sábado, 17 de dezembro de 2016

PIQUENIQUE DOS EUA PELO MUNDO NÃO É UMA TOALHA BRANCA SOBRE A GRAMA VERDE

A declaração do recentemente eleito Donald Trump de que é hora de os EUA pararem de derrubar governos pelo mundo deve ser bem recebida. Porém, talvez seja um pouco tarde demais.

Em 1991 eu era um dos coordenadores do acampamento em frente ao Teatro Municipal de São Paulo contra a guerra do Iraque.

Em meio a jovens universitários brasileiros, eu um deles, e alguns latino e norte-americanos, acompanhamos o desenrolar do conflito com leituras coletivas de textos literários antimilitaristas e distribuição de folhetos pacifistas à população que, de outro modo, só tomaria conhecimento da guerra que envolveu Iraque, Kwait e EUA pela televisão. Com o fim das hostilidades, as barracas foram desmontadas e trilhamos nossas vidas, mas os EUA continuaram seu tour pelo mundo. Mal sabíamos o que se desenrolaria pelas décadas seguintes.

De 1991 até hoje, as imagens produzidas pelo piquenique norte-americano pelo Oriente Médio e norte da África não são de casais felizes, com cestas de lanches, crianças sorridentes e  toalhas brancas de florzinhas sobre a grama verde e ensolarada.

É preciso estar muito cego pela ideologia liberal do american way of life para não constatar a tragédia humana em proporções apocalípticas deflagrada pela máquina de morte dos EUA. Sob o álibi de destronar ditadores e levar a democracia aos rincões não civilizados do globo, o faroeste em que o munto foi tornado a partir da eleição de Ronald Reagan para presidência, em 1981 (ele mesmo um duvidoso cowboy Hollywood) pouco se parece com os filmes da sessão da tarde da rede Globo.

A declaração do recentemente eleito Donald Trump de que é hora de os EUA pararem de derrubar governos pelo mundo deve ser bem recebida, porém sem grandes entusiasmos, já que desde a Guerra da Secessão (1861-1865), eles estão em guerra com alguém em várias partes do globo. Tomara não seja um pouco tarde demais, uma vez que o envolvimento ianque na derrubada dos presidentes de Honduras, Paraguai e Brasil, e a provocações contra Venezuela, Bolívia e Equador podem fazer o caldo entornar por estes lados da reserva indígena norte-americana também.

Pelo grau de instabilidade social e política a que o Brasil chegou, após um período de alto crescimento econômico e redução das desigualdades sociais, tomara também que neste 2017 não sejamos tentados a sentir saudades do aziago ano de 2016, que cambaleou para a cova como um zumbi de olhos injetados de ódio e camisa amarela da CBF.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.













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