domingo, 18 de outubro de 2015

Proibido negros, judeus e cães

Proibido negros, judeus e cães: aviso em bar no sul dos EUA.
A escravidão não é criação da era moderna. A Grécia antiga, inventora da democracia, empregou o trabalho forçado como parte de sua estrutura social e produtiva – estando os escravos, como se sabe, excluídos dos direitos de participação nas decisões públicas.

A china praticou a escravidão em larga escala, e a rigor, ela só foi extinta com a revolução comunista de Mao Tse Tung, quando, deposto o último imperador, os eunucos foram libertados, e quando seus escrotos secos, guardados em caixinhas, lhes foram devolvidos pelos revolucionários, como símbolo de que os vínculos com seu senhor estava definitivamente extinto. No filme O último imperador, de Bernardo Bertolucci, essa cena é particularmente perturbadora.

Proibido cães, negros e mexicanos:
aviso em comércio no sul dos EUA.
Por toda a América pré-colombiana há registros de escravidão: maias fizeram escravos, aztecas fizeram escravos, incas fizeram escravos. No Brasil pré-Cabral, era comum o sequestro de mulheres após guerras entre tribos. A função da mulher sequestrada era a de, incorporada à força, tornar-se esposa de algum jovem da tribo vencedora.  Se a esse casamento compulsório com o filho ou mesmo o próprio matador de seus pais – para fins de garantir descendentes saudáveis a partir de um estoque genético diverso –  não chamamos de escravidão sexual, é por zelo para com uma prática indígena que, vigente hoje nas sociedades ocidentais, recebe, sim, a classificação de escravidão sexual – condenada e punida por leis nacionais e internacionais.

"Colored": negros, índios e mexicanos no fundo do ônibus.
Assim, é um erro grotesco considerar que a discriminação racial em razão da escravidão ou por outros motivos recai somente sobre os negros. Nos dias de hoje, palestinos são alvo de racismo em Israel, tanto quanto judeus foram vítimas do ódio nazista na Alemanha hitlerista. Na Espanha de Franco, ciganos foram perseguidos com crueldade, tanto quanto chineses foram massacrados durante a 2ª. Guerra por japoneses imperiais, estes embalados pelo delírio de superioridade racial.

O racismo tem-se revelado ao longo dos séculos e milênios como uma estratégia violenta de grupos sociais para submeter, explorar e expropriar outros grupos. Riquezas imensas produzidas pelo povo judeu foram saqueadas por nazistas e fascistas e o próprio indivíduo semita teve seu corpo exaurido até a última gota de energia nos campos de concentração do III Reich. O objetivo principal do Japão ao invadir a China não foi instaurar uma “civilização mais avançada”, mas estabelecer um império político no extremo da Ásia para explorar as imensas riquezas continentais dessa região e seu povo – a "superioridade racial" era, assim, como sempre, apenas uma justificativa que não resistiu nem à força dos argumentos, nem ao argumento da força, pois a contraofensiva militar comunista expulsou as tropas invasoras no curso da 2a. Guerra e consolidou a Revolução Chinesa no poder em 1949.

Aula comunitária sobre os Direitos Civis nos EUA para estudantes do colégio Rio Branco - Granja Viana (17/10/15).
Assim, o argumento de superioridade racial nunca passa de um álibi para, criando-se em um grupo de força uma coesão interna a partir de um a farsa, explorar e extorquir – o que não se faz sem muita violência e, por oposição, muita resistência.

Aula comunitária sobre os Direitos Civis nos EUA para estudantes do colégio Rio Branco - Higienópolis (22/10/15).

Servimos apenas brancos .
Nunca hispânicos, nem mexicanos.
Porém, não há historiador que não admita ter sido a escravidão negra um dos pilares do capitalismo emergente das Grande Navegações, tendo alimentado, ela própria  a escravidão  grande parte das rotas marítimas atlânticas entre os séculos XVI e XIX, no chamado comércio  triangular (uma metrópole europeia, um posto de compra de escravos na África ocidental e uma colônia na América).

