segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mozart das lavadeiras




JB foi despertado do flash back de entrevero socialista pela música profundamente linda e profundamente melancólica que, através da parede, chegava abafada a seus ouvidos, vinda do apartamento ao lado.
Embalou-se por alguns segundos na névoa de notas melodiosas, plásticas e entorpecedoras, levantou-se da banqueta, deu chauzinho para as fotografias do espelho e foi à campainha da vizinha, importuná-la talvez.
JB fez o que Nenê mandou. A mãe no tanque e a namorada na mesa de passar roupas se sobrepunham, condensadas pela música diluente de Mozart. Fosse qual fosse o dia da semana, aquele momento era um domingo à noite, desmaiado, perdido no tempo, ou melhor, solto num lapso atemporal.
Nenê, ali, concentrada nas volutas barrocas da sinfonia, a alisar a roupa amorosamente era todas as mulheres de Itaquera, todas as mulheres pobres do mundo, todas as mulheres trabalhadoras havidas e por haver, na lida de tornar a roupa mais macia para se vestir e a vida mais digna para se viver.
Deu um nó na garganta do cineasta, que observava a companheira como se ela fizesse parte da orquestra em transe na execução dos movimentos sinfônicos.
O primeiro andamento muito alegre da sinfonia número quarenta avançava célere, com Nenê exibindo virtuosos solos de ferro quente sobre camisetas de malha e calças de algodão. Jeans, regatas, camisas de todas as cores, fronhas ganhavam aparência de novas. Que dignas, que macias, que mozarteanas, que... humanas.
Um toque do dedo indicador de Nenê fez a música saltar. Agora era a Pequena Serenata Noturna.
As pilhas de roupas amassadas iam se reduzindo, enquanto as pilhas de roupas alisadas iam crescendo. Peças mais delicadas iam direto para cabides pendurados no varal provisório que cruzava a sala. Peças de gaveta, iam sendo dobradas com mãos de violinista.
Agora, a parte mais difícil, a que a mãe moça de João mais ouvia, ela que chorava sobre a água do tanque nesse momento tão lindo e triste: o do Andante do Concerto 21 para piano.
Nenê, firme na lida do ferro quente, tornou-se vaga, distante, nostálgica. Ou João estava efetivamente apaixonado, ou Nenê era a mulher mais linda mundo, ou Mozart revelava a beleza escondida sob o pano turvo da realidade, ou era tudo isso junto ao mesmo tempo.
A namorada alisava o pano, erguia a face, olhava através da janela do apartamento, cujo vidro aparava o chuvisco, e baixava novamente os olhos para a tábua de passar roupas. Faltava pouco, mas a expressão de cansaço somada à pungência do Andante tornavam o final de domingo uma peça interminável de beleza, angústia e atemporalidade.
As gotículas a cintilar no vidro da janela à luz de neon da rua lembravam o braço da vitrola a deslizar nas faixas lustrosas do LP de vinil, no qual um pouco de água da torneira sempre respingava.
João pensou que sua mãe também talvez odiasse lavar e passar roupa. Quem garante que o que a fazia derramar lágrimas na água do tanque não fosse a música do gênio barroco, mas o ódio da vida idiota em comparação com a música celestial?
Nenê levou o namorado pela mão à janela, abriu o vidro para o reflexo interno não atrapalhar a visão e apontou com o dedo indicador da mão direita a noite de chuvisco.
Em cada uma, num conjunto habitacional apinhado de prédios, uma mulher esfalfada, com pilhas maiúsculas de roupas para passar, encerrava o domingo melancólico.
João baixou os olhos, certo de que a vida sem arte verdadeira não tem a menor chance de ser digna:
No CDPlayer, o Segundo Movimento do Concerto para Clarinete estendia um Mozart humano, morno, suave e tristonho. Tangidas pelo vento, gotículas de chuvisco iluminavam-se próximo às luminárias de neônio, depois, sumiam-se na sombra.
Findo o Concerto para Clarinete, silêncio de prelúdio, quando a máquina busca o início da próxima trilha. Pronto, o leitor digital encontrou o que procurava, e um doce, gotejado, pungente som invadiu a atmosfera do pequeno apartamento como um vapor de água subido de ferro quente.
JB moveu-se lento no espaço exíguo e apanhou o estojo do disco. Parou os olhos na trilha do Concerto para Piano em Dó Maior, KV 427, número 21, Andante.
Confirmada a dúvida que espiralara ao compasso da harmonia impregnante, retornou a seu lugar, ao lado de uma Nenê cismada com as silhuetas escuras e ágeis nas janelas semiluminadas.
Nas janelas dos prédios envoltos na noite, silhuetas dançantes entre pilhas de roupas formavam um teatro mágico de sombras ao final de um domingo chuvisquento, melancólico mas não perdido em vãs divagações.


