domingo, 25 de julho de 2010

Aluísio Azevedo: a palavra dura para a realidade dura

O final o século XIX encontra a cena literária brasileira vazada por diversas formas de fazer artístico que ora se comunicam sem maiores atritos, ora se confrontam acidamente nas páginas dos livros ou da imprensa periódica de época.

Enquanto o romantismo, insuflado pela obra de Castro Alves e prosseguindo modalizado na primeira fase da obra de Machado de Assis, dá mostras de esgotamento, o realismo e o naturalismo, embalados pela recepção de obras como as de Eça de Queirós e Emile Zola, Taine, Sterne entre outras, e pela repercussão do evolucionismo de Darwin, insinuam-se no cerne mesmo da produção romântica.

No Brasil, especialmente na prosa ficcional, a transição da escola romântica declinante para as novas formas realistas e naturalistas, a que José Veríssimo chamava “modernas”, comparece no âmbito da obra de autores que paulatinamente migram de uma a outra, quase sempre guardando resquícios daquela de onde partem.

Sílvio Romero, para afastar a hipótese de confusão que o termo “realismo”, que em filosofia tem significados diferentes daqueles que assume em literatura, prefere fixar o termo “naturalismo” para a produção artística voltada para a crítica social e para a representação literária apoiadas na observação científica da natureza.

Porém, tanto termo “realismo” quanto o termo “naturalismo” serão empregados no Brasil para descrever e classificar obras e estilos literários distintos, o primeiro, associado à segunda fase da obra de Machado de Assis; o segundo, à obra de Aluísio Azevedo, identificado, a partir da publicação de “O mulato”, como introdutor em nossas letras desse estilo e escola.

No caso de Aluísio Azevedo, diferentemente de Machado de Assis, cuja obra romântica é abundante, a produção naturalista cedo decorre de sua ruptura com o romantismo – embora tanto em “O mulato” quanto em “O cortiço” traços da estética românticas sejam observados nitidamente, mesmo sem análises mais aprofundadas – principalmente no primeiro.

Se essa migração de estilos no interior da obra de um mesmo autor está longe de ser novidade na Europa dessa época de transição, mais ainda ocorre no Brasil, que, pela posição periférica ocupada na geopolítica cultural desse final de século XIX, assiste à justaposição de modismos literários, uns a encavalarem-se sobre outros, nas páginas da imprensa liberal nascente, todos com atrasos muito além daqueles devidos aos paquetes, que uma vez por mês, na melhor das hipóteses, atracavam na Bahia, no Rio de Janeiro ou em Santos, portando a crônica da vida cultural europeia.

De todo modo, em que pese esse descompasso cultural que durante os séculos XIX e XX marca as relações do Brasil com a Europa, é de se considerar de grande importância o evento de obras como as de Aluísio e Machado ocorrerem tão próximas no tempo daquelas praticadas na Europa sob a lógica do cientificismo vertido para a literatura. Afinal, os eventos históricos que convulsionaram Alemanha, Inglaterra, Itália e principalmente França, na qual a Comuna de Paris ocupa o centro das discussões sociológicas até os dias de hoje, e que impulsionaram obras como as de Zola e Flaubert , têm natureza muito diversa daqueles que por aqui dominam a realidade política e social, ainda atada às correntes da escravidão negra.

Se o naturalismo na Europa tem fortes bases históricas, políticas e científicas, o mesmo não ocorre por aqui nesse período. Longe disso, nessa segunda metade do século XIX que caminha para seu final, as condições que mais legitimamente engendraram o naturalismo por lá estão apenas em seus estágios germinativos no Brasil.

Em que pese o impacto global que tiveram o evolucionismo darwinista, o positivismo e o determinismo científico, cuja difusão foi favorecida pelas revoluções nos meios de transporte e comunicação, os quais alteraram significativamente a velocidade dos contatos culturais, materiais e simbólicos, o epicentro dessa revolução geral, que envolveu ciência, filosofia e artes, foi inequivocamente a Europa, mais especificamente a Europa não ibérica.

Se no velho continente as descrições literárias à beira da escatologia ou totalmente mergulhadas nela encontravam solo legítimo nas insalubres minas de carvão, no interior e em torno das quais proliferavam a miséria aguda; ou nos becos infectos de uma Londres afogada em neblina, fumaça e fuligem das chaminés das fábricas movidas pela lenha das últimas florestas inglesas existentes, aqui a situação é diversa. O pensamento de Prudhon e de Marx que iam chegando no Brasil pelos paquetes atrasados não encontravam o agente social ou base nas relações econômicas e de classes que os motivaram.

No caso de Aluísio Azedo, a quem já chamaram de marxista, como traduzir em literatura brasileira as denúncias lidas nos romances naturalistas franceses, se estes representavam contradições entre capital e trabalho que ficavam secundarizadas e encobertas, aqui, pelas relações escravistas e pelo patrimonialismo cartorial que, nas palavras de Darcy Ribeiro, herdamos dos portugueses juntamente com a sífilis?