É essa proeminência da exploração da mão de obra escrava negra oriunda da África que levará um dos maiores líderes da luta contra o racismo nos EUA, o jovem Malcolm X, a afirmar: “Não existe capitalismo sem racismo.” Porém, se o líder acerta nessa formulação, pois a mão de obra escrava impulsionou os negócios da burguesia comercial impulsionadora das Grande Navegações, é preciso não esquecer que os regimes que antecederam o capitalismo também apoiaram suas economias no saque de populações dominadas e na escravidão ou servidão - que em muitos aspectos pouco se diferencia do trabalho forçado, pois o cerceamento da liberdade do indivíduo e a exploração compulsória de sua força de trabalho estão presentes nessas duas formas de produção.

Aula comunitária na EMEF Chico Mendes - Cidade Líder - Zona Leste de São Paulo
Nos EUA, tanto quanto por toda parte em que foi empregada, a escravidão e a discriminação racial deixaram e deixam ainda marcas profundas, que sequer o amontoamento de séculos sobre séculos futuros apagará. Essas marcas, embora as mídias contemporâneas se apressem em  soterrar com avalanches de imagens dispersivas, estão por toda parte, e com o advento da internet, se espalham e se oferecem como fontes de reflexão para quem não deseja que semelhantes episódios de injustiça e vergonha se repitam.

Linchamentos legalizados no Sul dos EUA.
A luta pelos direitos civis nos EUA, por exemplo, não é recente. Com a vitória dos ianques sobre os confederados na Guerra Civil Americana (1861), também chamada Guerra da Secessão – pois o Sul tinha intenção de se separar do Norte –, o fim da escravidão foi imposto pelos vencedores aos vencidos na forma de lei federal que, em última instância, reconhecia igualdade entre brancos e negros, todos agora cidadãos livres de um mesmo país.

Porém, mergulhados no ressentimento da derrota e do ódio racial, bem como apoiados na grande independência administrativa que a Constituição dos EUA faculta aos estados, os do Sul passaram a confrontar a legislação federal por meio de aprovação de leis estaduais abertamente racistas. Esses dispositivos de submissão e  de segregação racial que tornaram os negros cidadãos de segunda classe em seu próprio país,  foram sendo aprovadas paulatinamente nos legislativos estaduais desde 1876, vigoraram até 1965, e ficaram conhecidas como leis Jim Crow – apelido que se deve ao personagem empregado por racistas para ridicularizar os negros nos EUA.

Jim Crow: caricatura humilhante que
emprestou o nome às leis racistas nos EUA.
Assim, a luta pela igualdade, vencida, ao menos no terreno legal (pois as explosões sociais de resistência de negros contra o racismo nos EUA, todos o sabem, são frequentes), em 1964 com a promulgação Lei dos Direitos Civis, durou noventa anos, período durante o qual todo tipo de violação aos direitos humanos foi cometido com amparo legal local no interior do país que se apresentava e se apresenta ao mundo como campeão da liberdade e dos direitos individuais.

As leis Jim Crow não apenas segregavam seres humanos pela cor da pele, proibindo que uns tomassem água no bebedouro de outros, ou se sentassem nos mesmos bancos de praças ou transporte coletivo, como algumas delas estimulavam o ódio racial e disciplinavam o linchamento de negros em praças públicas. Essas leis, a rigor, eram ainda piores do que as empregadas no período da escravidão, pois não tinham com alvo um ou outro escravo fujão ou escrava com a péssima mania de andar com o queixo erguido, mas todo e qualquer cidadão negro, toda e qualquer mulher ou criança negra, não necessitando de motivações quaisquer além do preconceito e do rancor.

Num dos períodos mais agudos de resistência ao racismo na década de 1960 e na luta pela aprovação da Lei dos Direitos Civis, surgiram os Freeddom Riders, Viajantes da Liberdade, caravana de jovens, estudantes, intelectuais e militantes negros e brancos que, unidos, decidiram confrontar a racismo legal imperante nos estados do Sul.

Freedom Riders: caravana da liberdade.
Essas caravanas de ônibus em que brancos e negros se sentavam lado a lado, cruzaram os estados sulinos, sendo recebidas com violência pela Ku Klux Klam – sempre apoiada pela polícia local e mesmo por agentes federais racistas, que transmitiam informações sobre o roteiro dos ônibus.