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Era uma vez no meu bairro
Zona Norte e Zona Leste
www.eraumaveznomeubairro.blogspot.com

domingo, 4 de setembro de 2011

Era uma vez no meu bairro - Zona Norte e Zona Leste

Há mais de vinte e cinco anos iniciei minha pesquisa por bairros de São Paulo. Obviamente, a pesquisa empreendida para fins de produção artística, por sua natureza, tem caráter e métodos próprios, que muitas vezes não coincidem com a pesquisa científica.

Coletei muita história oral, algumas memorialísticas, outras, fruto da invenção de quem contou. Mas coletei também imagens, ambientações, luzes, fotos de ruínas, de rostos, de ruas vazias, de tardes de chuvisco.

Em 1996 publiquei um resultado parcial dessa pesquisa a um tempo documental e sentimental: o volume de contos O Atirador de facas. Nesse volume de contos, os narradores mergulham de ponta cabeça em histórias da existência transtornada da metrópole. Há contos humorísticos, sardônicos, irônicos, dramáticos, poéticos que reviram as entranhas de personagens cujas vidas simbólicas foram inventadas a partir de fragmentos de conversas ouvidas na rua, em ônibus, em trens do metrô, à saída de um café. O conto mais emblemático desse resultado parcial é “Trabalhar em São Paulo”, que já rendeu roteiro de filme de curta metragem.

Um segundo resultado parcial dessa pesquisa do paulistano de todas as naturalidades e nacionalidades é o volume de poemas Dois poetas paulistanos, de 2002.  Nesse livro, poemas gráficos projetam, na forma de sombra, poemas líricos sobre calçadas do centro da cidade, ou, na forma de respingos, véu de chuva sobre telhados.

Foram dois passos importantes para um salto mais arriscado, preparado longamente, com paciência, e que, tão logo foi publicado Dois poetas paulistanos, foi dado: a produção de um ciclo de romances sobre a cidade, suas tragédias e sonhos, a partir da visão das regiões e bairros.

Já em 2007 planejei esse ciclo e iniciei a redação de Era uma vez no meu bairro – ZONA NORTE, que escrevi durante o ano de 2008 e publiquei em 2009, em formato de bolso. O livro fui muitíssimo bem recebido pelos leitores e sua edição inicial de dois mil exemplares esgotou-se rapidamente.

Apresentado o projeto do ciclo aalgumas editoras, a Nova Alexandria demonstrou entusiasmo em publicar todos os demais romances do ciclo, porém, em novo formato, mais nobre, mais vistoso, e com capas que são verdadeiras obras de arte, inclusive o ZONA NORTE.

Assim, minha pesquisa histórico-sentimental sobre São Paulo e sua gente, a partir dos olhos, da lógica e dos sentimentos dos moradores de bairros e regiões da capital, encontrou nessa editora, que tem em seu catálogo clássicos da literatura universal e brasileira em edições primorosas, o impulso necessário para tão largo e ousado salto.

Disso resulta que os volumes ZONA NORTE e ZONA LESTE serão lançados em outubro deste ano de 2011, e o cronograma de produção e publicação dos demais volumes ZONA SUL, ZONA OESTE e CENTRO já foi estabelecido: um lançamento a cada seis meses, até o último, em maio de 2013 – respectivamente maio e outubro de 2012 e maio de 2013.

Durante a redação dos dois primeiros romances, Zona Norte e Zona Leste, uma intuição que moveu a pesquisa se confirmou: se tivermos olhos para ver e coração para sentir, as histórias mais espetaculares podem ser captadas e registradas a partir uma simples volta no bairro em que se mora ou trabalha.

Nele, há o egoísta e sua solidão, o menino afundado no tédio de uma tarde de ruas vazias, sem ninguém para brincar, a senhora transida de dor a ir receber o auxílio funeral de seu filho, o adolescente, mochila às costas, curtindo seu sonho de jogador de futebol...

Evidente, há ruas mal varridas, outras descuidadas, e aquelas sempre congestionadas, nas quais os ocupantes dos carros de passeio e dos ônibus superlotados compartilham a sensação de impotência em face de um tempo de vida precioso jogado fora.

