segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Poesia na Escola, do Jeosafá




Dia 1o. de dezembro a Editora Biruta lançará uma coleção minha sobre a presença da poesia na escola (três volumes). Vai ser na Livraria da Vila, em São Paulo, na r. Fradique Coutinho, 915, a partir da 19,30h. Haverá debate sobre os assassinatos contra a poesia na escola e sobre as possibilidades de nessa mesma escola a poesia brotar, crescer dar flores e frutos. Depois do debate, o tradicional vinho, a tradicional conversa fiada da boa e autógrafos. A seguir, um trecho do texto que introduz um dos volumes.

Vamos iniciar nossa jornada pelas terras arrasadas da poesia com uma pergunta: por que ela, ao menos no Brasil, ocupa espaços cada vez mais reduzidos nas estantes das livrarias? Essa pergunta simples e direta só pode ter uma resposta igualmente simples e direta: porque a poesia tem cada vez menos leitores, obviamente. A pergunta é descabida? Não. A resposta é descabelada? Igualmente não.

A pergunta parte de uma constatação tão óbvia que a mais ligeira passada de olhos pelas estantes de qualquer livraria do Brasil basta para confirmar. Quer ver? Então vamos lá: direto à livraria do seu bairro. Bem, é quase certo que seu bairro não tem uma única livraria sequer. Então, está bem, então direto ao centro comercial mais próximo. Porém é quase certo que uma livraria, livraria mesmo, não exista. Talvez uma papelaria que venda livros, eventualmente uma banca de jornal... Então vamos fazer o seguinte: direto ao shopping center mais próximo, ainda que ele fique longe do bairro e mesmo fora do município, ou direto a uma rodoviária ou aeroporto... Satisfeita a curiosidade?

Se não é fácil encontrar sequer uma livraria, que dizer então da situação da poesia, cuja situação, exposta pela pergunta logo acima, é tão desalentadora quanto verdadeira?

Por que tão pouca gente se interessa por ela? A coitada está num miserê tal que, se morresse, seu enterro seria exatamente igual ao daqueles pobres andarilhos que tombam exangues pelas ruas das grandes cidades ou pelas beiradas das rodovias deste país imenso: uma viatura, sem maiores alardes, para não chamar a atenção dos transeuntes, apanharia o corpo serenado e mal coberto pelos andrajos úmidos da noite, e o levaria para o lugar nenhum. Ninguém para olhar a cena. Ninguém para ficar com os olhos úmidos e um ponto de exclamação, ou de interrogação, espetado no alto da cabeça, a observar o carro sumir na distância, com sua carga frágil, na poeira ou no mormaço deformante do asfalto.

Exagero? Quantos livros de poemas você tem em sua biblioteca? Aliás, você tem uma biblioteca em sua casa? Ao menos umas poucas estantes de livros?

Sejam quais forem as respostas a essas inquietantes perguntas, a pertinência delas é já um problemão não acha? E essa pertinência se deve a outra constatação óbvia: as pessoas, no Brasil, cultivam exiguamente o hábito da leitura, do que decorre o pouco interesse em ajeitar os livros no espaço muitas vezes apertado da residência. Daí, esses incômodos objetos acabam sendo deslocados de um canto a outro até encontrarem uma caixa de papelão perfeita, no interior da qual serão depositados e esquecidos até criarem bolor e não prestarem para mais nada.

Então é melhor deixar as coisas do jeito que estão, senão podem piorar, não é mesmo? Não, não é. Assim como as histórias não morrem nos livros que mofaram por descuido, as pessoas podem ser mobilizadas para que atribuam valor ao que muitas vezes, por falta de alerta, de insistência ou de jeito, ficou latente, mas não extinto: o prazer de ler.

Então vamos recapitular: livros de poesia faltam nas livrarias porque faltam leitores para elas. Esses leitores são os mesmos que reservam pouco espaço em suas casas, e em suas vidas, para a leitura. Nesse caso, a carência de leitores de poesia só pode ser entendida como uma, no âmbito de um conjunto de carências ainda mais amplas.

Porém, o assunto aqui não é o das carências mais amplas. O assunto aqui é o da carência talvez mais aguda da literatura. Há a penúria do teatro... Mas a penúria do teatro não é nada perto da penúria da poesia. Não é preciso nem estabelecer concorrência entre os dois para saber quem é mais pobre, mais sem posses, mais jogado à beira do caminho. Então, não vamos perder tempo com comparações equívocas entres irmãos deserdados, um a dormir sob pontes e outro a dormir sob marquises de prédios arruinados.

O conto e a crônica, quem não sabe que as editoras publicam muitíssimo mais do que a poesia? O romance então... esse é barão, perto dos outros, muito embora seja assassinado todos os dias nas escolas do país por "leituras" obrigatórias que, a pretexto de educar por meio de provas atávicas e de trabalhos desprovidos de bom senso, só não causam mais danos ao prazer de ler porque simplesmente o extinguem no nascedouro – o coração do estudante.

Mas uma coisa tem de se admitir: não há uma única pessoa no país que não fique com pena da situação da coitada poesia.

A situação da poesia é mesmo de comover um coração de pedra, de congelar o sangue nas veias, de arrasar nervos de aço e outras metáforas e hipérboles descabeladas mais.

E se Júlio Verne achou ter feito uma alegoria definitiva da situação da poesia, em seu Paris no Século XX, ao enviar seu personagem-poeta ao final do romance a um passeio desolador no cemitério, é porque sequer imaginou os efeitos que poderia ter extraído do romance caso situasse suas lúgubres previsões no Brasil de inícios do século XXI.

Com o que disse até aqui com a necessária dose de exagero de linguagem, espero ter convencido essa decisiva pessoa chamada "você" da necessidade de irmos todos para o front em defesa das barricadas da poesia. Então, como bárbaros, como um exército de brancaleones, vamos tomar de assalto as estantes de livrarias e bibliotecas, empurrando para fora de nossas fronteiras os livros de outros gêneros. Não se pode ter piedade neste momento.

Livros de auto-ajuda, vocês têm suas razões ou desrazões de ser, mas, com o perdão do mau jeito, cheguem para lá; livros de culinária, vocês são deliciosos, mas as hordas da poesia vão invadir estas prateleiras: se mandem para o andar debaixo ou de cima; obras de economia-política, de física nuclear, de vida e obra de grandes artistas do cinema, vocês são totalmente demais, porém: batam em retirada, que os volumes de Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Florbela Espanca, Haroldo de Campos, Leminski e novos poetas, entre outros, enlouqueceram e, como vikings, partem em desabalada correria para retomar o espaço perdido.

Como já disseram outros, noutros termos, a propósito de outras causas consideradas justas, queimando atrás de si as pontes de retirada, lancemos nosso grito de guerra: Avante, companheiros:

 

Hasta la victoria siempre!















segunda-feira, 30 de março de 2009

Leitura literária na escola


No mundo atual, os parâmetros da globalização têm a pretensão de moldar as normas do viver e do conviver das sociedades, com propósito de uma “interação mundial” bastante particular e cujos efeitos vamos conhecendo mais ampla e profundamente nestes anos 2000. Parte essencial dessa mundialização, as novas tecnologias da comunicação, propiciadoras de acesso imediato às informações e ao entretenimento numa abundância nunca suspeitada, exercem papel predominante nessa instantânea interação, ao mesmo tempo fascinante e desafiadora.

Todavia, essa interação tem sido feita no mais das vezes em detrimento e em substituição de experiências essenciais ao espírito humano em âmbitos locais, comunitários, nacionais e mesmo globais, do que tem resultado, para estes lados do Ocidente, uma padronização cultural empobrecedora, orientada para o consumismo desenfreado, alienado e anulador de identidades legítimas, de diversidades sociais, culturais e simbólicas e, no limite, de direitos fundamentais da cidadania.


No caso brasileiro em específico, é notória a insuficiência de situações e espaços que propiciem saber e cultura, entendidos não como artigos passíveis de descarte, mas como elementos inerentes à instituição da própria natureza humana, nos termos da Declaração Universal dos Direitos Humano:

Artigo 27:
I) Todo o homem tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de fruir de seus benefícios.
II) Todo o homem tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.

Todavia, não há razão de ser para se temer ou aceitar que práticas sociais e simbólicas sejam abolidas pelo surgimento de novas tecnologias, embora haja quem tema e igualmente quem defenda esses pontos de vista.

Em Confissões de Minas (Andrade, Carlos Drummond de. Confissões de Minas. Col. Joaquim Nabuco. Dir. Álvaro Lins. 1 ed. Rio de Janeiro. Ed. América, 1944.) um Drummond ainda moço, algo irônico e ressentido, acusa o surgimento do cinema como razão do desaparecimento de grupos amadores de teatro de Itabira, não sem antes sugerir seu amor de fã por Greta Garbo – em seu último livro, o poeta retorna a esse amor sem qualquer complexo de culpa.

Mas o cinema não extinguiu o teatro e se este último enfrenta crises permanentes no Brasil, tanto quanto, a bem da verdade, também o primeiro, isso tem mais a ver com a dinâmica do próprio setor e suas relações com a sociedade e com o Estado do que com qualquer suposta concorrência predatória entre artes, sistemas de produção simbólica ou mídias.

O mesmo se disse do cinema em relação à TV. Porém, passado um período de acomodação entre um e outro, a própria TV se abasteceu e consolidou a partir da veiculação de conteúdos gerados pela indústria cinematográfica. O desacerto desses setores deve-se, assim, não a uma concorrência de vida e morte entre ambos, mas a injunções políticas e econômicas cujos desdobramentos preterem, infelizmente, meios culturais e de produção de saber de extrema relevância.

Ao lado disso, é necessário constatar que as novas tecnologias trouxeram fortes elementos desestabilizadores dos diversos campos de produção simbólica constituídos ao logo de séculos, e não poucos entenderam que esses elementos desestabilizadores teriam potenciais apocalípticos, entre os quais, vale citar alguns:
  • A produção escrita culta, pela proliferação de "vícios" de linguagem aceitos e estimulados pela internet, veria seu prestígio social decrescer acentuadamente;
  • A leitura em geral e a leitura literária em particular, enquanto atividades de apropriação do mundo por meio do texto verbal tornar-se-iam acessórias em face da eficácia e do impacto das novas formas e gêneros disponíveis pela e na WEB;
  • A linguagem iconográfica da internet deslocaria significativamente a literatura de seu eixo verbal-escrito para o icônico;
  • Os meios digitais extinguiriam o livro impresso;
  • A sintaxe simultânea da tela, instituindo uma nova ordem leitora, instauraria a produção em massa de leitores para os quais a linearidade da escrita tradicional, e seus gêneros, seria um arcaísmo de difícil aceitação.
A lista de restrições é tão extensa que não compensaria aqui acrescê-la, ainda que mantida a ordem alfabética.

