segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Quem vai prestar o ENEM precisa saber disso

Ainda dá tempo para buscar desempenho acima da média na prova de Redação.
A prova de Redação do ENEM  tem um grande peso. Não é à toa que a imprensa busca dar destaque aos melhores colocados nesse quesito: ela serve de linha demarcatória entre os que vão para o topo da classificação geral. Ainda dá tempo para você buscar um desempenho acima da média nessa prova. Vamos ver como isso é possível?

A dissertação objetiva, ou o texto dissertativo-argumentativo, deve respeitar critérios temáticos, de estrutura (ou forma) e de linguagem. Não é nenhum mistério escrever um texto desse tipo, mas é necessário planejar e seguir o planejamento com rigor. Porém, nenhuma dissertação se salva se tratar de temas (ou assuntos) irrelevantes. Naturalmente, conforme se vai estudando e produzindo concretamente textos desse tipo, melhor e mais rápido se produz.

Esta dissertação foi produzida coletivamente pelos jovens do Grupo de Estudos Malcolm X - Morro Doce. Eles se reúnem sob minha orientação nesse bairro da zona Noroeste de São Paulo todas as quintas-feira à noite para estudar para o ENEM e demais vestibulares da universidade públicas.

Imigrantes à deriva no Mediterrâneo
Seguem algumas dicas para a produção de uma dissertação objetiva (argumentativa) sobre um tema específico (no caso, A crise humanitária na Europa hoje).

O tema

Do ponto de vista do TEMA, a dissertação objetiva deve se desenvolver de forma direta e progressiva. E o que significa isso? Significa que:
  • não se pode fugir do tema;
  • o tema tem que ser abordado sem rodeios, sem frases de efeito, sem estratégias retóricas usadas apenas para “encher linguiça”;
  • os tópicos (T1, T2, T3) relacionados ao tema devem ser dispostos em ordem direta, ou seja, se no parágrafo introdutório eu disse que tratarei de X, Y e Z aspectos, não poderei inverter a ordem nos próximos parágrafos, nem ficar voltando ao que já foi tratado.

A estrutura


Do ponto de vista da ESTRUTURA, ou forma, a dissertação objetiva precisa ter início, meio e fim - ou introdução, desenvolvimento e conclusão:

INTRODUÇÃO: Primeiro parágrafo (que deve apresentar o tema e os tópicos relacionados a ele). Deve ser objetivo, tendo, para uma redação de 30 linhas, no máximo, entre 4 e 6 linhas. Sua única função é avisar o leitor sobre o tema a ser tratado, os tópicos relacionados a ele e a ordem em que serão abordados no texto.

DESENVOLVIMENTO: Os parágrafos intermediários tratam, cada qual, de seu tópico específico. Para cada tópico, um parágrafo. Mas o que é um parágrafo? Uma unidade escrita que trata de um único tópico. Numa redação de 30 linhas, deve-se selecionar não mais do que 3 tópicos (T1, T2, T3), pois não haverá espaço para mais, uma vez que um parágrafo de desenvolvimento temático aceitável fica em torno de 8 linhas.

CONCLUSÃO: O último parágrafo é o dedicado à amarração do texto, a partir das argumentações empregadas nos parágrafos de desenvolvimento temático. Deve ser sucinto, portanto, menor que os intermediários, e apresentar claramente proposta de solução para os problemas elencados – ainda que essa proposta seja algo generalizante e não conclusiva.

A linguagem

Do ponto de vista da LINGUAGEM, deve ser empregado o português culto, formal - porém sem pedantismo ou floreios:

Na ortografia: letras legíveis, correção na escrita, na acentuação das palavras e na pontuação das frases (jamais aqui empregar o ponto de exclamação (!) ou reticências (...), pois eles indicam emoção, o que não é admitido em uma dissertação objetiva, que deve primar pela razão e pelo equilíbrio.