Obviamente, na vanguarda dessas caravanas da liberdade estavam os principais atores:  negros e negras dispostos a conquistarem definitivamente para si e para as gerações futuras de afrodescendentes norte-americanos o estatuto de cidadania plena. Porém eles encontraram em seus colegas brancos não racistas apoio decisivo – o que não impediu que os dois principais líderes negros dos EUA fossem assassinados:  Malcolm X em 1965 e Luther King em 1968.

Ônibus dos Freedom Rider incendiado .
A principal lição que essas caravanas deixaram a todos, não só aos norte-americanos, é a de que a luta pela igualdade, contra todos os tipos de discriminação e preconceitos não diz respeito apenas às vítimas diretas deles. Se eu sou branco, tenho um amigo negro e ele é humilhado, eu fui também. Se meu vizinho japonês é ofendido por causa de seus olhos puxados, os meus olhos também foram furados. Se uma piada nazista atinge um amigo judeu, eu fui jogado no forno junto com ele. Se uma manifestação de intolerância manda que meus amigos nordestinos voltem para sua terra depois de eles terem erguido a maioria dos grandes edifícios de São Paulo, eu fui convidado a partir da minha terra com eles.

Porém, a verdade é que eu não preciso ter um amigo negro, japonês, judeu, palestino, nordestino, sírio, gay, lésbica, transsexual, deficiente físico ou com limitação intelectual  para me posicionar em defesa da igualdade e da justiça, pelo simples motivo de que, em milhares de anos estudados pela história, não se conhece um único exemplo de que o ódio, a intolerância, a escravidão tenham construído nada. Onde prosperou a histeria coletiva, ali imperou os piores momentos da humanidade.

Agradecimentos às professoras Sandra (Granja Viana) e Laís (Higienópolis), à bibliotecária Valéria (Higienópolis) e aos estudantes do colégio Rio Branco, em que fui recebido com verdadeiro tapete vermelho e com imenso carinho, que espero ter retribuído com o que tenho aprendido em minhas pesquisas e aulas compartilhadas.


Jeosafá, professor, foi da equipe do 1o, ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo na gestão José Serra. É escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria);  em maio de 2015, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora; no mesmo ano publicou A lenda do belo Pecopin da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo, pela editora Mercuryo Jovem. Leciona atualmente para o a Educação Básica e para o Ensino Superior privados.

domingo, 11 de outubro de 2015

1979 foi um ano difícil

Liberdade: a palavra mais linda do dicionário.
Eu terminara o ano de 1978 como um dos melhores alunos na minha turma, o que não acrescenta muito a meu currículo, pois a minha turma da 8ª. série do noturno era a mais largada do colégio. Não que fôssemos maus, apenas tínhamos decidido dificultar a vida de professores, inspetores e diretor substituto. Por causa de quê? Por causa de terem naquele ano tido a brilhante ideia de formar turmas separadas de meninos e meninas.


Na verdade, muitos já eram barbados, não eu, e tendo repetido alguns anos consecutivos do Ensino Fundamental, não eu, traziam consigo o estigma de completos zoeiras – o rei deles, o Nivaldo Moura que, cover narigudo – no sentido literal, pois seu apelido era “ladrão de oxigênio” – e bocudo – no sentido figurado – de Mick Jagger, tirando a camisa, girando-a sobre a cabeça e pisoteando sobre a mesa da professora de inglês, a saudava no início de suas aulas aos berros afinados: “I can’t get no!,” para nossa resposta em coro, também eu: Satisfaction! – enquanto ela, apavorada, trancada do lado fora da sala, olhando do corredor pela janelinha de vidro da porta, punha o dedo sobre o nariz implorando silêncio e espremia os olhinhos cúmplices.

Nunca é demais enfatizar, para que não restem dúvidas, embora nossa 8ª. B do período noturno fosse tudo o que diziam de nós e um pouco mais, eu conseguia ser dos melhores alunos, inclusive nas notas. Tanto que quando o diretor queria provas da bagunça na sala (eu era o “monitor”), me chamava a sua sala:


– Senhor monitor, vocês estavam cantando aquela música novamente?


– Não, seu Nelson, a inspetora Aurora, é que nos detesta e vem fazer intriga para o senhor.


