quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Por que roubar o 2017 deles?

Ele entrou inseguro na lanchonete a meio caminho do cursinho em que ia prestar uma prova de bolsas. O Ensino Médio não lhe garantira o suficiente para uma vaga em uma boa universidade pública, mas talvez lhe tivesse proporcionado condições para um bom desempenho na prova para a qual se dirigia agora.

Aliás, pra falar a verdade, ele não queria ir direto do Ensino Médio para a Faculdade, queria mesmo era fazer o cursinho, de preferência esse, que em sua opinião era o melhor, caro, mas que dava a chance de conseguir uma bolsa de estudos, ainda que parcial, se seu desempenho não fosse suficiente para a bolsa integral.

No seu rosto com pelos ainda arriscando maiores aventuras, estava escrito que parara ali apenas para dar um tempo, pois estava muito cedo para chegar ao local fatídico. O que tomar? Café? Não, não gostava de café. Suco? Hmmm. Um refri. Fanta. Encheu o copo pensando em 2017.

Olho no celular: o tempo andou. Como seria esse ano? Com certeza ia ingressar nesse cursinho, ainda que com bolsa parcial. Mas... e se seu desempenho fosse ruim? Não ia dar para pagar a mensalidade integral de jeito nenhum. Uma nuvem escura passou na rua e entrou em seu coração pelos olhos.

Mas se ao contrário conseguisse ao menos cinquenta por cento de desconto? Aí dava... Era por isso que ia batalhar, pois cem por cento estava fora de seu alcance. Seu coração dava umas sacudidas estranhas só de pensar que ia enfim ser exigido ao máximo. Sim, porque a escola do Ensino Médio pública, embora boa...  bem... na média tinha sido muito meia boca, mesmo, essa era a verdade.

Enquanto sorvia o líquido laranja cheio de gás picando na língua, testava os bolsos da calça: caneta, lapiseira, borracha, comprovante de inscrição, carteira... tudo certo. Pagou a conta, alongou os braços, as costas, as pernas e ganhou o corredor Vergueiro, cheio de prédios de faculdades, que encerravam seu ano letivo despejando nas calçadas dos dois lados da rua um formigueiro de jovens barulhentos. Sentir-se mais um nesse mar confuso lhe fez bem.

Ele foi, ainda que inseguro, encarar o leão do vestibular, após o qual morava seu 2017 de novidades, sonhos, expectativas, desafios e alegrias. Sim, é preciso ter coragem e usar essa palavra agora, sem medo: alegria.

Do fundo mal iluminado da lanchonete um cara cheio de fios brancos na barba e uma umidade estranha nos olhos escreveu-lhe esta crônica. Para ele e para todos os meninos e meninas de sua geração, sobre os ombros dos quais não se deve depositar o peso dos nossos enganos.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.








Um comentário:

  1. Ao ler, lembrei-me dos anos inseguros em que fiz o cursinho e o vestibular. Sem celular. Parabéns!

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