Também há os conflitos, os dramas, as tragédias, que se observadas pelo ângulo da ficção não são menos dolorosas, ao menos são compartilháveis – e, concordando com o poeta, é sempre melhor sofrer cantando do que sofrer calado.

Porém, tão certo quanto por detrás das paredes mal pintadas e sem reboco borbulha a vida, há também aí sonhos e esperanças, que resistem a tudo: ao córrego infecto a pôr tudo a perder na primeira enchente, ao político oportunista, à polícia violenta, aos bandidos sanguinários.

Ao escrever esses romances, minha intuição se confirmou: as histórias incríveis, lindas ou perturbadoras, moram perto de nós. Por fala nisso, já conversou com o porteiro do seu prédio hoje?


LANÇAMENTO

Era uma vez no meu Bairro
ZONA NORTE – Nova Edição.
 ZONA LESTE – Inédito.
Dia 18 de outubro de 2011.
Terça-Feira - 19:30h
Livraria do Espaço Unibanco de Cinema
Rua Augusta - São Paulo - SP

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes

Sob o signo da ambiguidade*

As menções que se fazem ao romance Os flagelados do vento leste, do escritor caboverdiano Manuel Lopes, freqüentemente estabelecem relações diretas entre ele e obras de autores brasileiros. Todavia, essas menções não são unânimes nem quanto aos autores, nem quanto às obras, nem quanto às classificações, nem quanto à natureza dessas relações (se de influência ou de livre apropriação).

A imprecisão no estabelecimento de tais relações tende a provocar uma distorção de juízo relativa a Os flagelados do vento leste: qualidades que lhe dão sentido como peça relevante de uma literatura específica do macrossistema das literaturas de língua portuguesa acabam relegadas a um segundo plano.

Esse reconhecimento de especificidade se vê freqüentemente perturbado por aproximações inescapavelmente hierárquicas, que alternam Brasil e Portugal na posição de matrizes culturais:

As idéias, já ultrapassadas, de Gilberto Freyre contribuíram, nos anos 40 e 50, para uma nova ideologia brasileira para exportação e que servia os interesses da burguesia nacional ao passo que dava certo prestígio ao Brasil na arena internacional. Assim compreendemos porque Balthazar Lopes e aquele grupo reduzido de amigos, que chegaram à maturidade intelectual nos anos 30, se viam tão inspirados pelo lusotropicalismo quanto limitados pela sua incapacidade de chegar a um tipo de compromisso entre o status político e a autonomia sócio-cultural do arquipélago. (Hamilton, Russel G. Literatura africana, literatura necessária. Lisboa, Edições 70, 1984, p. 98);

 (...) com a sua idéia do sucesso de um passado legítimo, de alguma maneira semelhante ao do Brasil, os intelectuais caboverdianos olhavam para o país sul-americano como um modelo e como uma sociedade irmã. (Idem, p. 122);

 (...) Os jovens do grupo’Certeza’ lançaram a sua revista sob a influência mais identificável do neo-realismo português e brasileiro (no caso do Brasil era uma questão da continuada e mais intensa influência dos nordestinos).(Idem, p. 125).

A busca de fontes de influência orienta não apenas a leitura de críticos, que visam estabelecer laços entre culturas, mesmo quando isso não resulte em hierarquização cultural: também os ficcionistas tendem a essa perspectiva, mesmo quando isso explique pouco a particularidade de suas obras:

Em Março de 1933, Balthazar Lopes escrevia no primeiro número do jornal semioficial Notícia de Cabo Verde que os cabo-verdianos deveriam ser ‘intransigentemente regionalistas’ para serem ‘inteligentemente portugueses’. Cada um poderia interpretar esta afirmação à sua maneira (Davidson, Basil. As ilhas afortunadas. Lisboa, Caminho, 1988, p. 67).

A aceitação desse ponto de vista – sobretudo de antemão – causa sérios prejuízos para o estudo concreto das obras, pois as enforma aprioristicamente num programa determinado.

Com relação à obra de Manuel Lopes, dois rótulos já se vão cristalizando, na senda do estabelecimento de fontes de influências e na de uma classificação literária peremptória, não sem implicações para sua recepção: o de que teria relação direta com o regionalismo nordestino brasileiro e o de que lhe cabe comodamente a classificação de neo-realista.

A leitura orientada pelo primeiro desses rótulos enquadra a obra do escritor caboverdiano sob o raio de influência estilística de uma das tendências do modernismo brasileiro; a que se faz direcionada pelo segundo, coloca-a também na órbita do neo-realismo português. Ou seja, sob dependência de duas literaturas, dois sistemas literários de língua portuguesa.

