segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

SINTAGMA: A ARTE DE COMBINAR

Na língua como na natureza, unidades mínimas se juntam para dar origem a unidades maiores. Assim como átomos se unem para dar origens a moléculas, e estas se juntam a outras para dar origem a substâncias simples ou complexas, na língua sons elementares (os fonemas) representados por escrito pelas letras, se juntam para dar origem a fragmentos (prefixos, sufixos, radicais, vogais temáticas, desinências) que, por sua vez, se unem e dão origem a palavras:

Prefixo
Prefixo
Radical
Vogal Temática
Desinência verbal formadora de
des
in
form
a
r
Infinitivo




nte
Particípio presente ou adjetivo




do
Particípio passado ou adjetivo




ndo
Gerúndio ou adjetivo

Prefixo
Radical
Vogal Temática
Sufixo formador de
in
form
a
ção
Substantivo



l
Adjetivo



(l) mente
Advérbio


A mesma lógica que opera no "micro", opera no "macro". Assim, na natureza como na língua, unidades menos complexas podem se juntar a outras unidades menos complexas de outras natureza para dar origem a unidades de maior complexidade. Dois átomos de Hidrogênio, em processos que duraram bilhões de anos, se uniram a um de Oxigênio dando origem à água (H2O), substância simples que é base de toda a vida conhecida em nosso planeta.

Por sua vez a água se mistura em milhões de combinação, dando origem a formas de vida das mais simples às mais maravilhosamente complexas, como a de plantas e animais, entre os quais a espécie humana.

Na língua ocorre o mesmo. Fragmentos significativos se unem e dão origem a palavras, que se combinam e dão origem a sintagmas (pedaços de frases ou orações). Os sintagmas se combinam e dão origem a orações e períodos, que se combinam e dão origem (na escrita) aos parágrafos, que se combinam e dão origem aos capítulos, que se combinam e dão origem a romances, teses, monografias etc.

Assim, resumindo a grosso modo, sintagma é uma combinação linguística que dá origem a uma unidade em língua oral ou escrita que tem sentido (se não tem sentido, não é sintagma, pois ele é sempre e necessariamente uma combinação válida. Observe a frase-exemplo:

A escrita apressada resulta quase sempre em erros de ortografia ou sintaxe.

Nela há duas grandes combinações válidas: uma em torno do núcleo do sujeito (um substantivo; escrita), outra em torno do núcleo do predicado (um verbo: resulta).

escrita

resulta
A
apressada

em
quase sempre



erros




de




ortografia
ou
sintaxe


A própria palavra "combinação" já dá a dica para a gente: com-bin-a-ção, ou seja, ação de associar binariamente qualquer coisa que se imaginar, ou seja, em pares:

SINTAGMA NOMINAL
(porque seu núcleo é um nome/substantivo)
OU SUJEITO
 {(A)+[escrita]+(apressada)} 

SINTAGMA VERBAL
(porque seu núcleo é um verbo)
OU PREDICADO VERBAL
{[resulta] + [(em+erro)+(de+ortografia)+(ou+sintaxe)+(quase+sempre)]}

As associações, assim, são sempre binárias, em que um elemento se combina com outro, dá origem a uma unidade maior, que por sua vez se combina com outra menor ou do mesmo nível, e dá origem a uma unidade superior em sentido e complexidade. Podemos acrescentar quantos sintagmas quisermos à oração acima composta de dois sintagmas (sujeito e predicado, ou sintagmas nominal e verbal respectivamente), porém, observe que o núcleo de ambos sempre será o mesmo:

A escrita apressada, descuidada, desatenta resulta quase sempre em erros de ortografia, acentuação, pontuação ou sintaxe:

escrita

resulta
A
apressada

em
quase sempre

descuidada

erros

desatenta


de




ortografia
ou
sintaxe



acentuação





pontuação



Observe que a concordância com a palavra escrita é feita uma a uma (escrita apressada; escrita descuidada; escrita desatenta), sempre binariamente. Do mesmo modo, observe que as palavras acentuação e pontuação (assim como ortografia e sintaxe) estão subordinadas (por meio da preposição de) à palavas erro (erro de ortografia, erro de acentuação, erro de pontuação, erro de sintaxe). A palavra erro, assim, é núcleo de um sintagma (combinação) nominal (porque "erro" é um substantivo/nome), subordinado ao núcleo do predicado (o verbo resulta) pela preposição em.

Muitas combinações na língua são feitas diretamente. Por exemplo, no sujeito da oração acima, as palavras A (artigo feminino singular) e apressada (adjetivo feminino singular) se ligam à escrita diretamente. São adjuntos adnominais, ligados ao substantivo feminino singular escrita sem nenhuma palavra intermediária: essas palavras estão justapostas, postas imediatamente ao lado, junto (daí "adjunto") do substantivo que especificam e qualificam.

Porém, há outro tipo de combinação na língua, quando há a necessidade de um termo intermediário que indique subordinação de uma palavra a outra ou de um sintagma a outro. Nesse caso, temos uma ligação indireta, que implica em subordinação de um termo a outro. Nesse tipo de ligação por subordinação, temos uma palavra (ou sintagma) "regente" e outra "regida". Assim, em resulta em erro, "resulta" é o termo regente (porque é a informação mais importante desse sintagma) e "erro" é o termo regido (pois é uma informação secundária, subordinada pela preposição em). O mesmo ocorre no sintagma erros de ortografia (e nos demais: de acentuação, de pontuação, de sintaxe): "erros" é o regente e "ortografia" é o termo regido (pela preposição de) do sintagma.

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Amplexos do Jeosafá e até a próxima aula.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.




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