quarta-feira, 9 de setembro de 2015

CORAÇÃO DE ESTUDANTE: Indivíduo, cidadão, ser humano

Encontro com estudantes do Colégio ECO, na Lapa, em 2013, a propósito de meu livro O diário secreto das Copas.
Notas de uma aula voluntária para os estudantes da 6ª. Semana Acadêmica de Educação Física e da Pedagogia da Faculdade Mário Schenberg (26/08/15) e para a Casa Pia Externato São Vicente de Paulo (24/10/15).

Relações de ensino-aprendizagem: Ética, Valores e Cidadania


Faculdade Mário Schenberg - Aula comunitária
26/08/15
Na conversa que tivemos recentemente, debatemos as sutis diferenças entre indivíduo, cidadão e ser humano.  Procuramos estabelecer os limites aceitáveis entre essas três dimensões de uma mesma realidade (a realidade humana). O tempo foi pouco para um maior aprofundamento, mas a verdade é que nenhum tempo do mundo seria suficiente para esgotarmos o assunto, sobre o qual oceanos de tinta têm sido gastos em compêndios e mais compêndios de filosofia, sociologia, antropologia, história, geografia e demais ciências ditas humanas.

Porém, tivemos sucesso ao pôr em foco o debate sobre as condições mínimas necessárias para existência do indivíduo, para a instauração do cidadão e para o entendimento razoável do que seja o ser humano.

Com contribuição do colega professor José Evaristo Silvério Netto, vimos que indivíduo, cidadão e ser humano são dimensões indissociáveis: não se oprime uma sem se violentar as outras duas; por outro lado, ao se promover uma, as demais também se desenvolvem obrigatoriamente.

Quando nascemos, somos um indivíduo da espécie. Nessa condição básica, somos incapazes de
Casa Pia Externato São Vicente de Paulo
Aula comunitária - 24/10/15.
prover nossa própria existência. Porém, incapazes de decidirmos por nossa conta, ao sermos acolhidos pelos demais membros de nossa espécie, somos introduzidos no âmbito da humanidade, que nos dias de hoje exige o imediato reconhecimento do direito à cidadania. Por isso é hoje (mas em outra épocas não) obrigatório o registro de nascimento, no qual uma humanidade específica (de um país, de um estado ou província, de uma cidade) faz constar o compromisso que ela assume conosco logo ao nascer, identificando pai, mãe, data e local de nascimento, naturalidade e nacionalidade. Ou seja, não se nasce humano: torna-se humano (nos mesmos termos que Simone de Beaovoir afirma: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”).

Nossa discussão ficou bastante presa à polêmica de até que ponto a dignidade humana aceita que o indivíduo seja violentado para que permaneça vivo apenas em suas funções puramente fisiológicas. Vimos que essa é uma discussão ética bastante dramática, mas que não se deve resvalar para o terreno da moral, seja ela religiosa, política ou de grupo ideológico – pois se abriria aí a possibilidade de a moral de um grupo, portanto restrita, impor seus valores aos demais grupos que compõe o conjunto da humanidade.

Ora, mas o que é ética? O que é moral?

O assunto é extenso. Para fins absolutamente didáticos, abro aqui espaço para um quadro sinóptico comparativo (e todo conhecimento é um conhecimento comparado, já nos ensinaram os mestres das ciências da educação) menos para explicar, mais para investigar:

Quanto
A Ética
A Moral
Ao alcance
É ampla e busca alcançar a humanidade como um todo.
É restrita e válida apenas no interior de um grupo humano específico.
Busca encontrar nas diversas morais pontos de convergência que tornem possível a convivência humana.
Prescreve regras de conduta obrigatória para a constituição e sobrevivência do grupo.
Ao estabelecimento das normas de convívio social e humano.
Tende à incorporação das descobertas, inovações e revoluções científicas
Tende à manutenção das tradições do grupo e à resistência a mudanças.
À função
É o campo especulativo, da reflexão filosófica, do estudo, da pesquisa, das leis e normas gerais de convívio humano.
É o campo reprodução ideológica e dos costumes, da prescrição de normas de conduta e de controle do indivíduo.
À análise de fatos concretos
Tende à objetividade.
Tende à subjetividade.
Tende à síntese na forma de conceito generalizante a partir de observações de fatos humanos concretos.
Tende ao juízo de valor a partir das normas grupo social, convertidos em “pré”-conceitos e preconceitos.
Busca o possível e aceitável a partir dos pontos convergentes.
Busca o obrigatório e o compulsório a partir da ótica do grupo.
Mobiliza a razão.
Mobiliza a emoção.
Tende à mediação.
Tende à polarização.