Na morfologia: emprego do português formal, culto, evitando-se o empregos de adjetivos expressivos (que expressam emoção), porém usando-se verbos de reflexão, que possibilitem análise e interpretação de problemas, eventos, fatos etc. (observar, dividir, considerar, segmentar, comparar, analisar, interpretar, deduzir, somar, extrair, refletir,  inferir, apreciar etc.) Se houver predominância de verbos auxiliares (ser, estar, ter, haver, ficar, parecer, semelhar) ou sinônimos ocasionais, estaremos no campo da descrição, não da dissertação, o que desfigura o texto dissertativo. Por outro lado, se empregarmos, por descuido, excesso de verbos de ação (cair, levantar, ir, pegar, correr, fazer, transmitir etc.), estaremos no reino da narração. Para articular (ou seja, juntar palavra com palavra, conjuntos de palavras, orações) devem ser empregadas as preposições, as conjunções coordenativas e as subordinativas, e os pronomes (com especial atenção para os relativos). Não custa nada ir ao livro de gramática ou na internet e ver como eles funcionam. Com relação a adjetivos, advérbios, palavras ou frases expressivas (péssimo, horrorosa, horrível, maravilhosa, genialmente): esses usos expressivo implicam em emoção. Emoção significa subjetividade – o que deve ser evitado a todo custo num texto objetivo.

Na sintaxe: Deve predominar os períodos compostos, de preferência por subordinação. Neles, as conjunções (coordenativas e subordinativas) são decisivas, pois são elas as principais responsáveis pela articulação das orações em períodos compostos. Também são elas que introduzem na forma de orações subordinadas os argumentos lógicos (pois sua função é exatamente essa) – há conjunções explicativas, conclusivas, temporais, consecutivas etc. Orações curtas e simples não favorecem o desenvolvimento da argumentação, daí a importância do emprego das orações subordinadas.

Planejamento

A segmentação temática

A primeira coisa a ser feita quanto já temos um tema definido, é segmentá-lo, ou seja, dividi-lo. Às vezes, é necessário comparar dois ou mais textos para extrair deles o nosso tema. Porém, uma vez feito isso, a sequência de produção da dissertação objetiva é a mesma.
Como fazer para segmentar um tema? Podemos pesquisar assuntos relacionados a ele, se estivermos em casa ou se tivermos tempo para isso. Porém, diante de uma prova, o que devemos fazer é deixar a mente livre para pensar no tema e ir anotando num rascunho palavras-chave ligadas a ele. Por exemplo:

“A crise humanitária na Europa hoje”.

Vamos supor um “brain storm” de uma mente só, a sua, sobre esse tema que o leve a anotar:

Repressão aos imigrantes
Navio afundado com imigrantes
Imigração clandestina
Foto de menino afogado na praia da Turquia
Guerras e destruição nos países de origem dos imigrantes
Medo de terrorismo nos países da Europa
Crise econômica mundial
Crise econômica na Europa
Repercussão na mídia mundial
Socorro às vítimas de naufrágio
Rejeição das populações europeias aos imigrantes
Ajuda humanitária aos refugiados
Sanduíches atirados aos sobrevivente de naufrágio
Família agarrada a trilho de trem na Hungria.
Repressão aos imigrantes
Travessia do Mediterrâneo
Reação das populações locais
Condições dos países de origem
Condições dos países de destino
Quantidade de imigrantes
Opinião pública mundial
Preconceito contra imigrantes
Terrorismo
Qualidade do acolhimento dos imigrantes
O peso econômico dos imigrantes nas economias europeias
Mortes nas travessias
Desemprego nos países de origem e destino

A definição dos tópicos

Se observarmos bem, podemos agrupar essas ideias soltas REGISTRADAS POR ESCRITO em três conjuntos: questões políticas, questões econômicas e questões estritamente humanitárias.

Aí estão os três tópicos relacionados ao tema, dos quais trataremos cada qual em seu respectivo parágrafo, explorando os itens anotados, que podem ser em quantidade maior do que o que se registrou no quadro acima, selecionados e ordenados hierarquicamente.

