quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Talvez por isso a canção se chame "Coração de Estudante", não "Coração de aluno"

UM TEXTO QUE, PERDIDO POR ANOS, FOI REENCONTRADO


Escrevi este texto há anos para meus alunos de Metodologia Científica, quando lecionei para Ensino Superior. Foi bastante útil durante o curso, pois introduzir os jovens em práticas muitas vezes distantes de seu cotiano necessitava de uma sessão de desmistificação da ciência. 

Descobrir coisas novas, desvendar segredos, encontrar saídas para labirintos e respostas para quebra-cabeças, qual criança não gosta? Os brinquedos e brincadeiras vivem de propor desafios que, superados, tornam-se grandes conquistas e aquisições cognitivas: o mais inocente jogo de amarelinhas tem regras e complicações que exigem estudo, aprendizagem, reflexão e ação. E criança nenhuma se dispensa de brincar em razão da dificuldade inicial que uma brincadeira ou jogo apresenta.
Então por que, muitas vezes, é tão comum encontrarmos pessoas que dizem detestar o estudo?
Bem, a brincadeira mais interessante pode se tornar tediosa se não soubermos suas regras. Aliás, nossas simpatias e antipatias infantis em relação a esta ou aquela brincadeira estão geralmente relacionadas às dificuldades que não conseguimos superar e que, ao  resultarem em seguidas frustrações, causam mal-estar e sentimento de fracasso. Porém, as mesmas coisas que nos causaram frustração, se enfrentadas corretamente, causam uma grata sensação de vitória, realização e plenitude.
Quer na brincadeira mais aparentemente inocente, quer na atividade de estudo, o “como” é decisivo.
Se desconhecemos as regras de um jogo ou brincadeira, mas sabemos “como” encarar gradualmente as dificuldades, a aprendizagem, que faz parte do próprio jogo ou brincadeira, torna-se puro prazer.

Quando alguém diz “detesto estudar”, na verdade devemos ouvir: “detesto sofrer”.  Com efeito, há poucas atividades mais insalubres e enfadonhas do que estudar sem se saber  “como”: os segredos se fecham, os desafios se tornam intransponíveis, as tarefas irrealizáveis, a sensação de perda de tempo toma o espírito e a coisa mais comum de se ver, particularmente em crianças, é elas, mal orientadas, dormirem sobre os cadernos ou chorarem sobre eles lágrimas desoladas de derrota.
Mas estudar não precisa e não deve ser assim. Entre o conhecimento que desejamos apreender e o nosso espírito há o “como”. Se não dominamos o “como”, não chegamos nunca aos “porquês”: se sabemos como multiplicar, resolver uma multiplicação pode ser até uma atividade lúdica – é lógico, a depender do “como”.
E o que se disse aqui sobre as crianças vale para o universitário, que muitas vezes privado do “como”, lista um rol considerável de impropérios nem sempre oportunamente empregados contra uma disciplina, um professor, uma escola: é a sensação de fracasso que se transmuta e se torna revolta, é o claro sentimento de que se tem tudo para compreender e resolver um problema e, no entanto, não se consegue encontrar a ponta do liame que, seguido, leva à saída do labirinto.

Dicas de como estudar

Existe um vício na atividade escolar que cabe corrigir: o de que passar os olhos sobre um texto ou lê-lo várias vezes constitua forma eficaz de aprendizagem. Nada mais enganador.
Em primeiro lugar porque passar os olhos sobre um texto não é o suficiente para se apreender os problemas que ele propõe: leitura superficiais não levam à satisfação do espírito, mas denotam preguiça, inimiga mortal de toda atividade de sucesso.
Em segundo lugar porque, se ler muitas vezes o mesmo texto linearmente não denota preguiçam - muito pelo contrário – , denota falta de habilidade e de método. E o que é método? É o famoso “como”.

Primeira leitura

No ensino superior, é necessário, antes de tudo, saber encontrar o texto que desejamos. Quando temos um objetivo a atingir, não podemos nos permitir o luxo de desperdiçar tempo.
Se temos um assunto, tema ou problema a tratar, não podemos apanhar um livro na estante da biblioteca, empregar uma, duas horas de leitura só para então descobrir que o livro, muitas vezes até importante, nada tem a ver com que estamos necessitando naquele momento.
Quando temos definido o que precisamos encontrar, selecionamos os livros por assunto, o que elimina a possibilidade de perdermos tempo com obras totalmente fora da nossa área de interesse. Após isso, devemos ler com atenção as informações constantes na capa e contracapa. Obras acadêmicas costumam ter um prefácio ou apresentação, que resume o que o livro contém, devem também ser lidas.
Se capa, contracapa e apresentação revelaram que o livro pode conter algo de interesse, é hora de consultar o índice (algumas obras têm vários), pois é nele que constam os assuntos de que o livro trata.
Suponhamos que haja algo que interesse... devemos ler o livro todo? Não: vamos direto ao capítulo que nos interessa. Se ele for realmente útil para aquela necessidade, devemos realizar uma primeira leitura, com calma e despidos do mito de que uma leitura “dinâmica” resolva: devemos ter ao lado um bom dicionário, isto sim é que resolve, embora não tudo.
Nessa primeira leitura devemos marcar a lápis (se o livro for nosso), ou anotar num papel, todas as dificuldades de vocabulário, quer precisam ser solucionadas, bem como as idéias que vão surgindo durante a leitura, relacionada ou não a ela (às vezes uma idéia boa surge deslocada, se a registramos, pode ser útil em outra oportunidade). Palavra mal compreendida significa erro garantido no futuro, e idéias não apontadas fogem e não voltam mais.