O quadro acima poderia ser estendido e, a título de lição de casa, os estudantes poderiam ir opondo linha a linha elementos de ética e moral, de maneira a, organizando o que já sabem, compor um quandro mais completo a partir de suas próprias experiências e intuições. Porém, não me ofenderia se uma estudante dissesse: "Para que essa lição de casa?", ou, "Para que esse quadro?", ou ainda "Para que ética e moral?" - o que me obrigaria a estudar mais e a discorrer mais sobre o assunto (e isso tudo seria muito bom para mim e não só para essa eventual estudante inquieta).

Quando estamos à frente de uma sala de aula, ou de um grupo heterogêneo, precisamos refletir com o máximo cuidado sobre nossas ações e palavras, pois somos a um só tempo indivíduos, cidadãos e seres humanos éticos e morais.

Caso não nos coloquemos na posição de quem busca os pontos convergentes entre todos os indivíduos, cidadãos e seres humanos desse grupo heterogêneo (portanto composto diversas éticas e morais), fatalmente resvalaremos para uma verdadeira guerra de valores, na qual cada um, instigado pela nossa própria parcialidade, se sentirá autorizado a defender a sua própria ética e a sua própria moral, lançando, nesse caso, mão das armas necessárias para fazê-las triunfar sobre as outras a qualquer custo.

Se eu considero o MEU conceito de vida O conceito de vida, o MEU conceito de feio O conceito de feio, o MEU conceito de Deus O conceito de Deus, então eu estou autorizado a punir todos os que não concordam comigo, pois, nesse caso, eu, mais do que estar certo, sou a própria certeza.

Muitas vezes a sala de aula se torna o campo da punição, do medo e da esterilidade. Quando um aluno tem medo de errar, ele passa a repetir sem raciocinar tudo que o professor fala - e o mesmo vale para um líder diante de seus liderados, seja um pastor, um padre, um dirigente sindical ou político.

O erro é a oportunidade de diálogo entre professor e estudante, entre o líder e o liderado,  é o campo fértil da pesquisa, da troca de ideias em que todos dão e recebem. Porém, se eu, professor, líder, estou sentado no trono das certezas, o que faz um aluno ou liderado a não ser assumir um papel secundário, submisso, sem brilho, opaco como o alumínio (que na natureza é fosco – daí vem a palavra “alumno">aluno”), que só brilha com uma bela esfregada do saber do professor (e mesmo nesse caso ele não faz mais que refletir a inteligência e a sabedoria do mestre)?

No entanto, a carreira de professor (e do líder consciente não manipulador) é eminentemente humanista, ou seja, seu papel  é o de contribuir para que a inteligência, as emoções, as habilidades do aluno se desenvolvam para que ele, deixando paulatinamente a condição de aluno (eterno dependente do mestre, do líder), se converta de uma vez para sempre em eterno ESTUDANTE – um indivíduo, um cidadão, um ser humano integral que pensa, age, cria por conta própria e assume os riscos dessa sua liberdade de pensamento e expressão, liberdade que precisa ser ensinada e compartilhada também.

O que queremos em nossa sala de aula, em nossos auditórios e praças públicas? Um eterno aluno (ser humano incompleto, cidadão de segunda categoria, em processo, ainda não de posse da liberdade inerente à sua condição humana) ou um estudante?

Um aluno jamais confrontará a ética e a moral de seu mestre ou líder, mas um estudante questionará o tempo todo a ética e a moral de seu professor, mas de sua família, a sua própria, a de seus pares, a da  sociedade em que está inserido. A ética e a moral hoje vigente correspondem a suas expectativas de indivíduo, cidadão e ser humano?

Penso que a maior tarefa daqueles que se dedicam à educação nos dias de hoje é de auxiliar a que nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos sentados (por que eternamente sentados?) nos bancos escolares façam a transição difícil da condição de alunos [(“alumno = a (sem) lumno (luz)” opaco por natureza] à de estudante – que mesmo na mais tenra idade está coberto de razão quando pergunta à professora ou ao professor: Por que isto? Por que aquilo? Por que essa aula? Por que essa lição de casa? Por que essa tarefa tão fácil? Por que essa prova tão difícil? Ou... por que essa greve?

