quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

MILITÂNCIA DÁ ORGULHO, LIDERANÇAS DÃO VERGONHA

Enquanto militantes trabalhadores se esforçam para restaurar as bandeiras e a imagem de uma esquerda destruída por um golpe, mas também por seus próprios e graves equívocos, lideranças afogadas na lógica do dinheiro se enterram mais fundo (e a estrela) na lama.


Num momento em que se espera uma atitude corajosa do PT, maior partido da esquerda brasileira, no sentido de injetar ânimo nas bases para seguir a difícil luta contra o golpe, o que os vereadores da legenda oferecem de presente de Natal para os paulistanos é o aumento de seus próprios salários.

A pequenez dessa atitude é tão enojante que me vi obrigado a substituir a crônica de hoje por este registro. Confesso que vai ficando cada vez mais difícil defender um PT e uma esquerda refém do dinheiro fácil.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.









quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Por que roubar o 2017 deles?

Ele entrou inseguro na lanchonete a meio caminho do cursinho em que ia prestar uma prova de bolsas. O Ensino Médio não lhe garantira o suficiente para uma vaga em uma boa universidade pública, mas talvez lhe tivesse proporcionado condições para um bom desempenho na prova para a qual se dirigia agora.

Aliás, pra falar a verdade, ele não queria ir direto do Ensino Médio para a Faculdade, queria mesmo era fazer o cursinho, de preferência esse, que em sua opinião era o melhor, caro, mas que dava a chance de conseguir uma bolsa de estudos, ainda que parcial, se seu desempenho não fosse suficiente para a bolsa integral.

No seu rosto com pelos ainda arriscando maiores aventuras, estava escrito que parara ali apenas para dar um tempo, pois estava muito cedo para chegar ao local fatídico. O que tomar? Café? Não, não gostava de café. Suco? Hmmm. Um refri. Fanta. Encheu o copo pensando em 2017.

Olho no celular: o tempo andou. Como seria esse ano? Com certeza ia ingressar nesse cursinho, ainda que com bolsa parcial. Mas... e se seu desempenho fosse ruim? Não ia dar para pagar a mensalidade integral de jeito nenhum. Uma nuvem escura passou na rua e entrou em seu coração pelos olhos.

Mas se ao contrário conseguisse ao menos cinquenta por cento de desconto? Aí dava... Era por isso que ia batalhar, pois cem por cento estava fora de seu alcance. Seu coração dava umas sacudidas estranhas só de pensar que ia enfim ser exigido ao máximo. Sim, porque a escola do Ensino Médio pública, embora boa...  bem... na média tinha sido muito meia boca, mesmo, essa era a verdade.

Enquanto sorvia o líquido laranja cheio de gás picando na língua, testava os bolsos da calça: caneta, lapiseira, borracha, comprovante de inscrição, carteira... tudo certo. Pagou a conta, alongou os braços, as costas, as pernas e ganhou o corredor Vergueiro, cheio de prédios de faculdades, que encerravam seu ano letivo despejando nas calçadas dos dois lados da rua um formigueiro de jovens barulhentos. Sentir-se mais um nesse mar confuso lhe fez bem.

Ele foi, ainda que inseguro, encarar o leão do vestibular, após o qual morava seu 2017 de novidades, sonhos, expectativas, desafios e alegrias. Sim, é preciso ter coragem e usar essa palavra agora, sem medo: alegria.

Do fundo mal iluminado da lanchonete um cara cheio de fios brancos na barba e uma umidade estranha nos olhos escreveu-lhe esta crônica. Para ele e para todos os meninos e meninas de sua geração, sobre os ombros dos quais não se deve depositar o peso dos nossos enganos.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.








terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ESTÁ SE ESGOTANDO O PRAZO PARA LIQUIDAREM LULA

Análises de 2016 e previsões de 2017 excessivamente funestas criam o álibi para que aceitemos qualquer coisa em substituição a algo ainda pior.

Porém, sendo a "qualquer coisa" já o que há de pior, só nos resta devolver a quem de direito o prato cheio dela, de preferência voando, via ventilador.

A culpa não é de 2016, como os bonitinhos da Lava Jato nos querem fazer crer. Enquanto prestamos a atenção nesse ano, que termina como mais uma vítima de delação premiada de Sérgio Moro, Janot e Dallagnol, perdemos a oportunidade de dar uma espiada na verdadeira toca de tatu em que a política brasileira se tornou. Em toca de tatu abandonada mora rato, dizia minha avó da roça.

É disso que os ratos têm medo.
Nessa toca de tatu sem tatu mas gorda de ratazanas do governo Temer, rato está mordendo rato faz tempo, de maneira que, se neste 2017 tamparmos as saídas desse covil de bubônicas, em 2018 tudo de ruim que as pestes fizeram ficará enterrado com elas.

Não se trata pois de desentocá-las, mas, ao contrário disso, de socá-las com pau de bambu para as profundezas da Lava Jato e arrolhar as embocaduras.

Que fiquem Moro, Janot, Dallagnol, Conserino, Temer, Aécio, Cunha, Renan, STF com suas crias (com as quais, aliás, têm muita mordida infecciosa a trocar), só restando de fora a jararaca que eles cutucaram com suas varinhas e inteligências curtas, pronta para o bote da democracia contra as ratazanas golpistas que vazarem por alguma saída de buraco nova, já que o ofício de rato, além de ocupar toca vazia, é lascar o dente, roer e dar crias.

