segunda-feira, 12 de abril de 2010

Ricardo III, de Willian Shakespeare



Luiz Antonio Aguiar, adaptação


Ricardo de Gloster (Gloucester), de Willian Shakespeare, personifica tudo de perverso a que a ambição ilimitada pelo poder é capaz de conduzir, principalmente quando ela fermenta, borbulha e eclode em um espírito atormentado, ressentido e despido de qualquer senso de moral:

“Ricardo: Você conhece alguém a quem a corrupção do ouro seria uma tentação para executar secretamente um assassinato?

Pajem: Meu senhor, conheço um nobre descontente com a vida porque seus pobres recursos não correspondem à altivez de seu espírito. O ouro, para ele, vale tanto quanto vinte oradores e, sem dúvida, o tentaria a fazer qualquer coisa.

Ricardo: E qual o nome dele?

Pajem: Tyrrel, meu senhor.

Ricardo: Conheço alguma coisa dele. Vá, pajem. Traga esse homem aqui. [Sai o pajem]. O sábio Buckingham, homem de tão profundas considerações de consciência, não será mais aquele de quem tomo conselhos. Então, veio até este ponto comigo, e agora para para respirar? Bem, que seja! Casteby, aproxime-se. Espalhe o boato de que Ana, minha esposa, está gravemente enferma. Vou ordenar que ela fique isolada. Além disso, descubra para mim algum nobre ambicioso e de pouca projeção, com quem irei casar imediatamente a filha de Clarence... O garoto é um idiota. Não tenho por que temê-lo. Atenção! O que houve? Está sonhando acordado? Repito, espalhe por aí que Ana, minha rainha, está doente, quase morrendo. Aja depressa. Preciso acabar logo com todas as esperanças de me prejudicarem, antes que cresçam. [Sai Catesby]. Devo me casar com a filha do meu irmão Eduardo porque, de outro modo, meu reinado repousará sobre uma lâmina de vidro. Vou matar seus irmãos e depois me casar com ela. É um caminho tortuoso para o triunfo! Mas estou tão afundado no sangue que um pecado leva a outro e não tenho lágrimas de piedade para derramar.”

Ricardo de Gloster, já empossado Ricardo III, explicita aqui seus planos já depois de ter assassinado o rei Eduardo IV, seu irmão, esposo da mesma Ana a quem desposou e de quem pretende se livrar, e Clarence, seu outro irmão, que o tinha por aliado.

Para Ricardo de Gloster não há impedimento de ordem política, religiosa, ética ou moral que o impeça de atingir aquilo a que almeja. É invejoso, cruel, cínico, hipócrita, caviloso, manipulador e astucioso em mover as vaidades, ambições e falta de escrúpulos alheios em favor de suas próprias pretensões:

“Ricardo: Eu, de aparência tão desagradável, destituído da formosura necessária para agradar às jovens de andar gracioso. Eu, disforme, traído pela natureza, posto no mundo antes da hora, inacabado e tão horrendo que os cães ladram à minha passagem, não aprecio a beleza nem os prazeres desses dias. E, se o sol, para mim, não faz mais do que exibir a mim mesmo minha sombra deformada, o que me resta é odiar esse tempo de fraqueza e de paz. Assim, sou o vilão, aquele que trama e conspira. E uso tudo o que posso: argumentos falsos, calúnias, sonhos, profecias tresloucadas, o que seja, para induzir perigosamente ao engano. Para gerar o ódio que leva ao assassinato.”

A presente edição, além do texto adaptado com grande felicidade, oferece para o leitor: uma “Apresentação”, uma “Introdução”, um “Posfácio” e tópicos, ao final, “Para Discussão e Aprofundamento” muito convenientes, pois situam o contexto histórico e artístico desse drama shakespeariano e orientam uma leitura mais detida da peça.

Realizar leituras dramáticas desse texto teatral consiste em um desafio tentador para professores e alunos. Porém, se seguirmos o conselho de Oscar Wilde, devemos resistir a tudo, menos às tentações.

Encená-la na escola, então, é um ato de desprendimento intelectual e espiritual sem tamanho, pois enfrentar, ainda que seja no palco, o sanguinário e inescrupuloso Ricardo de Gloster é tarefa que exige, além de técnica, coragem.

FONTE: Aguiar, Luiz Antonio. Ricardo III / Willian Shakspeare. Adap. Luiz Antonio Aguiar. Rio de Janeiro. Ed. DIFEL, 2009.

Prometeu, de Ésquilo e Alceste, de Eurípedes

Luiz Antonio Aguiar, adpatação

Nesta edição, duas peças do teatro clássico grego são oferecidas num só volume, com adaptação de Luiz Antonio Aguiar.

A linguagem adotada nas adaptações dos textos das duas peças possibilita uma leitura fluída, ainda que o leitor seja um adolescente penetrando pela primeira vez no mundo da mitologia grega.

Além dos textos das peças, o livro oferece ainda uma “Apresentação”, na qual são esclarecidos os propósitos da edição; uma “Introdução”, antecedendo o texto de cada uma das peças; “Posfáscios” sucintos e de grande valia para o entendimento dos mitos gregos envolvidos nos dramas representados; e, ao final do volume, um texto “Para discussão e aprofundamento”, que orienta uma leitura mais detalhada.

No texto da primeira peça, de Ésquilo, está em jogo o mito de Prometeu que, desafiando Zeus, por amor à humanidade, rouba o fogo reservado apenas aos deuses e o entrega aos homens, os quais, a partir de então, passam a criar e a realizar descobertas, do que antes estivam privados.

A postura insolente e rebelde de Prometeu enfurecerá Zeus, que não terá piedade em reservar a ele os piores suplícios. Prometeu, dotado dos dons da profecia, antes de cometer o crime contra o Olimpo já sabia o que lhe esperava. Ainda assim, não hesitou em favor dos mortais, a quem tanto amava:

Prometeu: (...) Mas aconteceu que olhei aquela raça de brutos sobre a Terra e pretendi que tivessem inteligência, espírito, poder de criar... Então, dei a ela o fogo, que era a propriedade exclusiva dos deuses, e com este a espécie humana terá a chance de realizar grandes obras. Por isso, Zeus enfureceu-se comigo e aqui estou, em desgraça!
Ninfas: Pobre de você, Prometeu! Pobre de você! Mas este foi o seu crime? Só isso?

Prometeu: Acham pouco? Graças a mim, os homens se apegaram à vida. Alguns, pelo conhecimento, até mesmo perderam o medo da morte. E inventaram a dignidade, a liberdade e tantos outros valores. Compreendem o que isso significa em relação ao poder absoluto pretendido por Zeus?
Ninfas: Quer dizer que eles não vagam mais pela Terra com a mente obscurecida? Que não são mais apenas dominados pelos seus instintos, como os animais, mas que contemplam o firmamento, agora, acima deles, e a imaginam como poderão alcançá-lo, se em atos, palavras ou sonhos?
Prometeu: Isso mesmo! O fogo se acendeu em seus espíritos. Eles escreverão livros, conhecerão os astros, descobrirão segredos da criação!”

Na segunda peça do livro, estão em jogo a vida e a morte – cujo mundo é governado por Hades. Nesta peça de Eurípedes, Admeto é um soberano velho e justo, mas que precisa ser levado por Caronte, o barqueiro que transporta os mortos para sua derradeira morada sob a terra.

Por intervenção de Apolo, as Parcas concedem que outro seja levado em seu lugar, porém somente Alceste, jovem esposa de Admeto, aceita a permuta. O texto se inicia com Apolo expondo o dilema e resistindo a entregar a jovem Alceste:

Morte: Ora, Apolo, deus iluminado! Salve! Mas o que você está fazendo na entrada deste palácio? Por acaso, pretende opor-se aos privilégios das divindades infernais? Já não chega ter enganado as Parcas, com esses seus truques, e impedido que eu arrebatasse Admeto? E agora, o que você pretende? Evitar que eu leve para Hades a filha de Pelias, que se sacrifcou no lugar de seu esposo?

Apolo: Tenho direto de fazer o que faço. E muito boas razões, também, para tanto.”

O contado do estudante e do professor com essas duas pérolas da cultura ocidental acrescenta qualidade à formação de ambos, porém confere ao segundo, além disso, a oportunidade de guiar suas turmas por caminhos inusitados, cheios de magias, mitos e forças titânicas que, na verdade, estão dentro de todos nós.

Uma vez lidas coletivamente, de forma dramatizada, e, melhor ainda, encenadas, essas peças entram no intelecto, na alma e no coração dos estudantes de maneira irresistível, passando a constituir um patrimônio, uma bagagem cultural de valor incalculável, porque definitiva.

FONTE: Aguiar, Luiz Antonio. Prometeu / Ésquilo; Alceste / Eurípedes. Adap. Luiz Antonio Aguiar. Rio de Janeiro. Ed. DIFEL, 2009.