Fato significativo, porém, é que as novas tecnologias, passados os primeiros anos de impacto e euforia novidadeira, não apenas passaram a exigir uma significativa elevação das habilidades leitoras da sociedade em geral como também têm impulsionado, com ainda maior vigor, o letramento e o mergulho em práticas sociais e simbólicas relacionadas à língua materna e à literatura, seja no que tange à produção de gêneros tradicionais ligados à oralidade, seja no que se refere à produção escrita em seus múltiplos gêneros, tipologias e inusitadas modalizações impostas pela nova realidade.

Inversamente do que se imaginou na idade da pedra das novas tecnologias, se é que já nos encontramos em outra era, o horizonte aberto pela nova realidade não só impôs a recuperação de práticas relacionadas à leitura, à literatura e à escrita aparentemente em vias de extinção como também agora as estimula, revigora e incorpora enquanto conteúdos para pô-las em circulação em uma escala mundial nunca antes imaginada sequer pelo espírito mais otimista.

Assim, o pretenso definhamento da produção e reprodução da literatura e de outros gêneros apoiados no idioma e na leitura, como o teatro, não só se nos apresenta hoje como verdadeira paranóia niilista, como se vai reconhecendo ser a restrição dessas práticas a espaços deslegitimados subproduto não de avanços tecnológicos, mas de insuficiência ou ausência de respostas do próprio campo simbólico e da sociedade a uma situação concreta, que exige novos posicionamentos adequados à realidade.
As novas tecnologias e seu desenvolvimento exponencial não podem e não têm de ser encarados como as dez pragas do Egito. Muito pelo contrário, devem ensejar o impulso vivificante de busca e construção de ações criativas e vigorosas que reorganizem o campo simbólico, no interior do qual a formação de público leitor de literatura não é elemento secundário, de modo a acolher e extrair os melhores proveitos da nova realidade.

Por sua natureza intrinsecamente formadora, do ponto de vista intelectual, estétoco, moral e ético, a leitura literária, bem como as práticas que a instituem enquanto parte do sistema de produção simbólica, não tem substituto. O que ela oferece, apenas ela pode oferecer, de modo que estar privado, ou participar insatisfatoriamente dela – num mundo em que a formação intelectual é critério e linha de fronteira para inclusão ou exclusão social – é estar privado de uma parte essencial da cidadania e da própria humanidade em sentido mais amplo, profundo e contemporâneo.

Não existir para o patrimônio constituído, mobilizado e acessado pela leitura literária é confinar-se a situações e espaços simbólicos tendentes à desumanização, ao vilipêndio e ao aviltamento da cidadania; no limite, corresponde à asfixia das potencialidades vocacionais, das aspirações de completude e dos sonhos de realização individual dos quais o homem não pode abrir mão sem condenar-se, mutatis mutandis, à morte espiritual agônica.

Pelo inverso, existir com desenvoltura para esse patrimônio resulta não apenas em imbuir-se de fluxos constantes de humanidade como em pôr-se a circular vívida e participativamente por uma humanidade ampla no tempo, larga no espaço, rica na diversidade, infinitamente abundante na produção e disponível tão integral e simultaneamente quanto possível hodiernamente.

Nas novas tecnologias de informação a leitura literária encontra não uma rivalidade insolúvel, mas uma parceria comprovadamente fecunda, tanto quanto se sabe extremamente fecunda a tradicional fraternidade entre literatura e teatro.

O ponto de vista aqui adotado considera mistificação a atribuição de culpa pela crise do ensino de literatura nas escolas às mídias contemporâneas. A satanização da televisão e das novas tecnologias de informação se configura reação simplória e obscurantista a um problema que realmente necessita ser enfrentado e para o qual em nada contribui a atitude escapista de se depositar no outro a razão das próprias mazelas.

Se jovens e mais jovens perdem o interesse pela literatura, ou antes, se sequer tiveram esse interesse despertado em qualquer momento de sua trajetória escolar, seguramente isso não se deve à boa ou má programação da tevê ou ao impacto dos computadores nas sinapses virgens, mas à falta de respostas ou a insuficientes respostas da escola, tomada em seu conjunto, a uma questão que é fundamentalmente sua.

Não cabe à televisão nem à internet a responsabilidade de desenvolver habilidades relacionadas à leitura literária: cabe à escola. Noutras palavras, o problema não é do vizinho: é de nós mesmos, professores e educadores, que necessitamos sonhar e inventar caminhos, articulando o ensino da leitura literária com as substanciais contribuições das artes, das novas tecnologias e das diversas áreas do saber.

O texto escrito é, sem sombra de dúvidas, um dos bens de maior circulação e assume inequívoco valor de troca no mundo de hoje. Da sua criação individual ou coletiva, passando por sua produção industrial, à sua comercialização, governada por vasto emaranhado jurídico, que abrange das constituições e leis ordinárias de cada país a acordos da OMC (Organização Mundial do Comércio), ele, o texto, se constitui em produto comercial de grande valor econômico que movimenta ramos inteiros da economia mundial. E não há sombra de dúvidas que o principal filão desse comércio é o relativo à literatura, haja vista as monumentais, concorridas e reconhecidas feiras internacionais realizadas em todos os continentes, a mobilizar fortunas e públicos cada vez maiores.

Porém, antes de escoar pelo sistema produtivo na forma de mercadoria, o texto é produto intelectual da subjetividade humana, é expressão de cultura, particularidade que lhe confere natureza social imensurável, que age na construção de identidades e diversidades responsáveis pela coesão de grupos, comunidades locais, regiões, nações, blocos internacionais e articulações globais tanto mais intensificadas pela WEB.

Do ponto de vista simbólico, a circulação do texto e das práticas que o instituem (a leitura e a escrita) é muito mais ampla e tem um impacto muito mais duradouro e profundo do que os frios números do mercado podem sugerir. Um livro, uma vez adquirido e amorosamente preservado, tem uma vida útil centenária, e se oferecerá como jazida disponível a gerações e gerações de indivíduos que a ele tenham acesso – e se esse acesso for ainda incrementado por versão cibernética e por meios de consulta virtual, a vida útil desse bem se torna incalculável, quer em extensão no tempo, quer em profundidade de penetração social. E quem há de negar que o texto, o livro literário tem lugar de destaque nessa lógica?

Muito se tem falado, no caso do Brasil, que se lê pouco e mal, e, no mais das vezes, sob pressão da escola. São frequentes as comparações com outros países, sendo a rivalidade com a Argentina, a título quase humorístico, para além do futebol, também nesse caso acionada, sempre com certo ressentimento de nacionalismo ingênuo: Buenos Aires teria mais livrarias do que todo o Brasil no conjunto.

As comparações são válidas, pois permitem que nos situemos em face do mundo. Ademais, consultar os resultados dos exames nacionais ou do PISA não há de resultar em ofensa a ninguém. Todavia nenhuma melhoria, em se tratando de constituição do público leitor literário, será efetiva se apoiada em simples reprodução de modelos elaborados para outras realidades, épocas e culturas, ou na desmobilização da escola e na redução de seu poder de pressão, que, a meu ver, deve, isto sim, aumentar.

Há, relativamente à população, poucas livrarias nas grandes cidades brasileiras, mas praticamente toda banca de jornal de nossas cidades grandes e médias, que não são poucas, vende, além de periódicos, livros e variados outros tipos de publicações que incorporam o texto literário.

Podemos concordar que seja insuficiente, e efetivamente o é, mas estamos longe da estaca zero: o Brasil detém hoje um significativo parque industrial voltado para os produtos da leitura em geral e literária em particular, e o patrimônio cultural brasileiro depositado em páginas impressas ou em websites está longe de ser desprezível.

Todavia, há que se reconhecer e enfrentar o problema da necessidade de reforço do público leitor de literatura, que depende de um impulsionamento geral das atividades de leitura cujo pólo dinâmico, sem qualquer sombra de dúvida, é a escola, das séries iniciais aos níveis superiores da educação.
Por óbvio, cabe à escola papel de destaque na alfabetização e na educação básica de nossas crianças e jovens. Porém não é ocioso perguntarmo-nos para que se realiza essa alfabetização e essa escolarização senão para auxiliar os indivíduos a se constituírem em leitores livres ao longo de seu período de escolarização e para além dele.

Elevar e aprofundar o letramento da população por meio da escola, na idade mais adequada para que isso ocorra, permitindo a ela desenvolver consistentemente competências e habilidades leitoras essenciais para os dias de hoje, em que não ficam em segundo plano as habilidades de leitura literária, é não só franquear a ela o acesso ao patrimônio imaterial do Brasil e do mundo como ainda, e com maior ênfase, incluí-la de forma integral, bem para além dos limites do mercado consumidor de obras escritas.

Por assim entender é que o ponto de vista aqui adotado volta-se para a constituição de habilidades de leitura literárias já nos primeiros anos de escolarização, especificamente o Ciclo 1 do Ensino Fundamental.
Por muitas razões, a leitura em geral e a literária em particular, como atividades inerentes ao processo de ensino-aprendizagem em na sala de aula, foram sendo preteridas no cotidiano escolar. Em nome do cumprimento de um programa que as deixou de fora, quer como conteúdo, quer como objetivo de aprendizagem, o professor foi sendo premido a solicitar aos alunos leituras domiciliares e a dar como entendido por eles o que ele, professor, não tinha sequer condições de saber com rigor se fora lido.

Sob o argumento de que a turma numerosa e o tempo exíguo impedem a leitura, literária ou não, em sala de aula, esta foi sendo empurrada para a margem do processo de ensino-aprendizagem até tombar na indigência de uma área cinzenta do saber, território de ninguém, cuja responsabilidade de cuidar, por essa mesma razão, ninguém assume.
Como fosse produto com data de validade prefixada, cuja importância decrescesse na proporção do avanço do aluno rumo às séries finais da Educação Básica, a leitura, principalmente a literária, é ainda hoje preterida paulatina e crescentemente das séries iniciais do Ensino Fundamental às demais do Ensino Médio.
Os péssimos resultados dos nossos jovens e crianças em exames estaduais, nacionais e internacionais denunciam a situação de verdadeira calamidade a que as atividades de leitura foram sendo relegadas ao longo dos anos. E dessa situação não se sai se a leitura não passar a ocupar a cena central da sala de aula e se o professor, por sua própria iniciativa e apoiado pelo sistema, não assumir o real protagonismo das ações comprometidas com resultados satisfatórios e com a elevação do desempenho dos alunos nesse quesito tão decisivo da formação escolar e humana.

O foco no Ciclo 1 do Ensino Fundamental reforça no professor o papel de emulador das habilidades de leitura literária do aluno, desenvolvidas a partir de leituras concretas, orais, silenciosas, individuais, coletivas, formais, dramáticas, analíticas ou interpretativas, para controle democrático de desempenho ou para a exposição de idéias, para estudo do texto e para o gozo, para aprender e para divertir, para acumular conhecimentos e para compartilhar experiências propiciadas pelo contato com temas e formas.