Porém, 1978 acabou, e nem eu nem minha mãe sabíamos que era necessária inscrição para o vestibulinho de ingresso no Ensino Médio no único colégio da região que o oferecia. Então, dei, da alegria e da extroversão do último ano no Maria Montessori, no nada – sim, pois nunca me imaginara fora da escola; sequer sabia que havia vida inteligente para fora dos muros do Maria Montessori.


No início de 1979, embora já tivesse trabalhado em metalúrgica e loja de passarinhos no ano anterior, entendi o que era a vida de trabalhador: arrumei emprego de office-boy em uma empresa de publicidade na rua Sete de Abril e, do quarto andar do prédio do falido Diários Associados, assisti aos enfrentamentos entre bancários em greve e a cavalaria da Polícia Militar. Uma ocasião, tendo que buscar o malote na MacCann Erickson, que ficava no início da rua da Consolação, esquina com a Martins Fontes, no retorno, tive de ir pedindo licença aos policiais, todos paramentados com coletes a prova de bala e escudos transparentes, como em filmes de ficção científica, para atravessar a praça D. José Gaspar.


Quando cruzei o cordão dos militares, ingressei no maior vácuo de toda minha vida, pois, cem metros a minha frente, perfilavam os bancários, os braços dados, numa corrente humana compacta e disposta. Entre a tropa de choque e em direção dos trabalhadores, boiava quase à deriva um office-boy de pouco mais de um metro e cinquenta, com um malote de cartas às costas e o maior silêncio do mundo nos ouvidos. Os bancários abriram uma brecha e me deixaram passar.


Ao chegar ao 4º. Andar do edifício da Sete de Abril, só tive tempo de entregar a mala de lona verde cheia de correspondências na Expedição e correr para a janela. Embaixo, a guerra já estourara, com explosão bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo, com cavalarianos a espremer contra as paredes grupos de manifestantes, com pedras das obras do Metrô a voarem contra os militares, estes enfiados em suas armaduras de astronautas do mal.


Do alto, choviam objetos sobre os policiais. Fui à expedição, apanhei um cesto de lixo cheio de papéis borrados de tinta de mimeógrafo, voltei à minha janela e, no momento de atirá-lo sobre os policiais, fiquei com pena dos coitados e só atirei o conteúdo do cesto. Até hoje eles devem achar que suas porradas contra indefesos foram aprovadas por alguém lá em cima, com uma chuva de papéis picados.


O fato é que, amigo do exército de office-boys que os bancos contratavam na época, acabei aderindo a suas passeatas, que assim como se juntavam, desapareciam, pois conhecíamos todas as galerias do centro, então era fácil para nós armarmos uma confusão e desaparecer na multidão. Para mim, nossa revolta infantojuvenil soava como os gritos de guerra do nosso líder de esbórnia, o impagável Nivaldo Moura, nosso Mick Jagger ladrão de oxigênio: “– I can’t get no!” ... “– Satisfaction!”.


No ano fim desse ano difícil, em que eu ficava à noite em casa chutando bola na parede de uma construção mal acabada que meu pai tinha no quintal, até me esgotar, para esquecer que estava fora da escola, prestei o vestibulinho, passei e, enfim, senti que esse fora meu rito de passagem.


No início de 1980, ao fazer a matrícula, já me incorporei ao piquete de alunos que faziam protesto contra o pagamento obrigatório da taxa da APM. Por um deles, o Luís Randolfo, fui levado até o guichê. Lá ele fez um discurso contra a ilegalidade da obrigatoriedade, a moça da secretaria fez minha matrícula sem se chocar com ele e me preveniu: fique longe desses baderneiros. Estou junto deles até hoje, quando os cabelos no topo da cabeça já escasseiam e há mais fios brancos do que escuros em minha barba.


Ainda em 1980, participei de uma passeata de office-boys na avenida Paulista, onde então trabalhava, no número 1499, 15º andar, esquina com a alameda Casa Branca. Da janela, vi a passeata, que não chegava a quarenta pernas, vindo do Trianon. Fiz um cartaz com o fundo de uma caixa de sapatos.