A ordem dos tópicos na redação ainda não precisa ser decidida nesse momento. O momento é de planejar cada parágrafo, decidindo quais itens listados serão tratados em cada um, e em que ordem.

Redigindo o parágrafo dissertativo-argumentativo

Para cada parágrafo, precisamos definir 3 itens relevantes, a serem hierarquizados, ou seja, dispostos uma após outro de maneira lógica e direta.

Por que apenas 3 itens? Porque para um parágrafo de 8 linhas, se gastarmos em média duas linhas e meia para cada item, já teremos atingido o limite.

Comecemos pelo tópico “questões políticas” relacionadas ao tema.

Como pode ficar nosso parágrafo? É só dispor os itens e redigir nas lacunas entre eles:

ITEM 1: O terrorismo.
ITEM 2: Guerras em curso no Oriente Médio.
ITEM 3: Imigração clandestina.

Na esfera política europeia, o terrorismo é uma enorme ameaça que já tem feito vítimas recentemente, e que tem origem nas guerras em curso no Oriente Médio, cuja consequência imediata é a imigração clandestina.

(Como se trata aqui de  um rascunho, pode haver erros, que devem ser sanados na redação final).

Agora as estritamente o tópico “questões humanitárias”:

Como pode ficar nosso parágrafo? É só dispor os itens e redigir nas lacunas entre eles, como no anterior:

ITEM 1: Condições dos países de origem dos imigrantes.
ITEM 2: Viagens clandestinas e desastres na travessia do Mediterrâneo repercutidos pela mídia.
ITEM 3: Conflitos na fuga para a Alemanha e reação das populações locais.

No que diz respeito às questões humanitárias, devem ser levadas em consideração as precárias condições dos países de origem dos imigrantes, países que se encontram destruídos econômica, política, social e culturalmente; devido a tais condições, os habitantes testam a sorte em viagens clandestinas, cujos resultados são os desastres na travessia do Mediterrâneo e os conflitos na fuga para a Alemanha, tão repercutidos pela mídia. Outro aspecto a ser levado em consideração é a reação das populações locais, que nem sempre são cordiais.


Agora o tópico sobre as “questões econômicas”:

T1: Infraestrutura destruída dos países de origem.
T2: Desemprego nos países de origem e nos de destino.
T3: Crise econômica mundial.

Como pode ficar nosso parágrafo? É só repetir a estratégia:

Com relação aos aspectos econômicos devem ser levados em conta fatores decisivos para a compreensão dessa tragédia humana contemporânea, entre os quais o da infraestrutura destruída dos países de origem dos imigrantes pelas guerras no Oriente Médio. Outro fator envolvido é o desemprego nos países de origem e no destino dos imigrantes. O desemprego, como se sabe, causa fome, miséria, violência, trabalho infantil e escravo; o que acentua a desigualdade social.Um terceiro fator decisivo para a compreensão dessa tragédia é a crise econômica mundial.Essa crise agrava os problemas já citados, e os órgãos econômicos internacionais não estão correspondendo às necessidades do momento.

Finalizando a dissertação

Compondo a redação

Redigidos esses parágrafos, é o momento de decidir qual é, na parte do desenvolvimento temático da redação, o primeiro, o segundo e o terceiro. Dependendo da ordem, pequenos ajustes precisarão ser feitos para dar maior coesão entre eles.

Redigindo os parágrafos introdutório e conclusivo

Feito isso, escreve-se o parágrafo introdutório, que nada mais é do que o tema, mais os tópicos selecionados, na ordem em eles aparecerão na forma final da redação:
A crise humanitária na Europa, amplo senso, envolve três dimensões: a política; a humanitária (estrito senso); e a econômica.

Se você observou bem, a argumentação surge quando um tópico (argumento) é abordado concretamente em seus itens específicos. Isso você fez quando preencheu as lagunas entre os itens de maneira lógica (isso se chama sustentar o argumento).