LANÇAMENTO
Era uma vez no meu Bairro
ZONA NORTE – Nova Edição
ZONA LESTE – Inédito
Dia 18 de outubro de 2011
19:30h
Livraria do Espaço Unibanco de Cinema da Rua Augusta
SÃO PAULO - SP

O Tartufo, de Molière

Trad. Jean Melville

Esta edição da obra O tartufo ou O impostor, de Molière traz, além da tradução de Jean Melville:
  • Um proveitoso Prefácio, “A história do livro”, no qual, em palavras claras e precisas, a evolução da indústria do livro é tratada de forma objetiva e interessante;
  • Uma elucidativa Introdução à obra de Molière, “Molière, gênio da literatura francesa e universal”, com importantes informações biográficas e literárias sobre o autor e sua obra;
  • Um breve, mas providencial ensaio “A gênese da comédia Tartufo”, no qual o estudioso Robert Jouanny situa a obra no panorama cultural da época;
  • Uma resenha, a título de prefácio à peça, que traça o caminho dificultoso percorrido por ela contra a censura, até atingir o sucesso que a situou entre as mais importantes do teatro mundial;
  • Três petições escritas pelo próprio Molière em defesa da peça e solicitando ao Rei o fim da censura a sua obra;
  • Notas de rodapé bastante proveitosas para o aluno que inicia seu contato com o texto teatral;
  • Um breve perfil biográfico do autor;
  • Ao final, uma cronologia alentada que situa historicamente o autor em seu século e a obra no âmbito da biografia do autor.
Por si só, a peça traduzida já é digna de circular na escola, todavia, os acréscimos que a acompanham nesta edição permitem que os leitores, alunos e professores, assimilem o contexto histórico e artístico que serviram de placenta dessa obra prima da comédia francesa e mundial, cujo autor, literalmente, morreu fazendo o público dobrar-se de rir:

“... em fevereiro de 1673, já tuberculoso e incurável, Molière tem um ataque de hemoptise em cena aberta, ao representar o papel principal de O doente imaginário.

O público imagina tratar-se de mais uma interpretação brilhante do ator e não mede o riso. Assim, enquanto Molière se curva de sofrimento e perde sangue pela boca, a platéia aplaude estrondosamente.

O pano cai e o comediante é levado, moribundo, para sua casa, onde Armande, a esposa que o abandonara anos antes, fecha-lhe os olhos para sempre.”

A trama desta comédia envolve Orgon, sua família e o próprio Tartufo, beato convidado pelo dono da casa a nela instalar-se. As manhas e artimanhas do beato, que de puro não tem nada, enredam Orgon a tal ponto que este, completamente refém dos enganos e da lábia outro, passa a própria residência para nome do espertalhão.

As coisas se ajeitam ao final, como era do espírito de Molière fazer, porém, a crítica aos costumes medianos, ao pensamento obtuso e à fé cega está feita de modo contundente e hilário.

É por essa razão que Molière precisou percorrer uma verdadeira via crucis para desinterditar a censura interposta pelos conservadores da época, expostos e espicaçados pelo teor viperino dos diálogos que, quanto mais faziam rir, mais incriminavam a hipocrisia e o falso moralismo vigente.
Os diálogos e cenas são tão vivos que podemos, ao ler, montá-los mentalmente e desfrutar do inevitável prazer que o riso proporciona. Porém, na escola, pode-se, ao invés da montagem virtual na imaginação, realizar a encenação da peça integralmente.

Difícil? Tudo que é bom na vida deriva ou de sacrifício, ou de muito trabalho, ou muita luta. Noutras palavras, nada que é bom deriva do comodismo – ou ainda noutras, quem busca a facilidade não acha a felicidade, aqui, representada pelo riso.

Num trabalho mais planejado, a montagem da peça toda poderia ser executada pelos próprios alunos, sob orientação do professor. Porém, em sala, podem ser realizadas leituras dramáticas e montagem de pequenos trechos.

Essas leitura dramáticas e encenações permitem que sejam observados situações burlescas e detalhes ridículos, cujos efeitos talvez escapem à imaginação presa à leitura solitária.
Este é um caso em que só a tentativa já é garantia de muitíssimas gargalhadas. Quer apostar?

FONTE: Molière. O Tartufo ou O Impostor. Trad. Jean Melville. São Paulo. Ed. Martin Claret, 2005.


LANÇAMENTO
Era uma vez no meu Bairro
ZONA NORTE – Nova Edição
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Dia 18 de outubro de 2011
19:30h
Livraria do Espaço Unibanco de Cinema da Rua Augusta
SÃO PAULO - SP

O Inspetor Geral, de Nikolai Gógol


Trad. Gabor Aranyi

Esta comédia de Gógol, famosa e muito exibida pelo mundo todo, versa sobre visita sigilosa de um agente do governo que põe em polvorosa toda uma comunidade habituada a pequenos, médios e grandes embustes.

O medo de que esse inspetor descubra a muitas corrupções, das miúdas às graúdas, é exposto à crítica mordaz do riso, numa tradução que, por um lado, situa a linguagem no gosto popular, como a crítica enfatiza em relação ao original, sem fazer, contudo, o texto encaminhar-se para a comédia bufa, gênero teatral importante, mas do qual a peça em questão não se aproxima.

A comunidade, insegura tanto com relação à data da chegada do funcionário, quanto com relação à sua, do inspetor, identidade, explicita nos diálogos os pecados em risco de serem revelados e punidos, e se prepara para maquiar a realidade, de forma que tudo se apresente na mais completa ordem administrativa e legal ao enviado do Czar.

Pela ótica de seus pecados e de suas culpas, a comunidade de administradores locais acaba identificando erroneamente Ivan Aleksandrovitch Klestakov com o dito “auditor” do governo central. Porém, Aleksandrovitch é na realidade um funcionário público em viagem que, depenado de suas economias no jogo de cartas, está em dificuldades para quitar sua estadia no hotel em que se instalou.

A sucessão de enganos, trapalhadas, estratégias diversionistas para iludir o Inspetor – e de confissões a título de remissão de “pecadinhos à-toa” – conferem ao texto uma natureza cômica e acidamente crítica:

Ammos Fiodorovitch: Não vai ser nada fácil mudar isso. O coitado diz que, quando era bebê, a mãe deixou ele cair, e desde então tem esse cheiro.

Prefeito: Eu sei, eu sei, disse só por dizer. Mas o que o Andrei Ivanovitch em sua carta chama de pecadinhos à toa – permitam-me que não fale sobre isso. Além do mais, é estranho lembrar logo de pecado, pois não existe gente sem fraquezas. O próprio Senhor nos criou assim – até mesmo os voltairianos vociferam contra isso em vão.

Ammos Fiodorovitch: O que o senhor chama de pecadinhos à-toa, Anton Antonovitch? Existe uma boa diferença entre pecado e pecado. Eu confesso, abertamente, que não recuso um presente. Mas que presente? Filhotes de Galgo. Nem merece menção.

Prefeito: Filhote de galgo ou outra coisa qualquer: não deixa de ser um presente.

Ammos Fiodorovitch: Tudo bem, tudo bem, Anton Antonovitch! Se alguém recebe um casaco de peles que vale pelo menos uns quinhentos rublos e a esposa um xale que vale pelo menos...

Prefeito: E daí? O senhor acha que ser subornado com um filhote de galgo é um assunto menos sujo, quando nem mesmo acredita em Deus?! Nem mesmo vai a igreja! Eu, pelo menos, tenho firmeza na minha fé: todo domingo estou lá sentado no banco! Mas e o senhor? Eu conheço bem o senhor! Quando começa a falar da criação do mundo eu fico com os cabelos em pé!”

Esta edição conta ainda, ao final do volume, com os seguintes textos: “Excerto de carta que o autor enviou a um escritor, logo após a estréia d’O Inspetor Geral”; “Advertência prévia aos que querem representar O Inspetor Geral corretamente”; “A luta de Gógol pela comédia Russa” e “Notas”.

Esses textos são contribuições orientadoras que o leitor não deve desprezar, pois projetam luzes sobre a peça, sobre o autor, e sobre as particularidades relacionadas à montagem do espetáculo que, encenado na escola integralmente ou com adaptações à realidade brasileira ou escolar, oferecerá saborosas lições de riso.

FONTE: Gógol, Nikolai. O Inspetor Geral. Trad. Gabor Aranyi. São Paulo. Ed. Veredeas, 2008.

Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen

Trad. Gabor Aranyi

Nora incorre em um deslize ético: falsifica a assinatura do pai, em vias de falecer, para obter o empréstimo que salvará a vida do marido, Torvald Helmer. Esse deslize, desculpável em face do amor e das circunstâncias, uma vez exposto, revelará a teia de relações hipócritas em que ela está envolvida.

Porém, diferente do que a literatura do fim do século XIX frequentemente apresenta como solução ao tédio da mulher insatisfeita no casamento, o adultério, nesta peça, o desencanto da protagonista faz com que as escamas lhe caiam dos olhos e se converta em lucidez frente às convenções machistas, que condenam a mulher à função de escrava do lar ou, na melhor das hipóteses, ornamento mimoso de sala de estar – caso de Nora.