Ler, ler, ler, na sala de aula e em casa, experimentando todas as contribuições, todas as técnicas, todas as estratégias, todos os modelos criados para o mergulho nos oceanos simbólicos escondidos nas letras. Ler, mobilizando práticas de sucesso já consagrado, como aquelas relacionadas ao teatro, por exemplo, e recursos disponibilizados pelas novas tecnologias, tais como o audiovisual digital, as ferramentas da internet entre outros, convidando a nova geração de brasileiros hoje na escola, toda ela nascida já na era digital, a compartilhar a cultura das letras, que nasceu nas paredes das cavernas, sim, mas que, delas ao papiro e ao pergaminho, e destes à folha de papel, num salto, já voa transmutada pelas páginas da World Wide Web com seus La Fontaine, Perrault, Lígia Bojunga, Moteiro Lobato, Mil e uma Noites, entre outros, como uma imensa cegonha cibernética.

Porém, o desenvolvimento de habilidades de leitura literária no Ciclo 1 do Ensino Fundamental não é alheio a questões extremamente polêmicas, quer no campo da pedagogia, quer no campo da própria literatura.
A meu ver, certas visões limitadas, vigentes e dominantes hoje no ensino oficial, mercê de uma inércia mórbida, em que pesem esforços governamentais, redundam na seleção de textos absolutamente inócuos do ponto de vista da relação ensino-aprendizagem, fúteis, do ponto de vista da formação humana, e paupérrimos, do ponto de vista do trabalho de linguagem.

Como é que se vão desenvolver habilidades de leitura literária a partir de textos construídos a partir de clichês, obviedades, e lógicas calcadas no mais estéril senso comum? Com é que se vai desenvolver o gosto literário, eminentemente estético, a partir de pastiches ou de facilitações reducionistas de obras clássicas já voltadas para uma faixa etária específica? Como é que se vai desenvolver a acuidade linguística e de linguagem a partir de textos sem complexidades, sem desafios, sem nada a oferecer a não ser o arremedo em lugar do verdadeiro, o simulacro em lugar do original?

A meu ver, é preciso assumir uma postura de resistência em relação à pressão do mercado editorial, que em muitos casos quer vender livros com cada vez menos textos, mais imagens e mais banalidades; e em relação à força da inércia comodista, imperante no sistema educacional, que prefere ceder às facilidades e desviar o foco das críticas às suas insuficiências para a televisão e para novas tecnologias, bodes expiatórios a pagarem por seus pecados e pelos de outros.

Por óbvio, nessa faixa do Ensino Fundamental residem em potencial os futuros leitores de literatura, que não o serão caso não tenham habilidades específicas de leitura desenvolvidas no contato com o patrimônio literário reconhecidamente relevante e socialmente legitimado pelas instituições criadas por nós para esse fim, que se têm seus limites, devem ainda assim ser observadas, uma vez que não cabe ao professor ou ao mercado editorial decidir o que é literatura.

A experiência de leitura e de trabalho de literatura com crianças de periferia, em ambiente escolar ou comunitário, me demonstraram que tanto as dificuldades de linguagem dos textos mais sofisticados, quanto a distância das experiências retratadas neles são encaradas com naturalidade pelas crianças, que não necessitam mais do que a solidariedade e a paciência do adulto ou do professor para penetrar o mundo por vezes labiríntico da literatura.

Dessa minha experiência, nascida de uma intuição – a de que textos esteticamente pobres deseducam – cresceu a convicção aqui apresentada: a de que, para um sério trabalho de desenvolvimento de habilidades básicas de leitura literária, os textos verdadeiramente literários são imprescindíveis, e já desde os tenros anos da vida humana, antes mesmo do letramento, da aquisição da fala e quiçá da viagem para o exterior do útero materno.

O ensino escolar de literatura é frequentemente justificado por razões bastante fortes, tais como a necessidade de desenvolvimento de habilidades:
  • relacionadas ao domínio do idioma em nível mais avançado, portanto linguísticas;
  • de desenvolvimento do espírito, portanto intelectuais;
  • de conformação do próprio caráter, portanto morais;
  • relacionadas à sensibilidade artística, portanto afetivas e expressivas.
Historicamente, tem-se a predominância da primeira sobre as demais razões elencadas anteriormente, em razão do que as habilidades estritamente literárias são alocadas nas séries finais do Ensino Básico, quando se espera que, pelo estágio de domínio do idioma, o estudante esteja em condições de abordar com propriedade os fenômenos complexos da língua envolvidos no texto artístico, a partir do qual, compreendido em sua dimensão idiomática, serão realizadas aquisições intelectuais, morais e afetivas.

Não por acaso listei as razões em destaque na ordem em que o fiz, mas por ser essa a escala de importância tradicionalmente atribuída à presença do texto literário na escola: em primeiríssimo lugar, a literatura é pretexto para ensino do português culto, principalmente escrito; em segundo lugar, o texto literário serve para ensinar a pensar, a raciocinar, a tecer hipóteses; num honroso terceiro lugar, na condição de apêndice do processo de ensino-aprendizagem, o texto literário serve para a realização de reflexões morais que, por essa mesma razão, não serão jamais avaliadas, simplesmente porque não podem ser alvo de mensuração no âmbito escolar; e em último lugar, o texto literário na escola presta-se a seu próprio fim: o de desenvolver e mobilizar habilidades de leitura literária. Isto no Ensino Médio.

Todos sabemos que o domínio um pouco mais seguro de um campo do saber é resultado de acúmulos sucessivos por anos de aquisições, acomodações, crises, retomadas e saltos qualitativos. Como então pretender que, sem um longo e sistemático contato com o texto literário, um estudante do Ensino Médio apresente em face dele uma atitude acolhedora, produtiva, criativa e interessada? Como pretender que o estudante, habituado à leitura literária como pretexto, acolha sem rejeição o texto o literário como conteúdo do saber?

Considero que as dificuldades do ensino-aprendizagem de literatura comumente enfrentadas por professores e estudantes do Ensino Médio residem não além, mas aquém de suas fronteiras: no Ensino Fundamental.
E considero também que se práticas constituintes de habilidades de leitura literária não forem instituídas já no Ciclo I do Ensino Fundamental, correm o risco, e a realidade o demonstra, de não serem instituídas nunca.
Investigar sobre pontos de insuficiência ou de estrangulamento das relações de ensino-aprendizagem de leitura de textos literários é, por isso, essencial nessa fase da Educação Básica.

Esses pontos de insuficiência e estrangulamento, pelos resultados apresentados por exames como o PISA, o SAEB, Provinha Brasil ou outros, espalham-se por toda a cadeia do Ensino Básico brasileiro. E se o pólo de comparação for o PISA, o desempenho dos alunos de escolas privadas do Brasil não se distancia substancialmente daqueles das escolas públicas.

Por essa razão considero, tenho a firme convicção de que a leitura literária só alcançará sucesso no Ensino Médio caso as competências e habilidades básicas que as mobilizam e desenvolvem estejam fortemente presentes já no currículo e no cotidiano do Ciclo I do Ensino Fundamental, verdadeiro solo de todas as conquistas futuras.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O inconsciente e a escrita


A aquisição da língua materna, nos primeiros anos de vida, e o desenvolvimento da escrita são processos que se articulam, mas cujas imbricações estão longe de constituir acordo entre teóricos, pesquisadores e cientistas.Pontos de vista evolucionistas e deterministas, predominantes ao final do século XIX e durante boa parte do século XX, consideraram a oralidade causa direta da escrita e, apoiados nessa fé, desenvolveram descrições, métodos, práticas e manuais que, entendendo a segunda como extrato e registro da primeira, confundiram – ao identificar – ambas e, na prática, submeteram o entendimento da totalidade da língua a uma de suas dimensões.O material como veículo do imaterial.

Essa perspectiva historicista, que procura identificar a prevalência no tempo de uma causa fundante, termina por apartar e hierarquizar dimensões da própria língua, pois, contraditoriamente, ao identificar a oralidade como fonte, coloca-a em posição subalterna, de menor prestígio, como base de um sistema mais perfeito, complexo e de maior prestígio social: o escrito.

De seu lado, a linguística estrutural, em cujas bases se encontram pontos de vista formalistas, em busca da superação do subjetivismo ideológico historicista, trilhou as sendas do objetivismo, cujas versões mais radicais, apartada toda subjetividade, entenderam os discursos como máquinas de produção de sentidos perfeitamente descritíveis em termos lógicos.

As perspectivas formalistas e estruturalistas, ao elegerem como foco das preocupações os discursos “em si” – o que significa a desconsideração dos agentes sociais e históricos e das condições de produção – e ao promoverem um corte em favor da análise puramente sincrônica, resvalaram muitas vezes para o beco sem saída do chamado imanentismo que, ao sonhar explicações lógico-matemáticas – e muita análise profícua repousa nessa práxis –, sequestra o contexto – que é a própria placenta de toda significação.
As perspectivas anteriormente, destacadas de forma sucinta e até um tanto caricata, reconheça-se, tiveram seus momentos de apogeu e assumiram mesmo contornos de moda acadêmica, porém, outros pontos de vista, matizações das mesmas perspectivas ou não, tiveram lugar concomitantemente e – acordes dissonantes – abriram novas e interessantes possibilidades de compreensão do idioma.

O Curso de Linguística geral de Saussure, cuja obra situa-se coerentemente no quadro do pensamento mais inovador do final do século XIX, chama atenção para um aspecto polêmico para a época, sem dúvida, todavia inescapável:

“Na realidade, tudo é psicológico na língua, inclusive suas manifestações materiais e mecânicas, como a troca de sons (...)”

Reconhecendo a dimensão material da língua, Saussure procura situá-la para além de dicotomias redutoras, e considera que na complexa interação entre sujeitos envolvidos em processos discursivos “é fundamental observar que a imagem verbal não se confunde com o próprio som e que é psíquica do mesmo modo que o conceito que lhe está associado.”

Pensar a língua, de um ponto de vista saussureano, é optar por um movimento de abrangência que incorpora o todo (social e sistêmico) e a parte (individual e irrepetível): se por um lado o indivíduo logo ao nascer é mergulhado numa teia pronta de relações linguísticas herdadas, por outro só mobiliza essa teia a partir de sua condição de indivíduo, condição que é social, histórica e psicológica.

Bem considerados, tanto o ponto de vista historicista quanto o formalista-estruturalista enfatizam aspectos exteriores ao sujeito. No que tange ao ensino ou aquisição do idioma, o primeiro deriva para as classificações e para os manuais porque entende que há um patrimônio linguístico erigido e acumulado por gerações anteriores que necessita ser inculcado – nem que seja à palmatória – no espírito ainda imaturo para que ele amadureça. O segundo envereda para as descrições e reduções lógicas, pois, estabelecido que os textos e discursos têm lógicas próprias, qualquer subjetividade na análise dessas relações se afiguraria, na melhor das hipóteses, lente deformadora a projetar sentidos não propostos pelos discursos ou textos. O modelo de Jakobson, que situa os elementos envolvidos no processo comunicativo, é exemplo dessa objetivação que redunda na completa anulação das subjetividades envolvidas.

