerca dos problemas técnicos da leitura e da literatura? O cruzamento de explicações de ordem fonológica com explicações de ordem semântica foi mobilizado pelas inúmeras leituras paródicas realizadas – que só eram certas ou erradas à medida em que tudo o é.

Todavia essas paródias não conseguiram desmontar um sentido fortemente construído pelo Gullar-poeta. E exato aquilo que não foi possível desmontar por meio da paródia é que saltou aos olhos dos sujeitos interpretadores que, vencidos, por descobrirem os limites das suas ações interpretativas, venceram, por refugarem conscientemente atribuições de sentido que o poema não admitiria.

Paródia: outro caso

Grande vantagem da leitura paródica é que ela, construída sobre texto parodiado, autoproclama-se autônoma, diferentemente da paráfrase, que depende de comunicação recorrente com o texto fonte. E nisso a paródia põe em evidência as habilidade do leitor-interpretador.

Parafrasear o professor é o que todos fazemos quando não desejamos “complicar” nossas “notas”. Contudo, a paródia não tem essa função referencial e utilitária: é sempre poética.  Um leitor que parodia não apenas apreendeu uma gama dos sentidos possíveis do texto de que se vale, mas  excluiu outros tantos sentidos, e criou sobre o texto parodiado o seu próprio texto.

Sobre este aspecto verificamos, nas centenas – talvez milhares – de leituras realizadas nos cursos que servem a esta nossa reflexão que a paródia mal construída acabava virando uma paráfrase bastante aceitável. No entanto, os próprios estudantes pugnavam por afastar-se da paráfrase, tão evidente ficou tratar-se de um recurso modestíssimo do processo de ensino-aprendizagem.

Outro caso: paródia faz milagre!

Houve o caso particular de dois estudantes com extrema dificuldade de leitura, quer entendida como atividade interpretadora, quer entendida como atividade decodificadora, quer entendida como atividade vocal. Gago um e “envergonhado” o outro, por motivo da sua leitura silábica e de sua auto-atribuída feiura física, ambos excluíam-se das atividades coletivas. Durante leituras “normais”, parafrásicas, não houve o que os demovesse da decisão de auto-isolamento, nem o que os tirasse da situação estéril mas confortável em que se meteram.

Com as atividades de leituras deliberadamente paródicas coletivas a turma sentiu-se mais livre e mais segura em relação às censuras e críticas do professor e dos colegas. O fato de que inicialmente toda a turma teve dificuldades em apreender as técnicas experimentadas igualou todos na situação de iniciantes. Descobriu-se por fim que o estágio de prática de leitura pública da imensa maioria era semelhante: gaguejos, omissão de palavras, os olhos a perderem-se de linha e mesmo de parágrafo, dicção ruim por conta da falta de prática – ao ponto de realizarmos exercícios faciais para melhorar a pronúncia geral de todos.

Nossos amigos venceram a autocensura, que era mais violenta do que a censura dos colegas e do próprio professor. Desandaram a praticar em casa, orientados particularmente pelo professor e perderam o medo da exposição.

Numa atividade que consistia na leitura de um texto em velocidade crescente descobriu-se que o nosso amigo gago lia perfeitamente bem em velocidade crescente. E quanto maior a velocidade, melhor lia. O outro, o tímido, ao perceber que progredia, afundou-se em leituras domiciliares em frente ao espelho. Relatou que tinha mais dificuldades quando ficava ansioso, por isso queria, ao ler diante do espelho, ver a cara que tinha ao errar a pronúncia.

O caso acima ilustra como o próprio estudante foi à luta contra suas limitações, inventando inclusive uma  técnica bastante defensável: a do espelho. Sua leitura saltou de silábica, no curso de pouco tempo, para um estágio mais corrente. Já com a sua feiura, não houve o que fazer – não vou aqui perder a piada, uma vez que ele a deu de bandeja.

