segunda-feira, 24 de julho de 2017

O JORNALISMO AFUNDANDO O BRASIL NA FOSSA

Se o jornal inventa uma infame calúnia, ela lhe foi ditada. Perante o indivíduo que se queixa, ficará quite pedindo desculpas pela grande liberdade. Se for chamado aos tribunais, queixar-se-á de que não lhe foi pedida retificação alguma; mas ele a pedirá? Não, recusa-a rindo, considera seu crime uma bagatela. Enfim, achincalhará a vítima quando ela triunfar. Se for punido, se ele tem muitas multas a pagar, apontará o queixoso como se se tratasse de um inimigo das liberdades, do país e das luzes. Dirá que fulano é um ladrão, ao explicar que é o mais honesto homem do reino. Assim, seus crimes: bagatelas! Seus agressores: monstros! E ele pode em dado tempo fazer crer em tudo que desejar às pessoas que o leem todos os dias. Além disso, nada que o desagrade é patriótico, e jamais estará errado. Ele se servirá da religião contra a religião, da Carta contra o rei; achincalhará a magistratura quando a magistratura o incomodar e a elogiará quando ela tiver servido às paixões populares. Para conseguir os assinantes, inventará as mais comoventes fábulas, pavonear-se-á como o palhaço Bobèche. O jornal serviria o seu próprio pai cru, sem mais tempero que o sal de suas zombarias, para não deixar de interessar ou divertir seu público. Será o ator colocando as cinzas de seu próprio filho na urna para chorar verdadeiramente, a amante sacrificando tudo a seu amado. 
Balzac, em Ilusões perdidas revela as tripas da imprensa.
A ferida é incurável, será cada vez mais maligna, cada vez mais insolente; e quanto maior for o mal, mais ele será tolerado, até o dia em que a confusão se instalará nos jornais, pela sua abundância, como em Babilônia. Todos nós sabemos que os jornais irão mais longe que os reis em ingratidão, mais longe que o mais sujo comércio em especulações e em cálculos, devorando nossas inteligências vendendo-lhes todas as manhãs sua matéria cerebral; mas ali escrevemos à maneira daqueles que exploram uma mina de mercúrio sabendo que ali morrerão.

O jornalismo tem mil pontos de partido semelhante. Trata-se de uma grande catapulta colocada em movimento por pequenos ódios. Você tem ainda vontade de casar? Vernou [infeliz no casamento] não tem mais coração, o fel a tudo invadiu. É por isso o jornalista por excelência, um tigre com duas patas que a tudo devora, como se suas penas [no séc. XIX escrevia-se com penas de aves] tivessem raiva. 
– O senhor realmente se importa com o que escreveu? – disse-lhe Vernou com um ar de zombaria. – Mas somos comerciantes de frases, e vivemos de nosso comércio. Quando o senhor desejar fazer uma grande e bela obra, um livro, enfim, ali sim poderá colocar suas ideias, sua alma, a ela se apegar, defendê-la; mas os artigos, lidos hoje e amanhã esquecidos, valem apenas, a meus olhos, o que se paga por elas. Se o senhor dá importância a tais tolices, fará então o sina da cruz e invocará o Espírito Santo para escrever um prospecto! [...] Todos pareceram surpresos com os escrúpulos de Lucien [que inicialmente se recusou a publicar mentiras] e acabaram por lhe incendiar a toga pretexta [rito de passagem, entre patrícios, da adolescência em Roma] para lhe oferecer a toga viril dos jornalistas.

Trechos do romance Ilusões perdidas, de Honoré de Balzac, publicado pela primeira vez em 1843.

FONTE: Balzac, Honoré de. Ilusões perdidas. Vol. I. Trad. Leila de Aguiar Costa. São Paulo: Abril, 2010; pp. 367, 368, 393, 433, respectivamente.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

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