Porém, situar a língua no âmbito exclusivamente histórico e sistêmico leva inexoravelmente à crença de que métodos e técnicas puramente intelectuais dão conta da aquisição da linguagem, que envolve elementos e processos afetivos complexos, íntimos e profundos, tantas vezes de difícil observação e quase sempre de importância decisiva.

Para Saussure, não haveria objetividade possível numa interação linguística, já que o signo linguístico, ele próprio, é de natureza psíquica, uniria não uma palavra e uma coisa do mundo real, mas um conceito (significado) e uma imagem acústica (significante) – e esta imagem acústica não é o som, mas a impressão psíquica desse som:

“O caráter psíquico de nossas imagens acústicas aparece claramente quando observamos nossa própria linguagem. Sem movermos os lábios nem a língua, podemos falar conosco ou recitar um poema”.

De semelhante ponto de vista resulta que toda materialidade envolvida nos processos de interação linguística tem caráter secundário, de suporte, de veículo, de meio.

As relações entre língua e psiquismoO reconhecimento da dimensão psíquica da língua, destacada por Saussure, terá lugar também nas pesquisas de Freud e Lacan, os quais, em suas sondagens sobre o inconsciente humano, encontraram razões para, a partir do estudo de distúrbios psicóticos, acreditar na existência de mecanismos relacionados à linguagem e à fala profundamente assentados no psiquismo do indivíduo.

Freud, em “A interpretação das afasias”, articulando reflexões interdisciplinares, analisa distúrbios relacionados às faculdades linguísticas procurando entendê-los a partir da crítica de explicações puramente fisiológicas. Estudando vários casos, a partir de dados de bibliografia especializada, Freud procura demonstrar a insuficiência dessas explicações para inúmeras situações cujas causas de distúrbios linguísticos foram consideradas, por essa mesma bibliografia, exemplarmente fisiológicas, como no exemplo a seguir:
“Antes de mais, dever-se-ia pensar que nenhuma lesão conseguiria explicar a redução da excitabilidade num centro que,pelo contrário, nos pareceria uma situação puramente ‘funcional’. Precisamente. E podem de fato existir situações semelhantes à afasia motora transcortical surgida por efeito de um dano puramente funcional sem qualquer lesão orgânica”.

Ao propor, a partir de suas análises, que distúrbios linguísticos podem ter causas orgânicas, mas também funcionais, Freud, descartadas anormalidades fisiológicas provocadas por doenças ou traumatismos , abre a possibilidade para a hipótese de que as fontes dessas anormalidades podem residir em razões psíquicas e emocionais.

A validação dessa hipótese de explicação psicológica para anomalias relacionadas à linguagem impõe o reconhecimento de que terapias outras, que não puramente psiquiátricas, necessitam ser igualmente validadas.

Porém, o que se pode inferir a partir das assertivas de Freud é que não apenas em casos de distúrbios a língua e seu emprego têm profundo enraizamento na psique humana, como também que as próprias faculdades de linguagem e de fala têm constituintes emocionais inequívocos.

Sobre a relevância das reflexões sobre a linguagem na obra de Freud, Lacan destaca em seu “O seminário”, livro 5 :

“Essa constante é que julgo fundamental para compreender o que há em Freud: a importância da linguagem e da fala”.

O próprio Lacan insiste nas profundas implicações entre linguagem humana e psiquismo, extraindo de seus próprios estudos, particularmente os realizados a partir de análises de casos de distúrbios de linguagem, deduções que reforçam o papel do indivíduo, de suas experiências emocionais e de sua história particular na constituição e na produção da língua e da fala.

Também ele, tal como Freud e Saussure, faz clara distinção entre os aspectos físicos (do som), fisiológicos (puramente orgânicos) e psíquicos. Também para ele, tanto quanto para Saussure e para Freud, o significante não se confundiria com o som, tampouco seria consequência passiva do aparelho fisiológico de linguagem – em que, obviamente, o sistema nervoso central tem prevalência. Para ele, o significante é já manifestação evidente do simbólico – aqui entendido já em termos assumidamente psicanalíticos:

“Com efeito, o que autoriza o texto da lei se basta por estar, ele mesmo, no nível do significante. Trata-se do que chamo de Nome-do-Pai, isto é, o pai simbólico. Esse é um termo que subiste no nível do significante, que, no Outro como sede da lei, representa o Outro. É o significante que, no Outro como sede da lei, representa o Outro. É o significante que dá esteio à lei, que promulga a lei. Esse é o Outro no Outro.”

Tanto para Lacan, quanto para Freud – quanto para Saussure, por que não? – a língua e sua concretização não são meros subprodutos da biologia ou da ação do meio social sobre o indivíduo. São, com ênfase, manifestações de conflitos inerentes aos indivíduos cujos mecanismos os distúrbios psicóticos, antes de dificultar a observação, teriam o mérito de revelar, já que representariam eventos postos a nu sem os véus enganadores de convenções e coerções sociais.

Lacan argumenta que o espaço do significante é o espaço do inconsciente, e que, numa cadeia significante, o significante ausente tem papel essencial:

“Pode faltar alguma coisa numa cadeia dos significantes. Vocês precisam compreender a importância da falta desse significante especial do qual acabo de falar, o Nome-do-pai, no que ele funda como tal o fato de existir a lei, ou seja, a articulação numa certa ordem do significante”.

Talvez se possa compreender esse Outro no Outro, esse significante que falta na cadeia, o motor de uma demanda que jamais podendo ser satisfeita impele o indivíduo a, substituindo continuamente o real pelo simbólico, sublimar o que de outro modo assumiria expressão sintomática.

Numa extrapolação das observações de Lacan, poder-se-ia considerar que a substituição do pai pelo Nome-do-pai (da função social pelo símbolo – no caso a lei), que seria uma espécie de ausência constituinte, tem analogia com o processo de construção, da escrita pelo próprio indivíduo nos primeiros anos de vida.

Assim a produção, pela criança, de garatujas, de desenhos, de escrita pictórica, de escrita mimética – em que letras e escrita revelam ligações diretas com o real – e de escrita verbal, estrito senso, poderia ser encarada como um processo de substituição do corpo pelo simbólico, processo sublimatório cujo centro seria a demanda da expressão verbal, oral ou escrita, entendida como ato criativo e mecanismo de superação de conflitos insolúveis no campo fisiológico, desde que a humanidade no indivíduo não é instinto – passível de ser satisfeito –, mas pulsão, que, não podendo jamais ser satisfeita, ou é somatizada ou é sublimada.

Não seria arbitrário extrapolar o enfoque da produção oral ou escrita como somatização ou sublimação para além das faixas etárias iniciais da vida humana, até porque as análises de Freud e Lacan, em suas obras aqui citadas, tratam exatamente disso.

Se por um lado as reflexões de Freud e Lacan apontam para casos relatados por bibliografia especializada em que a somatização poderia estar na origem de distúrbios de linguagem verbal oral e escrita, por outro não são raros os casos em que autores consagrados ou se apontaram (caso de Fernando Pessoa) ou são apontados (como James Joyce) como motivados por ou distúrbios ou por, no mínimo, incômodos verdadeiramente fertilizadores da produção artística.

Clarice Lispector escreveria para não morrer, Jean Genet para sair da cadeia, como eles mesmos afirmaram algures; Kafka, para aliviar sensação de sufocamento, como já se escreveu sobre ele; Maiakóvisk, para descomprimir a pressão emocional de paixões cujos objetos se foram revelando para ele inatingíveis: uma revolução verdadeiramente libertadora e uma Lilia Brick livre para corresponder ao seu amor (“a canoa do amor despedaçou-se contra a miséria cotidiana”, escreveria não muito antes de suicidar-se).

Fixemo-nos um tanto em Manuel Bandeira, cuja vida pessoal desde a infância foi de luta contra uma doença respiratória que, se não o vitimou cedo, lhe comprometeu decisivamente a qualidade de vida, faz vazar continuamente para sua produção literária aspectos dolorosos dessa sua vida pessoal de muitas limitações que, não obstante, lhe proporcionou oportunidades de observação e contemplação – muitas vezes era o que lhe restaria, em razão das muitas impossibilidades físicas.

Em entrevistas, o poeta externou a angústia de, na infância, ter de ficar observando os amigos da mesma idade a realizarem práticas físicas a ele proibidas, e como ele compensou isso com a imaginação, às vezes sem o saber. Biógrafos e críticos de sua obra, por seu turno, afirmam que essa posição de exterioridade em relação a eventos, de observador interditado em seu desejo, em certo sentido contribuiu na elaboração de sua obra poética.

Sobre o processo de escrita de um de seus mais famosos poemas, Bandeira assim resumiu:

“Quando eu tinha os meus quinze aos e traduzia na classe de grego do Pedro II a Ciropedia, fiquei encantado com esse nome de uma cidadezinha fundada por Ciro, o Antigo, nas montanhas do sul da Pérsia. Para lá passar os verões. A minha imaginação de adolescente começou a trabalhar; eu vi Pasárgada e vivi durante alguns anos em Pasárgada. Mais de vinte anos depois, num momento de profundo “cafard” e desânimo, saltou-me do subconsciente este grito de evasão: ‘Vou-me embora pra Pasárgada!’. Imediatamente senti que era a célula de um poema. Peguei do lápis e do papel, mas o poema não veio. Não pensei mais nisso. Uns cinco anos mais tarde, o mesmo grito de evasão nas mesmas circunstâncias. Desta vez o poema saiu quase ao correr da pena. Se há belezas em ‘Vou-me embora pra Pasárgada’, elas não passam de acidentes. Não construí o poema; ele construiu-se em mim nos recessos do subconsciente, utilizava o sonho, jamais realizado de uma bicicleta, etc. O quase inválido que eu era ainda por volta de 1926 imaginava em Pasárgada o exercício de todas as atividades que a doença me impedia: ‘E como farei ginástica... tomarei banhos de mar!’. A esse aspecto Pasárgada é ‘toda a vida que podia ter sido e que não foi’.”

Somados os números revelados pelo poeta, o texto se foi construindo latentemente no espírito do poeta por mais de vinte e cinco anos, sem que ele o soubesse. No poema “Profundamente” , o poeta narra de forma pungente um episódio de sua infância aparentemente de menor valia, articulando-o com situação posterior análoga na forma mais diversa em sentido:

PROFUNDAMENTE
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas acesas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Poder-se-ia especular em muitas direções acerca dessa incorporação por recuperação da memória de um fato corriqueiro da vida de uma criança em um poema, porém o que se pode argumentar também é que são muito comuns descrições em relatos clínicos de casos em que pequenas frustrações recalcadas se revelaram presentes na base de distúrbios de aprendizagem, de retardamento no desenvolvimento da fala ou da escrita ou ainda de desempenho escolar insatisfatório no que tange também à produção oral e escrita da língua materna.

Não se pode afirmar que opção de Bandeira de enfrentar a frustração infantil, e depois as muitas perdas da vida adulta, por meio do poema tornou-lhe melhor e existência, porém pode-se afirma com certeza que essa operação constitui um processo de busca de substituição do real pelo simbólico e, na pior das hipóteses, agora numa citação de memória de versos de Chico Buarque: “Ainda é melhor sofrer em dó menor do que você sofrer calado”.