Quanto ao neo-realismo de Manuel Lopes e ao seu débito para com os escritores do chamado regionalismo nordestino brasileiro, vejamos o que já se observou, particularmente no tocante ao seu romance mais famoso:

Os Flagelados’ é um romance letúrgico-gótico (sic) algo na tradição de certos romances pós-realistas e positivistas, como o Canaã (1901) de Graça Aranha (1868-1931). Semelhante a esse romance brasileiro, Flagelados contém cenas arrepiantes de tragédias, crimes hediondos e sortilégios contados num estilo supra-realista e operático (sic) ( Hamilton, Russel . Cf. op. cit. 1984,  p. 155).

Assim como há espaço para considerá-lo neo-realista, há para considerá-lo outra coisa. Pós-realista seria sinônimo de pré-modernista? Além do mais, Canaã, versando sobre a imigração alemã no Estado do Espírito Santo, tampouco se enquadra nos limites da literatura regional nordestina.

A bem da verdade, a obra publicada de Manuel Lopes não constitui uma unidade homogênea desprovida de contradições e ambivalências. Por isso, classificações e aproximações taxativas explicam pouco de sua natureza. Tanto sua narrativa quanto suas técnicas só podem ser analisadas como resultantes parciais de um processo de maturação autoral coincidente com um momento bastante particular da vida de Cabo Verde, o da gestação da independência nacional, com toda sua complexidade, marchas, contra-marchas, contradições, antagonismos, soluções inesperadas e impasses políticos, econômicos, teóricos, ideológicos, culturais, lingüísticos e literários.

Se a aceitação prévia de classificações para fins de estudo muitas vezes resulta em erro, que dizer então quando elas nem são concordantes, como no caso particular da obra de Manuel Lopes?

De qualquer maneira, a quem caberia a responsabilidade por essas classificações por vezes díspares? Ao trabalho crítico? À obra do autor, ela mesma propícia a linhas divergentes de reflexões?

Creio que Os flagelados do vento leste, obra que maior prestígio angariou para Manuel Lopes, necessita ser compreendida como ponto de convergência das contradições e ambigüidades do próprio autor: neo-realista ou “gótico”, ou os dois e algo mais? Regionalista português? Nacionalista?

Ao propor o êxodo do excesso populacional como saída para a situação catastrófica do homem das ilhas, ele nos levaria a entendê-lo efetivamente como regionalista português:

A emigração foi o caminho que o Cabo-Verdiano buscou, não apenas quando era possível e fácil (lembre-se que a emigração começou com as baleeiras americanas, já no segundo quartel do século passado) mas agora e sempre, no objectivo de solucionar, à sua maneira, seus impasses financeiros. O caminho indicado, afinal, em circunstâncias tais como as presentes. Todavia, embora contrariada por toda espécie de obstáculos, a emigração representa, hoje, um contributo efectivo traduzido em divisas entradas e em melhoria do nível de vida das classe pobres com incidência no comércio (Lopes, Manuel. “Problemas e realizações”. Comunidades portuguesas. Revista trimestral da União das Comunidades de Cultura Portuguesa, no. 22, abril/1971, p. 33).

Já ao dar voz, por meio da linguagem literária, ao homem caboverdiano, poderia ser compreendido como um dos fundadores da identidade caboverdiana: 

[‘Galo cantou na baía’ é o] primeiro conto da literatura caboverdiana (Abdala Jr., Benjamin. (“Estado e nação nas literaturas de língua portuguesa: perspectiva política e cultural. Sentido que a vida faz – estudos para Oscar Lopes. 1 ed. Porto, 1997, p. 245.).

A obra de Manuel Lopes, Os flagelados do vento leste tomada como polo de comparação literária, ganha mais importância se problematizada nos diálogos com obras, autores e estilos por ela mesma propostos, do que se sua natureza específica e não poucas vezes contraditória for reduzida a classificações taxativas e submetida a uma sempre discutível contabilidade de influências que, mesmo quando estabelecidas, pouco elucidam.

O livro foi adaptado com o mesmo título para o cinema em 1987 por Antônio Faria.

* Parte de minha tese de doutorado em Letras.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Vidas secas, de Graciliano Ramos

Os Retirantes - Cândido Portinari, 1944.

UMA GEOGRAFIA DA INJUSTIÇA SOCIAL



Os brasileiros estão habituados a ouvir frases do gênero: “O Brasil é um país continental”, “Não existe um Brasil, mas muitos brasis”, “O Brasil é um país de contradições” e outras mais.