Por fim, redige-se o parágrafo de conclusão, que deve ser coerente com os argumentos apresentados nos parágrafos de desenvolvimento temático.

            A crise, assim, necessitaria de soluções amplas, complexas e ao longo, talvez, de décadas.

Resumo

Assim a redação ganha a seguinte forma:

Introdução
1º parágrafo
Tema + T1 + T2+ T3
Desenvolvimento
2º . parágrafo
3º. Parágrafo
4º. parágrafo
Desenvolvido por argumentação e contra-argumentação (Tópico do parágrafo mais itens selecionados, organizados e abordados em ordem direta e sequencial).
Conclusão
5º. Parágrafo
Amarração dos argumentos e apresentação de proposta coerente com os problemas levantados

Observe que o desenvolvimento temático não é um acaso, mas é fruto do planejamento que, ao definir os tópicos e ordená-los um após outro, obriga-nos a, seguido com rigor, tem como resultado a progressão da argumentação, que vai de um a outro tópico, sem possibilidade de retorno a itens já tratados.

A dissertação finalizada

Se você percebeu, a produção da dissertação objetiva, argumentativa, tem 3 etapas: o planejamento, a redação e a composição, que a rigor é um processo de montagem de partes produzidas em momentos diferentes. Por isso que a produção  de redação é  também legitimamente chamada de “composição”.

Vejamos como fica uma dissertação objetiva concretamente produzida para esse tema, com correções e eventuais ajustes (a lógica e o processo vale para todas):

A crise humanitária na Europa hoje

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A crise humanitária na Europa, amplo senso, envolve três dimensões intimamente ligadas: a política; a humanitária estrito senso; e a econômica.

Na esfera política, o temor em relação a ações terroristas é enorme, pois ele tem feito vítimas em território europeu recentemente; esse tipo de violência, nos dias atuais,  tem origem nas guerras em curso no Oriente Médio, cuja consequência imediata é a imigração clandestina em massa.

No que diz respeito às questões humanitárias, devem ser levadas em consideração as precárias condições   dos países de origem dos imigrantes, países que se encontram destruídos econômica, política, social e culturalmente. Devido a tais condições, os habitantes testam a sorte em viagens clandestinas, cujos resultados são os desastres na travessia do Mediterrâneo e os conflitos na fuga para a Alemanha, tão repercutidos pela mídia.Outro aspecto a ser levado em consideração ainda é a reação das populações locais, que nem sempre são cordiais.

Por fim, com relação aos aspectos econômicos, devem ser levados em conta alguns fatores decisivos para a compreensão dessa tragédia humana contemporânea, entre os quais o da infraestrutura dos países de origem dos imigrantes, destruída por guerras sucessivas; outro fator envolvido é o desemprego nos países de origem e nos de destino dos imigrantes. O desemprego, como se sabe, causa fome, miséria, violência, trabalho infantil e escravo, problemas que acentuam a desigualdade social;  um terceiro fator econômico decisivo para a compreensão dessa tragédia é a crise econômica mundial, que agrava ainda mais os problemas já citados, sem que os órgãos econômicos internacionais correspondam às necessidades do momento.

A crise humanitária na Europa, assim, é uma no interior de outras ainda maiores, todas necessitando de soluções amplas, complexas e no curso, talvez, de décadas.
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RESUMO ESQUEMÁTICO



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Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 25 de setembro de 2016

REFORMA DO ENSINO MÉDIO DE TEMER: a maior catástrofe da história da educação brasileira

Presidente golpista Michel Temer e o ministro Mendonça Filho:
farsa e tragédia, respectivamente.
Não contente em despejar uma bomba atômica sobre o ENEM e arrasá-lo, dias depois Temer explode outra bomba atômica sobre todo o Ensino Médio brasileiro. São nossas Hiroshima e Nagasaki que, se consumadas, nos custarão décadas de esforços e recursos imensos para serem reconstruídas, não sem muita dor e ainda maiores perdas irrecuperáveis. Vamos permitir?