Ensino-aprendizagem da língua de um ponto de vista democrático

Se se assume que no processo de produção da linguagem, da língua, da fala e da escrita o indivíduo comparece decisivamente, há que se admitir que a abordagem desses itens no âmbito da escola formal brasileira tem se orientado em sentido contrário.

A ênfase – e por que não dizer a crença fanática, amplamente majoritária – no ensino de mão única (do que sabe mais, o professor, para o que sabe menos,a criança ou o jovem), reforça a mistificação de que é na reprodução do passado que repousa a possibilidade de sucesso do futuro.Se, quando a fórceps, a ações de perseguição e de aposentadoria compulsória de docentes críticos, e sob a égide de estratégias de debelamento de congressos estudantis a poder de arapongagem e a golpes de cassetetes semelhantes concepções só produziam resultados pífios, e plenamente questionáveis, que dizer quando produzem resultados vexatórios em termos de avaliações nacionais e internacionais – em que pese o relativismo das metodologias?

A inércia conservadora, saudosista dos tempos de educação confundida com inculcação e doutrinarismo verde-oliva-moralista, sonha com a volta do tempo do mutismo no interior das salas de aula, com a restauração da ordem apoiada no medo e da autoridade, antes imposta burocraticamente que conquistada legitimamente. Porém, nem é possível esse “revival” reacionário – uma nova situação reacionária, esta sim, não só é possível, como é uma constante assombração na história da América Latina –, nem é possível virar as costas para o tanto de acúmulo científico e crítico no âmbito das ciências da educação dos últimos anos.

Os problemas relacionados ao ensino-aprendizagem de novas gerações de brasileiros não serão corretamente enfrentados se a criança e o jovem não forem assumidos como partes da solução. O indivíduo tem não somente um modo de vida próprio, uma história familiar e de grupo própria e um saber que não pode ser desprezado pela escola. Tem em igual medida uma identidade conflituosa própria e uma intimidade única cujo reconhecimento e mobilização o impulsionam no mundo dos outros indivíduos e da cultura, mas cujo desprezo e estigmatização o condenam à passividade ou à marginalização.

Pode-se estimular, no processo de ensino-aprendizagem, a produção de desenhos, de garatujas, de escrita mimética – que remete ao rébus freudiano. Ou pode-se adotar um sistema apostilado, na melhor das hipóteses, com os desenhos todos prontos, para a criança colorir de acordo com o enunciado (na pior das hipóteses pode-se ainda xerocar desenhos estereotipados para que as crianças pintem sob supervisão estrita).

Pode-se ainda organizar sessões de leitura de contos populares, de causos, de fábulas, encenações com as crianças produzindo toscamente figurinos a partir de papel para reciclagem e maquiagens borradas a partir de suas próprias habilidades. Ou pode-se solicitar (em escolas particulares é o que medra) aos pais um valor a ser acrescido nos boletos bancários para que uma empresa ou um profissional especializado prepare as maquiagens estereotipadas e as roupas de fadas da Disney para meninas ficarem bem ascéticas e parecidas com bonecas Barbie.

Pode-se, em suma, mobilizar o inconsciente dos indivíduos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem (professores e estudantes), seus conflitos, seus sonhos, seus medos para a produção e para a criação, que envolve o intelecto, mas que envolve também a afetividade; que pode ter no horizonte o saber, mas que pode também ter como horizonte a arte. Ou pode-se objetivar o processo de ensino-aprendizagem, anulando-se os sujeitos, convertendo-os em máquinas de consumo, alucinadas em tentar satisfazer fisiologicamente aquilo que é demanda essencialmente emocional.

De um ponto de vista democrático, não resta outra atitude a educadores no âmbito do processo de ensino-aprendizagem que não seja a de acolher crianças e jovens – como de resto a si próprios – integralmente, com seus corpos, psique e afetividade, isto porque, não havendo muralha da China a isolar dimensões físicas (e fisiológicas), intelectuais e emocionais do indivíduo, e reconhecida como legítima a relação entre o corpo, psiquismo e produção da linguagem verbal (oral ou escrita), um pacto pedagógico que rejeite a mutilação implica na assunção das complexidades e dos conflitos, inerentes a todo indivíduo, como motores, não como obstáculos a serem evitados, segregados ou excluídos do próprio de processo de ensino-aprendizagem.
Com isso, com essa prática mais solidária, não há nenhuma garantia de que a escola produza em massa escritores como Manuel Bandeira, porém há garantia, sim, de que ela estará contribuindo para que o público de Manuel Bandeira, aqui convertido em metonímia, se amplie.

Bibliografia _______________________________________
Bandeira, Manuel. Estrela da vida inteira. Introdução: Gilda e Antonio Candido. Estudos de Tristão de Athayde e Otto Maria Carpeaux. 15 ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 1988.
Freud, Sigmund. A interpretação das afasias. Trad. António Pinto Ribeiro. Lisboa, Edições 70, 1977.
Jakobson, Roman. Linguística e comunicação. Trad. Isidoro Blikstein. São Paulo, Cultrix, 1995.
Lacan, Jacques. O seminário: Livro 5 – As formações do inconsciente.Rio de Janeiro, Zahar, 1992.
Oliveira, Clenir Bellezi de. Arte literária brasileira. São Paulo, Moderna, 2000.
Saussure, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Org. Charles Bally e Albert Sechehaye. Pref. Isaac Nicolau Salum. São Paulo, Cultrix, 1999.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A IV Frota destruiu o “Império”



Atilio Borón* - Tradução: Jeosafá Fernandez Gonçalves

Sim, a IV Frota acabou fazendo naufragar o “Império”, livro de Michael Hardt e Antonio Negri, que demonstra, uma vez mais, serem implacáveis as respostas da história às modas intelectuais que, em seu tempo, brilham como inquestionáveis ou indestrutíveis. A nefasta tese que propunham esses autores, a de que existiria um “império sem imperialismo”, foi sepultada pelos fatos. Descanse em paz.

Um pouco de história

Poder-se-ia argumentar: mas a quem importa a morte de um desvario de dois intelectuais? Resposta: a muita gente e, especialmente, às forças sociais que lutam pela construção de um mundo melhor, por uma sociedade socialista. Para compreender melhor o porquê desta resposta, convém fazer um pouco de história.

Precisamente quando o neoliberalismo começou a sofrer os embates de uma resistência que nos inícios deste século se estendia pelas mais diversas latitudes, apareceu o livro de Hardt e Negri. De imediato, a obra foi saudada por toda a imprensa imperialista mundial como o “novo” Manifesto Comunista do século XXI, um manifesto que, diferente de seu predecessor, escrito por Marx e Engels um século e meio antes, demonstrava sua sensatez ao fulminar sem atenuantes os dinossauros que ainda falavam do imperialismo, acreditavam que as transnacionais se apoiavam na forças dos estados nacionais e que estes, longe de estarem em vias de extinção, se fortaleciam no capitalismo metropolitano enquanto se debilitavam na periferia do sistema.

Um curioso manifesto comunista em cujas páginas brilhavam pela ausência as contradições de classes, a dialética e a revolução, e que erigia um modelo de luta contra o fantasmagórico império... – Oh, bom São Francisco de Assis! (de quem se dizia que amansava lobos famintos com o som de seu violino) – e relegando ao museu dos arcaismos revolucionários como Che Guevara, Fidel, Lênin, Mao, e Ho Chi Mihn, entre tantos outros. Por várias razões que não vêm ao caso expor aqui, a influência destes disparates nas primeiras reuniões do Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi enorme, e os que interpusemos objeções às teses de Hardt e Negri, tivemos de remar contra a maré para conseguir que nos escutassem. Muitos dos quais impediram um debate de fundo sobre este assunto terminaram por ser representantes ideológicos dos anguiliformes governos de centro-esquerda que, pouco depois, se avalizariam na região.

Não era fácil contrariar as formulações de um pensador dono de uma trajetória marxista tão reconhecida como Toni Negri. “Império”, escrito conjuntamente como estadunidense Michael Hardt, um professor de Teoria Literária de Duke, é um livro volumoso, arrevesado e por momentos críptico (ou confuso, se não se quer ser tão benévolo), cuja tese central, o “imperialismo não é imperialista”, soou como música celestial para os imperialistas. Não causou surpresa, por tanto, o dilúvio de elogios com que o livro foi recebido pelo mundo “bem-pensante” e a indústria cultural do império: não é coisa de todos os dias que dois autores autodenominados “comunistas” defendam uma tese tão coerente com os desejos e os interesses dos imperialistas de todo o mundo, e muito especialmente com os da “Roma americana”, vale dizer, de José Martí, que aporta os fundamentos materiais, militares e ideológicos sobre os quais repousa todo o imperialismo como sistema.

A interminável sucessão de erros e confusões que se desdobrava ao largo do livro, salpicadas, é verdade, com alguma ou outra observação mais ou menos razoável, foi objeto de numerosas críticas. Pensadores marxistas das mais diversas correntes questionaram e refutaram essa obra (1).
Por nossa parte, assumimos como uma exigência da militância anti-imperialista dedicar um tempo precioso para escrever um pequeno livro destinado a rebater as teses centrais de “Império” e para tratar de contribuir para neutralizar a profunda confusão ideológica em que, em razão das mesmas, caíram os movimentos da globalização alternativa (2).
É que, em linha com o discurso predominante do neoliberalismo e sob uma retórica de esquerda o livro de Hardt e Negri contrariava, com uma insuportável mescla de ignorância e soberba, toda a evidência empírica arrolada por numerosos estudos sobre a dominação imperialista e suas consequências. Ao lado da disparatada tese central – um imperialismo sem relações imperialistas de dominação, saque e exploração – também se afirmava que o império carece de um centro, não tem um “quartel general” nem posto de comando, e tampouco se afirma sobre base territorial alguma; muito menos pode se dizer que conte com o respaldo de um estado-nação.

Para Hardt e Negri, o império é uma benévola constelação de múltiplos poderes sintetizados em um regime global de soberania permanentemente tangida por uma fantasmagórica “multidão”: uma vaporosa ou líquida, nos dizeres de Zigmunt Bauman, agregação altamente instável e mutante de sujeitos que, por um incompreensível paradoxo, eram simultaneamente os verdadeiros criadores do império e podiam ser seus eventuais coveiros se, por um milagre, lograssem curar-se da esquizofrenia que os conduziu a criar algo que os oprimia e que, por vezes, queriam destruir.

É, por tudo que se disse anteriormente, que poucas imagens poderiam ser mais do agrado do governo dos Estados Unidos e das classes dominantes desse pais e seus aliados em todo o mundo que esta embelezada visão de suas cotidianas tropelias, crimes, atropelos e o genocídio que lenta e silenciosamente praticam dia após dia pelos quatro cantos da terra, e muito especialmente no Terceiro Mundo.

