quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Tem que matar toda essa raça

O jovem Guilherme Silva Neto assassinado pelo pai. Por quê?
"Tem que matar toda essa raça", ouvi, semana passada, pela manhã, antes de pegar no batente, quando tomava  um café na padaria próxima à escola em que leciono, no bairro do Tatuapé, em São Paulo.

A imagem da TV, sempre sintonizada na Rede Globo, mostrava uma manifestação contra a PEC 241, que congela educação, saúde e gastos sociais no Brasil pela bagatela de 20 anos.

O jornalista, também como sempre, criticava com palavras, gestos e caretas os jovens que, com cartazes nas mãos, andavam pacificamente pela av. Paulista acompanhados de perto por centenas de policiais. Olhei para o lado e um homem de seus quarenta anos babava em seu ódio. "Não precisa matar todos, mata uns dois e essa porra acaba", um outro respondeu.

No início desta semana, na sala dos professores, logo às 7h da manhã (sim, nós trabalhamos dia 14 de novembro), um colega relatou: quase fora linchado na padaria em que tomava seu café matinal. O caso era que um policial que lá comia sua tradicional coxinha por conta da casa, acompanhado de seus pares,  ao ver na tela da TV, na mesma Rede Globo, uma outra manifestação de jovens, decidiu bradar sua opinião para que todos ouvissem: "Bandido bom é bandido morto".

O professor quase foi linchado pois perguntou coisas da maior inocência: "Manifestante é bandido"? Toda a padaria congelou e pregou olhos arregalados no professor, que continuou: "Que lei faculta a policiais executarem a pena de morte? Se houvesse pena de morte no Brasil, seriam os policias que a executariam ou um outro órgão competente do Estado?".

Naturalmente o professor foi "xingado" de petista, comunista, baderneiro, arruaceiro etc. Mas ele não se deu por vencido, levantou-se e argumentou: "Sou petista, comunista, professor e trabalhador. E bandido é quem comete crime. Se no Brasil não há pena de morte e o senhor incita o assassinato, o senhor, com farda ou sem farda, é um criminoso e, pela sua lógica, deveria ser morto". Perguntei ao colega professor de qual padaria se tratava. Infelizmente, não era a mesma.
Jovens protestam contra a PEC 241, que congela verbas da educação, saúde e sociais por 20 anos.
Neste feriado um outro colega professor relatou pelo Facebook o que lhe ocorrera: um ex-aluno, agora também professor, acordou de madrugada sufocado e sem ar. Quando abriu os olhos, não, não estava dentro de um pesadelo: sua mãe, com um fio, tentava matá-lo estrangulado. Aos berros ela dizia que preferia vê-lo morto do que "viado". O pai já o prevenira de que o "curaria na porrada".

Ontem e hoje circula pelas redes sociais e imprensa a foto do jovem Guilherme Silva Neto, de apenas 20 anos de idade, estudante de Matemática da Universidade Federal de Goiás, assassinado pelo próprio pai, o engenheiro civil Alexandre José da Silva Neto, de 60 anos, em Goiânia. A razão é a mesma que relatei nos três casos anteriores: uma parte da população, cevada e curtida no ódio, se reserva o direito de dispor inclusive da vida das outras pessoas por discordar delas e por querer que elas sigam seu ideário político, suas convicções morais ou sua religião.

A atitude do engenheiro Alexandre Silva Neto, assassino do próprio filho, em nada difere da manifestada pelo senhor na padaria em que eu tomei meu café, semana passada; se iguala também à atitude do policial para quem "bandido bom é bandido morto" (sendo que para ele não se precisa cometer crime para ser "bandido morto", basta ser petista, comunista ou manifestante) - e ainda à daquela mãe, que tentou assassinar o filho dormindo, uma vez que para ela é mais digno tê-lo no cemitério do que respeitar sua natureza e o próprio direito à vida.
 
O ódio insuflado pela grande mídia (Globo, Veja, Istoé,
Folha e Estado de S. Paulo) vai apresentando    consequências.
Quem ou o que levou essas pessoas a esse grau de violência e irracionalidade? Quem são elas para quererem impor à base do terror, do ódio e da ameaça à vida - e às vezes do assassinato efetivo - seus interesses, modos de vida e ideologia?
  
