domingo, 30 de abril de 2017

ENIGMA BELCHIOR: UMA REPORTAGEM HISTÓRICA DE 1976-1977

O coração generoso de Belchior parou na madrugada de hoje (30/4/17), mas o poeta-filósofo está mais vido do que nunca. Do meu arquivo pessoal, reproduzo reportagem de 1976, de Vitu do Carmo, para a revista Música, quando Belchior emplava CORAÇÃO SELVAGEM, depois de estourar  no LP e Show Falso bilhante de Elis Regina os clássicos "Como nossos pais" e "Velha roupa colorida". Fiz a transição da adolescência para a juventude ouvindo cantando Belchior. Ele me ensinou e àqueles de minha geração que tiveram a sorte de compreendê-lo que a "voz ativa, ela é que é uma boa". E que o grito de sede de justiça e liberdade não vem da boca, mas do fundo mais fundo do coração.

BELCHIOR: A BUSCA INSANSÁVEL DO SUCESSO.
Revista Música, n. 13, ano II, 1976.
Por Vitu do Carmo

Seu talento como um dos letristas mais inovadores da música popular brasileira foi que lhe assegurou prestígio junto à crítica e à boa parte do público. Mas ao lado da criatividade, Belchior também deve seu sucesso a uma infatigável disposição para perseguir tudo o que lhe interessa. Com a mesma determinação, ele interpela a Censura Federal, que está retardando a liberação de seu disco, ou percorre emissoras de rádio para que os disquejóqueis o incluam na programação.

Tal determinação é compreensível em alguém que um dia decidiu que iria “viver ou morrer de música”. E que durante um bom tempo enfrentou a adversidade de um mundo novo e desconhecido, com a única certeza de que precisaria lutar muito par se impor.


Nem os fidalgos leitores da revista Vogue, nem as simplórias fãs do programa do Chacrinha constituem, à primeira vista, o público mais sensível da postura artística de Belchior, considerado por muitos o mais importante renovador da música popular brasileira na atualidade. Mas, numa clara demonstração de que não se subestima nenhum veículo, Belchior faz questão de aparecer tanto numa revista que se esmera em mostrar a última moda em roupa masculina, como num programa que se tornou célebre pela distribuição de bacalhau ao auditório.

Justificando-se, ele alega que Chico Buarque e Caetano Veloso, no início de suas carreiras, também frequentaram programas populares, “desses que dão eletrodomésticos de presente”, e que isso apenas os fez mais conhecidos, sem comprometer seus trabalhos. Não há dúvida, no entanto, de que na convicção de que todo público merece o esforço do artista para conquistá-lo, Belchior supera Caetano, Chico e quaisquer outros nomes de seu time – uma constelação de autores com profundidade crítica em suas obras.

Em abriu, quando ainda se preparava o lançamento de seu mais recente elepê, Coração Selvagem, Belchior contabilizava os resultados do disco anterior, Alucinação, que já atingira a marca pouco comum de 150 mil exemplares vendidos. Ele fazia outro tipo de balanço: para promover o disco, no último semestre do ano passado, percorrera cerca de 60 cidades. O próprio cantor e compositor ficou surpreso com as reações colhidas nessas andanças. Julgava-se dono de um repertório “difícil” e acabou convencendo-se de que, ao contrário, sua música é uma “arte popular”. Ele encontra a explicação para isso no fato de seu trabalho “estar voltado para a realidade do povo”.


Belchior, um iconoclasta dos valores consolidados – chega a dizer que “eles são todos péssimos” – demonstra, na verdade, um claro realismo ao admitir sua dependência, como artista, de mecanismos estabelecidos. “Se os artistas não fizerem mudanças”, costuma dizer, “os comerciantes é que irão fazê-las.  Mas não podemos esquecer que também dependemos dos comerciantes. Nós fazemos as músicas e eles as vendem”. Uma tal ponderação, para alguns, chega a ser estranha nos lábios de quem usa palavras tão duras para explicar o esvaziamento da grande explosão cultural provocada pela rebeldia dos anos 60, na qual sua obra colheu vigoroso empuxo. “Toda experiência daquele período foi transformada pelo sistema em mercadoria, em dinheiro, em lixo”, ele diz, com indisfarçável amargura.

Sua peregrinação pelas emissoras de rádio, com disco debaixo do braço, e a humildade de procurar os disquejóqueis mais comprometidos com auditórios inconsequentes, foi decisiva para consolidar sua situação atual. Não faz muito tempo que seu prestígio era, no máximo, o de um bom compositor, mas apenas com uma ou outra canção inserida em elepês alheios. Hoje seu contrato com a WEA assegura-lhe até o privilégio de que cada novo disco que lançar terá como suporte a montagem de um show, se necessário com ajuda financeira da gravadora.