Antes mesmo que se recuperasse do pavor causado pelo anúncio da destruição do ENEM, estudantes, pais e professores recebem sobre suas cabeças outra explosão arrasadora que causa indignação no país inteiro.

Anunciada como o “Novo Ensino Médio”, a “reforma” da educação de Temer é na verdade uma bomba de demolição de tudo que foi construído no país deste a aprovação da LDB (lei 9394 de 1996). Mesmo o que foi realizado de proveitoso no governo FHC torna-se escombro, caso tudo que Temer e o ministro Mendonça Filho anunciaram ocorra.

A comoção geral à Medida Provisória n.o 746 de Temer nas redes sociais foi tão avassaladora e contundente que antes mesmo de os jornais a anunciarem em suas manchetes, ele já se desculpava: que “não era bem assim”, que o anunciado era apenas um rascunho, uma versão preliminar ou coisa parecida. Então um presidente organiza uma cerimônia para a imprensa, assina uma medida provisória na frente de todos e, eis quer era brincadeirinha: era só um rascunho.

O ator pornô Alexandre Frota, agora "conselheiro",
com  ministro da Educação Mendonça Filho.
Essa “reforma” na prática elimina do Ensino Médio Filosofia, Sociologia, Educação Física, Arte e Espanhol (opção ao inglês). Diante da raiva provocada em educadores, estudantes e pais de alunos, Temer mandou dizer que as coisas ficam como estavam até as discussões terminarem. Porém, com quem ele e seu ministro estão conversando? Com o artista pornô Alexandre Frota, convertido em conselheiro do ministro, e com chefes do Movimento Brasil Livre, um grupo juvenil abertamente fascista, que pretende impor sua ideologia a toda as escolas brasileiras.

A bomba de Temer sobre a educação brasileira também traz uma aberração: a substituição do professor por pessoas de “notório saber”. Isso significa não apenas que as escolas públicas estarão livres para contratar profissionais sem licenciatura: o próprio diploma de nível Superior fica abolido, pois o “notório saber” implica que o profissional, exato por não possuir diploma, tem que ter seu saber reconhecido por uma determinada instituição. Quem, em nome dessa instituição o declarará portador do “notório saber”? Na unidade escolar, a figura do diretor.

Está aberta, assim, a porta por onde entrará o profissional desqualificado, com salário de escravo e direitos aviltados, e por onde sairá o professor que investiu anos de sua vida até conquistar o diploma de nível Superior. Como esse profissional desqualificado não é titulado, junto com ele sai o sindicato da categoria, que não tem jurisdição sobre um trabalhador a que não está habilitado representar. Na melhor das hipóteses, isso é a institucionalização do famoso "bico" na educação, quando não, na pior hipótese ainda, a contratação de religiosos fundamentalistas para doutrinarem com sua fé, cevada em obscurantismo, os estudantes das escolas públicas pagos ainda com o dinheiro de nossos impostos.

Que resultará disso? Resultará, além da total destruição da educação pública (que receberá uma avalanche de profissionais desqualificados para formar mão de obra barata, apta apenas limpar latrinas de shopping center), resultará, dizia, no achatamento radical dos salários dos professores da iniciativa privada, pois um oceano de professores bem formados terão de disputar as reduzidas vagas que o sistema privado oferece, e ao valor da hora-aula o mais rebaixado que o mercado tiver a oferecer.

Protesto de estudantes na av Paulista (29/09/16)  contra as de Temer.
Na tragédia anunciada por Temer, apenas Português e Matemática passam ser disciplinas obrigatórias. Porém, nem isso chega a ser uma boa notícia, pois, qualquer um, sem diploma de formação específica, sem licenciatura e sem estudos na área da educação ou pedagogia, poderá ministrá-las: basta ser amigo do diretor – critério máximo para o notório saber, numa situação caótica como a anunciada.

"Ah! Mas o aluno poderá escolher o que quer estudar!", dizem os adeptos do caos.