Mesmo em se considerando o romance “O mulato”, cujo herói Raimundo, filho de escrava negra e senhor branco, é representado como mulato claro e de olhos azuis – romance apontado por José Veríssimo como pleno de fraquezas – mesmo no caso desse romance, dizia, há que se considerar com espanto o sucesso de público, admitido pelo próprio José Veríssimo, a despeito o dado provinciano do enredo e das incongruências frutos de um romantismo ainda não de todo abandonado e de um naturalismo ainda não de todo desenvolvido criticamente pelo autor.

Credita-se a “O mulato” o ponto inicial do naturalismo em nossa literatura muito em função da necessidade, hoje bastante questionada, de se apontar, na esfera da história literária, marcos fixos e demarcadores de períodos. No mais das vezes, não se vai além desse elogio ao livro que, em sua época, conquistou grande parcela de público, e que não deixou de significar uma ousadia frente à realidade em que escravidão, monarquia e atraso nas relações econômicas e políticas se mesclavam para dar corpo a uma vida espiritual cujo cosmopolitismo não ia além do pouco verniz cultural importado, a circular quase que exclusivamente na corte.

A história do amor ilícito de um homem branco por uma escrava negra e – mais que isso – do adultério da esposa branca desse homem com um sacerdote sínico e corrupto, que lhe providencia a morte (e depois a de seu próprio filho, “mulato claro de olhos azuis”, com escrava), terá causado escândalo e pode ser mesmo considerada um tanto rocambolesca, porém, quanto dessa mesma natureza escandalosa – Flaubert foi também acusado disso, e respondeu a processo, sentado no banco dos réus ao lado de sua personagem emblemática, Emma Bovary – não se deve à reação que a denúncia em forma de romance causou na parcela do público e da sociedade para os quais a obra orientava sua crítica?

Ou ainda, quanto da indignação de parcela do público não está associada ao falso moralismo que, no projeto literário naturalista, é alvo a ser exposto por meio do espetáculo da palavra?

Se o final do romance, atendendo à estética de Emile Zona, à qual Aluísio se vincula reconhecidamente, afigura-se postiço e compensatório do enredo romântico que enlaça Raimundo e Ana Rosa, quanto dessa estranha incongruência não se deve a uma inexistente sociologia científica brasileira que servisse de base para o escritor maranhense?

Sob esse ponto de vista, ganha relevo esse primeiro esforço de Aluísio Azevedo, que busca registrar pelo ângulo da literatura, ajustado pela crítica social e pelo naturalismo literário europeus, uma realidade em que se emaranham um capitalismo incipiente, escravismo e vida rural atrasada – mesmo em relação a seus pares da América do Sul, tais como Argentina e Uruguai.

Enquanto “O mulato” recebe ainda hoje mais restrições do que elogios da crítica, muito embora os ganhos econômicos proporcionados por esse romance ao autor não deixem dúvidas quanto a seu sucesso junto ao público – tão habituado às mocinhas de aos mocinhos e Alencar –, o próprio Aluísio é alvo de senões, em razão de ter escrito obras de feitio comercial no mesmo período.

Para Aluísio Azevedo, tanto quanto para todo escritor brasileiro após o romantismo, o problema da sobrevivência pelo exercício da profissão de escritor se impôs.

Questão não resolvida nunca em definitivo, o vínculo entre escritor e público é um evento provisório, que proporciona, nas condições atuais como nas de antanho, plena liberdade e conforto ao segundo, e total dependência e instabilidade ao primeiro.

Aluísio, sabe-se, tentou equacionar o problema no âmbito do exercício da profissão de escritor de forma pendular, ora ajustando seu projeto literário ao gosto médio da época, do que resultam histórias folhetinescas e de apelo comercial, ora empenhando-se em pesquisas de linguagem, das quais resultam textos mais consistentes, porém de menor alcance em termos de público de época.

Fez certo? Fez errado? O fato é que, mesmo autor de sucesso, não logrou estabilidade na profissão de escritor, e abandonou as letras pela diplomacia – e ainda bem que só o fez após ter publicado “O cortiço”, seu maior sucesso, inclusive comercial, fruto de esforços intelectuais dispendiosos e de laboriosa pesquisa estética com interface na sociologia científica da época, importada e tão marcada pelo evolucionismo, pelo positivismo e pelo determinismo.

Nesse romance, o anticlericalismo militante de "O mulato" é posto de lado, porém assumem relevância a crítica social, caricaturada no oportunismo de João Romão; o escárnio do falso moralismo, representado no adultério em que Jerônimo e Maria Rita se envolvem sem remorsos; e o libelo profundamente democrático e antiescravista, representado no verdadeiro harakiri cometido pela negra Bertoleza, em repúdio ao retorno à condição de escrava.

A crueza das descrições e a franqueza da linguagem também são alvos ainda hoje, como o foram na época da publicação do romance, de fortes restrições de setores conservadores da crítica cevada pelo beletrismo.