Poucas também poderiam ter sido mais oportunas em momentos em que os Estados Unidos se converteram em potência imperialista mais agressiva e poderosa da história da humanidade e no estado-nação imprescindível e insubstituível para sustentar com sua formidável maquinaria militar, sua enorme gravitação econômico-financeira e o fenomenal poderio de sua industria cultural (de Holliwood até suas universidades, passando por seus tanques de pensamento e pelos meios de comunicação de massa e, last but no least, seu controle estratégico da internet, não compartilhado nem sequer com a União Européia ou Japão, toda arquitetura do sistema imperialista mundial.

A IV Frota entra em cena

Bem, se alguma prova faltava para avariar irreparavelmente as teses centrais de “Império”, e para convencer aos mais céticos do caráter insanamente errôneo do livro, a reativação ordenada pelo governo dos Estados Unidos da IV Frota ofereceu a evidência necessária para encerrar definitivamente o caso. Ferido de morte pela invasão e ocupação estadunidense do Iraque, promovida por um estado-nação que, para apossar-se de riquezas petrolíferas e favorecer suas “transnacionais” não hesitou em arrasar esse país, “Império” naufragou definitivamente ante a nova iniciativa ordenada pelo Departamento de Defesa, em abril de 2008 (3).

Desativada desde 1950, a IV Frota (dos Estados Unidos, não de um poder “global e abstrato” ou das Nações Unidas, como Hardt e Negri nos induziram a acreditar) foi tirada de sua letargia com o mandato específico de patrulhar a região e monitorar os acontecimento que se podem produzir no vasto território conformado pela América Latina e Caribe. Não somente se trata de controlar o litoral marítimo no Atlântico e Pacífico, senão que também, se enveredou com eloquente imprudência, poderia inclusive navegar pelos caudalosos rios interiores do continente com o propósito de perseguir narcotraficantes, capturar terroristas e desenvolver ações humanitárias que causariam inveja à Madre Teresa de Calcutá.

Não é necessário ser muito esperto para computar que a penetração da IV Frota pelo rio Amazona e seu eventual estacionamento nesse rio lhe outorgaria um sólido respaldo militar à pretensão norte-americana de converter essa região em um “patrimônio da humanidade sob supervisão das Nações Unidas”. Tampouco se requer demasiada imaginação para prever o que poderia significar a navegação da IV Frota pelos grandes rios sul-americanos, isoladamente ou com o auxílio de forças locais aliadas do imperialismo, para manietar e subjugar a que, em um trabalho recente, Perry Anderson qualificou como a região mais rebelde e resistente ao domínio neoliberal do planeta.

Com esta iniciativa dos Estado Unidos, o centro indiscutível do império e o locus em que reside seu quartel general, vem a completar pelos mares e rios o que ja havia sido parcialmente obtido mediante o estacionamento em nossa geografia de uma série de bases e “missões militares” e por seu predomínio aéreo e do espaço exterior, especialmente no campo orbital dos satélites: o controle integral do que os especialistas em geopolítica dos Estado Unidos chamam de "grande ilha americana". Graças ao Plano Colômbia, e em menor medida ao Plano Puebla-Panamá), e às numerosas bases militares com que conta na região, Washington detém um decisivo e monopolizador controle territorial que se estende do México, no norte, à Tríplice Fronteira, à Base Mariscal Estigarriba, no Paraguai, e inclusive à própria Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina, onde também há pessoal militar norte-americano (4).

Uma nota produzida faz poucos meses por Stella Calloni consigna que na Terra do Fogo o governo dessa província argentina emitiu um decreto cedendo terras “para a instalação de uma base estadunidense que se supõe realizará estudos nucleares com ‘fins pacíficos’”.

Esta decisão do governo provincial se apóia em uma lei aprovada em 1998 pela Câmara de Deputados da Nação, durante a presidência de Carlos S. Menen, em cujos anexos se contempla que ‘poderão realizar-se explosões nucleares subterrâneas com fins pacíficos’. O decreto do executivo foguenho autoriza a instalação de uma base do Sistema Internacional de Vigilância para Prevenção e Proibição de Testes e Explosões Nucleares... e habilita para ‘os integrantes desta base o livre trânsito pela província, se assim o desejarem para seus estudos’. Por último, anota Calloni que existe o perigoso antecedente da “imunidade total” que o Paraguay outorgou, em 2005, às tropas estadunidenses radicadas nesse país e que motivara a condenação unânime dos organismos de defesa dos direitos humanos em toda a América Latina (5).

Resumindo: Na atualidade, o controle que os Estados Unidos detém do espaço aéreo latino-americano é absoluto e inexpugnável, haja vista sua enorme superioridade tecnológica que, entre outras coisas, lhe permitiu organizar e ajudar a executar, passo a passo, a enigmática “operação resgate” de Ingrid Betancourt e dos outros “reféns de ouro” que as FARC tinham em seu poder.

À essa supremacia deve-se somar sua presença territorial e, agora, agregar o domínio dos mares, com o qual o círculo se fecha sobre a América Latina e o Caribe. Círculo que estreita cada vez mais para os quatro governos que em nossa região estão travando uma batalha diária e sem quartel contra o imperialismo: Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador.

Missões manisfestas e latentes

Uma versão cândida da missão da IV Frota, apta para o consumo das almas incapazes de reconhecer a maldade, foi brindada há poucas semanas pelo Almirante James Stavridis. Em uma nota, reproduzida nos principais periódicos da América Latina, este militar sustenta que “o restabelecimento da IV Frota” é um reconhecimento à “excelente cooperação, amizade e mútuo interesse nas Américas entre nossa armada e as armadas de toda região”. Depois de assegurar que “não há navios permanentemente designados para a IV Frota... e não terá nenhum porta-aviões alocado” destacou que entre as principais operações marítimas que poderiam ser levadas a cabo com as armadas da região se incluem, significativamente em primeiro lugar, “a assistência humanitária..., o apoio às operações de paz, a assistência nas situações de desastres e as operações de auxílio, nas operações contra o narcotráfico e.... nas cooperações regionais de treinamento inter-operacional” (7).

É evidente que a linguagem empregada por Stavridis não por casualidade tem a suficiente ambiguidade como para ocultar as verdadeiras intenções que jazem por sob tão significativa decisão. É concebível pensar que os Estados Unidos vão reativar a IV Frota para oferecer “assistência humanitária” à América Latina e ao Caribe? Isto ninguém pode acreditar, porque para isso hão faz falta uma frota naval e, ademais, porque semelhante rasgo de altruísmo jamais figurou na agenda da política exterior estadunidense. Esta segue fiel ao velho lema de John Quincy Adams, sexto presidente dos Estados Unidos, quando afirmou que esse país “não tem amizades permanentes senão que interesses permanentes.”

Essa política, portanto, pouco tem de novidade. A Doutrina Monroe, formulada em 1823 – vale dizer, um ano antes da batalha de Ayacucho que complementaria a primeira etapa da luta pela independência de nossos povos – apontava nessa direção e reafirmava o “interesse permanente” dos Estados Unidos em controlar e dominar a América Latina. Tal como assinala o historiador Horacio López, em fins do século XIX um oficial da Armada estadunidense, Alfred Thayer Mahan, aperfeiçoaria no plano da geopolítica as recomendações que se depreendem da Doutrina Monroe (8).

A preocupação de Mahan surgiu como resposta frente à problemática desencadeada pela guerra hispano-americana que culminou, no Caribe, com a incorporação de Cuba e Porto Rico à hegemonia norte-americana, sem bem que sob diferentes condições, e a estratégia que os Estados Unidos a deviam por em prática para assegurar seu indisputado predomínio no Caribe, definido a partir de então como o Mare Nostrum estadunidense. Contrariando as interpretações dominantes em seu tempo, Mahan sustenta que a extensão do poder continental dos Estados Unidos passava pelo controle global dos oceanos e das linhas de comunicações marítimas, o que exigia a conformação de uma poderosa frota militar e mercante.

A partir destas premissas Mahan, observa López, defendeu a necessidade de construir um canal na América Central para resolver, em caso de conflitos, o rápido translado da frota de guerra estadunidense de uma costa a outra, dado que a travessía pelo estreito de Magalhães levava, nessa época, mais de sessenta dias de nevegação... Uma vez que se construísse o canal, se levantaria o problema de sua defesa para evitar que este caísse em mãos inimigas.

López cita o sociólogo porto-riquenho Ramón Grosfoguel, o qual afirma que: “como uma maneira de assegurar a defesa do futuro canal, Mahan recomendou que antes de construí-lo os EUA deveriam adquirir o Havaí e controlar militarmente quatro rotas marítimas caribenhas a noroeste do canal: o Passo de Yucatán, entre Cuba e México; o Passo dos Ventos, a principal rota norte-americana de acesso ao canal entre Cuba e Haiti; o Passo da Mona, entre Porto Rico e República Dominicana; e o Passo de Anegada, próximo de St. Thomas, nas águas orientais de Porto Rico. Mahan recomendou às elites norte-americanas a construção de bases navais nessas zonas como pré-requisito para a construção de um canal e como passo indispensável para transformar os EUA em uma superpotência (9).

Se se examina o itinerário da política exterior desse país, poder-se-á comprovar que as recomendações de Mahan não caíram em saco sem fundo: os EUA se apoderaram de Cuba e de Porto Rico e, indiretamente, das pequenas nações do Caribe e da América Central; fez o mesmo com o arquipélago do Havaí em 1898 e em pouco tempo se apropriou das Filipinas, das Ilhas Marianas e de outras possessões no Pacífico Ocidental. Todo esse esforço se viu coroado com a cuidadosamente planejada secessão da província setentrional colombiana do Panamá, em 1903, e a assinatura de um tratado que permitiria a construção do respectivo Canal, que seria inaugurado em 1914 (10).

Nessa oportunidade, as autoridades “independentes” do Panamá concederão aos EUA os diretos perpétuos do Canal e uma ampla zona de 8 quilômetros de cada lado do mesmo em troca de uma soma de 10 milhões de dólares e de uma renda anual de 250 mil dólares. Esta situação seria modificada graças ao Tratado Torrijos-Carter, firmado em 1977, e que devolveria o Canal à soberania panamenha em 31 de dezembro de 1999.

Desta sumária descrição surge com bastante clareza a coerência da política exterior da Casa Branca para a América Latina, área considerada importantíssima pela Armada e, em consequência, a muito fundamentada suspeita de que a reativação da IV Frota está chamada a jogar um papel muito mais importante que o anunciado pela propaganda oficial. Em outras palavras, que sua missão verdadeira pouco tem a ver com a manifestamente declarada.

Sabemos por experiência os problemas nocionais com nos quais tropeça quem pretenda decifrar o significado de expressões tais como “segurança regional”, “terrorismo” e “narcotráfico” quando elas são se fazen constar em discursos ou documentos oficiais do governo dos EUA. Quem quer que se oponha aos desígnios imperiais pode ser fulminado sob a qualificação de "terrorista' ou "narcotraficante" ou, mais facilmente, não obstante, de“cúmplice” daqueles.