Grande farsa: tem o aluno adolescente condições de dizer o que ele próprio precisa saber para atingir seus sonhos? Qual a função da escola, senão dar a base para que ele, no momento certo, fazer suas escolhas profissionais, cidadãs e de vida? Na verdade, aqui, Temer empurra para um jovem de 14 anos, que apenas inicia o Ensino Médio, uma responsabilidade que é dos adultos, na figura do Estado. É ou não uma covardia maior que a de Pilatos?

Para esconder essa vilania, Temer anuncia a ideia de aumentar a carga horária das escolas, tornando-as de tempo integral. Trata-se de outra farsa ainda maior, pois sequer os sistemas têm infraestrutura para comportar em escala uma proposta como essa: estamos falando de mais de 6 milhões de alunos, segundo o próprio Inep (autarquia do MEC responsável pelo ENEM)..

Em São Paulo, o secretário da Educação do Estado já se adiantou com uma “bela” sugestão: usar o meu, o seu, o nosso dinheiro público para alugar prédios de escolas privadas em períodos ociosos nelas (vide matéria do jornal O Estado de SãoPaulo, de 25/09/16). Só se esqueceu ele de que no ano passado e neste ano o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, fechou um número vergonhoso de salas de aula no estado todo para abarrotar as que permaneceram em funcionamento. Então a sugestão dele é esta: fechamos salas de aula em escolas públicas, para alugar salas de aula em escolas privadas dois quarteirões à frente.

À tragédia da destruição do ENEM, recentemente anunciada, se soma o desastre da destruição do próprio Ensino Médio. Fecha-se assim o ciclo de nosso horror: um exame que não servirá para nada para avaliar um Ensino Médio que, para filhos de trabalhadores e da classe média baixa, não prestará para nada.

Por isso, nas eleições que se aproximam, vote em candidatos contrários a isso em seu município. Em São Paulo, indico para vereadora a mulher, negra e batalhadora da educação e dos direitos das mulheres Sharylaine 65 030.  Click no nome dela e conheça-a.

Leia também o artigo:



Jeosafá foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados de São Paulo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O ENEM TRAÍDO: Temer dá uma facada nas costas de toda uma geração de jovens

A notícia dada pela presidenta do INEP em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo anuncia a maior marcha-à-ré da história da educação brasileira: o fim do ENEM como porta de entrada de universidades públicas e privadas.

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, a professora Maria Inês Fini, presidenta do INEP, autarquia do MEC responsável pelo ENEM, em palavras inequívocas diz:

"Ele [o ENEM] foi planejado para ser uma avaliação dos alunos ao final da escolaridade básica, que termina no ensino médio. E ele, em 2009, perde essa característica e ganha as do exame vestibular nacional."

Em linguagem inequívoca, sim, mas nebulosa, a professora responsável pelo 1o. ENEM, em 1998, considera que o ENEM em 2009 perde suas características originais, o que não é verdade, uma vez que continua empregando as matrizes de competências e habilidades baseadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNs), e ganha uma outra: que ela chama de "vestibular nacional" - o que também não é verdade, pois o ENEM exatamente extingue os vestibulares das universidades que o adotam.

Pobres e classe média alijados do Ensino Superior por Temer.
O que a professora em linguagem clara, pero torcida, diz é que o ENEM deixará de ser porta de acesso às universidades públicas, federais e estaduais, e privadas, que o empregam hoje como mecanismo de seleção de seus alunos. E ela emprega essa linguagem clara ma non troppo exatamente para esconder o projeto absolutamente excludente que vai por sob suas palavras.

Na mesma entrevista, a professora afirma que as modificações para 2017 serão feitas "sem que os jovens percam as vantagens oferecidas pelo Prouni, Sisu e Fies". Porém ela não explica como essas vantagens serão mantidas uma vez que o exame deixará de ter a característica, na linguagem dela, de "vestibular nacional".