O pai de Guilherme acreditou que eliminando o filho se livraria de seu próprio ódio. Porém, após alvejar várias vezes, perseguir de carro pelas ruas de Goiânia, descarregar no filho e recarregar a arma e, por fim, matar covardemente um moço, FILHO SEU, que não esboçou qualquer reação, se deu conta da grande desgraça pela qual foi responsável. Então, não lhe restou outra saída a não ser matar-se e deixar-se cair sobre o corpo inerte do pouco mais que menino, cujo crime maior foi lutar para que sua Universidade não fosse destruída e que mulheres não fossem vítimas do estupro.

Se o seu Alexandre tivesse abraçado o filho antes e aberto os ouvidos para seus argumentos e sonhos, a desgraça não o teria devorado com seus dentes de doberman. Porém, seu Alexandre não tinha mais amor para dar, nem para compreender o futuro: só tinha prepotência e ódio, que infelizmente só o consumiram depois de ele se ter tornado um mostro.

O senhor da padaria em que parei de tomar café; o policial da padaria em que meu colega parou de tomar café, a mãe e o pai do jovem que acordou com um fio a esganá-lo enquanto dormia estão bem perto de se tornarem monstros semelhantes ou piores, se é que já não o são. Só falta talvez concluírem (se já não o fizeram) na forma de crime consumado o que já falam, propagam, ensaiam e incitam o tempo todo.

Essa "raça" que eles querem destruir é o futuro. Vamos permitir isso?

“Ele saiu antes do Guilherme e ficou esperando. Ligou para minha irmã para saber se ele já havia saído de casa. Ela disse: ‘Acabou de sair. Disse que ia dar uma volta para arejar a cabeça’. Alexandre saiu com uma maleta [com a arma]. Ele já estava preparado, queria matar. Se não quisesse, não tinha ido atrás do menino. Se não fosse ontem, ia ser hoje, amanhã ou depois porque ele queria fazer isso”. Segundo a família, o engenheiro já tinha ameaçado matar o filho, mas ninguém imaginou que a promessa seria cumprida. "Nunca imaginei que ele fosse fazer isso, achava que era terrorismo. O menino tinha horário para chegar. Se ônibus atrasasse, ele já ficava mandando mensagem o tempo inteiro. Desde criança ele foi preso, não teve vida. Era criança e não podia sair de casa e brincar com os amigos. Só fui sair com ele agora, com 20 anos, uma única vez. Levei ele em uma festa. Nunca sai com meu sobrinho porque o pai nunca deixou nem eu ir ao cinema. Era muito possessivo", contou [a tia]. FONTE: O Globo - G1.

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Jeosafáprofessor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Ed











ucação Básica e para o Ensino Superior privados.


5 comentários:

  1. Belo texto Jeosafá.
    Consegui visualizar cada personagem.
    Relatos chocantes de pessoas despreparadas para amar.
    De onde nasceu tanto ódio.
    Na adolescência meu maior medo foi a bomba atômica.
    O pai que executou o próprio filho... e a mãe que tentou estrangular seu filho...
    Imagino um exército de pessoas espumando ódio.
    São piores que uma guerra nuclear.

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    1. Prezado amigo ou amiga. Precisamos combater o ódio com paciência e sem empregar as mesmas lógicas e os mesmos mecanismos de quem foi picado pela intolerância. É preciso denunciar a irracionalidade e, ao mesmo tempo, ajudar as pessoas a saírem dessa prisão que é o seu próprio ódio. Ajudar a fazê-los pensar, a medir antecipadamente as consequências de seus atos e palavras, a prever os resultados de atos impensado é um caminho. Deve haver outros, mas só os que desarmem essa intolerância nos serve. Firmeza e paciência, coragem e solidariedade para com os que estão tomados pela ira é um remédio que estou tentando em meus textos em minhas aulas. Abração do J.

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    2. O PROBLEMA AGORA É QUE TEMOS UM GOVERNO GOLPISTA QUE PARA ESTAR NO PODER, INSUFLOU O ÓDIO QUE ESTAVA ADORMECIDO NAS PESSOAS E QUE TALVEZ NUNCA SERIA DESPERTADO, MAS EU NÃO ESTOU CONSEGUINDO VER UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL, A MÍDIA BRADA ÓDIO, OS POLÍTICOS IDEM, OS MAGISTRADOS, JORNALISTAS, MUITOS ARTISTAS, O POVO QUE ESTÁ AGORA ODIANDO TUDO E TODOS É VÍTIMA DA PRÓPRIA IRRACIONALIDADE

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  2. Respostas
    1. Oi, Dovah: O ódio é uma bola de neve: só pode ser contido enquanto é pequeno e está sob controlo. Se crescer demais, arrasa tudo pelo caminho.

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