segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

EU, DANIEL BLAKE FORA TEMER

Quem não assistiu ainda ao excelente Eu, Daniel Blake, de Ken Loach, está em dívida consigo mesmo. Ao final da sessão de domingo (08/01/17), espontaneamente o público do Cinearte gritou em massa Fora Temer! Pego de surpresa, embarquei no coro, enxugando os olhos no ombro da camiseta.

Daniel Blake é um trabalhador em idade de se aposentar, num sistema inglês em que os pobres morrem trabalhando. Vítima de um problema cardíaco, ele é afastado do emprego, mas precisa, para receber o auxílio doença, provar ao governo que não tem condições de voltar à ativa, uma vez que sua médica não lhe deu alta. O problema é que o sistema cínico montado pela Inglaterra de Thatcher, e que os longos anos de governo trabalhista nada fizeram para enterrar, é uma máquina impessoal de matar idosos (mas não só, com se verá). Assim, Daniel não consegue nem provar seu afastamento (para receber a ninharia do governo), nem voltar ao trabalho (para garantir seu salário). Com isso, vai vendendo os móveis da casa para comer.

Numa sequência exemplar, ele fica horas ininterruptas ao telefone aguardando que o sistema automático de telefone da Previdência o enderece a algum atendente. Quando consegue, por fim, ser ouvido, é informado de que tem de realizar um outro protocolo para então voltar a ligar para o mesmo sistema que o vai cozinhando lenta e sadicamente.


Daniel faz amizade com uma jovem, Katie, que, em que pese a idade, está na mesma situação dele, com a agravante de estar desempregada e ter dois filhos de pais diferentes para cuidar. Para garantir a comida dos filhos, a jovem Katie, ainda que ajudada por Daniel, literalmente passa fome.

A luta de ambos para manter a dignidade é comovente. Numa Inglaterra em que grande parte da classe trabalhadora não tem representação sindical nem qualquer outra forma de autodefesa coletiva, resta aos dois a luta individualizada contra um sistema burguês, frio e sarcástico, que os vai sugando em grandes goles, minando suas forças e os empurrando para a sarjeta. Daniel e Katie, cada qual a seu modo, tomam atitudes desesperadas para sobreviver, auxiliando-se mutuamente no que podem. Ken Loach, em cenas extremamente cruas e comoventes, nos apresenta o quanto são líricas porém inócuas essas atitudes individuais, que em nada evitam que o sistema impessoalizado de assassinato em massa de trabalhadores realize seu propósito.

O público do Cinearte aplaudiu o filme ao final. Há tempos não via uma reação dessas. Quando o aplauso acabou, lá do fundo alguém gritou com raiva: Fora Temer! E embarquei  na onda de indignação que cresceu na sala escura enxugando os olhos no ombro da camiseta.

Data de lançamento 5 de janeiro de 2017 (1h 41min); Direção: Elenco: Dave JohnsHayley; SquiresDylan McKiernan maisGênero DramaNacionalidades Reino unidoFrançaBélgica


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.









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