domingo, 25 de setembro de 2016

REFORMA DO ENSINO MÉDIO DE TEMER: a maior catástrofe da história da educação brasileira

Presidente golpista Michel Temer e o ministro Mendonça Filho:
farsa e tragédia, respectivamente.
Não contente em despejar uma bomba atômica sobre o ENEM e arrasá-lo, dias depois Temer explode outra bomba atômica sobre todo o Ensino Médio brasileiro. São nossas Hiroshima e Nagasaki que, se consumadas, nos custarão décadas de esforços e recursos imensos para serem reconstruídas, não sem muita dor e ainda maiores perdas irrecuperáveis. Vamos permitir?

Antes mesmo que se recuperasse do pavor causado pelo anúncio da destruição do ENEM, estudantes, pais e professores recebem sobre suas cabeças outra explosão arrasadora que causa indignação no país inteiro.

Anunciada como o “Novo Ensino Médio”, a “reforma” da educação de Temer é na verdade uma bomba de demolição de tudo que foi construído no país deste a aprovação da LDB (lei 9394 de 1996). Mesmo o que foi realizado de proveitoso no governo FHC torna-se escombro, caso tudo que Temer e o ministro Mendonça Filho anunciaram ocorra.

A comoção geral à Medida Provisória n.o 746 de Temer nas redes sociais foi tão avassaladora e contundente que antes mesmo de os jornais a anunciarem em suas manchetes, ele já se desculpava: que “não era bem assim”, que o anunciado era apenas um rascunho, uma versão preliminar ou coisa parecida. Então um presidente organiza uma cerimônia para a imprensa, assina uma medida provisória na frente de todos e, eis quer era brincadeirinha: era só um rascunho.

O ator pornô Alexandre Frota, agora "conselheiro",
com  ministro da Educação Mendonça Filho.
Essa “reforma” na prática elimina do Ensino Médio Filosofia, Sociologia, Educação Física, Arte e Espanhol (opção ao inglês). Diante da raiva provocada em educadores, estudantes e pais de alunos, Temer mandou dizer que as coisas ficam como estavam até as discussões terminarem. Porém, com quem ele e seu ministro estão conversando? Com o artista pornô Alexandre Frota, convertido em conselheiro do ministro, e com chefes do Movimento Brasil Livre, um grupo juvenil abertamente fascista, que pretende impor sua ideologia a todas as escolas brasileiras.

A bomba de Temer sobre a educação brasileira também traz uma aberração: a substituição do professor por pessoas de “notório saber”. Isso significa não apenas que as escolas públicas e privadas estarão livres para contratar profissionais sem licenciatura: o próprio diploma de nível Superior fica abolido, pois o “notório saber” implica que o profissional, exato por não possuir diploma, tem que ter seu saber reconhecido por uma determinada instituição. Quem, em nome dessa instituição, o declarará portador do “notório saber”? Na unidade escolar, a figura do diretor.

Está aberta, assim, a porta por onde entrará o profissional desqualificado, com salário de escravo e direitos aviltados, e por onde sairá o professor que investiu anos de sua vida até conquistar o diploma de nível Superior. Como esse profissional desqualificado não é titulado, junto com ele sai o sindicato da categoria, que não tem jurisdição sobre um trabalhador a que não está habilitado a representar. Na melhor das hipóteses, isso é a institucionalização do famoso "bico" na educação, quando não, na pior hipótese ainda, a contratação de religiosos fundamentalistas para doutrinarem com sua fé, cevada em obscurantismo, os estudantes das escolas públicas pagos ainda com o dinheiro de nossos impostos.

Que resultará disso? Resultará, além da total destruição da educação pública (que receberá uma avalanche de profissionais desqualificados para formar mão de obra barata, apta apenas limpar latrinas de shopping centers), resultará, dizia, no achatamento radical dos salários dos professores da iniciativa privada, pois um oceano de professores bem formados terão de disputar as reduzidas vagas que o sistema privado oferece, e ao valor da hora-aula o mais rebaixado que o mercado tiver a oferecer.

Na tragédia anunciada por Temer, apenas Português e Matemática passam ser disciplinas obrigatórias. Porém, nem isso chega a ser uma boa notícia, pois qualquer um, sem diploma de formação específica, sem licenciatura e sem estudos na área da educação ou pedagogia, poderá ministrá-las: basta ser amigo do diretor – critério máximo para o notório saber, numa situação caótica como a anunciada.

"Ah! Mas o aluno poderá escolher o que quer estudar!", dizem os adeptos do caos.

Grande farsa: tem o aluno adolescente condições de dizer o que ele próprio precisa saber para atingir seus sonhos? Qual a função da escola, senão dar a base para ele, no momento certo, fazer suas escolhas profissionais, cidadãs e de vida? Na verdade, aqui, Temer empurra para um jovem de 14 anos, que apenas inicia o Ensino Médio, uma responsabilidade que é dos adultos, na figura do Estado. É ou não uma covardia maior que a de Pilatos?

Para esconder essa vilania, Temer anuncia a ideia de aumentar a carga horária das escolas, tornando-as de tempo integral. Trata-se de outra farsa ainda maior, pois sequer os sistemas têm infraestrutura para comportar em escala uma proposta como essa: estamos falando de mais de 6 milhões de alunos, segundo o próprio Inep (autarquia do MEC responsável pelo ENEM).


Em São Paulo, o secretário da Educação do Estado já se adiantou com uma “bela” sugestão: usar o meu, o seu, o nosso dinheiro público para alugar prédios de escolas privadas em períodos ociosos nelas (vide matéria do jornal O Estado de São Paulo, de 25/09/16). Só se esqueceu ele de que no ano passado e neste ano o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, fechou um número vergonhoso de salas de aula no estado todo para abarrotar as que permaneceram em funcionamento. Então a sugestão dele é esta: fechamos salas de aula em escolas públicas, para alugar salas de aula em escolas privadas dois quarteirões à frente.

À tragédia da destruição do ENEM, recentemente anunciada, se soma agora o desastre da destruição do próprio Ensino Médio. Fecha-se assim o ciclo de nosso horror: um exame que não servirá para nada para avaliar um Ensino Médio que, para filhos de trabalhadores e da classe média baixa, não prestará para nada.

                                                                    Leia também o artigo:

 O ENEM traído


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados de São Paulo.













3 comentários:

  1. Respostas
    1. Infelizmente, sim, muita gente duvida. Terão de passar pela experiência amargar para aprender. O problema que passaremos junto por ela.

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  2. Meu pai me disse; " tomara que a população não se arrependa de ter tirado a Dilma". Muitos alunos já não querem estudar,imagina agora, que pode escolher. Sem contar que ele aprovou o aumento de salario de juízes e ministros, corta embaixo e aumenta a regalia para os de cima.

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