Em 2009 o que ocorreu foi exatamente a democratização do acesso às vagas das instituições públicas de Ensino Superior, principalmente as federais e muitas estaduais (via Sisu), e às das privadas, que passaram a empregar o ENEM em substituição a seus vestibulares (para fins de adesão ao Prouni e Fies).
Romance de uma cidade violenta e injusta, porém onde cabe o amor, a amizade e poesia.
O que ocorre agora é que as elites econômicas que assumem o governo pela via ilegítima (na figura do mofado mordomo de filme de horror Michel Temer, cuja mentalidade cheira à naftalina) querem excluir os filhos dos trabalhadores e da classe média baixa (que tiveram no ENEM um mecanismo concreto de justiça social) das universidades públicas e das privadas de maior reputação - pois o Estado os vinha defendendo e incentivando por meio do Sisu – caso das públicas – e do Fies e do Prouni  caso das particulares.
  
No ano de 2015 quase 8.500.000 candidatos se inscreveram no ENEM com a esperança de, a partir de seu desempenho nesse exame, alcançar a tão sonhada vaga no Ensino Superior. É nas costas desses brasileiros que Temer dá agora essa facada traidora.

A queda de 35% de inscrições no ENEM deste ano de 2017 é já reflexo da perda de confiança num exame que, durante os governos Lula e Dilma cresceram ininterruptamente e incluiu milhões de filhos de trabalhadores nas melhores universidades do país.

Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor DoutoO jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.
r em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013



  





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

ENEM: Mais uma péssima notícia do "governo" Temer golpista

Matéria do dia 8 de setembro de (2016) do Jornal O Globo (G1) informa o que pretende fazer a nova presidente do INEP, Maria Inês Fini, com o ENEM: destruí-lo enquanto porta de acesso ao Ensino Superior para 8.500.000 estudantes.

Equipe de Língua Portuguesa do 1o. ENEM, maio de 1998. Eu, de touca.
Em 1998, quando realizava meu doutorado em Letras na USP, fui convidado pela prof.a Maria Inês Fini, com outros colegas da própria USP, da UNESP e UNICAMP, a participar da equipe de elaboração do 1o. ENEM. ainda no governo Fernando Henrique Cardoso.

(De 2008 a 2011, voltei a trabalhar com a prof.a Maria Inês, agora na SEED-SP, como cunsultor da Fundação Carlos Vanzonlini da USP, na área de Currículo e também nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor.)

Já tinha integrado as câmaras de discussão da Reforma do Ensino (1996-1998), de maneira que foi com alegria que reencontrei os e as colegas para elaborar as questões objetivas da área Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, particularmente as de Português. 

O exame constituía uma grande novidade, pois era a primeira experiência de avaliação nacional a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (depois vieram os do Ensino Fundamental e as Diretrizes Curriculares da Educação Infantil). Como tudo era novo, desde o formato até o desenho estratégico do Exame, não foram poucas as discussões para que os Parâmetros Curriculares fossem refletidos com maior rigor possível nas questões objetivas e na redação (nos anos seguintes, além da FUVEST, integrei também as bancas de correção de redação do ENEM).

O ENEM surgiu como um sistema de avalização de competências e habilidades dos estudantes do Ensino Médio ao final do curso. Tinha função, assim, de diagnosticar a qualidade do ensino e servir de base para políticas voltadas à melhoria dessa qualidade. Na prática o que ocorria, porém, era que as escolas privadas empregavam o desempenho obtido por seus alunos para "ranquear" sua posição frente a outras instituições. Como se tratava de um instrumento avaliativo exterior à escola a partir de parâmetros comuns, era possível compará-las.

Logicamente isso favorecia grandes instituições de ensino que, por meio de seus sistemas, promoviam ajustes em suas grades curriculares e em suas práticas, ministravam cursos intensivos internos para alunos dos 3os. anos e, com isso, conquistavam melhor desempenho no ENEM, a partir do que passavam a empregar esse resultado como merchandising para atrair novos alunos e, logicamente, justificar a elevação das mensalidades. Assim, ainda que custeado pelo governo, o ENEM tinha mais utilidade para as escolas privadas - principalmente as de ponta, caríssimas, e para aquelas que integravam grandes sistemas de ensino.