O argumento da luta contra o nacotráfico não só é falso, como é cômico. Afeganistão e Colômbia, dois países nos quais a presença norte-americana é esmagadora, poder-se-ia mesmo dizer inclusive que, sobretudo no primeiro caso, são países “ocupados” militarmente por Washington, não por casualidade registram nos últimos anos uma vigorosa expansão dos cultivos de papoula e coca, ademais, o tráfico de substâncias proibidas, algo insólito que ocorra sob a ciosa observação de quem agora se arroga a responsabilidade de combater o narcotráfico na América Latina.

Um estudo recente conclui que a invasão e ocupação do Afeganistão desde outubro de 2001 “não destruiu a economia da droga nesse país. Pior ainda, o Afeganistão voltou a converter-se no maior produtor mundial de ópio... e o cultivo da papoula se estendeu por todas a províncias do país, sua produção corresponde a 92% do ópio e a aproximadamente 90% da heroína consumidos no mundo”. No tocante ao caso colombiano, os autores sustentam que “apesar de anos de campanhas de erradicação, a produção e o comércio de drogas ilegais permaneceram estáveis na região” (11).

O Informe da ONU contra a Droga e o Crime (UNODC) de 2008 revela que em 2007 a colheita de papoula no Afeganistão foi a maior desde que se realizam registros estatísticos e que a produção de ópio de duplicou entre 2005 e 2007. Também assinala que nesse país se verifica uma impetuosa expansão do cultivo de maconha (12). Na Colômbia estima-se que no último ano a superfície semeada com coca se incrementou em 27%, em que pesem as campanhas de fumegação, a presença de tropas norte-americanas e as políticas de “combate” ao narcotráfico desencadeadas pelo governo colombiano mancomunado com a Casa Branca.

Ante a contundência destes fatos, quem poderia ser tão ingênuo ao ponto de acreditar que a IV Frota se mobilizaria para perseguir narcotraficantes quando sob a proteção de tropas norte-americanas o cultivo e o tráfico de drogas floresceu no Afeganistão e na Colômbia? O que a experiência sugere com quase mais segurança é que uma de suas principais missões será a de organizar o tráfico de drogas no mundo de modo tal que os recursos gerados por esse comércio escuso sejam canalizados para instituições financeiras norte-americanas encarregadas de lavá-los e pô-los em circulação.

O pretexto da luta antiterrorista contra o radicalismo islâmico é tão convincente quanto o anterior: salvo os atentados à Embaixada de Israel e à AMIA, ocorrida em Buenos Aires, em começos dos anos noventa, e cuja gênese, responsáveis e executores ainda se encontram nas sombras graças à surpreendente ineficácia, ou corrupta cumplicidade, de alguns funcionários do Estado argentino em suas diferentes ramificações, não existe na região atividade alguma comprovada de células vinculadas à Al Qaeda ou outra organização similar.

A luta contra o terrorismo internacional deveria orientar-se para Washington, pois ali se encontram seus principais responsáveis: a escandalosa proteção oficial concedida ao terrorista comprovado e confesso Luis Posada Carriles e a não menos escandalosa detenção - em condições desumanas que não se aplicam nem ao mais desalmado criminoso - dos cinco jovens cubanos que se infiltraram nas organizações terroristas sediadas em Miami, anulam toda verossímil pretensão reivindicada pela Casa Branca para combater terrorismo (13).

Porquanto as intenções humanitárias da IV Frota não são mais que pretexto para encobrir suas verdadeiras e inconfessáveis intenções: posicionar-se na região para estar prestes a intervir tão logo o exijam os imperativos da conjuntura (14).

Contrariando as piedosas declarações de Stavridis, um comunicado oficial do Departamento de Defesa dos EUA manifestou que a IV Frota contará com toda classe de navios, submarinos e aviões, e que seu ancoradouro, Mayport, no estado da Flórida, é uma base naval que conta com um vasto arsenal nuclear. Segundo esse comunicado, o objetivo perseguido pela reativação da IV Frota foi “responder ao crescente papel das forças marítimas na área de operações do Comando Sul (dos EUA) e demonstrar o compromisso de Washington com seus sócios regionais” (15).

Não é necessário forçar demasiadamente a imaginação para saber quem são os qualificados “sócios regionais” e quem, como Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia, são considerados como os “inimigos globais” que desestabilizam a região e atentam contra a “segurança marítima” da região.

A declaração oficial do Pentágono não poderia ter sido mais vaga: esta força teria a seu encargo várias missões, num espectro que vai desde “operações contingentes" e luta contra o “narco-terrorismo” até certas atividades relacionadas com a "segurança no teatro de operações".

Como se pode observar, a IV Frota tem um mandato para fazer praticamente qualquer coisa, e não é casual que sua reativação tenha coincidido com o bombardeio por parte da Força Aérea da Colômbia de um acampamento das FARC precariamente instalado em território equatoriano e a poucos quilômetros da fronteira, operação que, semelhante à “libertação” dos quinze reféns em poder das FARC, não teria sido possível sem o apoio de informações e de transmissões por satélite dos EUA.

Tampouco é casual que tenha ocorrido quando os esforços pela desestabilização dos governos da Venezuela, Equador e Bolívia revelaram suas limitações e quando os governantes desses países lograram, ao menos até agora, superar todos os obstáculos e armadilhas a eles interpostos pela Casa Branca e seus lacaios na região. A acachapante vitória de Evo Morales no recente referendo revocatório do 10 de agosto deve ter contribuído para o desespero de muitos em Washington na Meia Lua boliviana.

Para resumir: o certo é que o Pentágono intenciona dotar a IV Frota com um equipamento similar ao que contam a V Frota, que opera no Golfo Pérsico, e a VI, estacionada no Mediterrâneo. Declarações posteriores do Pentágono admitiram que ao menos um porta-aviões e vários submarinos formarão parte da frota encarregada de patrulhar as águas latino-americanas.

Nesse mesmo informe originado em Washington, e publicado por La Nación sob a assinatura de seu co-responsável nessa cidade, Hugo Alconada Mon, se diz que “dentro da órbita do Comando Sul operam hoje 11 barcos, um número que poderia aumentar no futuro. Que tipo de naves se empregarão ‘é questão de momento, das missões específicas’... mas os primeiro indícios apontam ao imponente porta-aviões George H. W. Bush, que estará operacional desde o fim deste ano, como possível coração da IV Frota” (16).

Segundo o mesmo enviado a Washington, “o almirante Gary Roughead, gestor intelectual do renascimento da unidade”, tem como meta “assegurar a segurança neste mundo globalizado”. Interrogado sobre o significado dessa expressão, Roughead se limitou a dizer que a IV Frota poderá estar “pronta em todo momento para todo desafio. Por isso, somos uma Armada global”.

Se se recorda a extraordinária amplitude que a nova doutrina estratégica norte-americana anunciada em setembro de 2002 – a guerra infinita e global contra o “terrorismo” - e o fato de que a paranóia oficial reinante em Washington considera como “terrorista” todo aquele que resiste à agressões do imperialismo, poucas dúvidas cabem acerca do papel real que desempenhará a IV Frota: ser um elemento de chantagem e dissuasão para os governos da região que se oponham aos imperialistas e um significativo apoio “além-fronteiras” paras seus aliados entre as classes dominantes locais (17).

O documento do Comando Sul dos EUA denominado “US Southern Command Strategy”: 2016 Partnership for the Americas” é qualificado pelo especialista em relações internacionais Juan Gabriel Tokatlian com “o plano mais ambicioso que concebeu em anos uma agência oficial estadunidense com relação à região” (18).

Segundo esse documento, na nova conformação da política estadunidense para nossa região não desempenham papel algum nem os tradicionais instrumentos de predomínio militar, como a Junta Interamericana de Defesa ou o já finado Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, cujo melhor momento foi a Guerra das Malvinas, em 1982; nem tampouco organismos multilaterais como a OEA ou as Nações Unidas. Assinala mesmo que “as instâncias políticas internas - os Departamentos de Estado, Justiça e Tesouro - de interação com o hemisfério esvaíram-se no documento. O comando Sul anuncia seu papel e projeção na área para os seguintes dez anos como o faria um pró-consul continental” (19).

A militarização da política internacional é uma das consequências da nova doutrina estratégica anunciada ao mundo em setembro de 2002 e ratificada agora pelo Pentágono através de seu instrumento regional: o Comando Sul. Note-se que o outro lado da moeda dessa concepção que militariza a cena internacional é a criminalização do protesto social no plano doméstico, para o que aponta a já referida legislação antiterrorista aprovada, sob a forte pressão estadunidense, em quase todos os países da área. Para combater em todos os terrenos, o internacional e nacional, o império apela para a eficácia dissuasória das armas. Esse e não outro é o real papel que a IV Frota está chamada a cumprir na América Latina e no Caribe (20).

Um debate terminado, uma confusão a menos

Como dizíamos a princípio, a ativação da IV Frota liquidou o debate em torno da natureza do império. Tal como defende o marxismo, as controvérsias teóricas e políticas não se resolvem com engenhosos jogos de palavras ou acesas pirotecnias verbais, senão que na vida prática de povos e nações. O debate sobre o livro de Hardt e Negri já se acabou: o primeiro golpe mortal lhe fora dado pela Guerra do Iraque, que desde o princípio demonstrou claramente ser uma clássica guerra imperialista de anexação lançada para expropriar o petróleo iraquiano. O tiro de misericórdia acaba de ser dado pela decisão de reativar-se a IV Frota.

Para estudar seriamente o imperialismo, Hardt e Negri deveriam ter-se inspirado na atitude de Lênin - um autor pelo qual não ocultam seu menosprezo -, quando se propôs investigar a natureza do imperialismo em princípios do século XX: ler toda literatura relevante produzida por intelectuais da burguesia imperialista. Em lugar disso, Hardt e Negri se regozijaram transitando pelos inconsequentes meandros da filosofia pós-moderna francesa, enquanto o império verdadeiro, não aquele os levava a delírios, desfilava ante suas dilatadas pupilas sem que eles tivessem a menor consciência disso. Seu desconhecimento da densa literatura imperialista produzida pela direita norte-americana desde Reagan até nossos dias é imperdoável.

Tivessem a curiosidade própria do espírito científico e tivessem ousado ler algo, ainda que fosse o que escrevia um dos porta-vozes mais característicos do pensamento imperialista norte-americano e principal colunista de assuntos internacionais do NewYork Times, Thomas Friedman, teriam proporcionado a si próprios um banho de sobriedade e provavelmente se dado conta de que algo não funcionava demasiado bem em sua teoria (21).