Os muitos brasis


Embora clichês, essas frases feitas não deixam de revelar um conhecimento, ainda que estereotipado, da realidade brasileira: uma das principais características do Brasil é exatamente a diversidade, sob todos os aspectos.

Com efeito, assim como não existe um tipo físico padrão de brasileiro – brancos, negros, mestiços, índios, descendentes de orientais, de árabes, de europeus, altos, baixos, todos comparecem com suas particularidades para dar à nação sua face diversificada –, também não existe uma paisagem que represente a identidade geográfica de todo o país: há o litoral e o interior, a Amazônia e o agreste, o pantanal e o pampa, o sertão e as metrópoles.

A própria ocupação territorial e a delimitação das fronteiras nacionais, que acabaram dando ao Brasil o formato de uma harpa, nas palavras do poeta, foram feitas por partes –– os casos das expedições bandeirantes e das lutas contra as invasões holandesas e francesas bem o ilustram.

A adaptação produtiva do homem às condições econômicas oferecidas pelo meio natural foi moldando o tipo de sociedade de cada região, e também foi povoando essa grande porção do mundo chamada Brasil de inumeráveis pequenas verdades, parciais, regionais e culturais tão particulares que lhe imprimiram traços locais de identidade.

Assim, a produção açucareira, no Nordeste, a extração da borracha, no Norte, a exploração das minas de metais preciosos e o cultivo do café, no Sudeste, a pecuária no Sul e no Centro-Oeste foram constituindo elementos de identidade regional sem os quais não se consegue compreender o Brasil.

A diversidade não se restringe apenas à adaptação do homem ao meio: além das diferenças culturais e físicas, o que é verdadeira riqueza humana, há os desníveis sociais e econômicos, que acentuam um lado pouco auspicioso das identidades e diferenciações: a miséria, cujo pólo oposto é a alta concentração de riqueza.

Compensa aqui uma visita ao índice de Gini:

"O índice de Gini é um indicador que mede a desigualdade da distribuição de qualquer coisa entre os elementos de um conjunto. Pode ser usado para indicar a riqueza ou a renda de um país entre seus habitantes ou a distribuição de propriedade da terra. O índice de Gini varia de zero até um. No caso da terra, por exemplo, ele seria igual a um se a totalidade da terra pertencesse a um único proprietário; e seria igual a zero se a terra fosse distribuída em partes absolutamente idênticas entre todos os proprietários. A concentração é considerada nula quando o índice de Gini está entre 0,000 e 0,100; fraca quando está entre 0,101 e 0,250; média, entre 0,251 e 0,500; forte, entre 0,501 e 0,700; muito forte, entre 0,701 e 0,900; e absoluta, entre 0,901 e 1,000." (Retrato do Brasil. São Paulo: Ed. Política, s. d. v.3, p. 62-64).

O índice de Gini, aplicado à questão da propriedade rural no Brasil, indica:

Tabela da concentração da terra no Brasil

Sul
Sudeste
Centro-Oeste
Nordeste
Norte
1960
0,727
0,771
0,845
0,846
0,944
1970
0,727
0,761
0,856
0,863
0,868
1980
7,43
0,769
0,844
0,861
0,835

Assim, quanto mais alto o índice de Gini, maior a concentração, neste caso, da terra.

Na Tabela da concentração da terra no Brasil há diferenças de concentração fundiária entre as regiões, mas todas elas, no ano de 1980, situam-se na categoria muito forte. Segundo o índice de Gini, significa que poucos proprietários detêm muitíssima terra e que muitos camponeses estão privados de qualquer propriedade.

A comparação da concentração da terra no Brasil com a de outros países revela dados eloquentes:

Tabela da concentração fundiária no mundo
Países
Índice de Gini
Concentração
Bélgica, Holanda e Noruega
0,300
EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia
0,400
Média
Argentina, Uruguai e Chile
0,550
Forte
Índia e Paquistão
0,700
Muito forte
Brasil
0,859
Muito forte
Brasil (incluídos os sem-terra)
0,923
Absoluta
(Idem, Retrato do Brasil).

Mesmo descontados os trabalhadores sem-terra, a concentração fundiária no Brasil, em 1980, era das maiores do mundo, superior à da Índia e à do Paquistão; considerados os sem-terra, o índice de concentração fundiária no Brasil torna-se ainda mais dramático, atingindo a faixa da concentração absoluta.