Otimismo demais? Pode ser, mas o prazo para liquidarem a jararaca está se esgotando a olhos vistos.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.









sábado, 17 de dezembro de 2016

PIQUENIQUE DOS EUA PELO MUNDO NÃO É UMA TOALHA BRANCA SOBRE A GRAMA VERDE

A declaração do recentemente eleito Donald Trump de que é hora de os EUA pararem de derrubar governos pelo mundo deve ser bem recebida. Porém, talvez seja um pouco tarde demais.

Em 1991 eu era um dos coordenadores do acampamento em frente ao Teatro Municipal de São Paulo contra a guerra do Iraque.

Em meio a jovens universitários brasileiros, eu um deles, e alguns latino e norte-americanos, acompanhamos o desenrolar do conflito com leituras coletivas de textos literários antimilitaristas e distribuição de folhetos pacifistas à população que, de outro modo, só tomaria conhecimento da guerra que envolveu Iraque, Kwait e EUA pela televisão. Com o fim das hostilidades, as barracas foram desmontadas e trilhamos nossas vidas, mas os EUA continuaram seu tour pelo mundo. Mal sabíamos o que se desenrolaria pelas décadas seguintes.

De 1991 até hoje, as imagens produzidas pelo piquenique norte-americano pelo Oriente Médio e norte da África não são de casais felizes, com cestas de lanches, crianças sorridentes e  toalhas brancas de florzinhas sobre a grama verde e ensolarada.

É preciso estar muito cego pela ideologia liberal do american way of life para não constatar a tragédia humana em proporções apocalípticas deflagrada pela máquina de morte dos EUA. Sob o álibi de destronar ditadores e levar a democracia aos rincões não civilizados do globo, o faroeste em que o munto foi tornado a partir da eleição de Ronald Reagan para presidência, em 1981 (ele mesmo um duvidoso cowboy Hollywood) pouco se parece com os filmes da sessão da tarde da rede Globo.

A declaração do recentemente eleito Donald Trump de que é hora de os EUA pararem de derrubar governos pelo mundo deve ser bem recebida, porém sem grandes entusiasmos, já que desde a Guerra da Secessão (1861-1865), eles estão em guerra com alguém em várias partes do globo. Tomara não seja um pouco tarde demais, uma vez que o envolvimento ianque na derrubada dos presidentes de Honduras, Paraguai e Brasil, e a provocações contra Venezuela, Bolívia e Equador podem fazer o caldo entornar por estes lados da reserva indígena norte-americana também.

Pelo grau de instabilidade social e política a que o Brasil chegou, após um período de alto crescimento econômico e redução das desigualdades sociais, tomara também que neste 2017 não sejamos tentados a sentir saudades do aziago ano de 2016, que cambaleou para a cova como um zumbi de olhos injetados de ódio e camisa amarela da CBF.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.













quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

MARCELO ODEBRECHT PÕE TEMER NA CENA DO CRIME

Para o afogado Michel Temer, a praia de 2017, logo ali, pode estar longe demais.

Ele bem que tentou, mas o depoimento de Marcelo Odebrecht divulgado hoje (14/12/16) amplamente na imprensa liquidou as manobras de Temer para não ser flagrado na cena do crime.

Não só Marcelo Odebrecht enriqueceu em detalhes a delação de seu ex-executivo, Cláudio Melo Filho, como ainda passou a circular em Brasília o boato de que há gravação de José Yunes, braço direto de Temer que acaba de se demitir do governo, recebendo dinheiro em espécie em nome de Michel Temer. Com isso, a temperatura se elevou, e o governo de cera dá claros claros sinais de falência generalizada.

Moreira Franco, outro homem de confiança de Temer, o "gato angorá", como o apelidou Leonel Brizola e como consta na lista de propinas da empreiteira, acusado por ela de embolsar R$ 3 milhões para defender projetos da empresa (e por aliados de ser responsável pela queda de Geddel Vieira Lima e pelo inferno astral de Renan Calheiros) está desembarcando do governo nas próximas horas se um socorro de emergência não o afastar da linha de tiro.
José Yunes: Recebeu propina de R$ 10 milhões para Temer.

Eliseu Padilha, compadre de maus feitos de Temer, também delatado pela Odebrecht, com um olho no peixe e outro no gato Angorá que já está passeando sobre o muro, também cisca arisco em sua caixa de areia. Espera apenas a Lava Jato desenterrar o que ele escondeu nela para também virar as costas para o compadre e subir o muro.

Porém, ao invés de aliviar a pressão sobre Temer, essas baixas se apresentam como clara confissão de culpa, o que aumenta e muito a temperatura. No radar do Ministério Público Federal, Romero Jucá, outro delatado pela Odebrecht, espera sua deixa para cair fora. E assim a cera se vai liquefazendo e virando um mar de lama, grande demais para os que estão nele se salvarem - e subir no muro ou no telhado parece já não ser suficiente para escapar ao tsunami que engolfará tudo.

Para o afogado Michel Temer, a praia de 2017, logo ali, pode estar longe demais.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.