A atitude de Nora em face das relações que aniquilaram seus sonhos, sua individualidade e sua identidade pessoal valeu à peça censura por parte dos conservadores de época, que viram nela um sério risco a instituições tais como: o casamento indissolúvel, a família patriarcal e a moral burguesa, tão afeitos às aparências:

“Helmer: Mas você é minha mulher; como é agora e como o que quer que venha a ser.

Nora: Ouça, Torvald. Quando uma mulher deixa a casa de seu marido, como eu estou fazendo agora, a leis – segundo ouço dizer – absolvem o marido de qualquer obrigação para com ela. De qualquer modo, eu o deixo livre de agora em diante. Inteira liberdade de parte a parte. Olha, aqui está o seu anel: devolva o meu.

Nesta edição, a tradução de Gabor Aranyi situa o texto em um nível de linguagem que a um só tempo confere grande fluidez e verossimilhança aos diálogos. Nela os diálogos, situados na privacidade do lar pequeno-burguês ou em situações informais de interlocução, oferecem-se ao leitor sem artificialismos retóricos voltados a dificultar gratuitamente a linguagem ou a conferir-lhe uma erudição que os críticos não apontam no texto original, e fazer sem concessões a populismos linguísticos que, no afã de “facilitar” a leitura, terminam por corromper a própria obra.

A leitura coletiva dramática desse texto e, mais ainda, a montagem dessa peça na escola têm como facilitadores o reduzido número de personagem, a exiguidade dos ambientes em que o drama se desenrola, a temática muitíssimo atual e os diálogos primorosos, por meio dos quais a consciência de Nora vai sendo despertada para a possibilidade de alteração radical de seu destino, ainda que a custa da decepção e da dor.

FONTE: Ibsen, Herik. Casa de Bonecas. Trad. Gabor Aranyi. São Paulo, Ed. Vereda, 2007.

A Casa de Bernarda Alba, de García Lorca

A Casa de Bernarda Alba é o único texto em prosa que Federico Garcia Lorca escreveu para teatro. É também uma espécie de canto de cisne do poeta, que pouco depois se tornaria vítima inocente da ditadura franquista que tanto abominou.

Nessa peça, Bernarda Alba exerce um poder tirânico sobre as filhas. Estas, submetidas a uma lógica autoritária voltada a um passado morto e a um moralismo sufocante, são como que cozidas na panela de pressão em que a casa foi transformada pela viuvez, em segundo matrimônio, da matriarca, que decreta um luto de oito anos a todas e aspira a um total controle da vida das filhas:

Pôncia: Como sujaram o chão!

Bernarda: Parece que uma manada de cabras passou por aqui. (Pôncia limpa o chão.) Filha, me dê um leque.

Adela: (Adela lhe dá um leque com flores vermelhas e verdes).

Bernarda: (Arremessando o leque ao chão) É um desse que se dá a uma viúva? Dê-me um leque negro e aprende a respeitar o luto de teu pai.

Martírio: Toma o meu.

Bernarda: E você?

Martírio: Não tenho calor.

Bernarda: Busca outro, pois vai fazer falta. Nos oito anos que durar o luto, não entrará nesta casa a brisa da rua. Faz de conta que tapamos com tijolos as portas e janelas. Foi assim na casa de meu pai e na casa de meu avô. Enquanto isso, comecem a bordar o enxoval. Na arca tenho vinte peças de linho com as quais podem cortar lençóis e mantos. Madalena pode bordá-los.”

Porém, em uma panela de pressão só se pode esperar que tudo se cozinhe mais rápido e a temperaturas superiores.

A mãe, acreditando ter o controle total do que se passa na casa não toma conhecimento do drama amoroso clandestino que se desenrola sob seu nariz, e cujo desfecho se revelará profundamente trágico.

A linguagem expressiva acrescenta carga emocional aos diálogos já bastante carregados de tensões, estas, decorrência direta das imposições da matriarca e de seu papel declarado de miliciana da repressão sexual.

Não apenas pelo valor artístico, político e histórico da peça, mas também pela atualidade do tema de que trata, a sexualidade feminina, o texto merece ser estudado, encenado e debatico na escola.

Com certeza isso suscitará vivo debate e acrescentará vitalidade ao cotidiano escolar que, quanto mais vivo e dinâmico, mais produtivo e cativante – para alunos e professores.

FONTE: Lorca, Federico. A Casa de Bernarda Alba. Trad. Marcus Mota. São Paulo, Ed. UnB; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2000.

Seleta em Prosa e Verso, de Ariano Suassuna


Silviano Santiago, organizador

Esta Seleta em Prosa e Verso de Ariano Suassuna reúne textos bastante representativos da obra do autor. Organizada por Silviano Santiago – outro importante escritor, teórico e crítico brasileiro –, que abre o livro com um breve mas significativo artigo sobre a obra do autor, o volume oferece um bom panorama da produção desse que é um dos mais versáteis, inventivos e produtivos autores da literatura brasileira.

A obra está divida em quatro partes: “Teatro”, “Poesia”, “Ficção” e “Depoimento”, no qual o próprio Ariano Suassuna discorre sobre as fontes populares de sua pesquisa estética.

Ariano Suassuna tem uma extensa obra e, portanto, esta seleta é uma amostra que convida o leitor a frequentar as páginas dos livros-fonte. Porém é um convite sedutor, uma vez que os excertos selecionados por Silviano Santiago são, além de representativos, de grande beleza. Vejamos um, a título de exemplo:


“Aqui, morava um Rei, quando eu menino

vestia ouro e castanho no Gibão.
Pedra da sorte sobre o meu Destino,
pulsava, junto ao meu, seu Coração.

Para mim, seu Cantar era divino,
quando, ao som da Viola e do bordão,
cantava, com voz rouca, o Desatino,
o sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu Pai. Desde esse dia
eu me vi como um Cego, sem meu Guia,
que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua Efígie me queima. Eu sou a Presa,
ele a Brasa que impele o Fogo, acesa,
espada de Ouro em Pasto ensanguentado.”


A linguagem de Suassuna, seja no teatro, seja na poesia, seja na ficção, tem um indisfarçável arranjo poético que encanta enquanto conta. As sagas do sertão e de personagens populares estão representadas não apenas em enredos cheios de símbolos e alegorias, mas com igual ênfase em linguagem sofisticada, cujo ritmo e música suscitam, pelo embalo da audição, imagens e vestígios de passados míticos e místicos, afundados no tempo, que evocam aventuras e heroísmos da Idade Média, tão presentes na tradição popular no Nordeste.

O Auto da Compadecida, talvez a obra mais conhecida do autor, adaptado por Guel Arraes, com um elenco de grande gabarito (Fernanda Montenegro, Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Maurício Gonçalves, Lima Duarte, Rogério Cardoso, Virginia Cavendish, Paulo Goulart, Antônio Morais, Denise Fraga, Diogo Vilela, Luís Melo, Bruno Garcia, Marco Nanini, Aramis Trindade entre outros de igual prestígio e relevância) foi sucesso nas telas do cinema e é sucesso até hoje nas telas da televisão.

Assistir ao filme é uma boa pedida para a realização de trabalhos em sala de aula que ousem enfrentar a rotina e incorporar a interpretação oral ou a montagem cênica, ainda que seja somente de trechos escolhidos – o que não é atividade de menor importância.

Porém a primeira filmagem é de 1969, na qual o próprio Suassuna participou na elaboração do roteiro:



A Compadecida é um filme brasileiro de 1969, do gênero comédia, dirigido por George Jonas e roteiro de Ariano Suassuna e George Jonas, baseado na premiada peça de Ariano Suassuna, A Compadecida. Foi gravado em Brejo da Madre de Deus, em Pernambuco. Fonte: Wikipedia.

Os textos presentes nesta antologia têm vocação oral e cênica e, com certeza, os estudantes teriam um contato mais amplo e aprofundado com eles se tivessem a oportunidades de experimentá-los oral e coletivamente, a partir de técnicas teatrais e de leitura expressiva. 

FONTE: Suassuna, Ariano. Seleta em Prosa e Verso. Org. Silviano Santiago. Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 2007.

Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto


Morte e Vida Severina é a mais conhecida obra de João Cabral de Melo Neto e, embora esta edição receba o título dessa importante obra, ela reúne na verdade além do texto do poema dramático: um prefácio bastante elucidativo e orientador ("Arte de ver e de dizer", de Bráulio Tavares); as obras: O Rio (poemas, 1953), Paisagem com Figuras (poemas, 1954-1955), Morte e Vida Severina (teatro/auto de natal, 1954-1955), Uma Faca Só Lâmina (poemas, 1955); e os apêndices: “Cronologia”, “Bibliografia do Autor”, “Bibliografia Selecionada sobre o Autor”, “Índice de “Títulos e “Índice de Primeiros Versos”, para facilitar a consulta.