Se essa oposição se deve à escrita de Aluísio – e é impossível que em qualquer autor ou obra não ocorra oscilações, maiores ou menores, a depender do ponto de vista –, deve-se ainda mais a sua opção estilística, que responde francamente a um projeto literário de engajamento do autor no tratamento de temas sociais a partir de uma pesquisa temática e de linguagem não preconceituosa, a qual, por um lado, legitima o falar dos referentes sóciais que suas personagens representam e, por outro, aceita o desafio de penetrar as áreas proibidas do idioma, reputadas pelo beletrismo como indignas da “boa literatura” – com se o “bom” e a “literatura” fossem conceitos absolutos.

Os requebros libidinosos de Maria Rita são descritos pelo narrador de “O cortiço” de forma direta e com vocabulário inequívoco. A falta de caráter, ou antes, o caráter burguês e cabotino de João Romão é descrito a partir de sua lógica interesseira e desumana, que, não percebida por Bertoleza, lhe destruirá a própria razão de viver, uma vez que a pobreza lhe é aceitável, mas o retorno à escravidão, não.

A cena da primeira menstruação de Pombinha é descrita de forma tão plástica que o leitor se vê instado a pôr entre parênteses esse trecho do romance. Nele, o narrador converte o leitor em público de artes plásticas, concretiza em seus olhos imagens plenas de cromatismo, embute o leitor na visão e no corpo da própria menina, cujas sensações físicas são perturbadas pelo transbordamento do fenômeno biológico e psíquico que a converte de menina em mulher.

Após a leitura desse trecho do romance, aqueles desprovidos de preconceitos sociais, linguísticos e culturais se perguntam a razão de as funções bio e fisiológicas da sexualidade humana serem alvo de severas interdições na literatura e nas artes ainda nos dias de hoje.

Principalmente nesses dois romances Aluísio Azevedo opera duas dificílimas tarefas do escritor brasileiro: a primeira, a de sintonizar nossa literatura com o movimento geral da literatura no Ocidente, da qual a literatura brasileira faz parte de maneira contraditória; a segunda, talvez muito mais complexa, a de perseverar no aprofundamento e na ampliação da pesquisa constitutiva da língua literária brasileira que desde Gregório de Matos, o “Boca do Inferno”, não rejeita nem o falar da corte, com seus maneirismos fora de lugar, nem o das mulatas prostituídas por essa mesma corte, de antes e de agora – falar no qual estão registruados a injustiça social, a violência contra os mais pobres e o cinismo de uma elite de pulso de renda limpo, de alma suja e consciência pesada.

Essa pesquisa ampla de Aluísio Azevedo, da distância que este ano de 2010 proporciona, encontra eco na chamada Geração de 30 de nossa literatur. Curiosamente, os senões levantados contra certos autores dela são muitíssimos semelhantes àqueles orientados à obra de Aluísio Azevedo.

“Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, tem trechos que causam arrepios a certo tipo de crítica conservadora ainda hoje, que prefere falar do "mau gosto" de certa passagens do que assumir que o que incomada é a realidade retratada.

“Capitães de Areia”, de Jorge Amado, foi queimado pela ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e continua, ainda nesta década, a ensejar ações do Ministério Público, tangido por mentes retrógradas, a envolver-se na cruzada falso-moralista pela eliminação desse livro do currículo da escola pública.

A obra do escritor maranhense tem eco, na Geração de 30, pois sim, mas não apenas. Quem, tendo lido “O cortiço”, não vê irmandade entre esse livro e obras de Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Rubem Fosenca, Hilda Hist e mesmo Ferrez, de “Capão Pecado”, entre outros?

A palavra dura para a realidade dura reflete as opções estéticas e ideológicas de autores que ousaram incorporar em seus projetos literários agentes sociais relevantes, preteridos da literatura porque preteridos no momento da divisão da riqueza por eles mesmos produzida.

Sob esse aspecto, ao vincularem suas obras a agentes sociais discriminados e estigmatizados, os autores que assim optam tornam-se vítimas também dos mesmos preconceitos que recaem sobre esses setores – e na proporção que esses setores avançam em suas lutas e conquistam mais espaços existenciais, institucionais e simbólicos, também os autores que buscaram lhes dar voz são redimidos.

Haverá tempo em que Plínio Marcos, João Antônio e os poemas “tarja preta” de Gregório de Matos serão estudados sem sobressalto na Educação Básica escola pública. A distância a ser percorrida para que esse tempo chegue é aquela correspondente à das vitórias e fracassos das classes populares brasileiras.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Castro Alves, intimorato

Para o professor Antonio Candido, dentre os poetas que vincularam decididamente suas obras ao esforço consciente de dar corpo a uma literatura assumidamente nacional, aquele a quem o título “romântico” melhor se assenta é Castro Alves.

O professor apoia sua argumentação na análise das obras das chamadas três gerações românticas, cujos poetas apontados como mais característicos são Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e o próprio Castro Alves, para as Primeira, Segunda e Terceira Gerações respectivamente.