Paródia: sem contraindicações

Os estudantes, ao montarem suas leituras paródicas, mobilizaram todos os seus conhecimentos, selecionando entre eles os adequados aos propósitos desejados. Todavia, tinham grande consciência de que aquelas eram suas leituras. Passaram a pugnar pelo direito de que suas leituras fossem aceitas, debatendo questões de ordem literária, filosófica, gramatical e mesmo idiossincráticas. A leitura do professor foi entendida como mais uma, dentre inúmeras possíveis.

De toda essa atividade o que mais importa é que a prática de leitura paródica mobilizou os conhecimentos dos estudantes. O texto em estudo foi mastigado, digerido, destruído, reconstruído sob os ângulos mais surpreendentes e o texto, a obra, foi mantida no centro do estudo o tempo todo. Acreditamos que isto é mais importante do que emitir receitas. E, para não perder também esta piada, vamos a uma receita.


RECEITA

  • Selecionar um trecho de sermão do Padre Vieira. Distribuir cópias desse trecho aos estudantes.  Solicitar aos estudantes que acompanhem a leitura do professor. O professor inicia a leitura de um modo e altera-a paulatinamente.
  • O professor prossegue a leitura – acompanhado pela classe – desviando-a para a imitação de um discurso de tribuna.
  • O professor, acompanhado pela turma, faz uma outra leitura, agora irônica, do texto.
  • O professor escolhe um estudante para realizar uma leitura paródica, a qual todos acompanharão em voz alta.
  • O professor propõe tipos de leituras públicas individuais selecionando estudantes para realizá-las. Os restantes estudantes ouvem as leitura feitas pelos colegas, criticam-na e realizam as suas próprias leituras, que serão também alvo de comentário do professor e dos outros colegas.
  •  O professor separa em grupos os estudantes, que realizarão leituras concorrentes do mesmo texto.
  • O professor organiza um menu  de leituras (romântica, modernista, exaltada, pessimista, irônica, sarcástica etc., de acordo com o item curricular em estudo) e os estudantes propõem-se a realizar esta ou aquela, sendo avaliados pelo público da sua própria turma acerca do grau de eficácia e dos desempenhos alcançados.

Indicações

Aconselhável para todos os casos.

Contraindicações

Não se tem histórico.

Reações adversas

No princípio podem ser observados processos de resistência, que todavia cessam diante da manutenção da terapia.

Advertências 

No estudo das escolas e dos estilos literários, pode-se avaliar até mesmo a profundidade de entendimento do estudante pela leitura pública dos textos literários. A leitura mecânica dos textos literários indica baixíssimo grau de apreensão dos sentidos envolvidos. 

A administração de qualquer nova terapia deve seguir acompanhamento cuidadoso. A associação desta terapia com música pode causar dores-de-cabeça na sala ao lado. Particularmente se pretender-se parodiar um texto usando Carmina Burana ou o Bolero de Ravel como base musical.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Leitura literária na escola

QUESTÃO DE SINTONIA

Este texto foi publicado na década de 1990 em meu LIVRO DO PROFESSOR, volume sobre práticas de ensino de literatura para os Ensinos Fundamental e Médio, publicado pela Editora Plêiade. Nas próximas postagens, publicarei os demais textos, com eventuais atualizações.

Lembro os leitores que na Bienal do Livro deste ano, em São Paulo, lançarei, pela Edtiora Nova Alexandria, ZONA SUL, o terceiro romance de minha série ERA UMA VEZ NO MEU BAIRRO.

1
Este texto nasceu e cresceu da necessidade de sistematizar algumas experiências doces e não tão doces adquiridas durante a minha atividade de professor de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental e de Ensino Médio do ensino regular e do supletivo. A bem da verdade, as experiências “não tão doces” estimularam-me mais à produção deste texto do que as bem sucedidas.

Isto porque me pareceu não haver sentido em refletir acerca de coisas que deram certo num ou noutro momento. Não sei se erro, mas parece-me que as coisas que dão certo morrem potencialmente: nosso time foi campeão; ótimo, mas o que fazer dessa realidade, a não ser comemorar? Nosso time foi mal no torneio: há já aí uma questão viva a ser tratada, pensada, mastigada.