Na obra que dá título ao volume, Severino, em sua jornada rumo ao litoral de Pernambuco em busca de melhores condições de vida, se apresenta ao leitor e o põe em contato com a linguagem nordestina e com a paisagem humana e social devastada pela miséria.

Sua atitude frente aos percalços é de enfrentamento, e as falas que se alternam em versos rimados e em ritmo hipnótico incitam no leitor o desejo de acompanhar a jornada, na qual vida e morte, resistência e injustiça social se imbricam num só labirinto de linguagem e de experiências humanas:

“– A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
– A um defunto de nada,
Irmão das almas,
que há muitas horas viaja
a sua morada.
– E sabeis quem era ele,
irmãos das almas,
sabeis como ele se chama
ou se chamava?
– Severino Lavrador,
Irmão das almas,
Severino Lavrador,
mas já não lavra.
(...)
– E foi morrida essa morte,
irmãos das almas,
essa foi morte morrida
ou foi matada?
– Até que não foi morrida,
irmão das almas,
essa foi morte matada,
numa emboscada.”

Em 1965, o poema foi musicado por Chico Buarque de Hollanda, então estudante universitário, sem o consentimento prévio do autor – segundo depoimento do próprio músico. Porém, o autor curvou-se à repercussão da peça que, musicada passou a ser encenada por todo o país, por grupos profissionais e estudantis, anos após ano.

Informações sobre o poema e sobre a peça musicada podem ser encontradas em abundância na internet. Estudar esse material e encenar a peça na escola constitui um verdadeiro banho de imersão na cultura, no teatro e na melhor poesia de língua portuguesa. Quem topa, levanta a mão.

FONTE: Melo Neto, João Cabral de. Morte e Vida Severina. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2007.

O Santo Inquérito, de Dias Gomes


Branca Dias é uma bela jovem, respeitadora da família, sincera em sua fé em Deus e será queimada na fogueira em 1750, por ordem do Tribunal da Santa Inquisição, a partir da acusação formulada pelo Padre Bernardo que, salvo de afogamento pela jovem, tem sua fé abalada pela libido que a mesma jovem lhe desperta.

A ingenuidade da jovem em relação aos sentimentos do padre e sua ignorância acerca das origens judaicas da família a levarão, como uma borboleta indefesa, à teia de aranha em que se entrecruzam o recalque sexual do padre Bernardo e os interesses da Igreja, naquele período profundamente ligados ao do Estado.

Nada que disser livrará a jovem da teia mortífera em que se enredou por distração quando salvou o padre do afogamento. Ao contrário disso, cada frase por ela emitida em sua defesa será interpretada pelo “homem” Bernardo como em menoscabo de sua atração – por isso convertida em ciúme tormentoso – e pelo “padre” Bernardo como manifestação herética:

Padre: você me estendeu a mão uma vez e me salvou a vida; agora é a minha vez de retribuir com o mesmo gesto.

Branca: Mas eu não estou em perigo, padre.

Padre: Toda criatura humana está em permanente perigo, Branca. Lembre-se de que Deus nos fez de matéria frágil e deformável. Ele nos moldou em argila, a mesma argila de que são feitos os cântaros, que sempre um dia se partem.

Branca (Ri): Tenho um cântaro que meus avós trouxeram de Portugal. Durou três gerações e até hoje não se partiu.

Padre: Naturalmente porque sempre teve mãos cuidadosas a lidar com ele e a protegê-lo. Queria que você me permitisse protegê-la também, defendê-la também, porque é uma criatura tão frágil e tão preciosa como esse cântaro.

Branca: Eu lhe agradeço. Mas não acho que mereça tantos cuidados de sua parte. Sou uma criatura pequenina e fraca, sim, mas não me sinto cercada de perigos e tentações.

Padre: A segurança com que você diz isso já é, em si, um perigo. Prova que você ignora as tentações que a cercam.”

A peça leva para as luzes do palco três dramas humanos muito atuais, a pretexto de um evento ocorrido no século XVIII: o do homem que, privado do amor e do sexo pela religião, torce por meio da retórica os fatos para seus próprios interesses; o da estigmatização e da perseguição de uma fé religiosa por outra associada ao Estado; e o da violência extrema contra a mulher.

Diante do leitor do texto ou do expectador da peça, o drama de Branca Dias evolui como uma procissão de pesadelo: a jovem é boa e generosa, defende-se com sinceridade, mas caminha celeremente para a fogueira, que vai sendo armada e alimentada pela mágoa pessoal de um homem, cujo sentimento ferido aciona cordões do poder, e pela hipocrisia do Tribunal da Inquisição, que necessita de fogueiras esporádicas para justificar sua existência.

Se o texto da peça possibilita o estabelecimento de ricas relações entre literatura, história e política, a montagem dela na escola permite que se vislumbre em cena três importantes temas sociais, bastante em voga nos dias de hoje: a sexualidade humana, a intolerância religiosa e o papel da mulher na família, na sociedade e no mundo do trabalho.

Outra atividade interessantíssima seria comparar o texto e a eventual montagem dessa peça com outra do mesmo autor: O Pagador de Promessas. Quais pontos de contato há entre elas? Quais diferenças? Que temas abordam e que dramas põem em cena?

Após realizar trabalhos de leitura e cênico com esse texto de Dias Gomes, seria interessante observar o comportamento dos estudantes e seu interesse nos estudos.

FONTE: Gomes, Dias. O Santo Inquérito. 26 ed. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2009.

O Pagador de Promessas, de Dias Gomes


Escrita em 1959, O Pagador de Promessas, tão logo encenada, recebeu ampla acolhida do público e da crítica teatral, que identificou nela uma obra-prima de Dias Gomes e do teatro brasileiro.

No texto dessa peça, personagens, enredo, cenas e diálogos articulam-se de forma enxuta, como se fossem engrenagens de um preciso relógio que, impulsionado pela linguagem popular, tratada com plasticidade e sem concessões ao populismo, empurra Zé do Burro para seu destino trágico.
O próprio dramaturgo, na “Nota do Autor”, constante desta edição, afirma:

“O homem, no sistema capitalista, é um ser em luta contra uma engrenagem social que promove a sua desintegração, ao mesmo tempo que aparenta e declara agir em defesa de sua liberdade individual. Para adaptar-se a essa engrenagem, o indivíduo concede levianamente, ou abdica por completo de si mesmo. O Pagador de Promessas é a estória de um homem que não quis conceder – e foi destruído.”

Ambientada na Bahia, o enredo da peça flagra, já na primeira cena, Zé do Burro e Rosa, sua mulher, diante da igreja em Salvador, na qual pretende pagar a promessa feita a Santa Bárbara em intenção de seu burro Nicolau, que se livrou da morte quando da queda de uma árvore.

O conflito colocará em campos opostos a forma ingênua, popular e sincrética da religiosidade de Zé do Burro e uma forma de religião institucionalizada, comprometida com as elites até as entranhas e eivada de preconceitos:

: Seu vigário me desculpe, mas eu tentei de tudo. Preto Zeferino é rezador afamado na minha zona: sarna de cachorro, bicheira de animal, peste de gado, tudo isso ele cura com duas rezas e três rabiscos no chão. Todo mundo diz. E eu mesmo, uma vez, estava com uma dor de cabeça danada, que não havia meio de passar. Chamei Preto Zeferino, ele disse que eu estava com o Sol dentro da cabeça. Botou uma toalha na minha testa, derramou uma garrafa d’água, rezou uma oração, o Sol saiu e eu fiquei bom.
: Do demo, não senhor.

Padre: Você fez mal, meu filho. Essas rezas são orações do demo.

Padre: Do demo, sim. Você não soube distinguir o bem do mal. Todo homem é assim. Vive atrás do milagre em vez de viver atrás de Deus. E não sabe se caminha para o céu ou para o inferno.

: Para o Inferno? Como pode ser, padre, se a oração fala em Deus? (Recita) “Deus fez o sol, Deus fez a Luz, Deus fez toda a claridade do Universo grandioso. Com sua Graça eu te benzo, te curo. Vai-te, Sol, da cabeça desta criatura para as ondas do Mar Sagrado, com os santos poderes do Padre, do Filho e do Espírito Santo”. Depois rezou um padre-nosso e a dor de cabeça sumiu no mesmo instante.






Padre: Não é para curar, é para tentar. E você caiu em tentação.”

A adaptação da peça para o cinema, realizada por Anselmo Duarte e estrelada por Leonardo Villar e Glória Menezes, teve estrondoso sucesso junto ao público no Brasil e ampla repercussão internacional após a conquista da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1962.

Um desafio encantador para a escola seria, após ler o texto e assistir ao filme, encenar essa peça, integralmente ou na forma de adaptações, nas quais os alunos, a partir de sua própria experiência e criatividade, poderiam participar ativamente.

Com certeza, um professor, uma turma e uma escola que se envolvessem num trabalho como esse nunca mais seriam os mesmos.