Pouco antes da aparição de “Império”, Friedman escreveu uma nota na qual dizia, sem meias-palavras, que “a mão invisível do mercado global nunca opera sem um ponho invisível. E o punho invisível que mantém o mundo seguro para o florescimento das tecnologias do Vale do Silício se chama Exército dos EUA, Armada dos EUA, Força Aérea dos EUA e Corpo de Marines dos EUA (com a ajuda incidental de instituições globais como as Nações Unidas e o Fundo Monetário Internacional) ... Por isso, quando um executivo diz coisas tais como ‘Não somos uma companhia estadunidense, somos IBM-US, ou IBM-Canadá, ou IBM-Austrália, ou IBM-China’ lhes digo: ‘Ah, sim? Bem, então da próxima vez que tiverem um problema na China, chamem Li Peng para que os ajudem. E da próxima vez que o Congresso liquidar uma base militar na Ásia – e você diz que não lhe afeta porque não o preocupa o que faz Washington – chame a Armada da Microsoft para que lhe assegure as rotas marítimas da Ásia. E da próxima vez que um novato congressista republicano quiser fechar mais embaixadas estadunidenses, chame a América-On-Line quando cassarem seu passaporte” (22).

Este é o “império realmente existente”, o “xerife solitário” de que fala Huntington, com a onipresença dos Estados metropolitanos, e sobretudo do Estado fundamental para a preservação da estrutura imperialista mundial: os EUA; com a proliferação de grandes empresas “nacionais” de projeção global respaldadas por seus Estados, os mesmos que em seu cândido idílio Hardt e Negri acreditavam desaparecidos; e com o decisivo componente militar que caracteriza esta época, na qual os povos supostamente estariam colhendo os dividendos da “paz mundial”, uma vez implodida a antiga URSS, causadora do equilíbrio do terror atômico dos anos da Guerra Fria, na qual, paradoxalmente, floresce a doutrina da “guerra infinita”, interminável e contra todos proclamada por George W. Bush.

Se algo de bom pode surgir da desafortunada notícia da ativação da IV Frota é que a mesma nos permite deixar para trás a alucinada visão sintetizada em “Império” e que tanto atrasou a tomada de consciência das forças de esquerda, de seus partidos e de seus movimentos sociais sobre a verdadeira natureza do inimigo imperialista.

Como o menino do conto que gritou “O rei está nu!”, a recente decisão de Washington tem um valioso efeito pedagógico: despeja do crucial terreno das idéias as interpretações erradas do imperialismo contemporâneo, como a de Hardt e Negri, que é um imprescindível primeiro passo para traçar um panorama mais claro e realista tanto dos desafios que o imperialismo representa a nossos povos como para construir as estratégias, táticas e instrumentos políticos mais apropriados para combatê-lo com êxito.

* Professor Titular de Teoria Política na Universidade de Buenos Aires e Pesquisador do Superior de CONICET.
Fonte: REBELIÓN . Disponível em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=71635*
NOTAS:
(1) Consultar entre muitos outros: Alex Callinicos, "Toni Negri en perspectiva".http://revoltaglobal.cat/IMG/pdf/form_CallinicosToniNegrienperspe.pdf.Néstor Kohan, " El Imperio de Hardt & Negri y el Regreso del Marxismo Eurocéntrico".
http://www.cuestiones.ws/semanal/030503/sem-may03-03-kohan.htm*) Slavoj Zizek, ¿Han re-escrito Michael Hardt y Antonio Negri el Manifiesto Comunista para el siglo XXI? (2001). http://es.geocities.com/zizekencastellano/arthardtnegri.htm* François Houtart, Tarik Ali, Peter Gowan y Rafael Hernández, "¿Qué imperialismo?", em Temas (La Habana: 2003), Nº 33-34, Abril-Septiembre; Leo Panitch y Sam Gindin, "Capitalismo global e imperio norteamericano" parte I y II, en Socialist Register en Español (Buenos Aires: CLACSO, 2004 y 2005); John Bellamy Foster, "Imperialism and 'Empire' ", en Monthly Review , Vol. 53, Nº 7, Diciembre de 2001.
(2) Ver nosso Imperio & Imperialismo. Una lectura crítica de Michael Hardt y Antonio Negri (5ª. edição, Prêmio Extraordinário de Ensaio 2004 da Casa das Américas) [Buenos Aires: CLACSO, 2004].
(3) No Prólogo da 5ª. Ediação de nuestro Imperio & Imperialismo dizíamos que "a guerra do Iraque, declarada solitariamente pelos Estados Unidos, teve sobre a análise proposta naquela publicação o mesmo efeito que sobre a auto-estima norte-americana teve a queda das Torres Gêmeas de Nova Iorque." (Cf. op, cit, p. 6).
(4) Sobre o tema das bases militares estadounidenses na América Latina consultar os diversos trabalhos de Ana Esther Ceceña e, especialmente, "Subjetivando el objeto de estudio, o de la subversión epistemológica como emancipación", In Ana E. Ceceña, compiladora, Los desafíos de las emancipaciones en un contexto militarizado (Buenos Aires: CLACSO, 2006), pp. 13-43. Também da mesma autora “Álvaro Uribe y la base de Manta”
http://www.prensamercosur.com.ar/apm/nota_completa.php?idnota=3833** e, por último, seu muito instrutivo site http://www.geopolitica.ws/*
(5) Stella Calloni, "Alertan sobre una base estadounidense para estudios nucleares en Tierra del Fuego", In *La Jornada* (México), 14 de Octubre de 2007.
(6) Esclarecemos, para que não haja a menor dúvida, que condenamos sem atenuantes a utilização dos sequestros como arma de luta política e que por isso mesmo celebramos a libertação dos reféns das FARC. De todo modo subsistem demasiadas incógnitas cerca da natureza desse "resgate" que, seguramente, com o passar do tempo, poderão ser solucionadas, reservando não poucas surpresas.
(7) Cf. "La importancia de trabajar juntos", en La Nación (Buenos Aires) 10 de junho de 2008.
(8) Horacio López, Secesionismo, anexionismo, independentismo en Nuestra América (Caracas: El perro y la rana, 2008), p. 23. O livro fundamental no qual Mahan expõe suas doutrina é The Influence of Sea Power upon History, 1660–1783 (1890, não por casualidade reeditado nos anos de Ronald Reagan: 1987).
(9) Ramón Grosfoguel. "Los límites del nacionalismo: lógicas globales y colonialismo norteamericano en Puerto Rico", In Jorge Enrique González, Editor. Nación y nacionalismo en América Latina (Buenos Aires: CLACSO, 2007)
(10) Importante sublinhar ue esta estratégia, do separtismo, recentememente tem sido desengavetada pelo Departamento de Estado para conter a maré esquerdista que crece no continente. Não é casual que eventos separatistas, abertamente estimulados por Washington, tenham aparecido em Zulia, Venezuela; no litoral equatoriano, ressuscitando uma ancestral mas largamente esquecida demanda em prol da fundação da República do Guayas, com sede em Guayaquil; e na Meia Lua boliviana, onde a estratégia da secessão está na ordem do dia, potencializada sem dúvida pela acachapante vitória de Evo no referendo revocatório do passado 10 de Agosto que parece ter convencido à reação racista e fascista da Bolivia que a "solução” da crise contempla apenas dus posibilidades: o golpe de Estado ou a secessão. O primeiro ensaio bem sucedido desta estratégia imperialista de secessão teve lugar no Texas, em 1845, então pertencente ao México, e que logo terminaria sendo anexado ao território dos Estados Unidos. Desde então tem um lugar privilegiado no manual de operações do Departamento de Estado.
(11) Segundo a Oficina das Nações Unidas contra a Droga e o Crimen (UNODC), no de 2006 cultivo de papoula creceu 59% enquanto que a do ópio o fez em 49%. Em recente artigo, Peter van Ham y Jorrit Kamminga, "Poppies for Peace: Reforming Afghanistan's Opium Industry", In Washington Quarterly, Invierno 2006-2007, pp. 69-81, examinam a fundo a situação da economia da droga no Afeganistão e sua possível reconversão. Nada disto ocorreu, não obstante, sob a ocupação norte-americana.
(12) UNODC, Informe Anual 2008, p. 1. *
http://www.unodc.org/documents/wdr/WDR_2008/Executive%20Summary.pdf*
(13) Sobre o caso Posada Carriles e a questão d’os 5, consultar nosso "El terrorismo como política de estado", In Página/12 e Rebelión, do dia 11 de dezembro de 2007.
(14) Some a isso, em meados de junho de 2007, a Câmara de Deputados da Argentina transformou em lei um projeto do Poder Executivo que reprime o apoio ao terrorismo e também seu financiamento. A lei responde tanto a um reclamo dos Estados Unidos como a uma pressão do Grupo de Ação Financeira Internacional, que ameaçava fazer um pronunciamento público declarando a Argentina país não seguro. Essa mesma chantagem foi exercida sobre quase todos os países da região que, salvo algumas poucas exceções, aprovaram em tempo recorde a legislação solicitada pelo império. Tão vaga é a caracterização que faz a lei que em vários países da região surgiram fortes protestos por sua aplicação para perseguir militantes sociais ou movimentos que se opõem às políticas neoliberais. Cf. "Aprueban una ley antiterrorista que era reclamada por Estados Unidos", In Clarín (Buenos Aires), 14 de junho de 2007. Veja-se também a nota de Fernanda Balatti, "El terrorismo según Argentina", In Le Monde Diplomatique (Buenos Aires), ano IX, Número 108, junho 2008, p. 6.
(15)
http://www.defenselink.mil/releases/release.aspx?releaseid=11862*
(16) Cf. Hugo Alconada Mon, "Estados Unidos con más presencia en la región", en *La Nación* (Buenos Aires), 28 de abril del 2008.
(17) Hugo Alconada Mon, "Estados Unidos pone en marcha la IV Flota", en *La Nación* (Buenos Aires), 13 de Julio de 2008.
(18) "El militarismo estadounidense en América del Sur", In Le Monde Diplomatique (Buenos Aires), ano IX, Número 108, junho 2008, p. 5. Este artigo faz parte de um excelente dossiê dedicado ao tema e que inclui os siguintes trabalhos: Fernanda Balatti, "El terrorismo según Argentina"; "¿Adiós a la base de Manta en Ecuador", por Adriana Rossi; "La construcción de la soberanía regional", por Daniel Pignotti; y "Apropiación de recursos naturales", por Serena Corsi. (19) Ibid., p. 5.
(20) Sobre a criminalização do protesto social existe uma amplíssima literatura especializada. Em conexão com o tema de nosso trabalho remetemos à leitura do texto de Fernanda Balatti mencionado mais arriba.
(21) Não só não leram Friedman. Na realidade, não leram nenhum dos numerosos intelectuais orgânicos do imperialismo como Robert Kagan, Charles Krauthammer, Michael Ignatieff, Samuel Huntington, William Kristol, Norman Podhoretz y tantos outros, muitos deles reunidos em torno do projeto do Novo Século Americano e do qual a Administração Bush Jr. haveria de recrutar numerosos funcionários para ocupar cargos-chave na estrutura governamental como Richard Cheney, Paul Wolfowitz, Elliot Abrams, John R. Bolton, Donald Rumsfeld e muitos mais.
(22) Thomas L. Friedman, "Foreign Affairs; Techno-Nothings", In New York Times, 18 de abril de 1998.