Com a eleição de Lula e depois de Dilma, o ENEM manteve as matrizes baseadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio, que receberam aperfeiçoamentos (os PCNs+), mas que não mudaram em essência. Ficaram assim mantidas a organização por Áreas (mais Matemática), a perspectiva das Competências e Habilidades e o caráter facultativo (não obrigatório, o que já era desde a primeira edição, em 1998).

As diferenças essencias foram duas: 1) o ENEM deixa de ser um exame apenas diagnóstico do Ensino Médio para tornar-se porta de acesso para o Ensino Superior público e privado; 2) o ENEM torna-se um exame de escala realmente nacional, geograficamente e nos números: a primeira edição teve 157.000 inscritos; a de 2015, mais de 8.478.000.

Esse interesse pelo exame, refletido no número gigantesco de inscritos, se deve, é claro, à possibilidade de ter acesso a excelentes universidades públicas e privadas sem a necessidade dos famigerados vestibulares, que sempre favorecem as elites das elites econômicas, que pagam colégios caríssimos a seus filhos para não pagarem uma universidade de ponta, pois o custo é muito mais elevado. Os favorecidos com o formato do ENEM nos governos Lula e Dilma, independente de se gostar ou não desses dois governantes, foram os filhos dos trabalhadores e das classes médias, pois uma boa pontuação no ENEM permite nesse modelo que eles escolham a instituição que, por essa pontuação, lhes faculta o ingresso. O estudante não tem que se deslocar de estado para disputar uma vaga: ele indica as instuições de seu interesse e, sua pontuação permitindo, matricula-se nela e ponto final.

O que se pretende fazer agora é retornar ao modelo antigo: quem quiser prestar vestibular para Direito, por exemplo, terá de se inscrever (e pagar) nos vestibulares de cada faculdade. Para tanto, se elas forem afastadas no espaço, terá de se deslocar para se inscrever e para prestar os exames e - O PIOR - terá de torcer para que os exames não ocorram em datas próximas, caso contrário, não conseguirá se deslocar de uma a outra para prestar os exames. O detalhe é que as instituições marcam os exames em datas COINCIDENTES exatamente para impedir que o canditato dispute vários vestibulares.

Logicamente que esse modelo que se quer reinstaurar é uma MAIORES MARCHAS-À-RÉ da história da educação brasileira. Significa o retorno ao velho sistema de vestibulares e um tiro no coração do ENEM, pois ninguém mais terá interesse em prestar um exame que não serve para nada, a não ser enquanto vitrine para grandes sistemas de ensino e instituições escolares voltadas para as elites das elites econômicas. Na prática, é reinstaurar um sistema de cotas para as elites garantirem o lugar de seus filhos nas melhores universidades públicas e gratuitas - pois essas elas não querem pagar, embora tenham dinheiro para tanto.

Pelo amor de Deus, prof.a Maria Inês Fini, você que é mãe do ENEM, e de quem eu gosto pessoalmente, entenda que ele cresceu e não pode mais voltar à infância nem ao útero materno. Se fizer o que diz na matéria d'O Globo, o estará matando. Aí, nós vamos brigar pra valer. Por mais que eu respeite sua imensa competência intelectual, não aceitarei, não aceitaremos NENHUM DIREITO A MENOS relativo ao que já foi conquistado por nossos educadores, estudantes e pais de alunos deste imenso Brasil. Pense que quase 8.500.000 estudantes, com seus professores, entre os quais me incluo, e pais não são um pequeno exército de descontentes.

Nas eleições que se aproximam, vote em candidatos contrários a isso em seu município.

Em São Paulo, indico para vereadora a mulher, negra, guerreira e batalhadora dos direitos das mulheres e da educação Sharylaine 65 030.  Click no nome dela e conheça-a.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.