Preso ainda às influências neoclássicas da poesia árcade, a poesia de Gonçalves Dias, em que pese a inovação temática e a adesão formal pugnada por Ferdinand Denis, modulando a saudade da terra natal por um sentimentalismo comedido, evita os arroubos egóticos, que comparecem emblematicamente na obra de Álvares de Azevedo, e os voos grandiloquentes do condor de Castro Alves.

A obra breve e radicalmente egocêntrica de Álvares de Azevedo, se por um lado traduz para a língua literária brasileira o ‘modus operandi’ do individualismo romântico que se espalha pelo mundo a partir da França, minimiza a temática nacional, pelo mergulho mesmo nesse profundo poço íntimo, povoado por fantasmas de pesadelos, cismas, presságios e trevas, em que consistem as manifestações do inconsciente atormentado.

Essa temática nacional, no entanto, a partir da segunda metade do século XIX, assume crescente interesse, sem dúvida em função da realidade política que culminará com a abolição dos escravos e com a proclamação da República.

Concordando com o professor Antonio Candido, da “Formação da Literatura Brasileira”, e parafraseando Paul Eluard, para o qual o maior poeta de França “continua sendo Victor Hugo, infelizmente”, pode-se afirmar que senão o maior poeta romântico, ao menos o mais praticado até hoje é Castro Alves, por incorporar intimoratamente a luta pela República e pela abolição da escravatura como temática francamente nacional.

Beneficiado sem dúvida pelas experiências estéticas de Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo, sem oferecer sua obra como balanço das anteriores, o poeta baiano, sintonizado com as aspirações libertárias de sua época, em que, mais que Lamartine e Musset, pontificam Byron e Hugo, convoca: para sua épica, um personagem até então ignorado ou mitigado, o negro; para sua lírica, uma sensualidade antes coberta de véus ou reprimida e macerada na incompletude o ato sexual; e, para a linguagem poética, um campo semântico cujo recorte vocabular foi contornado ou evitado, por corresponder a agentes sociais estigmatizados – as camadas populares, com seu falar “errado”, e os negros, com seu hibridismo linguístico, evocatório das línguas e tradiçoes africanas de origem.

Se considerarmos, para o bem e para o mal, que o protótipo de autor romântico, em escala ocidental, é Victor Hugo, seremos levados a concordar com o professor Antonio Candido, quando este constata o amplo sucesso conquistado por Castro Alves, em vida e até nossos dias.

O projeto estético do poeta baiano, seguindo os passos do “poeta de França” – cuja cerimônia de despedida, quando de sua morte, teria reunido em procissão mais de um milhão e meio de parisienses –, buscou lançar suas raízes pelos mais amplos territórios de seu humanismo liberal, no qual a República, a luta antiescravagista, o pan-americanismo – numa época em que esse termo ainda não estava associado ao imperialismo norte-americano – e o amor físico pela mulher convivem entre exageros de voluntarismos, exaltações e rompantes teatrais.

A figura do bardo descabelado que espanca as trevas com seus versos plenos de luz, de sentimentos de justiça e igualdade, ou de néctar amoroso, está indissociavelmente ligado a esse poeta, cuja retórica dramática sem dúvida estabelece diálogo direto com o teatro, que amou e praticou.

Se hoje nos parece anacrônica a poesia retórica, plena de gestos, imagens visuais e sons marcantes, credite-se isso à fadiga do público, exposto desde o sucesso estrondoso da poesia declamatória, que encontrou nas performances de Castro Alves modelos prototípicos.

Como não poderia deixar de ser, ao inverter a direção do vetor individualista de Álvares de Azevedo – todo ele, o vetor, voltado para áreas íntimas e sombrias da interioridade egótica –, Castro Alves encontrou a sua frente uma realidade em vias de transformação, a qual convocava não uma atitude contemplativa ou irônica, mas uma intervenção marcada pelo protagonismo militante.

Enquanto que o romantismo conservador da Primeira Geração romântica, sob as asas do Instituto Histórico e Geográfico, praticava um sentimentalismo comedido cuja maior ousadia foi eleger o índio idealizado como símbolo da pátria; e enquanto a Segunda Geração, ultra-romântica, professava o satanismo, as trevas e o sarcasmo escapistas como mecanismos de negação de condições desfavoráveis a proliferação de novas ideias; a Terceira Geração romântica encontrou foco no mundo exterior para onde apontar suas críticas militantes na forma de versos.

Em certo sentido, a poesia de Castro Alves, comungando com Álvares de Azevedo o individualismo voluntarista, reorienta suas energias para o campo social e, ao fazê-lo, conquista uma repercussão que o poeta paulista, pelo intimismo, não logrou alcançar.

O ultra-romantismo de Álvares de Azevedo não o levou às formulações estéticas do poeta baiano porque estas derivam de condições de época que escaparam ao primeiro. Os horizontes políticos e sociais em cujo contexto a obra de Álvares de Azevedo vicejou eram desfavoráveis a utopias políticas e existenciais, uma vez que a Independência não resultara em imediato florescimento econômico e cultural e que os ventos da República e da abolição só começarão a soprar com maior intensidade após meados do século e a morte do mesmo Álvares de Azevedo.