 2
Ao mesmo tempo professor do curso regular de Ensino Fundamental, durante o dia, e  do curso supletivo, durante a noite, senti a necessidade de estabelecer comparação entre as duas atividades. Por motivo de objetividade, tratarei apenas da questão leitura-literatura, que é o tema central destas reflexões. E por motivo de ordem ética não se especificará o estabelecimento de ensino em que as experiências se deram.

 3
 A convicção de que o texto é o objeto central do trabalho de leitura encontrou resistências. Da parte da direção do estabelecimento de ensino, da parte dos estudantes e da parte dos colegas. Não por questões teóricas, mas por questões práticas.

4
Os estudantes do curso regular estavam habituados com as famosas “fichas de leitura”. Do total de aulas semanais de Língua Portuguesa, apenas duas aulas estavam reservadas à leitura e à produção de textos, nas quais o item “ortografia” era a questão dominante, da 5a. à 8a. série. Mas o item “ortografia” dividia espaço ainda com a atividade de leitura silenciosa. As restantes aulas consistiam em overdoses de manuais de gramática.

No curso supletivo a questão era dramática: língua portuguesa tornara-se sinônimo de análise sintática. Não é necessário dizer que as aulas de Língua Portuguesa tornaram-se a maior unanimidade da escola: eram absolutamente detestadas.

5
Confesso que, de início, foi uma grande tristeza descobrir que a língua de Camões, de Pessoa, de Machado, de Graciliano, de Amado, de Drummond, de Mário, de Bandeira, de Clarice, de Braga, de Gullar, de Trevisan, de Vinicius, de Chico, de Gil,  de Cartola, de Elis, de Dalva, de Maria, de João, de José, de Ednalva, minha e tua era detestada.

6
Que fazer?

7
Obviamente, primeiro, comer o pão que o diabo amassou.  Depois, mas não muito depois, na verdade quase junto a isto, iniciar uma campanha de amplo esclarecimento das opiniões conflitantes, das divergentes, das opostas e das radicalmente contra  qualquer mudança.

De início a campanha sofreu ataques. Mas depois, sofreu verdadeiros bombardeios. Enfim, as forças contrárias eram tão poderosas que decretaram que eu era um chato. E que não valia a pena perder tempo comigo. Então decretaram que minha punição seria implementar aquilo pelo que eu tanto os aborrecia: o simples direito de, alterando o planejamento, reservar à leitura, como conteúdo curricular, não apenas como prática de ensino, o espaço que lhe é devido.

8
Foi aí que começou o inferno deles.

9

As 5as. e 6as. séries toparam de saída. Combinamos as mais incríveis técnicas de leitura. Dentre elas, algumas foram torpedeadas de saída. O conto “O ciclista”, de Dalton Trevisan, fez sucesso e polêmica - e barulho, muito barulho.

Combinou-se que iniciaríamos a leitura, todos os quase quarenta alunos mais este professor que vos escreve, numa velocidade tão lenta que “desse nos nossos nervos”. Paulatinamente acelerando a oração, teríamos de atingir o máximo de velocidade de leitura,, sem comer palavras ou sílabas pelo caminho, e o máximo de harmonia entre as vozes.

Em uma aula, uma aula, não mais que uma aula, a técnica estava implementada. E os erros coletivos e individuais relativos à aprendizagem da técnica eram saboreados às gargalhadas.

Propôs-se que  alguns estudantes fossem selecionados para testar a técnica individualmente. Problema instalado, pois o clima de segurança e de não-censura estimulou todos a candidatarem-se.

Passado um tempo, descobriu-se que toda a turma treinava em casa para a aula de leitura. Égalité, liberté, fraternité.

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Fui chamado à diretoria do estabelecimento: as técnicas de leitura estavam atrapalhando as aulas dos outros colegas.

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Os alunos da 7a. e da 8a. séries foram reclamar à diretoria que o professor de português não ensinava as novas técnicas de leitura que ensinava às 5as. e 6as. séries.