Lembro o que escrevi com giz de cera, acho que vermelho: “Liberdade” – palavra que sempre achei das mais lindas do dicionário. Desci correndo as escadas, pois os elevadores demoravam, a tempo de pôr mais duas pernas na desmilinguida manifestação. Antes de chegar à alameda Campinas, já tínhamos nos dispersado nas lanchonetes para comer misto quente, o sanduíche campeão dos office-boys.


Muitos anos depois, quando li “1933 foi um ano ruim”, de John Fante, entendi cada vírgula do que ele escrevera sobre o fundo do poço da crise de 29 nos EUA.




Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Desde a queda do Império Romano, a periferia devora o centro

Aula comunitária a estudantes da Faculdade Sumaré - III Semana Acadêmica de História - Zona Leste

Literatura na periferia ou literatura da periferia?

A propósito da onda de manifestações literárias, das mais variadas dimensões e formas, nas periferias de São Paulo, conversei na noite de ontem (07/10/15) com os estudantes da Faculdade Sumaré, no evento da III Semana Acadêmica de História.

Como há mais de trinta anos bato cabeça pela cidade, coletando depoimentos, realizando reportagens fotográficas, registrando histórias para escrever meus romances e poemas, quis ouvir dos estudantes o que eles consideravam "periferia" e que elementos caracterizariam, para eles, a realidade representada por essa palavra-conceito.

Num primeiro momento, a palavra foi associada a aspectos negativos da geografia da cidade: distância do centro, falta de saneamento básico, atendimento de saúde precário, problemas de moradia, transporte e segurança, limitadíssimas opções de lazer etc. etc. etc.

No entanto, quando combinamos de elencar elementos positivos relacionados à periferia à qual nos referíamos, particularmente a Zona Leste, onde o curso de História da Faculdade se situa e onde os e as estudantes moram, uma contradição se estabeleceu: se havia aspectos positivos em quantidade, por que assumir uma postura depreciativa em relação a "nossa" condição periférica.

Nesse momento, fizemos uma reflexão sobre a dialética centro-periferia, e refletimos sobre as múltiplas dimensões dessa dialética. Periferias só existem em face de seus polos opostos, os centros: se há centros políticos, econômicos, ideológicos, sociais, culturais, científicos, há suas respectivas periferias.

Do ponto de vista do poder, sempre os centros se instalaram como polos de exploração de periferias, dividas e mergulhadas na pobreza, na penúria e na injustiça. O Ocidente é pródigo em exemplos dessa natureza.

O Império Romano expandiu-se até onde pode, promovendo guerras e submetendo povos mais fracos, postos à margem de seu esplendor, mas abastecendo-o de mão de obra escrava, riquezas minerais e alimentos. Quanto mais guerreassem entre si (o Império estimulava isso com a legenda "dividir para governar"), mais frágeis se tornavam essas periferias e, por conseguinte, mais eram exploradas a níveis humanamente insuportáveis.

Muitos pensam, tendo nos filmes de Hollywood a única referência, que a queda do Império Romano (no Ocidente, em 476 d. C; no Oriente em 1453) se deveu a uma batalha sangrenta com heróis da civilização sendo derrotados por vikings brutais e ignorantes.

Porém, a derrocada do mais longo Império da história foi menos glamoroso. No Ocidente, foram quase quinhentos anos de imigração de populações miseráveis para Roma - miséria promovida pela mesma Roma, que ao saquear as periferias do Império, não deixava outra alternativa aos povos vitimados a não ser buscar vida melhor onde diziam que ela havia.

Os impérios europeus que se erigiram a partir das Grandes Navegações a partir do séc. 16, trilharam o mesmo caminho de Roma. Portugueses, espanhóis, ingleses, franceses, alemães, belgas, holandeses, lançaram-se sobre outras partes do mundo submetendo-as pela força dos canhões e da escravidão. Para eles, não havia dúvidas sobre quem era o centro e quem era a periferia, quem tinha alma (e por isso estava autorizado a dominar) e quem estava desprovido dela (portanto, estava obrigado, por sua própria condição "sub-humana", a curvar-se e levar seu senhor nas costas). Africanos, chineses, indianos, povos ameríndios compreenderam bem cedo o peso da expressão "não civilizados", empregado por europeus para definir o papel desses povos em seu sistema colonial e neocolonial.

