segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Para que rimar política e rancor?

Manifestações políticas de ódio levam à guerra.
A realidade em muitos sentidos independe de nós. Não escolhemos ficar doentes, nem temos poder para evitar um terremoto do outro lado do mundo – sequer uma garoa em nosso próprio quintal. Do mesmo modo, se conseguimos descer uma escada, demos vivas às condições de nosso corpo e, é lógico, à lei da gravidade, sem a qual não descemos nem subimos nada, uma vez que em sua ausência sequer há o "em cima" e o "embaixo".

Porém a realidade não é captada por todos da mesma maneira. Nossas crenças religiosas, políticas, econômicas, ideológicas, culturais enfim, condicionam nossa recepção e nossa percepção. Assim, o "real" para uns, não o será para outros. Até mesmo nossas experiências pessoais agem como filtros pelos quais a "realidade" nos chega ou maior ou menor, ou mais nítida ou mais opaca, ou mais inteira ou mais deformada, em preto e branco ou colorida.

Enquanto não nos damos ao trabalho de inquerir o que seja a realidade, enquanto cultivamos em face
dela uma atitude "cândida", ela é para nós um evento com poucas complicações. A existência de Deus está para nós resolvida, a questão da justiça é uma verdadeira obviedade, o certo e o errado estão bem definidos e para sempre.

Porém basta uma única pergunta que desequilibre essas certezas (O que é o real?)  para que a realidade se torne algo incomodamente insolúvel. Para alguém religioso e monoteísta, Deus existe, ponto final. Perguntemos a esse  alguém, nesse caso, se Deus é real, uma vez que existe.

Os textos teológicos e filosóficos, quando se põem em movimento em busca da solução de questões tão simples, dispensam rios de tinta e toneladas de papel, no entanto quanto mais se movem a procura de respostas, mais as respostas se afastam. São como o horizonte: se estamos parados diante dele, não temos dúvidas de que ele está lá, mas se damos um só passo em sua direção, vemos que ele se afasta e que a hipótese de que ele esteja lá e de que seja alcançado é uma senhora esfinge cheia de enigmas.

Os movimentos fundamentalistas, religiosos, políticos, ideológicos, econômicos ou de outras naturezas vivem de afirmações peremptórias, dogmáticas, prenhes de certezas infalíveis, por isso não sofrem a angústia de ter de pensar no que é a realidade. Por isso tendem sempre ao autoritarismo, ao preconceito, ao ódio e à violência: não cabendo a realidade em seus esquemas ideológicos limitados, é preciso eliminar pelo argumento da força, não pela força dos argumentos, toda e qualquer dúvida que ameace suas verdades simples demais, infantis demais, medrosas demais, verde-amarelas demais.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.














Um comentário:

  1. o mesmo recado , E O MESMO CASTIGO serve para OS POBRES FASCISTAS DE DIREITA..

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