Análise e interpretação do texto


Realizada essa primeira leitura de estudo, que é muito diferente de uma leitura sem compromisso, precisamos marcar no texto trechos importantes, que resumem conceitos ou esclarecem pontos importantes. Essa marcação pode ser realizada a lápis, se o livro for nosso, repito, pois marcar livro de outra pessoa ou de biblioteca demonstra, além de desrespeito e descortesia, imensa inabilidade para com a atividade de pesquisa. 
Não devemos marcar palavras isoladas, mas orações ou trechos de parágrafos na ordem linear de leitura, de modo que um trecho marcado forme seqüência lógica com o trecho anterior e com o posterior.
Depois de marcados esses trechos, convém ler, do início ao fim do texto, o conjunto destacado, que deve ter sentido claro como se fosse um resumo – o que em verdade é: é o chamado resumo técnico.
Esses trechos destacados podem ser transcritos para fichas de cartolina e organizadas em pequenos fichários por ordem alfabética de citação de fonte bibliográfica (que deve constar no topo de cada ficha) ou, para quem tem computador à mão, para arquivos eletrônicos. De posse desse material, é hora de conversar com os colegas e com o professor sobre essa atividade e sobre o que foi coletado: é nesse momento que o processo de aquisição cognitiva se torna mais rico, pois haverá quem tenha escolhido outros trechos com maior ou menor felicidade, haverá quem tenha compreendido coisa diversa acerca do mesmo conceito, haverá concordâncias e discordâncias que só serão frutíferas se forem discutidas.
Os trechos fichados ou arquivados no computador são, além do mais, fontes para citação em futuros trabalhos e podem dar origem a resumos muito consistentes, que, por sua vez, ampliados, vertidos para a linguagem do próprio estudante e acrescido de suas reflexões e opiniões, tornam-se resenhas com forte apoio no texto original.
Durante a graduação, se o estudante for diligente e criterioso, esforçando-se sempre por produzir esse material a cada leitura, ou pelo menos em relação àquelas mais requisitadas pelos professores, ao final de um ano tem um excelente arquivo de fichas. Aliás, muitos professores, entre os quais eu me incluo, atentos para a importância desse material, atribuem conceitos a ele e o elevam à categoria de avaliação, pois um fichamento bem feito revela domínio do “como” estudar, ou seja, do método acadêmico.
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Para um estudante não pode haver prazer maior do que se sentir capaz de navegar por conta própria pelo mundo do conhecimento, guardado no segredo dos livros e das bibliotecas – e da internet.

É lógico que é trabalhoso ler, marcar, anotar, apontar, fichar, resumir e resenhar textos, mas quem sabe fazer isso, transforma o “não me sinto capaz” pelo “professor, preciso de mais tempo para fazer isso”. Ou seja, o estudante, consciente suas habilidades e das dimensões das tarefas, traduz em tempo de trabalho quantificável, maior ou menor, as dificuldades que enfrentará, e o impossível torna-se possível, em curto, médio ou longo prazo. Não há mais o “não consigo realizar”, mas o “consigo em curto, médio ou longo prazo”.
Há muita mistificação em relação ao mundo do saber. Uma delas é a de que se tem de ser gênio para ser estudioso. Ora, os gênios existem, mas se dependesse exclusivamente deles o homem ainda estaria nas cavernas. A maior parte do saber é produzido com trabalho humilde, paciente, persistente, cuidadoso, que é acumulado por anos, séculos, milênios.
Na vida acadêmica, isso se traduz em método para pesquisar, arquivar informações, acumular organizadamente conhecimentos de modo a serem facilmente acessados, debater com colegas e professores, em resumo, trabalho intelectual organizado, disciplinado.
Nestes anos de docência para o nível superior, tenho assistido a grata sensação de realização no comportamento de estudantes quando aprendem penetrar nos segredos dos livros e textos a partir de métodos simples de estudo. E como ver uma criança dar, por conta própria, os primeiros passos, que são tão decisivos para sua vida.
Aqui cabe a comparação: quando aprende a andar por conta própria, uma criança não necessita mais de um adulto que a ensine a andar, tanto quanto um aluno, quando aprende a estudar, torna-se estudante – e há uma radical diferença entre um e outro: o  primeiro não é livre, depende eternamente do professor o segundo não, torna-se seu próprio mestre.
Talvez por isso a canção de Milton Nascimento se chame “Coração de estudante”, e não “Coração de aluno”.

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