Com isso, os conflitos em torno da propriedade da terra tornam-se agudos, e a situação dos trabalhadores rurais e dos camponeses sem-terra nas regiões mais pobres e menos desenvolvidas economicamente torna-se desesperadora.

Assim, o êxodo rural brasileiro, a sociologia brasileira do século XX bem o demonstra, particularmente no que tange ao Nordeste do país, não se prende exclusivamente a fatores naturais, tais como a seca, mas também à forma de propriedade rural, que é essencialmente latifundiária e concentradora de terras e riquezas.

Esse aspecto diferencia, claramente, a seca brasileira e suas conseqüências sociais, econômicas, pólitícas e culturais, da seca caboverdiana representada por Manuel Lopes n’Os flagelados do vento leste.

Uma parte do Brasil se espalha por todo o Brasil


Apenas na segunda metade do século XX a população brasileira passou a residir, em sua maioria, nas cidades:

"(...) o movimento mais expressivo da população brasileira tem sido, de modo geral, na direção dos campos para as cidades. Entre as regiões, no entanto, o Nordeste foi a que mais perdeu gente. Em 1872, era a região mais populosa do país: 46,7% dos brasileiros ali viviam. O êxodo contínuo, porém, levou a área a ter, em 1980, menos de 30% do total de habitantes do país. Nesse período, enquanto a população do Nordeste teve um crescimento absoluto de oito vezes, a do Sudeste cresceu 22; a do Sul, 28; e a do Centro-Oeste, 41 vezes. Outro indicador: em 1940, cerca de 5% das pessoas naturais do Nordeste viviam fora da região, proporção essa que não parou de crescer. Em 1960, 11% dos nordestinos viviam noutras plagas; em 1970, já eram 13% e, em 1980, chegavam aos 17%."  (Idem, Ibidem, p. 413).

Antes disso, o Brasil era um país predominantemente agrário. Disso resulta que as tradições regionais estão bastante ligadas às tradições rurais: no Sul, o gaúcho, o cenário dos pampas, o caudilhismo; em São Paulo e Minas Gerais, as experiências da lavoura do café e da criação do gado leiteiro; no Nordeste, o sertanejo na sua luta pela sobrevivência na caatinga etc.

Algumas tradições e personagens sociais, no entanto, mantiveram sua órbita de circulação simbólica limitada à esfera da própria região – como a vivência dos pampas e seu personagem típico: o gaúcho –, ao passo que outras, por vários motivos, nacionalizaram-se e mesmo internacionalizaram-se.

Caso exemplar disso é a experiência da seca do Nordeste e da personagem social dela decorrente: o retirante, a abandonar a terra nos precários paus-de-arara:

"O mais importante [fluxo migratório] e mais antigo é o que se dá a partir do Nordeste via Minas Gerais, em direção ao Sul do país e, em menores proporções, ao Norte e ao Centro-Oeste." (Idem, Ibidem, p. 413.)

A seca do Nordeste é um drama regional que, pelas proporções alcançadas, se tornou comum a todos os brasileiros. Os ciclos desse flagelo espalharam pelo país, particularmente pelo Sudeste, um contingente inumerável de famílias levadas ao limite do desespero, no qual à desagregação do núcleo familiar, ao abandono da infância somam-se ainda mazelas como a degradação da condição feminina, que ganha nos grandes centros urbanos expressão no triste fenômeno econômico, político e social da prostituição.

As cenas se repetem ao longo do século XX, antes registradas nos jornais impressos, hoje também exibidas na televisão. Até o século passado, o Nordeste era a região mais populosa do país; no entanto, o êxodo rural alterou sobremaneira essa situação:

Tabela comparativa Nordeste-Sudeste
Dados em relação à totalidade do país
NE (%)
SE (%)

População
29,4
43,3
Universitários
15,9
60,4
População sem instrução
45,6
31,1
Médicos
18,0
58,5
Pessoas com renda menor que 1 salário mínimo
41,3
34,9
Pessoas com renda menor que ½ salário mínimo
48,8
30,0
Domicílios com luz elétrica
17,0
57,8
Domicílios com abastecimento de água
18,5
52,0
Domicílios com instalações sanitárias
11,3
68,2
IBGE – Censo Demográfico 1980; Anuário Estatístico 1983.