FONTE: Gomes, Dias. O Pagador de Promessas. 50 ed. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2009.
: Como feiticeiro, se a reza é pra curar?
Padre: Meu filho, esse homem era um feiticeiro.
Sacristão: Incrível!

Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri


Para falar sobre a peça, no “Prefácio” ao texto de Eles Não Usam Black-Tie, Delmiro Gonçalves dá voz ao próprio Gianfrancesco Garnieri :

“Aliás, habituado ao teatro, desde criança, quando acompanhava meus pais, não perdendo uma ópera das temporadas líricas, acostumei-me a tratá-lo como coisa doméstica, sem muita cerimônia. O gosto pelo teatro existia. Podia fazer ou não fazer teatro, pouco importava. Parecia-me que quando quisesse eu poderia fazer teatro, assim, à toa, como coisa natural.
Escrever peças de teatro foi a mesma coisa, assim à toa, sem querer. Escrevi Eles Não Usam Black-Tie rapidamente. Levantava-me à noite para escrever. E divertia-me muito com os personagens que surgiam, principalmente com Chiquinho. Fui o primeiro a chorar com o final do terceiro ato. E minha admiração por Romana foi sempre imensa.”


Escrita em 1955, quando o autor tinha apenas vinte e um anos de idade, essa peça, saudada desde o início como um marco do nosso teatro, põe frente a frente os valores gestados no interior de uma família proletária.

Impulsionados por uma greve operária num momento de ascensão de lutas populares, pai e filho se veem em campos opostos em razão da perspectiva de cada um. Porém, o papel conservador no conflito é desempenhado, como seria de se esperar, não pelo pai, mas pelo filho, cuja índole individualista o associa a uma perspectiva ideológica e política contrária à de sua família e de seus companheiros de trabalho.

Décio de Almeida Prado, ao abordar a peça – o texto também consta do Prefácio desta edição – chama a atenção para o humanismo idealista do pai e para a fantasia de ascensão social do filho, ambos, ao fim das contas, mergulhados em graus variados de ilusão. Mas alerta também para o papel central da mãe, Romana, cujo realismo lhe dá força, e à família, para enfrentar e vencer diariamente as provações da dura vida proletária.

Enquanto o pai, em seu engajamento político, encara a greve de um ponto de vista idealizado e moral (como deveriam ser as coisa e como não são), o filho, envolvido em indecisões pessoais – que no ambiente social se apresentam como vacilações de caráter –, considera o conflito na fábrica um risco em potencial a seus projetos.

Em meio às duas posturas, Romana, a mãe, fala – e age, pois se trata de teatro – com realismo ao marido:

Romana – Saiu o aumento?

Otávio – Que aumento! Sem greve não sai aumento!

Romana (reprendendo-o) – Otávio!...”

E fala com ironia ao filho, iludido por uma ilusória chance no cinema:

Romana – Minha filha, deixa esse Tirone Pover aí e me ajuda a levar esses pratos lá pra fora. O pessoal está chegando.

Otávio – Caçoa, caçoa que não te dou entrada de graça!”

A adaptação dessa peça para o cinema, realizada por Leon Hirszman, tornou-se um grande sucesso. Aproveitando as experiências de ascensão da luta por liberdades políticas no Brasil ao final da ditadura militar, o cineasta transpôs o conflito para a segunda metade década de 1970.

O elenco repleto de talentosos atores, do qual participa inclusive o próprio Gianfrancesco Guarnieri, no papel do pai, Otávio, conta com Fernanda Montenegro (Romana, a mãe), Bete Mendes (Maria, a noiva de Tião), Carlos Alberto Riccelli (Tião), Milton Gonçalves (Bráuli) entre outros.

No longa-metragem, com canções de Chico Buarque de Hollanda e Adoniran Barbosa, Tião e sua namorada, grávida, decidem casar-se, em meio a uma greve metalúrgica em São Paulo. Tião, a pretexto do casamento, fura a greve e entra em confronto com o pai, um velho militante que enfrentou a cadeia durante o regime militar.

Nesta feliz adaptação, o conflito representado na peça de Guarnieri ganha as telas e atinge o grande público. Embora as referências históricas tenham sido alteradas, as qualidades que conferiram ao drama teatral perenidade se preservam no filme. E com isso estabeleceu-se em relação à obra um paradoxo típico dos nossos tempos audiovisuais: toda uma nova geração passou a conhecer a obra pela adaptação cinematográfica, sem jamais ter tido acesso ao drama teatral.

Por isso, mais do que ler o texto da peça e assistir ao filme para compará-los, encenar uma peça como Eles não usam Black-Tie na escola ou montar em classe cenas dela extraídas é muito importante, pois permite o contato do estudante com um clássico de nosso teatro, por meio do qual se pode empreender um mergulho em profundidade na história do Brasil e nos dilemas de uma sociedade que, oscilando entre longos períodos de ditaduras e breves soluços de vida democrática, vive seu mais longo período de estabilidade política.

FONTE: Guarnieri, Gianfrancesco. Eles Não Usam Black-Tie. 21 ed. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 2009.

Poesia Completa de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa

Teresa Rita Lopes, edição

Álvaro de Campos é entre heterônimos de Fernando Pessoa aquele ao qual se tem atribuído a mais ampla liberdade de expressão poética e a adesão mais radical à modernidade. Mas esse é um dos Álvaro de Campos, já que a crítica observa nesse heterônimo ao menos três momentos bem marcantes: um inicial, mais ligado ao decadentismo de final do século XIX; um futurista, ou sensacionista, bastante ligado ao modernismo, a sua empolgação com as máquinas e a sua vertiginosidade; e um terceiro, pessimista, às voltas com o cansaço extremo e com a sensação de inutilidade de tudo.

Nesta edição de bolso muitíssimo bem produzida em papel Pólen, o leitor tem oportunidade de ler os textos de Fernando Pessoa, uma das personalidades literárias mais intrigantes e labirínticas da literatura em língua portuguesa, auxiliado por ensaios bastante elucidativos.
Além dos poemas, preparados e anotados com esmero por Teresa Rita Lopes, o volume oferece ao leitor:
  • No início, uma “Nota Prévia”, que informa sobre as particularidades da edição, inclusive com legenda de abreviaturas e sinais empregados para anotar a obra; um excelente prefácio “Este Campos”, assinado pela mesma Teresa Rita Lopes, na verdade um significativo ensaio de vinte e cinco páginas, verdadeira aula magna sobre Álvaro de Campos no âmbito da complexidade de Fernando Pessoa;

  • Ao final: um alentado corpo de Notas, frutos de longa pesquisa realizada para estabelecimento do texto; um importante Posfácio “Campos e a Tradição”, a rigor outro significativo ensaio da mesma Teresa Rita Lopes, em que são discutidos os critérios e as linhas de trabalho adotadas para o estabelecimento do texto integral; um “Índice dos Primeiros Versos”, para consulta rápida dos poemas e ainda uma brevíssima biografia de Fernando Pessoa, na verdade, aqui, mais uma cronologia de eventos principais.
Ao apresentar num só volume os poemas, cujos textos foram estabelecidos a partir de rigorosos critérios de pesquisa e edição, e os ensaios, a presente edição põe em mãos do leitor uma obra de consistente valor literário e teórico – garantidos pela representatividade do autor e por dois ensaios de grande relevância.

Assim o leitor, seja para fruição estética, seja para pesquisa literária, goza da confortável segurança de ter em mãos uma obra que respeita ao extremo a virtuosidade de linguagem impactante de Álvaro de Campos:

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Ler os poemas coletiva ou individualmente, em voz alta ou silenciosamente, de forma dramatizada ou em recital, debater os ensaios à luz de outros trabalhos sobre o autor e comparar o que dizem os ensaios com “o que” e “como” dizem os poemas são atividades que, levadas à prática, prolongam o prazer da leitura, tornam mais aguda a fruição dos textos e aprofundam a compreensão acerca dos sentidos em jogo. Em se tratando de Fernando Pessoa, não se pode ficar aquém disso.

FONTE: Pessoa, Fernando. Poesia Completa de Álvaro de Campos. Edição Teresa Rita Lopes. São Paulo, Ed. Cia. Das Letras, 2007.

Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século

Italo Moriconi, organizador

Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século é uma antologia de poemas brasileiros do século XX em que comparecem os mais representativos poetas do período.

Embora o termo “melhores” necessite ser relativizado, porque estabelece um juízo muito questionável de hierarquia entre poemas de um mesmo autor e entre escritores, a seleção é inegavelmente representativa e oferece ao leitor um boa amostragem da poesia brasileira no século XX .

Na Introdução, o organizador esclarece os critérios que adotou para a seleção e disposição dos textos no volume, bem como o esforço de pesquisa realizado. Nessa introdução o leitor tem notícia de quão complexos são os caminhos e de quantos riscos envolvem aquele que se dispõe a organizar uma antologia, da difícil articulação entre a história da literatura e a crítica, passando pelo domínio da produção individual de cada autor, até os insondáveis mecanismos do sucesso literário, que enredam leitores e escritores nas teias insondáveis do mercado editorial.