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Numa reunião com os outros professores, acertaram-se pontos-de-vista. Programando e deslocando conteúdos, as práticas de leitura foram mantidas e ninguém se sentiu prejudicado.  O professor da sala vizinha àquela em que seria aplicada a ruidosa técnica de leitura programaria sua aula de modo a que as práticas pedagógicas não entrassem em contradição.

Obviamente que problemas continuaram a ocorrer. Todavia eram já problemas de adequação concreta, tais como: “Amanhã vou aplicar aquela técnica do barulho, tem jeito?” ou “Amanhã vai haver prova, será que dá pra...” É lógico que dá. Sempre acaba dando.

Mais tarde foi que refleti sobre o fato de que as práticas adotadas nas  aulas de leitura promoveram uma verdadeira alteração nas práticas dos outros colegas. Como que com susto verifiquei as proporções e extensões das atividades a que me propusera:  minha ação, transformada pelas ações de outros colegas e de professores do curso superior, agiu sobre a ação dos outros colegas, numa reação em cadeia.

Compreendia-se a resistência: era todo um cotidiano escolar em vias de ser alterado, não apenas o fórum interno das aulas de língua portuguesa.

Logo outros professores estavam experimentando novas técnicas e práticas em suas disciplinas específicas. Já se conversava sobre práticas adequadas a conteúdos, relações entre práticas disciplinares, resultados positivos ou negativos de práticas pedagógicas etc.

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O curso supletivo foi outra história. Os professores já insistiam por maior criatividade e liberdade na aplicação dos seus conteúdos específicos. Vencida a resistência da direção do estabelecimento, o problema centralizou-se nos estudantes.

As duas maiores de resistências vieram na forma de oposição à leitura coletiva de textos: muitos achavam “infantilidade” semelhante prática,  outros argumentavam que “ninguém poderia obrigá-los a ler”. Dois enfrentamentos, duas barreiras a serem transpostas. Tanto melhor que fossem duas - se os antigos estivessem certos  “quem tem um não tem nenhum”.

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Convenci a coordenação pedagógica e a direção escolar  da necessidade de que a leitura fizesse parte do planejamento não como prática pedagógica, mas como item de conteúdo. Pronto. Agora já podia-se avaliar o aluno pela sua leitura - entendida aqui como atividade vocal e interpretativa. Aqueles que desejavam ser obrigados conseguiram-no.

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A 7a. série supletiva ajudou a dissolver o argumento da “infantilidade”. Todos, adultos e bem-humorados, toparam as atividades: leram Mário de Andrade como um coral de canto gregoriano;  leram Mário como uma narração de futebol, leram Mário como numa marcha militar, leram Mário-funk, Mário-rap, Mário-samba, Mário-pagode, Mário-baião, Mário-triste, Mário-alegre, Mário-exaltado.
E tentaram ler Mário-Mário, para tanto realizando pequena pesquisa sobre o poeta. Houve divergências sobre como Mário leria o seu próprio texto. E houve divergência sobre quem era Mário. E aqui não houve sintonia. Mas até aí...

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 Até hoje ninguém sabe quem é Mário.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Morre Ray Bradbury

Em 2010 publiquei neste espaço esta resenha para Fahrenheit 451. Neste dia triste, reproduzo-a, em respeito a esse gigante que foi Ray Bradbury.


Fahrenheit 451


Trad. Cid Knipel

Este excelente romance de Ray Bradbury já nasceu clássico. Adaptado para o cinema por François Truffaut, trata de um futuro não muito distante, quando os livros, proibidos, serão incendiados junto com seus leitores.

É uma contundente alegoria contra regimes autoritários, para os quais nada pode haver de mais perigoso do que certos tipos de livros. O que está em questão, aqui, é menos a ficção científica e mais a denúncia contra a censura e contra todos os totalitarismos.

O livro, na edição em questão, conta ao início com uma breve biografia do autor e com um esclarecedor prefácio, de Manuel da Costa Pinto. Ao final, escritos pelo próprio autor, dois contundentes textos alertam o leitor para práticas nocivas de censura que, apoiadas em senso comum ou em preconceitos, resultam no mau hábito de se amputar textos literários destinados à escola.