Como se pode depreender da tabela (dados do censo de 1980), embora possua quase 30% da população nacional, o Nordeste tem apenas 18% dos médicos, 15,9% dos universitários, 11% dos domicílios com instalações sanitárias etc. Esses números ajudam a entender o fenômeno do êxodo para outras regiões

A questão nordestina é tão importante que uma grande quantidade de livros de Literatura, História, Sociologia etc. foi escrita sobre ela. A vida dos sertanejos nordestinos foi parar também no cinema (por meio de diretores como Glauber Rocha, por exemplo), no teatro (por meio de autores como Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha) e na televisão (por meio de autores como Dias Gomes).

Uma parte do Brasil se espalha dentro da gente


Na Literatura, uma quantidade enorme de romances, contos, poesias e novelas foi escrita a partir da experiência do homem nordestino, e muitos autores notabilizaram-se ao abordar a temática regional infaustamente mais característica do Nordeste: o flagelo da seca.
No século XX, os autores do chamado, segundo alguns imprecisamente, regionalismo nordestino nacionalizaram as experiências do homem nordestino: José Américo de Almeida (A bagaceira), José Lins do Rego (Menino de engenho), Rachel de Queiroz (O quinze), Graciliano Ramos (Vidas secas), Jorge Amado (Seara vermelha), João Cabral de Melo Neto (Morte e vida severina) etc. etc. etc. Porém, desde o Romantismo, o regionalismo – com  a exploração de temas, personagens e linguagem locais – já era explorado pelos escritores brasileiros:

"A convicção de que o verdadeiro Brasil é o do sertão decorre do modo ‘caranguejo’ como se processou a colonização portuguesa, que procurou se concentrar no litoral, dada a dificuldade de penetração no interior do país. Essa convicção, de fundo nacionalista, reforça-se com a Independência, levando escritores a enveredar pelo sertanismo. José de Alencar (O sertanejo, 1876) e Franklin Távora (O cabeleira, 1876) são os escritores que melhor representam essa tendência, ao oferecer uma visão grandiloqüente e apocalíptica da seca de 1877." (Dácio Antônio de Castro, Roteiro de leitura: Vidas secas, de Graciliano Ramos. São Paulo: Ática, 1997, p. 21.)

A ficcionalização da realidade brasileira em seus múltiplos aspectos, desse modo, conta com tradição enraizada em nossa literatura, a rigor, mesmo anterior ao romantismo, decorrente de esforços de escritores e intelectuais cujos interesses se voltaram para o interior do país.


Uma parte que se espalha pelo mundo 

Cada autor que versou sobre o homem nordestino e especificamente sobre o retirante da seca deu a esse tema sua própria interpretação autoral, em que elementos de poética e de ideologia política se entrecruzam significativamente. Algumas dessas obras alcançaram amplo sucesso internacional, entre elas O quinze, de Rachel de Queirós, Seara Vermelha, de Jorge Amado e Vidas secas, de Graciliano Ramos.

A seca de Graciliano Ramos


Do ponto de vista temático, Vidas secas põe em discussão a propriedade da terra e o papel do poder na manutenção de uma estrutura fundiária iníqua:

"Sinha Vitória mandou os meninos para o barreiro, sentou-se na cozinha, concentrou-se, distribuiu no chão sementes de várias espécies, realizou somas e diminuições. No dia seguinte, Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar o negócio notou que as operações de sinha Vitória, como de costume, diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a diferença era proveniente de juros." (Ramos, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro, São Paulo. 1982. p. 93).

No romance de Graciliano Ramos, aspectos políticos e econômicos se destacam em meio ao flagelo da seca, o que se traduz em denúncia não do clima nefasto, mas da estrutura social nefasta, em que os proprietários levam vantagem até mesmo na ocorrência do flagelo:

"Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, sim senhor, via-se perfeitamente que ele era bruto, mas a mulher tinha miolo. Com certeza havia um erro no papel do branco. Não se descobriu o erro, e Fabiano perdeu os estribos. Passar a vida inteira assim no toco, entregando o que era dele de mão beijada! Estava direito aquilo? Trabalhar como negro e nunca arrajar carta de alforria!" (Ramos, Graciliano.Op. cit p. 93).

Vidas secas resulta da articulação de histórias enxutas em exíguas cento e vinte e poucas páginas, que nasceram separadas:

"Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como minha cachorra Baleia e esperamos preás." 'Carta à esposa Heloísa de Medeiros Ramos, de 7 de  maio de 1937'. (In Garbuglio, José Carlos. p. 241).

Graciliano Ramos,  tal como revela em sua carta à esposa, opta por congelar as ações, de modo a proceder criteriosamente à análise de seus significados e sentidos:

"É a quarta história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados." (Idem Garbuglio. p. 63).