Dividida em quatro partes, esta antologia segue critério cronológico e agrupa os textos a partir de linhas de força consideradas relevantes pelo organizador. Assim, “Primeira Parte – Abaixo os Puristas” é dedica à geração modernista de 1922 e à produção que girou em torno dessa estética profundamente criativa e iconoclasta.

A “Segunda Parte – Educação Sentimental” reúne textos que, a rigor, correspondem à chamada Geração de 30 na poesia. A presença de autores identificados com períodos anteriores deve-se ao fato de que o texto selecionado ajusta-se à identidade dessa fase da produção poética brasileira.

A “Terceira Parte – O Cânone Brasileiro” tem como núcleo o que se convencionou chamar de Geração de 45. O autor engloba nesse período a produção que vai até a década de 1960, e não deixa de surpreender que essa parte seja encerrada com trecho do Poema Sujo, de Ferreira Gullar, escrito em 1975 e publicado somente no ano seguinte.

A “Quarta Parte – Fragmentos de um Discurso Vertiginoso” corresponde à produção poética brasileira a partir da década de 1960, com suas dissensões, agrupamentos e polêmicas.
Além da oportunidade de ler belíssimos textos, o leitor tem a oportunidade de comparar a organização da antologia com os critérios adotados pelo organizador.

Se tivesse que escolher poemas para escrever em seu caderno ou para guardar em seu arquivo digital, como o leitor procederia? Que critérios adotaria? Que autores ou poemas ficariam de fora? Quais seriam selecionados e de que maneira seriam organizados?

FONTE: Moriconi, Italo. Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.


LANÇAMENTO
Era uma vez no meu Bairro
ZONA NORTE – Nova Edição
ZONA LESTE – Inédito
Dia 18 de outubro de 2011
19:30h
Livraria do Espaço Unibanco de Cinema da Rua Augusta
SÃO PAULO - SP

O Brasil das Placas, de José Eduardo Rodrigues Camargo e L. Soares


O Brasil das Placas reúne fotos de placas espalhadas pelo Brasil, cada uma delas resenhada por uma estrofe de cordel. Muito criativo, dá oportunidade de o leitor viajar pelas paisagens do país e de rir dos conteúdos e formas empregados pelos autores das placas para veicular suas mensagens, às vezes irônicas, às vezes humoradas, às vezes simplesmente erráticas.

Atire a primeira pedra quem nunca ou riu ou ficou indignado ante uma placa confusa ou simplesmente mal escrita. Agora, atire outra pedra, ou a mesma, se a primeira ainda não foi atirada, quem nunca cometeu um erro de concordância estapafúrdio.

A verdade é que todos aqueles que fazem uso da linguagem verbal, oral ou escrita, estão sujeitos a enganos ou distrações que podem ter resultados imprevisíveis – inclusive nenhum.

Alguém que digita rapidamente no teclado de um computador a palavra “cronologia” pode escrever, sem o desejar, a palavra “cornologia”, tanto quanto alguém, ao preparar a resenha de um livro, pode redigir “uma bela foto de campa” no lugar de “uma bela foto de capa”. Se no primeiro caso o engano suscita o riso, no segundo, alude a algo funesto.

Quantos escritores não terão alterado a redação de um texto seu ao ler, na revisão final, uma palavra surgida como que do além, no entanto saída de seus próprios dedos? Com certeza, muitos, senão todos.

Neste O Brasil das Placas, tem-se a oportunidade de ler uma quantidade considerável de textos que, abstraídos os contextos – as placas – e as intenções de quem os produziu, poderiam ser considerados frutos de erros, enganos, distrações ou segundas intenções:

FAMÍLIA MUDA
VENDE TUDO

Na frase da placa reproduzida logo acima, a dubiedade das palavras “muda” –
que tanto pode ser o verbo “mudar” quanto o adjetivo feminino “muda “(sem voz) – e “vende” – que tanto pode ser o verbo vender como o verbo vendar (tapar os olhos) – confere à placa efeito humorístico a um leitor culto ou atento.

Porém, o flagrante fotográfico de duas placas oficiais afixadas à margem de uma rodovia, uma a dez metros de distância da outra, sem que haja qualquer nexo comum entre ambas, ganha um sentido surpreendentemente irônico:

Primeira Placa:

DEVAGAR
PERIGO

Segunda Placa:

FISCALIZAÇÃO
RECEITA ESTADUAL A 1000m

A intenção do órgão de trânsito, na primeira placa, é advertir o motorista sobre as condições da rodovia. Já na segunda placa, fixada por outro órgão, a intenção é informar os veículos de transporte comercial sobre a eventual abordagem da fiscalização 1km à frente. Mas o leitor, tendo ambas as placas no mesmo campo visual, está compelido a associar as duas mensagens num só sentido. Seria interessante tentar “corrigir” essas placas para se ver o que se ganharia e o que se perderia com isso.

Este livro é uma excelente amostra do que pode a língua portuguesa quando está distraída e a quilômetros de distância do gramático mais próximo.

FONTE: Camargo, José Eduardo Rodrigues. O Brasil das Placas. São Paulo, Ed. Panda Books, 2007.

Canto Geral, de Pablo Neruda


Trad. Paulo Mendes Campos

Devolva o Neruda que você me tomou e nunca leu”, diz a belíssima canção de Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime.

Na internet é possível encontrar debates sobre o porquê de o livro de Neruda ter sido citado na disputa de separação de um casal; sobre a dor de quem pede, em tom magoado, o livro de volta; sobre a insinuação de que o livro não foi valorizado ou compreendido por quem o tomou emprestado etc. Porém, não seria desperdício indagar também qual o título do livro que o magoado amante pede de volta à amada de quem se separa.

A obra de Pablo Neruda, cuja relevância foi reconhecida com a premiação do Nobel de literatura em 1971, é extensa. De modo que só haveria um modo se saber exatamente a que título Chico Buarque e Francis Hime se referem.

Seria a Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada? Ou seria a Cem Sonetos de Amor? Ou seria ainda a Canto Geral? Qualquer que seja a obra, desde que a amada decida não restituir, o prejuízo será considerável.

Como o objeto desta resenha é o Canto Geral de Neruda, ela, a resenha, corporativistamente pode considerar, a título de hipótese, que o alvo da discórdia é mesmo este magnífico volume de poemas de amor pela América Latina e por seu povo.

Se a amada o tomou emprestado e não o leu mesmo – como lamenta a canção –, não sabe o que perdeu. Nessa condição, se vier a nunca restituí-lo, o agravo será ainda maior, pois sequer há a consciência da extensão do dano causado ao ex-namorado.

A canção termina antes que o dilema se resolva, quer entre os amantes, quer para os fãs dos dois músicos que, privados do título do livro citado em meio à discórdia, se veem forçados a tecer hipóteses sobre a obra de Neruda e sobre as imponderáveis razões do coração.

A tradução de Paulo Mendes Campos para este Canto Geral franqueia ao leitor um mergulho sem par na linguagem virtuosa desse poeta chileno que, nessa obra, aventura-se por tempos geológicos e históricos, em meio a uma geografia soberba em vegetação, em fauna, em minério e em sacrifícios:

“Todo o inverno, toda a batalha,
todos os ninhos do molhado ferro,
em tua firmeza atravessada de aragem,
em tua cidade silvestre se levantaram.

O cárcere renegado das pedras,
os fios submersos do espinho
fazem de tua aramada cabeleira
um pavilhão de sombras minerais.”

(“XIII. Araucária – Canto Geral do Chile”)

Em Canto Geral, o abundante vocabulário a descrever vida e chão, personagens e intenções, e a narração, a recompor fatos históricos, se embaraçam num exuberante entrelaçamento de raízes, troncos, galhos, folhas, planícies, montanhas, heróis, traidores...

O som e o ritmo dos versos embalam a audição e projetam na retina do leitor paisagens monumentais e cenas de contornos e volumes quase palpáveis, nas quais os dramas humanos se configuram e nas quais a água e o sangue jorram das cordilheiras e dos homens com igual generosidade.

A história da América Latina passa por essas páginas a partir da visão de mundo e da sensibilidade do poeta. Cotejar o que ele diz nesse Canto Geral com livros de história ou com conteúdos da internet é uma atividade instigante. Será que o poeta exagerou em algo?

FONTE: Neruda, Pablo. Canto Geral. Trad. Paulo Mendes Campos. 14 ed. Rio de Janeiro, Ed. Bertrand Brasil, 2008.

Antologia Poética, de Vinicius de Moraes

A poesia profundamente sensível e humanista de Vinicius de Moraes encontra-se representada com dignidade nesta edição de bolso que chega às mãos do leitor com uma bonita foto do autor na capa e com páginas em papel Pólen.