O período de existência de Castro Alves coincide com o de ascensão das lutas sociais e políticas que culminarão com a libertação dos escravos e com a República – eventos aos quais o poeta não assistirá, mas os quais ele estará definitivamente ligado.

Esse período assiste o surgimento de novos agentes sociais, que buscarão expressão na política, mas também na literatura.

Obviamente, os ventos que sopram pelo mundo, ou melhor, da Europa para o restante do globo, são também de mudança, refletidos nas revoluções agrárias, populares e nacionais a partir de meados do século XIX.

Em que pese o descompasso cultural apontado por historiadores entre eventos dos dois lados do Atlântico e entre os países dos hemisférios norte e sul, as contradições políticas, sociais e econômicas do Segundo Reinado brasileiro estão permeadas por outras derivadas da Europa.

Assim, ainda que com atraso, a retórica hugoana de combate ao despotismo encontra nos versos de Castro Alves um digno representante mestiço. Não deixa de ser egenhosa a equação do poeta baiano para um problema não de menor magnitude para seu projeto literário: o da identificação e eleição do oprimido local para assumir a posição por ele ocupada correspondentemente na poesia combativa de Victor Hugo.

Na França revolucionária, o oprimido literalmente armou barricadas contra os opressores. Victor Hugo colhe nas ruas de Paris as personagens a serem redimidas por seus versos heróicos. O célebre quadro de Delacroix, “A liberdade guiando o povo”, traz ao lado da musa republicana o pequeno Gavroche, personagem do “Poeta de França”, brandindo pistolas sobre uma pilha de cadáveres.

Porém, no caso brasileiro, onde estavam os rebeldes oprimidos para sacudir a monarquia reacionária? Os primeiros românticos – que deveriam ser a vanguarda revolucionária –, aqui, eram empregados de Pedro II. O próprio Imperador elegia-se incentivador das artes românticas – e obras históricas recentes imputam-lhe mesmo o sonho malogrado de tornar-se o primeiro presidente da República do Brasil.

Ao destacar o papel do negro em sua poesia, Castro Alves localizou o elemento a ser tematizado por sua musa militante. Porém, nesse particular, não se tratou de resolver apenas uma questão de atualização literária, mas de convergência entre maturação de condições políticas e sociais de época e projeto literário conscientemente desenvolvido.

Para assumir suas feições integrais no Brasil, o romantismo teria de encarar sua dimensão de engajamento nas causas liberais. Gonçalves Dias não o fez por conservadorismo – que se estenderá até a obra de José de Alencar, cujas cartas ao Imperador contra a libertação dos escravos são conhecidas da historiografia brasileira –; Álvares de Azevedo, em seu liberalismo democrático, não o fez por ausência de condições de época e pela brevidade de suas existência; fê-lo Castro Alves.

Ao se constituir intérprete das aspirações libertárias da época, Castro Alves golpeou o indianismo escapista e o individualismo ensimesmado, dando sobrevida a uma corrente literária que na Europa, contestada pelo nascente realismo, entrava em franco declínio e fragmentação.

O impacto da obra de Castro Alves é tal que, embora o poeta tenha morrido em 1847, na libertação dos escravos, em 1888, portanto 31 ano depois, foram seus os versos os mais lembrados - ainda o são hoje.

Ao mobilizar as luzes da razão em favor das causas socialmente justas, o poeta baiano logrou neutralizar uma dimensão excessivamente irracionalista do romantismo, pela permuta do mergulho egótico, mórbido e suicida, pela ação voluntarista, visionária, arrojada – e talvez igualmente temerária e suicida – em favor dos oprimidos.

À luz dos dias de hoje, tendo seus versos sido publicados, lidos e declamados à exaustão, pode parecer algo de menor importância sua franca e comovida defesa dos negros e sua equação literária democrática, a assegurar ao oprimido um lugar não artificial e digno em nossa literatura.

Todavia, se considerarmos que somente o século XXI garantiu no Brasil, por meio de uma lei federal, a presença de conteúdos culturais relativos à afrodescendência nos currículos oficiais de nossas escolas, temos de reconhecer o papel significativo de Castro Alves, não só no que tange à sua coragem política, mas também no que diz respeito a seu gênio artístico, que alargou o cânone literário brasileiro para além dos modelos europeus ao incorporar em sua poesia de forma digna um dos pilares étnicos de nossa cultura.

A forma como o negro comparece na obra de Castro Alves inaugura uma nova fase não só da poesia romântica como de nossa literatura. E, assim como Victor Hugo fizera na França, Castro Alves leva o romantismo ao seu clímax, após o qual tudo terá de ser feito de modo diferente.

Afrânio Coutinho, com relação a esse particular, em ensaio introdutório à “Poesia Completa de Castro Alves”, publicada pela prestigiosa editora Nova Aguilar, afirma mesmo que o poeta entrega a poesia brasileira no limiar do realismo.