Nessa história cheia de simbolismos e alegorias, um bombeiro – numa época em que eles só são úteis para pôr fogo em livros – vê a fé em sua profissão paulatinamente ruir. A amizade com uma jovem vizinha, participante de uma comunidade clandestina de leitores, acrescenta dúvidas a sua insegurança acerca da ordem incendiária vigente.

Num mundo em que a ordem totalitária impera, só resta a clandestinidade e a marginalidade àqueles que não se encaixam nos padrões impostos literalmente a ferro e a fogo. Forçados a viver num mundo sem livros, os leitores mais radicais passam a se refugiar em áreas excluídas da urbe e a decorar obras inteiras, de modo a que o patrimônio intelectual seja preservado ao máximo enquanto cada um viver.

Diz um personagem, após uma hecatombe nuclear que, durando um segundo, faz toda a cidade opressora desaparecer do mapa:

“Agora, vamos subir o rio (...). E nos concentrar num só pensamento: não somos importantes, não somos nada. Algum dia, a carga que estamos carregando [os livros que decoraram inteiros, como fossem bibliotecas vivas e ambulantes] conosco poderá ajudar alguém. Mas, mesmo quando tínhamos os livros às mãos, muito tempo atrás, não usávamos o que tirávamos deles. Continuávamos a insultar os mortos. Continuávamos a cuspir nos túmulos de todos os infelizes que morreram antes de nós. Durante a próxima semana iremos encontrar muitas pessoas solitárias, tal como no próximo mês e no próximo ano. E quando perguntarem o que estamos fazendo, poderemos dizer: estamos nos lembrando”.




Lembrar-se no caso, não da catástrofe nuclear, mas de cada palavra, cada vírgula do texto que, proibido em versão impressa, foi decorado, como o fazem os atores de teatro.

Em certo sentido, o autor de Crônicas Marcianas e Algo Sinistro Vem por Aí nem sabia que estava inventando, em 1953, antes mesmo da internet, uma versão muito mais sofisticada do que o e-book.

Comparar o romance com o filme de François Truffaut é inevitável, até porque, embora ambos sejam primorosos, há enormes diferenças entre um e outro.

Agora, um  poema de Mário Quintana a Ray Bradbury:

Ray Bradbury - Mário Quintana

Eu queria escrever uns versos para Ray Bradbury,
o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas
como no tempo em que acreditávamos no Menino Jesus
que vinha deixar presentes de Natal em nossos sapatos empoeirados de meninos
e nada tinha a ver com a impenetrável Santíssima Trindade.
Era no tempo das verdadeiras princesas,
nossas belíssimas primeiras namoradas
- não essas que saem periodicamente nos jornais.
Era no tempo dos reis verdadeiramente heráldicos como os das cartas de jogar
e do bravo São Jorge, com seu cavalo branco, sua lança e seu dragão.
Era no tempo em que o cavaleiro Dom Quixote
realmente lutava com gigantes,
os quais se disfarçavam em moinhos de vento.
Todo esse encantamento de uma idade perdida
Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar
e os nossos antigos balõezinhos de cor
agora são mundos girando no ar.
Depois de tantos anos de cínico materialismo
Ray Bradbury é a nossa segunda vovozinha velha
que nos vai desfiando suas historias à beira do abismo
- e nos enche de susto, esperança e amor.

Mário Quintana

FONTE: Bardbury, Ray. Fahrenheit 451. Trad. Cid Knipel. São Paulo, Ed. Globo, 2003.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um poema antigo

Interrompo a sequência de textos sobre literatura que têm lugar neste blog para apresentar ao leitor um poema cometido pelo poeta Cíbio Bote, nos idos dos anos 90, e publicado pela editora Plêiade em Dois poetas Paulistanos, no ano de 2007. Como em minha série de romances Era uma vez no meu bairro a questão da geografia é importante, essa rosa dos ventos estranha me diz muito respeito. Divirtam-se com os versos possíves de serem formados a partir de leitura em sentidos horário, anti-horário, em cruz, em linha, em espiral etc.



