quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Uma certa mulher negra e guerreira

CANTAR, DANÇAR E LUTAR ESTÃO NO SANGUE
Sharylaine, rapper, cantora, compositora, arte-educadora
e candidata a  vereadora em São Paulo.
Na célebre metáfora de John Lennon, a mulher é o negro do mundo, em razão do peso do machismo que pesa sobre ela em todos os países da terra. E quando se é mulher e negra, mesmo, sem a licença poética da metáfora? Entrevista com a ativista, compositora, cantora, arte-educadora e candidata a vereadora em São Paulo Sharylaine.

JEOSAFÁ: Sharylaine, o que a levou para a música e para a dança?

SHARYLAINE: Em primeiro lugar, fora Temer (risos). Em segundo, a música e a dança estão na minha família acho desde que meus antepassados foram sequestrados na África e trazidos naquelas verdadeiras fábricas flutuantes de morte que eram os navios negreiros. Lógico que houve um momento na adolescência em que tive plena consciência de meu corpo e de minha voz, mas cantar e dançar já estavam em cada molécula do meu corpo e sangue antes mesmo de essa consciência despertar.

JEOSAFÁ: Ouvindo suas composições, a gente sente logo que a razão, na forma de protesto social e e gênero, e a emoção, na forma de composições que tocam o coração da gente, estão equilibradas. Você busca esse equilíbrio ele vem naturalmente, digamos assim, por inspiração...

SHARYLAINE: Olha, Josa, nada contra a inspiração, mas a artista intuitiva passou longe de mim. Embora eu sinta quando uma música está "redonda" e uma composição, digamos assim, bonita, eu batalho muito, pesquiso muito, ouço muito os outros músicos e levo para casa o sorriso de contentamento e o olhar de reprovação que está no rosto de quem me ouve ou assiste aos meus videoclipes. Nenhum artista gosta de que uma obra sua seja recebida friamente, mas é preciso humildade para assimilar a crítica, que às vezes vem muito sutil ou indiretamente, e melhorar o próprio trabalho. A criatividade, para mim, vem depois de muito, muito, muito suor.

JEOSAFÁ: A mulher em geral, a mulher negra em particular, o jovem em geral, o jovem negro em particular, estão sempre em seus textos, canções e trabalhos sociais na periferia. É uma opção?

SHARYLAINE: Ai, Josa... quem dera. Não é opção, não, é uma ditadura (risos).

JEOSAFÁ: Ditadura? Como assim, logo você, que põe a liberdade a cada vírgula de suas composições. Explica melhor esse conceito.

SHARYLAINE: A palavra é horrível, mas é isso mesmo. A música é tirana. Ela te tiraniza. É ela quem puxa as mulheres e o jovens para dentro do meu coração quando estou compondo e cantando. Quando vejo, estão lá, com toda suas dores e esperanças, alegrias e decepções. Nesse sentido, não é opção, não. Se eu não deixar que eles brotem na minha letra e na minha voz, perigas que eu tenha um colapso nervoso (risos).



JEOSAFÁ: E porque você decidiu se candidatar a vereadora em São Paulo?

SHARYLAINE: Isso é um papo engraçado (risos).

JEOSAFÁ: Engraçado?

SHARYLAINE: Não no sentido perverso que essa palavra às vezes pode ter, mas no sentido bonito. Alguns amigos, entre os quais você, fizeram uma campanha para que eu me candidatasse. Você sabe muito bem que conversamos muito, particularmente eu você e o Wel (Wel Legal, uma reconhecida liderança do movimento Hip hop), porque isso nunca tinha passado na minha cabeça. Mas, enfim, vocês me convenceram de que é uma vergonha (e eu reconheço) que entre 55 vereadores em São Paulo, haja apenas 5 mulheres - e nenhuma negra. E me convenceram também de que a música e a cultura tem seus limites: para reverter tanta injustiça na periferia é preciso mais do que canções, é preciso ação política, leis, programas. Pensei bastante e cheguei à conclusão de que posso ajudar.

JEOSAFÁ: Como está sendo sua campanha?

SHARYLAINE: Muito legal, porque nunca tive dinheiro sobrando na carteira, então tudo é muito na base da militância, que para mim não é estranha, pois atuo no movimento feminista há muito tempo, e também na cultura Hip hop e no samba, onde tudo é feito na raça.

Sharylaine entrega à filha de Malcolm X, Malaak Shabazz, livro de assinaturas
de amigos e amigas de Malcolm X no Brasil, a ser depositado no Memorial
Malcolm X, no Harlem, EUA., em 20 novembro de 2015, São Paulo.
(clique aqui e leia o artigo).
JEOSAFÁ: Em novembro do ano passado, para as comemorações do mês da Consciência Negra, você esteve na mesa que recebeu a filha de Malcolm X, Malaak Shabazz, com o também rapper Dexter, o Secretário da Igualdade Racial do Município de São Paulo e mais de 500 lideranças negras. Como foi essa experiência.

SHARYLAINE: Olha, foi muito bonito. Nunca pensei que conseguiríamos trazê-la, mas o coletivo quando está unido, faz coisas maravilhosas. Ver o auditório do cine Olido completamente lotado, com mais uma centena de pessoas do lado de fora, mostrou a nós mesmos uma força que pensávamos adormecida. Fiquei muito emocionada, como todos, como ela, também. Durante um semestre colhemos assinaturas em eventos do Movimento Malcolm X. Entregar o livro com essas assinatura para ela depositar ano memorial de Malcolm X no Harlem foi... sublime. Um pouco do Brasil agora está lá, como compromisso de luta e homenagem a esse herói que nos inspira.

JEOSAFÁ: Caso eleita, que prioridades você atacaria logo de início.

Capa do livro com milhares de assinaturas dos
Amigos e Amigas de Malcolm X  no Brasil.
SHARYLAINE: A violência contra jovens na periferia, negros em particular, a defesa de seus direitos e das mulheres, lógico, estão no centro do radar. A injustiça pesa mais sobre setores da população mais vulneráveis, e, se a gente quer fazer justiça, tem que tirar dessa situação de vulnerabilidade imediatamente quem mais sofre. São Paulo é uma cidade rica demais para virar as costas para seus jovens e suas mulheres. Mas, olha, a situação dos idosos em São Paulo é também muito difícil. São Paulo precisa se humanizar. Envelhecer não é doença, é condição humana. Por isso, Câmara Municipal, Prefeitura, órgãos públicos, hospitais, precisam encarar a especificidade da pessoa idosa.

JEOSAFÁ: Estamos a dias das eleições deste ano, que ocorrem no próximo domingo, 2 outubro. Que recado daria ao leitor desta entrevista e aos eleitores de domingo?

SHARYLAINE: O recado que eu dou é para que reflitam e votem contra todos aqueles que tiraram do poder, por meio de um golpe, a primeira mulher eleita presidenta da República. Em São Paulo, para prefeito, eu apoio Haddad (13), o único que se manifestou firmemente contra esse golpe vergonhoso. E se o eleitor ainda não escolheu seu candidato a vereador, peço que me dê seu voto de confiança, digitando o meu número: 65.030 na urna.

JEOSAFÁ: Como se faz para conhecê-la melhor, isso ajuda ao eleitor formar sua opinião.

SHARYLAINE: Para conhecerem meu trabalho, peço que digitem meu nome na internet. Tá tudo lá, vão ver que luto muito, e não é de hoje, nem é porque agora sou candidata a vereadora. A luta está no meu sangue, como a música e a dança.

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Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria),  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora, e no mesmo ano A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela Mercuryo Jovem. Leciona para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados de São Paulo.


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