Hoje, em face da lei 10.639, há um renovado interesse na obra desse poeta, que viveu pouco e escreveu muito. Todavia, a crítica, os livros didáticos e os programas governamentais precisam vencer a inércia preconceituosa que envolve obras de teor popular, entre as quais se encontra a do poeta baiano.

Sua sintaxe algo arabesca, sua expressividade vertiginosa e seu vocabulário pouco palatável ao gosto neoclássico que rege a crítica ainda hoje – a qual em geral fala mais para a academia ensimesmada do que para a realidade da produção simbólica – testa os valores do leitor.

Sua grandiloquência, refletida em adjetivações monumentais – e por vezes incongruentes –, e seu apreço por antíteses e hipérboles, evocatórias de recursos caríssimos ao barroco, respondem a um projeto literário apoiado em agentes sociais – as camada populares – para os quais a “finesse” pouco significa, mas os quais pugnam pelo acesso à literatura com legitimidade.

Sua poesia incorpora ainda recursos do teatro e da oralidade, o que a coloca numa fronteira de gêneros extremamente fluida e fecunda. Não constitui, portanto, defeito, mas virtude, uma vez que rejeita o gosto livresco das elites, mais afeitas à traça de papel do que à literatura viva, que rejeita classificações rígidas, juízos hierarquizantes e leitos de Procusto.

Obviamente, como toda obra humana, artística ou não, a produção de Castro Alves tem oscilações. Nela há pontos de realização mais elaborada e outros de rotina da escrita. Todavia, se o juízo de sua obra for estabelecido por uma teoria que lhe é alheia, o resultado só lhe poderá ser desfavorável.

Muito das objeções feitas ao poeta baiano derivam de pressupostos apriorísticos assentados no “bom gosto” e no “bom senso”, seja lá o que isso for, das críticas neoclássicas ou que com elas flertam. Não por acaso semelhantes objeções recaem sobre obras de outros autores de nossa literatura, tais como Gregório de Matos, Aluísio Azevedo, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Plínio Marcos entre outros.

É o caso de perguntar onde se encontram os defeitos, se nos autores objetos da crítica ou na própria crítica mergulhada na ilusão de valores esternos e absolutos de equilíbrio, perfeição e beleza – invariavelmente eurocêntrica.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Gregório de Matos, séculos de polêmicas



O mundo que se apresenta ao poeta Gregório de Matos na segunda metade do século XVII é um mundo em transição, no qual se vão entrelaçar características de um tempo que se afasta, e que não voltará, e de outro, que se instaurará por um longo período da cultura ocidental.

O tempo que se afasta é aquele anterior ao das grandes navegações, regido pelos ciclos das colheitas e pelo deslizar das estrelas no céu, tempo em que a ligação estreita com a terra conferia ao homem um sentimento de pertença, segurança e de equilíbrio do universo em face de uma aparente imutabilidade de tudo.

O tempo que dá sinais de sua chegada anuncia-se primeiro na Europa, e paulatinamente se vai estendendo pelo globo à medida em que o comércio marítimo se intensifica e que as nações européias em melhores condições aceleram seus projetos de colonização da América, da África e da Ásia.

O tempo que será definitivamente superado refere-se ao que a história convencionou chamar Idade Média, e o tempo que já cruzou o horizonte e convive com a resistência da contra-reforma é a era de predomínio do capital que, dos estágios inicias da acumulação comercial, atingirá a fase financeira ao final do século XIX, tendo passado pelas convulsões globais decorrentes da revolução industrial, cujo epicentro foi Inglaterra com sua Londres afogada na fumaça das chaminés das fábricas movidas a carvão, e da revolução social e política burguesa, representada pelas conflagrações da França de 1789.

Gregório não verá os iluministas franceses “enviarem Deus de volta a céu”, nas palavras de Sarte, mas terá oportunidade de participar do turbilhão ideológico característico da época, em que a reação católica ao projeto renascentista assumirá contornos de disputa generalizada no campo da fé, mas principalmente nos campos filosófico, político e estético.

O tempo que envolve o poeta baiano, do início de sua juventude à sua morte, é uma encruzilhada na qual a Inquisição, mais agressiva em seus estertores, rivaliza com uma cultura laica que vai germinando e ganhando espaço na Europa por sob as disputas religiosas entre católicos e protestantes.

Numa evolução contraditória e desarmônica, os diversos projetos coloniais com sede no território europeu refletem maior identidade com a nova era do capital ou maior distanciamento em face das transformações que já estão em curso e que se operarão de maneira vertiginosa a parir do século XVIII.

No caso das nações ibéricas, na proporção das opções realizadas pelos respectivos governantes, as concepções medievais de mundo agiram com um pesado fardo, cujas consequências implicaram em sério descompasso em relação ao desenvolvimento das demais nações européias.

Estudante de direito da Universidade de Coimbra, Gregório de Matos foi mergulhado na escolástica neoplatônica, cujo primado da fé sobre a razão, defendido por Santo Agostinho, estava ainda aquém das formulações de Tomás de Aquino, o qual, ao introduzir elementos de Aristóteles nas formulações católicas, aliviou-a um tanto de sua carga conservadora e excessivamente moralista.