Penso que quem não estiver preparado para essas perguntas, deve refletir profundamente sobre o que faz à frente de uma sala de aula, ou de um auditório, ou de uma praça pública. Se não é para formar indivíduos, cidadãos e seres humanos livres, no mais amplo sentido desse termo, então para que mesmo? Aliás, por que será que a canção de Milton Nascimento se chama Coração de Estudante, não “coração de aluno”?

Os temas bullying", assédio e preconceito serão tratados na segunda parte, que em breve publicarei neste mesmo blog.


Jeosafá é escritor e professor Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, lançou o ano passado O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria). e lança em maio deste ano, nos 90 anos de Malcolm X, O jovem Malcolm X, pela mesma editora.

4 comentários:

  1. Olá Josafá!

    Gostaria de parabenizá-lo por sua palestra. Foi realmente incrível, e até hoje conversamos sobre ela, e tem sido bem interessante. Tenho uma pergunta sobre o que seria este "Pacto de ensino - Aprendizagem" com os princípios éticos e morais que devemos fazer com os alunos, ao começar as aulas. Qual a definição deste Pacto? Como na prática, é possível fazer isso, com crianças na Educação Infantil e Fundamental I?

    Denise Prates

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    1. Olá, Denise.

      Bom dia. Falta um "e" em meu nome aí em cima rs rs rs: Jeosafá.

      Parabéns para todos e todas que estivemos juntos confirmando nossa fé na educação. Fiquei muito feliz com a turma de vocês, que ficaram um pouco tímidas, mas deram demonstração de serem batalhadoras. Sobre suas perguntas... O pacto de ensino-aprendizagem ou pacto pedagógico, é entendido como o acordo tácito entre quem ensina (ou lidera o processo de ensino-aprendizagem) e quem aprende. Na pedagogia tradicional, não havia esse pacto, mas o ato compulsório: o professor impunha seu saber à base do medo - daí a função da palmatória, da vara de marmelo, da reguada e de outros castigos físico para que o aprendiz "se pusesse no seu devido lugar": mudo, copiando sem parar, abrindo a boca somente quando o professor deixasse. Nessa pedagogia, imperava os silêncio e a coerção. O pacto de ensino-aprendizagem precisa ser construído todos os dias, e defendido durante a aula. Se você, enquanto professora e pedagoga, não quer ser temida, mas respeitada, precisa estudar estratégias de conduzir todos os membros da turma na mesma direção: o objetivo traçado para a aula, o dia escolar etc. Ao fazer isso, não pode perder a oportunidade de usar os erros, travessuras, e desvios de comportamento para ensinar a todos. Quando um aluno está falando demais e atrapalhando os demais, é a oportunidade de discutir não o comportamento dele naquele momento, mas esse tipo de comportamento - ao qual todos estamos sujeitos (quantas reuniões de professore/a/s não se tornam improdutivas por causa das conversas paralelas?). Não é perder tempo parar a aula e discutir (eticamente) se alguns comportamentos são certos ou errados. E não se trata de impor uma verdade, mas de fazer as crianças refletirem sobre como é importante trabalhar em conjunto, sem perturbar os vizinhos. No caso de crianças do Infantil e do Fundamental 1 as coisas são até mais simples, pois, por incrível que pareça, elas tem um forte sentido ético e moral. Quando dizemos: isto é errado, aquilo é certo, elas observam nosso comportamento e os dos outros, para ver se não estamos fazendo o contrário do que dizemos. Se observam que o que a informamos é respeitado por nós e pelos demais, elas assumem isso para si - e ficam muito incomodadas quando descobrem que há quem faça diferente ou o contrário. Há muitas técnicas de trabalho sobre ética e valores para crianças. Dá uma visitada nestes links:

      TEXTOS

      Pacto pedagógico:
      http://www.educacional.com.br/revista/0104/pdf/parte20.pdf

      As possibilidade de contrato pedagógico em sala de aula (Dissertação sobre o tema no Rio Grande do Sul):
      https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/17716/000723729.pdf?sequence=1

      VIDEOS:
      Na escola: https://www.youtube.com/watch?v=KZG8mPM74x0
      O Pequeno Príncipe: https://www.youtube.com/watch?v=saMl8zj5RJo
      Charli Brown: https://www.youtube.com/watch?v=qOFGTQRf3FE
      Snoopy: https://www.youtube.com/watch?v=kbHtJMMSuB0

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    2. Muito obrigada Jeosafá! (Hahaha) Muito útil a resposta!

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    3. Olá, Denise. Os curtas metragens do Charlie Brown e os HQ da Mafalda são ética e cidadania pura. Conte sempre comigo.

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