Esta Antologia Poética de Vinicius de Moraes em formato de bolso se baseia na mesma publicada também pela mesma editora em 1990, a qual deriva da seleção realizada pelo próprio autor em 1967 para a editora Jose Olympio. Reúne um amplo panorama da produção do poeta até a data.

Os poemas podem ser lidos em ordem aleatória, sem qualquer contraindicação, porém, se o leitor optar pela leitura linear, observará – uma vez que a organização da obra é cronológica – não uma evolução linear e harmônica no tempo, mas uma trajetória fortemente marcada por dramas individuais e coletivos que, ao afetar a sensibilidade do poeta, implicaram em radical ruptura, com significativas alterações nos planos temático e de linguagem.

Ao longo dessa obra, o poeta se vai desprendendo de um idealismo inicial (em que a morte, a culpa, a dor individual ocupam o centro ideológico dos poemas, elaborados no tecido de uma linguagem soturna e algo complexa) até atingir, ao final da obra, em linguagem direta e clara, a temática social e participante.

Coerente com a “Advertência” que faz a título de prefácio, o autor organizou a coletânea de forma a que o leitor observe sua luta com e pela linguagem, concomitantemente com sua luta em busca de compreender melhor o indivíduo e seus conflitos e o mundo dividido em classes – e suas guerras.

Embora o autor demonstre clara preferência pela produção mais recente, o leitor não se deve deixar iludir com as palavras dessa “Advertência”, pois se o autor desprezasse de fato os poemas reunidos no que chama de primeira parte, simplesmente não os teria publicado na Antologia.

Em que pese a evidente mudança de perspectiva entre os poemas da primeira e os da segunda parte dessa obra, o lirismo, a sensibilidade, o humanismo, a experiência filtrada pela subjetividade, o trabalho refinado com as palavras, verdadeiro virtuosismo de linguagem, são observáveis em ambos.

A título de ilustração, vejamos dois trechos de poemas, um da primeira parte:

“Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside neste mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados – sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!”
(“Elegia desesperada”)

E outro da segunda parte da obra:

“Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar,que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.”

(“Mensagem à Poesia”)

Assim, o leitor não deve levar à risca as palavras da “Advertência”, pois há poemas belíssimos em ambas as partes da obra.

Tirará maior prazer o leitor, aliás, se comparar os poemas da primeira com os da segunda parte, atividade que terá como resultado, sem dúvida, o reconhecimento de que – a despeito da revolução ideológica sofrida e assumida pelo autor – se está, inequivocamente, diante de um mesmo íntegro, fraterno, humano, apaixonado e genial Vinicius de Moraes.

FONTE: Moraes, Vinicius de. Antologia Poética. São Paulo, Ed. Cia. Das Letras, 2009.

Nova Antologia Poética, de Mário Quintana

Esta Nova Antologia Poética de Mário Quintana, comemorativa de seu centenário (1906-2006), reúne poemas representativos da obra do poeta cuja importância vai sendo crescentemente conhecida pelo público mais amplo e reconhecida pela crítica especializada.

O humor de Mário Quintana, inteligente no sentido e sutil na linguagem, é sempre a primeira mensagem a chegar ao leitor. Com palavras aparentemente despretensiosas, o poeta urde em exíguos espaços de poemas curtos verdadeiras máximas filosófico-irônicas, como neste “Poeminho do Contra”:

Todos esses que aí estãoAtravancando meu caminho,Eles passarão...Eu passarinho!”

Porém, nem só de humor é feito Quintana. Sua poesia é de grande diversidade. Se sua forma de abordar temas insalubres prefere, por vezes mas nem sempre, a tirada irônica ou mesmo sarcástica, na abordagem do sentimento de amor, por exemplo, sua abordagem é suave, avessa à pieguice e de um lirismo muito particular, senão profundamente comovente:

"Canção do amor imprevisto

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada,
[numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!”


Os poemas de Quintana têm sempre um susto ou um estranhamento embutido. Se nos poemas curtos essa sensação atordoa o leitor de chofre, como um boneco de mola que salta da caixinha de surpresas, nos poemas mais extensos essa sensação vai sendo preparada com requintes de mágico ilusionista, de modo a que o leitor, ao atingir o ponto final do texto, veja surgir diante de si, como em passe de mágica, uma imagem inusitada.

Não por acaso, entre seus livros mais famosos estão O Aprendiz de Feiticeiro, Espelho Mágico e Baú de Espantos. Mário Quintana explora as possibilidades lúdicas e mágicas das palavras e seus efeitos encantatórios, hipnóticos e mesmo oníricos:

“Noturno

Nem tudo está
Mudando:
Durante o sono
O passado
Em cada esquina põe um daqueles antigos lampiões
E os autos, minha filha, esses ainda nem forma inventados...
Só essa velha carruagem rodando rodando.
Sobre as pedras irregulares do calçamento.”

Comparar os poemas curtos com os poemas mais extensos de Quintana presentes nesta Antologia é buscar compreender um poeta que abordou temas comuns ao homem do século XX por meio de uma linguagem incomum.

FONTE: Quintana, Mário. Nova Antologia Poética. 12 ed. São Paulo, Ed. Globo, 2007.

Antologia Poética, de Patativa do Assaré


Org. Gilmar de Carvalho

A obra de Patativa do Assaré, edição após edição, vê as barreiras do preconceito caírem e seu público aumentar por todos os cantos do país. A linguagem moldada pela sonoridade, pela visão de mundo, pelo modo de vida – e pela viola – nordestinos, seus poemas retratam a labuta, os sentimentos e a índole dos que enfrentam os infortúnios da seca e da miséria numa região em que a violência e a injustiça social andam de mãos dadas.

Seus textos ficaram conhecidos pelo público mais amplo primeiramente na voz e na sanfona de Luiz Gonzaga, o Luiz do Baião. Composições como “Triste Partida” – rodou muito tempo pelas rádios e forrós do país e hoje, em um belo vídeo de animação, circula na televisão, nos DVDs particulares e na internet:

“Nós vamo a São Paulo
que a coisa tá feia.
Por terras aleia
nós vamo vagá.
Se o nosso destino
não fô tão mesquinho
Pro mermo cantinho
Nós torna a vortá.”

Esta Antologia Poética de Patativa do Assaré, que conta com um breve mas elucidativo estudo sobre a obra do poeta, reúne poemas na seguinte organização: "Inspiração nordestina", "Novos poemas comentados", "Cante lá que eu canto cá", "Ispinho e fulô", "Balceiro", "Cordéis", "Aqui tem coisa" e "Balceiro 2".

Com isso, o organizador Gilmar de Carvalho pretendeu oferecer ao leitor uma amostra representativa da obra desse importante poeta brasileiro que, revolvendo a terra como agricultor e animando bailes ao som da viola, fez o verso sertanejo, brotado da terra e da alegria popular, ganhar reconhecimento sob a forma impressa, muitas vezes reservada apenas a formas mais eruditas, urbanas ou elitizadas.

Abrir esta Antologia, cujos poemas são irmãos do cordel e do repente, e lê-la coletivamente em voz alta devolve vida a um texto que não nasceu para ficar preso na página feito passarinho em gaiola. Fica aqui esta sugestão.

FONTE: Patativa do Assaré. Org. e Pref. Gilmar de Carvalho. 7 ed. Fortaleza, Ed. Demócrito Rocha, 2008.

Antologia Poética, de Manuel Bandeira

Antologia Poética é uma reconhecida obra de Manuel Bandeira. Organizada pelo próprio autor em 1961, reúne, a seu critério, poemas representativos dos livros: A Cinza das Horas, Carnaval, O Ritmo Dissoluto, Libertinagem, Estrela da Manhã, Lira dos Cinquent'anos, Belo Belo, Opus 10, Estrela da Tarde, Poemas Traduzidos e Mafuá do Malungo.

Poeta de cultura erudita, tradutor de inúmeras obras para o português e crítico de arte, Bandeira foi acolhendo em sua linguagem poética uma simplicidade tão meticulosamente estudada que seus poemas falam com igual impacto a públicos diversos.

Seja o leitor iniciante, seja o leitor experimentado, ambos encantam-se com seus poemas; quer o leitor ocasional, quer o leitor contumaz de suas obras, ambos se comovem com seus inesperados arranjos poéticos que, sob a aparência de brincadeira, destilam a crítica, como no poema “Os sapos”:

“Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- “Meu pai foi à guerra!”
- “Não foi! – “Foi!” – Não foi!”
;

Seu lirismo veste-se de inocência com feitio melancólico e pleno de ambiguidades, como no outro poema “Porquinho-da-índia”:

“Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.”

A linguagem direta e simples empregada pelo poeta não deve iludir o leitor quanto à natureza enigmática de seus poemas. A voz do sapo, no primeiro, é uma crítica ácida cujo endereço cabe ao leitor desvelar, tanto quanto não é, no segundo, despretensiosa a observação do verso final – ilustrativa de uma sensação de frustração que se estende no tempo.