Porém, uma coisa eram as aulas na Universidade, outra era a vida dos estudantes, entre os quais Gregório, que, com sua fama de repentista e músico habilidoso, reinava como um menestrel algo medievo, cujas paródias e improvisos faziam a alegria dos colegas de turma e a dor de cabeça dos docente, vítimas das troças relatadas por seus biógrafos – por mais que sua biografia seja lacunar, duvidosa e mesmo improvável, nalguns casos.

Em Coimbra, um pé na doutrina agostiniana das classes de Direito assimilada compulsoriamente, e outros nas tunas estudantis farristas e edonistas, Gregório incorpora a condição do intelectual da época, dividido entre uma doutrina que professa a imutabilidade das coisas e um mundo que se vê e se sente em tumulto e transição, um mundo em permanente desequilíbrio.

Na poesia de Gregório, até o fim, essas dimensões radicalmente opostas se desafiam, sem resultarem quer em exclusão mútua, quer em síntese, ainda que transitória. Em sua obra conviverão os poemas para as prostitutas do cais e aqueles de compungida devoção a Deus, nos quais o perdão é buscado a custo de retórica arguta, de técnica literária segura e de um, acusam os críticos, elevado sentimento de culpa, engenhosamente urdido por versos cheios de jogos de palavras em que não faltam volutas e esmero.

Sua permanência em Lisboa por longo período, após breve retorno à sua Bahia, o colocará, agora a condição de juiz de Direito, em contato com um outro Portugal, diferente daquele da vida universitária em Coimbra. A corte, com suas novidades aburguesadas e com seu cosmopolitismo de periferia européia, alargará suas experiências e mais ainda sua sensibilidade, a qual, no entanto, revelam seus poemas, jamais se desprenderá da base religiosa profundamente moralista de seus anos de juventude.

Essa longa permanência em Lisboa será responsável pela consolidação de sua formação intelectual, pelo seu sucesso enquanto homem do Direito e também por sua decadência.

Ainda que a corte lusitana fosse por essa época uma capital periférica da Europa, por lá circulavam, ainda que sob o crivo da censura inquisitorial, o que de mais moderno – e permitido – havia na época. Metrópole de um vasto sistema de colônias espalhado pela Terra, e se refazendo do período de domínio espanhol, Lisboa oferecia àqueles no Império voltados para as letras o que de mais dinâmico havia em termos de vida intelectual.

Ter caído em desgraça com Pedro II de Portugal e retornar ao Brasil derrotado, assim, significou para o poeta baiano um destino de poucas venturas e muitos dissabores, que não cessarão de aumentar ao longo dos anos em função de suas desavenças com os governantes e mais ainda de sua língua ferina, que lhe valerá a alcunha de Boca do Inferno até nossos dias.
Se as paródias e sátiras em versos já em Lisboa produziram seus estragos – que foram tolerados mais pela posição de juiz desfrutada do que pelo acolhimento nunca unânime, particularmente da parte dos afetados diretamente por elas –, mais ainda tiveram impacto na colônia, em que a vida intelectual se limitava à parca burocracia voltada para a coleta de impostos e à ação dos religiosos, com os quais Gregório se vai indispor e aos quais vai atacar com virulência igual, senão maior, à devotada aos governantes dos quais se torna desafeto e tormento.

Agradeça-se, assim, à indisposição da corte lisboeta em tolerar Gregório-jurista-político, descomprometido com Pedro II de Portugal, o questionadíssimo surgimento da literatura brasileira, na pessoa do seu mais questionado e controvertido poeta.

De volta à Bahia, à medida que Gregório se vai indispondo com o meio intelectualmente restrito, representado em última instância pelos governantes – principalmente o governador Câmara Coutinho – e pelo clero, vai firmando sua fama de amante da capoeira, da boêmia e rodas populares, do repente, do lundu – do qual, segundo Nelson Werneck Sodré foi uma espécie de rei – e das mulatas do cais.

Esse mesmo menestrel erudito, que aportou na colônia com o cargo de vigário geral garantido, caído aqui também em desgraça, passa agora a peregrinar com sua musa irônica, maledicente e paródica por tavernas, fazendas e sítios, a semear sua produção acérrima, que circulará oralmente entre risos e galhofas.

Tanto Nelson Werneck Sodré quanto o professor Segismundo Spina, ao tratarem do poeta baiano, chamam a atenção para a situação de insulamento intelectual vivida por Gregório de Matos em face da praticamente inexistente vida intelectual brasileira daquele período. Proibida a imprensa, restrito o embrionário sistema de educação as meios religiosos voltados para a catequese e vetada a interlocução com a burocracia dirigente em função mesmo das indisposições referidas, restou ao poeta voltar-se para os meios populares e boêmios – os quais nunca lhe foram alheios –, cuja cultura eminentemente oral lhe garantia o menos, ainda que de forma miserável, existência enquanto indivíduo e enquanto artista.