Ainda do ponto de vista da estrutura narrativa, a participação do autor em Vidas secas se atém à constituição de um narrador que persegue os fatos e as personagens com objetividade, e que vasculha as particularidades com agudeza psicológica.

No tocante às personagens, em Vidas secas elas trilham o caminho do desterro. Porém, família retirante preserva não somente a identidade com a terra – seja na cor da pele, seja nos pés que recusam os sapatos, seja na roupa branca de festa que se tinge do vermelho da poeira –, como também mantém-se íntegra enquanto metáfora de núcleo social, de identidade grupal,  e por que não de classe , e de de integridade psicológica individual e coletiva.
A disjunção do binômio homem-terra opera-se fora das personagens principais: no soldado amarelo ou no patrão que evita exposição ao sol, o que fatalmente promoveria mimetismo terra-pele.

No procedimento empregado por Graciliano Ramos, a terra, espaço local, com tudo que há sobre ela, surge já no enunciado como espaço literário construído, despido de contextualização extraliterária. Seguramente uma das razões disso é que esse gênero de romance, no Brasil, conta com uma tradição que vem desde o século XIX e mesmo antes.

Outra, é que a sociologia brasileira, em que Gilberto Freyre não é nome secundário, oferecia já ampla matéria de reflexão aos ficcionistas, que, até por isso, se viram em condições de abordar certos temas sem maiores ditatismos.

Assim em Graciliano de Vidas secas, as descrições espaciais são sucintas e  e afastam de contextualizações extraliterárias que são abundantes, por exemplo de Os sertões, de Euclides da Cunha:

"Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala." (Ramos, Graciliano. Idem. 1982, p. 9.)

Do ponto de vista da linguagem, o autor alagoano, como os demais da chamada Geração de 30, não se furta de abordar o lado mórbido das experiências humanas em palavras diretas:

"É isso que leva o crítico Tristão de Athayde a assim se referir à década posterior: ‘Passou a hora das coisas bonitas’. Com efeito, um grupo de escritores norte-nordestinos mobilizou-se para tomar os problemas da região como pano de fundo de sua experiência literária." (Castro, Dácio Antônio de. Op. cit. p. 20.)

Graciliano o faz, todavia, por meio de uma linguagem contida, enxuta, em que as figuras, mesmo quando zoomórficas, afastam-se da alegoria e aproximam-se da ironia:

"Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida. Baleia jantara os pés, a cabeça, os ossos do amigo, e não guardava lembrança disso." (Ramos, Graciliano. Op. Cit. p. 11).
 
Vidas Secas é jornada árida na realidade local e social lastreada por uma tradição literária e sociológica importante a que Graciliano Ramos teve acesso e à qual se vinculou consciente e deliberadamente. Vidas secas aproxima-se de um certo mutismo, aliás, magistralmente representado no cinema por Átila Iório na premiadíssima versão de Nelson Pereira dos Santos. Porém essa tradição não se restringe a autores e intelectuais brasileiros ou de língua portuguesa. O crash da Bolsa de Nova Iorque teve repercussões nefastas por todo o mundo, com maior impacto nas áreas de influência direta dos EUA. John Steimbeck, Ernest Hemmingwai, John dos Passos entre outros, flagraram a procissão de deserdados a vagar pelos espaços continentais dos Estados Unidos em busca de uma lata em que receber a sopa doada pelo Estado semifalido durante a década de 1930.



Juan Rulfo, no México, não deixou por menos em seu O planalto em chamas (cuja nova tradução brasileira recebeu o título O chão em chamas).

O neo-realismo português é pródigo em autores e obras situados no âmbito mesma corrente estético-ideológica, crítica, contundente, com laços inegáveis com o marxismo.

Do neo-realismo italiano só compensaria falar se fosse para abrir todo um capítulo ou um livro inteiro dedicado, antes de tudo, a longas, derramadas e merecidas homenagens, seja no que tange à literatura, seja no que tange ao cinema –  que, aliás atraiu, tal como a Hollywood da época,  os melhores escritores, a exemplo de Alberto Moravia.

Em seu romance, Graciliano Ramos, tal como seus colegas de geração pelo mundo, fala de vidas secas, sim, porém não desprovidas de riquezas humanas, de esperanças e de capacidade de resistência frente às dificuldades da vida e às injustiças sociais, cujas origens repousam na exploração de classes, na exploração do homem pelo próprio homem.

* Com poucas adaptações, este é um trecho de minha tese de Doutorado em Letras, na USP.




Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.