sábado, 7 de janeiro de 2017

CIBIO BOTE: Antes de jogar no time dos padres, joguei no dos maconheiros

Compondo a meia cancha do Dom Bosco Bom Retiro (1978).
Não se pode crer cegamente no poema. Não se pode duvidar cegamente dele também. No poema as coisas podem ter se dado tal e qual, mas podem também comparecer transmutadas ou nem comparecer. A única coisa certa num poema que tem letras são as mesmas.

Já cansei de falar que num texto cada um lê o que quiser, inclusive o que está escrito. Lente, o poema é, mas que lente? Exata? De aumentar? De diminuir? De embelezar? De deformar? O poema é uma sala de espelhos de um circo que vem por aí, ou foi, há não sabemos quando?

O furo no muro, eu garanto que tinha. A família maldita havia, e ainda há remanescentes dela, um dos quais achavam que era meu irmão gêmeo. A mãe ainda há, o pai, não, nem aquela preguiça, que foi sendo substituída ao longo dos anos por outras menos viscerais, porém mais desiludidas. Talvez porque esse tipo de preguiça infantil, pueril, de que fala o poema despareça no primeiro saco de bolachas, enquanto que, quando nos tornamos adultos, a preguiça acumulada em nós de certas pessoas, preguiça crônica de gente que nos cutuca, alfineta, ferroa, seja uma espécie de reumatismo que, a depender do clima, exige doses crescentes de morfina.

Qual era mesmo a família maldita?


Ai ai
me deu preguiça.
Preguiça da minha mãe
preguiça do meu pai
das professoras e da inspetora de alunos.
Vazei o muro da escola
por um furo que tinha lá
feito pelos maconheiros
da Família Maldita.
Fui jogar bola com eles
sem preguiça de ninguém.
Minha mãe me comeu na porrada.
Daí, que a preguiça voltou.

(Textos extraídos do Livro de Infância do poeta Cíbio Bote)



Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.








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