Concordando com aqueles que apontam a obra de Gregório como o ponto inicial da literatura brasileira – caso, por exemplo, de Haroldo de Campos de “O sequestro do barroco na ‘Formação da Literatura Brasileira’” – considero que a obra do poeta baiano decorre de duas mortes: a primeira, quando de sua partida definitiva de Portugal por razões políticas; a segunda, quando de sua recusa de acomodação aos molde limitados da elite baiana da época, em relação à qual se sentiu desconfortável e inadaptável.

Quando morreu o juiz de Direito lá e o membro da elite aqui, restou para nossa sorte o menestrel polêmico, cuja obra, disputada e rejeitada por portugueses e brasileiros, não cessa de se oferecer como campo de discussão nem sempre e quase nunca cordial.

A professora Maria de Lourdes Teixeira, na linha do professor Spina, em sua biografia “Gregório de Matos”, destaca o papel exercido pelo governador substituto de Câmara Coutinho, dom João de Lencastro, o qual, admirador do poeta, disponibilizou no palácio do governo meios para que o público fizesse registrar os poemas de Gregório em circulação por época de sua administração. Dessa coletânea apógrafa derivaria, segunda a autora da biografia, a profusão de textos atribuídos indevidamente ao poeta, que em algumas ocasiões talvez os interpretara em público sem contudo se autor deles – muitos dos quais constantes da coleção organizada por James Amado no ano de 1969.

Esse ‘corpus’ literário, polêmico como o poeta que se constituiu a partir de manuscritos apócrifos e que não parou de crescer desde o século XVII, foi objeto de estudo de importantes eruditos, entre os quais Sílvio Romero e José Veríssimo, cada qual e sua respectiva “História da literatura brasileira”, o primeiro, reconhecendo no poeta baiano o fundador de nossa literatura, o segundo rejeitando-o e agrupando-o inclusive com os espanhóis, em razão de atribuir a eles a propriedade do barroco praticado por Gregório – polêmica que evolverá no século XX outros eruditos, entre os quais além dos já citados, Afrânio Coutinho, considerado pelo professor Alfredo Bosi um especialista do Barroco.

Amado e rejeitado, a depender dos pontos de vista, os poemas de Gregório e aqueles a ele atribuídos são de diversa natureza, e têm sido grupados segundo os pontos de vista adotados por críticos, historiadores e teóricos.

De um determinado ponto de vista temático, há que os classifique da seguinte maneira como líricos, sociais, fesceninos (ou simplesmente pornográficos), satíricos, religiosos, filosóficos e encomiásticos (de homenagem). Outros pontos de vista realizam outras formas de classificação, mais, ou menos, distante da aqui citada, nenhuma sendo necessariamente excludente, uma vez que o poeta baiano foi um verdadeiro polígrafo: suas sátiras são verdadeiras crônicas de costumes, algumas de suas composições populares são verdadeiros romances, no sentido medievo, assim como alguns de seus sonetos são perfeitas paródias, como na que Gregório de Matos mete sua colher entre o Padre Vieira e seu irmão, Bernardo Vieira, que, trocando, sonetos entre si, jamais sonharam com o triângulo formado com a intervenção do Boca do Inferno.

James Amado, no prefácio ‘A foto proibida há 300 anos’ à coleção “Obras completas de Gregório de Matos – Sacra, Lírica, Satírica, Burlesca”, por ele organizada a partir da pesquisa em 25 códices manuscritos dos séculos XVII e XVIII e em obras do licenciado Manuel Pereira Rabelo e de Araripe Jr., faz a defesa do poeta baiano como iniciador de nossa literatura, apoiado no argumento de distanciamento do poeta em relação barroco espanhol vigente e de manifestação de identidade brasileira em sua obra, em diferenciação da portuguesa, pela incorporação da fala e da cultura popular, características das camadas pobres e marginalizadas da população às quais Gregório se voltou e às quais refletiu.

Sua defesa, como não poderia deixar de ser em se tratando do Boca do Inferno, expressa indignação em relação à crítica que ou ignora, ou combate ou exclui a poesia gregoriana do cânone literário brasileiro. Não por acaso, o poema que inicia essa vasta coleção e aquele em que o próprio poeta anuncia sua conversão ao popular:

“Cansado de vos pregar
Cultíssimas profecias,
Quer das culteranias
Hoje o hábito enforcar.”

Concordemos ou não com o insigne pesquisador, a quem se deve o esforço de reunião da poesia gregoriana, em letra impressa, de modo tão abundante, o fato é que não se pode tratar da origem da literatura brasileira sem se recorrer a essa obra que, reunida desde 1969 em 7 volumes e 1800 páginas muito bem cuidadas, é sementeira de polêmicas infernais, e que em nossa literatura se desdobra, em termos de língua ferina, obras como as de Oswald de Andrade e Stanislaw Ponte Preta, para ficarmos apenas em duas citações do próprio James Amado em seu prefácio.