Mas isso não diminuiu o disposição do autor de “Sujeito de sorte” para continuar visitando programas de rádio e televisão. Recentemente, ele teve que responder a perguntas do nível de “Você se lembra dos nomes de todos os seus 22 irmãos?”, num programa da Rádio Mulher, em São Paulo, apresentado pela também jurada de televisão Gilmara Sanches. E, por coincidência, outra questão formulada pela entrevistadora, em que ouvintes que estavam telefonando – se Belchior costuma ouvir muitos discos – deixou transparecer, mais uma vez, o notável senso de disciplina profissional do autor, que já se apresentou numa canção como “apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso”: “Ouvir música faz parte do meu trabalho”, afirmou. E destacou Bob Dylan e Joan Baez como vozes mais assíduas em seu equipamento de som.


Para André Midani, diretor da WEA no Brasil, e responsável pelo convite a Belchior para ser o primeiro contratado nacional da companhia – que até há pouco se limitava a distribuir discos gravados pela matriz nos Estados Unidos – seu escolhido é “uma pessoa com uma ambição incrível”.

Ávido também de seus direitos, o compositor de “Como o diabo gosta” tomou a iniciativa de interpelar a Censura Federal, que se demorava na liberação das músicas do elepê mais recente, Coração selvagem. Fez questão de ler o parecer dos censores; descobriu que havia divergência entre eles quanto à conveniência ou não do veto a determinadas composições. No fim, de dez músicas apresentadas, uma com o título profético “Como se fosse pecado” foi proibida e outra – “Caso comum de trânsito” – censurada em duas palavras. Belchior, de qualquer maneira, não se sentiu menos “ferido e humilhado do que se os censores tivessem interditado o disco inteiro.

Foi muita sorte dele: descobriu uma banda de jazz em pleno sertão.

Coração selvagem é o terceiro elepê que ele grava profissionalmente, depois de A palo seco, em janeiro de 1974, e Alucinação, em abril do ano passado. Antes, em 1968, Belchior e alguns companheiros, que formavam o grupo de viria  ser depois conhecido como Pessoal do Ceará, gravaram no estúdio Orgacim, em Fortaleza, um elepê de tiragem restrita e distribuição praticamente limitada aos próprios intérpretes. Com esse arremedo de realização, eles apenas aplacaram a ansiedade que sentiam por uma verdadeira carreira, a se concretizar um dia, longe de Fortaleza, é claro, pois, como Belchior diria na semi-autobiografia Fortaleza 3x4, “o que passa no Norte, pela leia da gravidade – disso Newton já sabia – cai no Sul, na grande cidade.

Belchior desembarcou no Rio em abriu de 1971, trazido por um avião da Força Aérea Brasileira, pois não tinha dinheiro para pagar a passagem. O preço foi ter que cortar o cabelo para poder entrar no avião. Na bagagem vinham algumas composições e muitos livros. “Em cada esquina que eu passava”, diria depois a canção inspirada na dureza desses dias, “um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois sorria, examinando o 3x4 da fotografia e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha”.

Sobral, a cidade do Ceará onde ele nasceu a 26 de outubro de 1946, deu a Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes mais do que um nome capaz de chamar a atenção na carteira de identidade. Foi lá que o futuro compositor colheu as primeiras influências musicais, que começaram em casa, pois a mãe era integrante do coro da igreja, o avô tirava sons na flauta, sax e rabeca, e a avó dedilhava o violão. O pai, não. Era comerciante, mas com a vantagem de que sua bodega vivia cheia de violeiros que improvisavam rodas de cantoria. E, do lado de fora, havia serviço de alto-falante, onde desembocavam os sucessos do Sul, de Ângela Maria e Edith Piaf, de Cauby Peixoto e Billie Holiday. Receber essa variedade de ritmos já devia ser muita sorte para aquele embrião de artista, isolado no sertão nordestino. Mas a vizinhança reservava-lhe ainda um outro achado: uma família de negros protestantes, cujos ascendentes tinham vindo dos Estados Unidos na época da Segunda Guerra. Era uma verdadeira banda de jazz, que se reuniam todos os dias, no fim da tarde, tocando um repertório pouco apropriado ao gosto local, mas que o menino Belchior já espreitava intrigado.

Não era aquela música, no entanto, que ele começaria a cantar em público pouco depois, aos 12 anos, quando passou a se apresentar em feiras. Então, seu modelo era Luiz Gonzaga, cujos baiões repetia.

Mas logo depois Belchior vai para um colégio de padres, o que introduz um novo ingrediente em sua formação musical: o canto gregoriano. Este deixaria uma inconfundível marca na futura obra do compositor: as longas letras, a notória discursividade, bem ao estilo dos cânticos que o menino era obrigado a entoar em louvor a Deus.