Descobrir o que há por sob a linguagem aparentemente franca de Manuel Bandeira é um exercício prazeroso, uma vez que essa “franqueza” dá “dicas” de muitas ambiguidades que, exploradas, revelam surpreendentes sentidos subjacentes.

É lógico que esse exercício fica mais rico se o leitor mais experiente recorrer à fortuna crítica da obra do poeta, porém, não há dúvida que os dois poemas em destaque, por exemplo, poderiam ser oferecidos a uma criança que, estimulada por perguntas bem feitas, teria muito a dizer sobre esses “sapos” e sobre esse bichinho de estimação que não dá bola a quem tanto o ama...

FONTE: Bandeira, Manuel. Antologia Poética. 12 ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2001.

Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade

Esta Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, organizada pelo próprio autor em 1962, reúne poemas representativos de sua produção à época da publicação.

Os critérios empregados por ele dividem a Antologia em 9 partes: 1) O indivíduo: “Um eu todo retorcido”; 2) A terra natal: “Uma província: esta”; 3) A família: “A família que me dei”; 4) Amigos: “Cantar de Amigos”; 5) O choque social: “Na praça de convites”; 6) O conhecimento amoroso: “Amar-Amaro”; 7) A própria poesia: “Poesia contemplada”; 8) Exercícios lúdicos: “Uma, duas argolinhas” e 9) Uma visão, ou tentativa de, da existência: “Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo”.

A essas subdivisões agregou-se ainda um Suplemento que, a partir da 5ª. edição, reúne poemas extraídos do livro Boitempo. O volume conta ainda, ao final, com uma “Cronologia” da obra de Drummond, com uma “Biografia” e com um “Índice de títulos de primeiros versos”, o que facilita a consulta dos poemas.

Os temas que preocuparam Drummond até a data de organização dessa reunião de poemas estão nela representados, e o que é mais importante, sob a ótica do próprio autor, a partir de poemas por ele mesmo selecionados.

Ler a poesia de Carlos Drummond de Andrade é mergulhar nos dramas vividos pelo homem ligado a seu mundo e a seu século por profundos laços intelectuais e afetivos.

Do indivíduo que, acometido de estranha sensação, deseja no poema “A mão suja” amputar a própria mão:

“Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
Suja há muitos anos”
;

ao cidadão do mundo que, tocado pela necessidade de intervir na realidade, estende a mão em gesto fraterno:

“Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
;

Drummond viaja da geografia sentimental de uma Itabira como que suspensa no tempo, em “Cidadezinha qualquer”:

“Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.”;


à geografia de um mundo e de um tempo dilacerados pela guerra, em “Nosso tempo”:

“Este é um tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
Viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.”


Os poemas desta antologia pulsam o tempo inteiro, num movimento que vai dos cantos mais recônditos do indivíduo aos cenários sociais mais inóspitos e propícios ao esmagamento da individualidade; da mais remota e acolhedora Itabira ao mais tumultuado “Mundo mundo vasto mundo”, no qual o poeta se acha e se atordoa, sem se chamar Raimundo e sem solução para os dilemas, poéticos ou não.

Uma excelente atividade de leitura e estudo seria reunir os livros dos quais os textos foram retirados e observar cada poema à luz do contexto original. Que sentidos não ganharia o poema “Elegia 1938”, por exemplo, observado no conjunto do livro de Sentimento do Mundo, do qual foi extraído?]

E no contexto da Antologia, que sentidos assume esse poema, considerados aquele que o antecede e aquele que o sucede imediatamente?

FONTE: Andrade, Carlo Drummond de. Antologia Poética. 64 ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2009.

Cora Coralina, Melhores Poemas



Darcy França Denófrio, organizador

Organizada por Darcy França Denófrio, esta antologia poética de Cora Coralina reúne poemas representativos da obra dessa importante escritora brasileira. O estudo introdutório "Cora dos Goiases" situa com bastante propriedade a relevância da autora no âmbito de nossa literatura no século XX.

A antologia contempla os livros: Nos Reinos de Goiás; Canto de Aninha; Criança no meu Tempo; Paraíso Perdido; Entre Pedras e Flores; Canto Solidário; e Celebrações. A edição conta ainda, ao final, com uma pequena biografia da autora e ainda com sua bibliografia.

Simples e sofisticada, natural e elaborada, modesta e rica, estes e outros adjetivos contraditórios podem ser aplicados à poesia de Cora Coralina que, apresentada em 1980 ao público pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, não cessou de ver seu público aumentado a cada edição de seus livros.

Nesta antologia, o leitor recebe os poemas de Cora Coralina como uma deliciosa porção de água fresca e cristalina colhida do riacho e espalhada na face. Todos nós – sempre preocupados com os compromissos diários e com as complicações da vida, numa sociedade cada vez mais tumultuada e complexa – somos surpreendidos pelas janelas sempre muito abertas de seus poemas, que deixam entrar o vento e a chuva ou sair o olhar, para se alongar no horizonte da planície, para se deter na elevação de um morro, onde espreitam as plantas, os frutos, os bichos, os transeuntes.

Seus poemas dizem-nos o tempo todo: a vida não é só complicações e afazeres aos quais damos conta com sofreguidão ou tédio: a vida é água, a vida é céu, a vida é terra, a vida é gente se fazendo e refazendo:

“Eu sou o caule
Dessas trepadeiras sem classe,
Nascidas na frincha das pedras.
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.”

A limpidez do texto dessa poeta cuidadosa no manejo da linguagem transmite ao leitor uma gostosa sensação de plenitude e de que se não a “Verdade” – essa quimera iniciada em maiúscula – ao menos as muitas “verdades” podem ser traduzidas pelas palavras, sem subterfúgios, com franqueza – verdades simples, cotidianas, alcançáveis pelos sentidos naturais, pelo pensamento despido de intelectualismos e por uma sensibilidade sintonizada com a visão e com o mundo popular.

FONTE: Coralina, Cora. Melhores Poemas/Cora Coralina. Sel. Darcy França Denófrio. 3 ed. São Paulo, Ed. Global, 2004.

Antologia Poética, de Cecília Meireles

Esta Antologia Poética de Cecília Meireles, organizada em primeira edição em 1963, um ano antes da morte da autora, é uma de suas obras de maior circulação. Reúne poemas dos livros Viagem, Vaga Música, Mar Absoluto, Elegia 1933-1937, Retrato Natural, Amor de Leonoreta, Doze Noturnos da Holanda, O Aeronauta, Romanceiro da Inconfidência, Pequeno Oratório de Santa Clara, Canções, Metal Rosicler, Poemas Escritos na Índia – e alguns poemas inéditos à altura da publicação da primeira edição.

No momento em que os poetas brasileiros reuniam-se em grupos mais ou menos incendiários e ou desafiavam a linguagem culta, ou realizavam experiências inusitadas de linguagem, ou partiam sarcasticamente para a blague, Cecília Meireles trilhou um caminho próprio, muitíssimo pessoal, e cultivou uma poesia em linguagem culta que não encontra similar nas literaturas de língua portuguesa.
O vocabulário sutil e requintado, a sintaxe exata do ponto de vista erudito, e o ritmo delicado de seus poemas sintonizam seus poemas em um ponto privilegiado da língua portuguesa em que Brasil e Portugal se aproximam sem animosidades e com grande afinidade.

Assim, seu lirismo sensível e transatlântico, acolhido com igual reverência no Brasil e em Portugal, dá voz não apenas a um modo particularmente feminino de ver o mundo, mas a uma forma de pensar poeticamente a vida dos indivíduos, tão cheia de desencontros sentimentais, sociais e históricos.

Em seus poemas têm lugar, com igual relevo, o desencanto amoroso:

“O pensamento é triste: o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.”

E a revolta contra a injustiça:

“Já se ouve cantar o negro,
chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada...
(A terra toda mexida,
a água toda virada...
Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)."

O contato com a poesia de Cecília Meireles confere ao leitor a oportunidade de experimentar sutilezas de pensamento, de sentimento e de linguagem. Cada poema é face de um mesmo prisma, a refletir matizes ou a decompor em cores essenciais a luz de um mesmo facho: a língua portuguesa renovada em sua tradição.

A estima da poesia de Cecília Meireles entre seus contemporâneos é tal que vários deles lhe dedicaram belos poemas, entre os quais Vinicius de Moraes, Mário Quintana e Manuel Bandeira – mas não foram os únicos.

Que tal descobrir “quem” disse “o que” sobre Cecília? A internet é uma ferramenta providencial para isso: é só digitar o nome da poeta e de outro escritor em um site buscador e uma lista surgirá para consulta.

Agora, localizado o texto na internet, o melhor a fazer é ir à fonte bibliográfica em que ele se encontra: o livro. Ele é essencial e tem algumas vantagens sobre a web: se cair das mãos, não se destrói em mil pedaços e não depende de energia elétrica nem de bateria para funcionar – ou melhor, só necessita uma bateria: o coração do leitor.

FONTE: Meireles, Cecília. Antologia Poética. 3 ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2001.