quinta-feira, 15 de março de 2012

O monumento do Borba Gato está afundando

Os acontecimentos em ZONA SUL orbitam em torno da bizarra estátua do Borba Gato, do escultor Júlio Guerra, inaugurada em 27 de janeiro de 1963. Digo orbitam, mas digo mal, pois as histórias dos quarenta e um episódios se passam em torno, acima, embaixo e mesmo dentro do seguramente mais polêmico monumento da cidade, que desperta pasmo em quem o vê de frente e ojeriza em que o vê pelas costas.
Este monumento situa-se exatamente sobre o que virá a ser a estação Borba Gato do Metrô, linha lilás, afundada em lama,cujas fraudes afofam o solo para receber a escultura bizarra.

Para produzir o texto, realizei uma cuidadosa reportagem fotográfica da região, numa área triangular que se estende da bifurcação das avenidas Santo Amaro e Adolfo Pinheiro até a Cidade Dutra, já à margem do autódromo de Interlagos, com o terceiro vértice situado no aeroporto de Congonhas. Isso geograficamente falando, pois também me debrucei sobre a imigração espanhola no Brasil, a partir de coleta de relatos de descendentes e pesquisa bibliográfica, num espaço de tempo que remonta ao distante ano de 1808, quando os franceses tinham ocupado a Espanha e Madri se encontrava levantada contra os invasores.

Por isso, dizer que o palco principal dos acontecimentos é o monumento do Borba Gato não é dizer tudo, pois o enredo que une os quarenta e um episódios de Era uma vez no meu bairro - ZONA SUL, se do ponto de vista cronológico parte desse ano perdido no tempo, geograficamente parte de uma Madri ocupada e mergulhada em fuzilamentos, passando ainda por terras do interior paulista, ziguezagueando pelo interior da Bahia e não deixando de fora nem mesmo uma certa região chilena dos Andes envolta em neblina, gelo e não menos sangue.

A genealogia estilhaçada pela violência no volume ZONA NORTE vai sendo , assim, recomposta com cacos do passado guardados na memória familiar não como relíquia, mas como elementos vivos, sem o quais todos os esforços de superação individual e coletiva perdem a coerência e mesmo o valor.



Em torno do Borba Gato, assim, orbitam valores, porém em crescente conflito. Muitos desses valores estão relacionados à tradição bandeirante, que em suas manifestações mais nocivas e anacrôncias alimenta ainda nos dias de hoje uma elite anquilosada e patética, que opõe paulistas ao restante do Brasil, desprezando a realidade inconteste do caráter mestiço, híbrido e generosamente solidário de nossa cultura, em que estão presentes caipiras e nordestinos, japoneses e gaúchos, italianos e espanhóis, libaneses e eslavos, alemães e índios entre muitas, muitas e muitas outras contribuições oriundas de toda parte do mundo.


Para explicitar o anacronismo e a natureza caquética dessas elites orgulhosas de seu passado de caçadoras de índios e negros, ousei incrustar no texto ficcional do romance trechos representativos de documentos senão oficiais, ao menos públicos, contemporâneos, em que essa arrogância “bandeirante” e biliosa, difusora de ecos revanchistas da revolução de 32, se apresenta nítida e bisonhamente.


O leitor identificará no corpo dos respectivos episódios essas incrustações. Tendo curiosidade, poderá digitar no Google frases dessas incrustações e será remetido diretamente ao documento público fonte. Seguramente se espantará pela nitidez do tom amargo e provocativo desses discursos que, ai de nós, são proferidos por nossos governantes atuais. Também, com certeza, não tivera eu aqui apontado a natureza real desses discursos, o leitor consideraria esses trechos de meu ZONA SUL a mais delirante caricatura dos políticos conservadores que ora não sei se nos governam ou importunam. Ai de mim,quisera eu que essas incrustações fossem fruto de minha fantasia predisposta ao exagero e, às vezes, à galhofa. Porém, não.



Por enquanto, mais não digo. Em breve informarei outras curiosidades de Era uma vez no meu bairro – ZONA SUL, que, antes de tudo, é fantasia, diversão – que se não dispensa a galhofa, muito menos lágrima sentida.