domingo, 11 de outubro de 2015

1979 foi um ano difícil

Liberdade: a palavra mais linda do dicionário.
Eu terminara o ano de 1978 como um dos melhores alunos na minha turma, o que não acrescenta muito a meu currículo, pois a minha turma da 8ª. série do noturno era a mais largada do colégio. Não que fôssemos maus, apenas tínhamos decidido dificultar a vida de professores, inspetores e diretor substituto. Por causa de quê? Por causa de terem naquele ano tido a brilhante ideia de formar turmas separadas de meninos e meninas.


Na verdade, muitos já eram barbados, não eu, e tendo repetido alguns anos consecutivos do Ensino Fundamental, não eu, traziam consigo o estigma de completos zoeiras – o rei deles, o Nivaldo Moura que, cover narigudo – no sentido literal, pois seu apelido era “ladrão de oxigênio” – e bocudo – no sentido figurado – de Mick Jagger, tirando a camisa, girando-a sobre a cabeça e pisoteando sobre a mesa da professora de inglês, a saudava no início de suas aulas aos berros afinados: “I can’t get no!,” para nossa resposta em coro, também eu: Satisfaction! – enquanto ela, apavorada, trancada do lado fora da sala, olhando do corredor pela janelinha de vidro da porta, punha o dedo sobre o nariz implorando silêncio e espremia os olhinhos cúmplices.

Nunca é demais enfatizar, para que não restem dúvidas, embora nossa 8ª. B do período noturno fosse tudo o que diziam de nós e um pouco mais, eu conseguia ser dos melhores alunos, inclusive nas notas. Tanto que quando o diretor queria provas da bagunça na sala (eu era o “monitor”), me chamava a sua sala:


– Senhor monitor, vocês estavam cantando aquela música novamente?


– Não, seu Nelson, a inspetora Aurora, é que nos detesta e vem fazer intriga para o senhor.


Porém, 1978 acabou, e nem eu nem minha mãe sabíamos que era necessária inscrição para o vestibulinho de ingresso no Ensino Médio no único colégio da região que o oferecia. Então, dei, da alegria e da extroversão do último ano no Maria Montessori, no nada – sim, pois nunca me imaginara fora da escola; sequer sabia que havia vida inteligente para fora dos muros do Maria Montessori.


No início de 1979, embora já tivesse trabalhado em metalúrgica e loja de passarinhos no ano anterior, entendi o que era a vida de trabalhador: arrumei emprego de office-boy em uma empresa de publicidade na rua Sete de Abril e, do quarto andar do prédio do falido Diários Associados, assisti aos enfrentamentos entre bancários em greve e a cavalaria da Polícia Militar. Uma ocasião, tendo que buscar o malote na MacCann Erickson, que ficava no início da rua da Consolação, esquina com a Martins Fontes, no retorno, tive de ir pedindo licença aos policiais, todos paramentados com coletes a prova de bala e escudos transparentes, como em filmes de ficção científica, para atravessar a praça D. José Gaspar.


Quando cruzei o cordão dos militares, ingressei no maior vácuo de toda minha vida, pois, cem metros a minha frente, perfilavam os bancários, os braços dados, numa corrente humana compacta e disposta. Entre a tropa de choque e em direção dos trabalhadores, boiava quase à deriva um office-boy de pouco mais de um metro e cinquenta, com um malote de cartas às costas e o maior silêncio do mundo nos ouvidos. Os bancários abriram uma brecha e me deixaram passar.


Ao chegar ao 4º. Andar do edifício da Sete de Abril, só tive tempo de entregar a mala de lona verde cheia de correspondências na Expedição e correr para a janela. Embaixo, a guerra já estourara, com explosão bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, com cavalarianos a espremer contra as paredes grupos de manifestantes, com pedras das obras do Metrô a voarem contra os militares, estes enfiados em suas armaduras de astronautas do mal.


Do alto, choviam objetos sobre os policiais. Fui à expedição, apanhei um cesto de lixo cheio de papéis borrados de tinta de mimeógrafo, voltei à minha janela e, no momento de atirá-lo sobre os policiais, fiquei com pena dos coitados e só atirei o conteúdo do cesto. Até hoje eles devem achar que suas porradas contra indefesos foram aprovadas por alguém lá em cima, com uma chuva de papéis picados.


O fato é que, amigo do exército de office-boys que os bancos contratavam na época, acabei aderindo a suas passeatas, que assim como se juntavam, desapareciam, pois conhecíamos todas as galerias do centro, então era fácil para nós armarmos uma confusão e desaparecer na multidão. Para mim, nossa revolta infantojuvenil soava como os gritos de guerra do nosso líder de esbórnia, o impagável Nivaldo Moura, nosso Mick Jagger ladrão de oxigênio: “– I can’t get no!” ... “– Satisfaction!”.


No ano fim desse ano difícil, em que eu ficava à noite em casa chutando bola na parede de uma construção mal acabada que meu pai tinha no quintal, até me esgotar, para esquecer que estava fora da escola, prestei o vestibulinho, passei e, enfim, senti que esse fora meu rito de passagem.


No início de 1980, ao fazer a matrícula, já me incorporei ao piquete de alunos que faziam protesto contra o pagamento obrigatório da taxa da APM. Por um deles, o Luís Randolfo, fui levado até o guichê. Lá ele fez um discurso contra a ilegalidade da obrigatoriedade, a moça da secretaria fez minha matrícula sem se chocar com ele e me preveniu: fique longe desses baderneiros. Estou junto deles até hoje, quando os cabelos no topo da cabeça já escasseiam e há mais fios brancos do que escuros em minha barba.


Ainda em 1980, participei de uma passeata de office-boys na avenida Paulista, onde então trabalhava, no número 1499, 15º andar, esquina com a alameda Casa Branca. Da janela, vi a passeata, que não chegava a quarenta pernas, vindo do Trianon. Fiz um cartaz com o fundo de uma caixa de sapatos.


Lembro o que escrevi com giz de cera, acho que vermelho: “Liberdade” – palavra que sempre achei das mais lindas do dicionário. Desci correndo as escadas, pois os elevadores demoravam, a tempo de pôr mais duas pernas na desmilinguida manifestação. Antes de chegar à alameda Campinas, já tínhamos nos dispersado nas lanchonetes para comer misto quente, o sanduíche campeão dos office-boys.


Muitos anos depois, quando li “1933 foi um ano ruim”, de John Fante, entendi cada vírgula do que ele escrevera sobre o fundo do poço da crise de 29 nos EUA.




Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.

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