Porém, durou bem menos tempo para esses Impérios se desfazerem e, ao final do séc. 20, praticamente todos eles já tinham sido enviados de volta para casa pelas guerras e processos de independência o Oriente, na África e na América. Tanto quanto Roma, em menos tempo, esses centros, essas metrópoles, foram devoradas por suas periferias. E continuam a sê-lo.

As ondas de imigrantes que atravessam  o Mediterrâneo rumo à Grécia e à Itália (muitos na verdade morrem na travessia, mais de 3500 no só no primeiro semestre deste ano), ou que agora buscam a pé os Bálcãs para atingir a Alemanha, são uma nova invasão bárbara, que seguramente devorará a Europa que hoje conhecemos.

As grandes capitais europeias já são hoje polos cosmopolitas, em que religiões as mais diversas, vindas das mais distantes periferias, se misturam. Com a destruição do Oriente Médio e da África, promovida por norte-americanos e europeus, não resta outra alternativa aos povos dessas regiões que tiveram seus parques industriais aniquilados, suas infraestruturas urbanas implodidas por seguidos bombardeios, sua área rural de plantio e pecuária arrasada por combates sangrentos, a não ser imigrar - e para onde? para o centro econômico mais próspero, mesmo que ele fique a milhares de quilômetros de distância, mesmo que ele fique além do mar.

Esse processo se dá em escala macro, global, mas também se dá em escala micro, local. Hoje, os próprios centros econômicos, políticos, socais têm suas periferias internalizadas: suas próprias cracolândias, suas próprias faixas de gaza, suas próprias áreas de refugiados - e aqui não se trata de figura de linguagem: Londres, Paris, Berlin, Nova Iorque, São Paulo entre outras metrópoles do mundo, são destino de ondas de imigrantes e refugiados que, assim, trazem consigo sua identidade, sua cultura seus sonhos e frustrações.

Daí que assumir como estigma o termo-conceito "periferia" não faz sentido, pois, a rigor, todos hoje somos periferia. Os maiores líderes mundiais do século 20 conquistaram seu espaço a partir de sua voz descentrada: Mandela, na África; Mao Tsetung, na China; Gandhi, na Índia - e se é bem verdade que Luther King e Malcolm X falaram do centro de poder do mundo contemporâneo, os EUA, eles próprios representavam a periferia, a voz do gueto, posto à margem no interior do próprio sistema.

Se há um centro mais próximo do que foi o Império Romano ou inglês, este é hoje os EUA, que porém dormem o sono atormentado dos culpados, pois essa nova diáspora trágica, por mar e terra, rumo à Europa, a que assistimos pela TV e pela internet diariamente, é obra principalmente sua.

A literatura e a cultura dos países não europeus já foi taxada de periférica, incivilizada, fraca e cópia piorada dos "centros" de produção de capitalista - como se Pequim, Moscou, Tóquio, África e povos americanos pré-colombianos não tivessem produzido arquitetura monumental, cidades inteiras, pirâmides, castelos e aquíferos; ou não tivessem desenvolvido ciência e arte, agricultura e mitologia, astronomia e matemática, ciências curativas e religiões em quantidade e variedade estonteantes.

Em São Paulo, a chamada literatura periférica é diversa, abundante e rica. Há desde leitura  de nossos poetas consagrados em saraus realizados em bares de quebrada, até produção abundante de autores que mapeiam a geografia local, com suas ruas tortuosas a terminarem em barrancos e escadões, com seus personagens a cambalearem entre a realidade violenta das chacinas e a fantasia de um baile funk - que pode terminar em pancadaria e enfrentamento com a polícia.

Essa chamada literatura periférica tem captado a temperatura explosiva de nossos bairros largados à própria sorte e à mercê da polícia encapuzada, mas também tem registrado o protesto, a melancolia, o sonho, o abando, a esperança - em formas inusitadas, às vezes fechadas e enigmáticas como uma ostra, às vezes explícitas como um xingamento de cima de uma laje. Nela desfilam rostos serenos ou crispados; riso de galhofa e improviso jazz; desafio de hip hop e convite à participação.

Nisso, há quem veja certo tom de ameaça e trincar de dente. Aí, eu concordo. Até, porque, como disse Malcolm X: "Dobradiça que não range, não leva graxa".




Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou em 2013 O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria) e  em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.