No início, da década de 60, a seca tornou-se inclemente em Sobral e Belchior acompanhou a família, na esperança de encontrar uma vida melhor em Fortaleza. Na capital, fez o curso científico ao mesmo tempo que ganhava algum dinheiro como carpinteiro ou fazendo máscaras para vender no carnaval.

Findo o curso, procurou um mosteiro franciscano, pois queria aprender filosofia. Nos dois anos e pouco que lá permaneceu, foi além do currículo: descobriu que havia uma “biblioteca maldita”, onde apanhava livros à noite, com alguns colegas, para durante o dia, escondido, se deliciar com T. S. Eliot, Edgar Alan Poe, Brecht, os beatniks. E só foi posto para fora quando teve a impertinência de mostrar aos seus superiores o produto de suas leituras – uma tese segundo a qual sexo e prazer físico são fontes de inteligência e de intuição criadora.

Em 1967, Belchior começou a estudar medicina, em Fortaleza. Custeava os estudos com o que obtinha dando aulas particulares de biologia e conseguiu chegar até o terceiro ano. Mas então sentiu-se  “enlouquecido” com os Beatles e o tropicalismo brasileiro e concluiu que tinha descoberto o verdadeiro caminho. Foi quando cunhou a frase, uma espécie de lema que deve ter sido útil para manter o moral nas muitas dificuldades que a decisão lhe acarretaria: “Vou viver ou morrer de música”.

Comprou um violão e começou a estudar música de verdade. Ele já se sentia plenamente apto a fazer as letras, mas queria um melhor suporte melódico. Na verdade, a carreira de compositor não era uma escolha antiga. Belchior deixa isso claro no folheto preparado em maio do ano passado pela Phonogram para acompanhar o lançamento do elepê Alucinação. “O que eu sempre queria era escrever”, confessa. “Mas num certo momento senti que era mais quente fazer música. Porque, não só em termos de divulgação, mas ao nível do próprio receptor, o trabalho musical era mais eficiente. Eu poderia cantar as mesmas coisas que estava querendo escrever – só que com muito mais contato vivo, mais combatividade humana, muito mais juventude”.

No final da década passada, o clarão dos festivais de música popular irradiando-se do Sul atingiu Fortaleza, embora meio palidamente. Toda aquela inquietação reforçou o sentimento de que havia algo a chamá-lo. Era hora de fazer a lei da gravidade, cair par ao Sul.

Já em agosto de 1971, apenas quatro meses depois de chegar ao Rio, Belchior ganhava o IV Festival Universitário, com “Hora do almoço” (“No centro da sala/ diante da mesa/ no fundo do prato/ comida e tristeza). A música deveria ser cantada pelo velho ídolo, Luiz Gonzaga, que no entanto não pôde comparecer. Então Belchior  mais dois cantores – Jorginho Teles e Jorge Nery – todos vestidos de túnica e sandálias, “para dar impacto”, entraram no palco e arrebataram o prêmio.

Mas as dificuldade do jovem autor não estavam terminadas – antes, nem tinham começado. O esforço de Jorginho Teles conseguiu que a Copacabana gravasse “Hora do almoço” com os três – mas assim eles só ocuparam a face A de um compacto simples.


O disco seguinte só viria anos depois, também um compacto simples, e já noutra gravadora, a Chantecler. Desta vez, com arranjo de Rogério Duprat e cantando sozinho. Belchior mostrava uma música de cada lado, ambas de sua autoria: “A palo seco” e “Sorry, baby”. Mas não era ainda o sucesso como intérprete.

Belchior só pôde gravar seu primerio elepê – foi em 1974 – depois de fazer sucesso como compositor, com músicas gravadas por Elis Regina e Leny Andrade. A primeira canção de Belchior – em pareceria com Fagner – incluída num elepê de Elis Regina foi “Mucuripe”, em 1972. A grande contribuição da cantora para a consolidação do prestígio ao autor cearense, porém, ocorreu no ano passado, com a inclusão de “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida” no elepê e no show Falso brilhante.

As coisas ficariam mais fáceis para ele, que, depois do elepê Belchior, em 1974, na Chantecler, gravaria Alucinação em 1976, na Phonogram e agora, em abril deste ano, Coração selvagem, na WEA.

Restou, da vida na grande cidade, antes do sucesso, a marca da dura luta pela sobrevivência como cantor de boate, ou menos que isso. Belchior morou no subúrbio carioca e chegou a trabalhar num hospital em troca de comida. Em São Paulo, por uns tempos, viveu numa casa que estava sendo demolida, de modo que ia mudando de um quarto para outro, à medida que as paredes iam caindo. Só saiu de uma vez quando o último cômodo veio abaixo.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

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