segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Paródia de Pessoa

Fonte: Revista Bula
Não é só Fernando Pessoa que perde o rumo de casa, o pé da situação ou a melancolia. Todo mundo, se se distrair, pode se ver admirando o entorno que, muitas vezes, no dia-a-dia insípido do nosso "belo quadro social", não diz nada. Pensando nisso, enchi este poema-taça com um tanto dessa distração que é verdadeiramente uma bênção de bem-estar. O poema parodiado Escrito num livro abandonado em viagem.
Cíbio Bote







sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O amor remove prédios, que voltam

Foto: Júlio Boaro

Não precisa de muita criatividade para gostar de São Paulo, em que pese as razões que a cidade dá de sobra para a odiarmos. Se pensamos nas pessoas que amamos e que circulam por seus labirintos em que tanta gente se perde e se acha, ela tem sua poesia revelada. Se faltar imaginação, é só ir à noite à janela de um dos arranha-céus e ficar cismando... e piscando longamente enquanto a memória trabalha relaxada.
Cíbio Bote



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Mapa da Cidade

Talvez seja apenas uma coincidência que o contorno do mapa de São Paulo seja um revólver perfeito, apontado para baixo por pura convenção, uma vez que, em o mundo sendo redondo, não há razão para aceitarmos pacificamente que o Norte fica em cima. Nós que trabalhamos com as palavras algumas vezes  vemos fantasmas onde eles não são críveis - mas que eles existem algures, alguém duvida? 

Cíbio Bote




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Em dezembro, o largo Paissandu

Uma vez que a chuva não vem, repito aqui um poema de início da década de 1990. Estava muito calor e, avis rara, eu não trazia nada nas mãos. Por isso, foi sem sentimento de culpa que entrei de corpo e alma na chuva que me pegou na altura do largo Paissandu. Havia uma pastelaria no vale do Anhagabaú. Lá tomei um conhaque para não apanhar um resfriado, e fui à para para casa, na Barra Funda, quando pancada d´água passou. No caminho, um vapor parecido com neblina subia do chão molhado. A chuva passou, a década também, mas o poema não.

Cíbio Bote




http://www.almanack.paulistano.nom.br/antartica14.html

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Paisagem Noturna

Em 1986, passando pela rua Boa Vista, por razões de decoro fica aqui omitido em companhia de quem, flagramos esta lua sobre o São Vito, no parque Dom Pedro II, o nosso conhecido Treme-Treme, demolido há alguns anos. Rascunhei em uma caderneta um esboço e preenchi depois com letras. Foi-se a lua, foi-se o São Vito, mas ficou o poema.

*  *  *

Há muitos anos, a partir da ponte da rua Boa Vista sobre a ladeira Porto Geral, era possível ver a lua nascer gigante por detrás do edifício São Vito, o famoso Treme-Treme, hoje demolido, na região do parque D. Pedro, no centro de São Paulo.

Quem viu a lua nascer nessas condições, viu, quem não viu, não sabe o que perdeu. Era uma imagem impressionante, aquela imensa bola cor de ferrugem que, ao subir, diminuía de tamanho e ia ficando amarelada até, já acima do Treme-Treme, assumir uma cor de prata que explica muito da hipnose que ela exerce sobre lobos e casais enamorados.


Quem namorou sobre aquela ponte, bem ao lado do Páteo do Colégio, vendo a lua subir bruxuleante, namorou, quem não namorou, não sabe o que perdeu.
Cíbio Bote.








Edifício São Vito, São Paulo, popular Treme-Treme, cuja demolição terminou em 2011. À direta, ao fundo, o Mercado Municipal .




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Retrato em branco e preto

O amor, quem não é amador sabe, pode dar em flores e graça, mas também em guerra e desgraça. Que o digam Tristão e Isolda, Capuletos e Montecchios, que, na massa sonora de Prokofiev, Suíte n.o 2 de Romeu e Julieta, ganham proporções trágicas monumentais, mas profundamente humanas. Fiz este poema-retrato em memória e rito fúnebre a uma paixão que, pior do que não ter dado em nada, deu em tragédia. Cai o pano.
Cíbio Bote




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Mosca é feita pra voar

Quem já viu gato caçando mosca sabe de que mosca e de que gato está falando. Neste poema a mosca em suas circunvoluções desenha o gato, que já foi estampa em minha camiseta preta, gatopoema caçador de moscaletra.
Cíbio Bote


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Nova meditação sobre o Tietê

Quem passa por baixo da ponte Júlio de Mesquita Neto, que na verdade são duas obras monumentais paralelas, ainda vê alguma graça - embora se pergunte sobre falta de sentido para duas pontes gigantescas serem construídas, uma ao lado da outra. Porém, quem passa por cima sabe que são mal-feitas, feias e que, mesmo com boa vontade, sente o forte cheiro de desperdício de dinheiro público. Fiz este poema em homenagem a esses dois monstrengos dispendiosos, grandiloquentes por baixo e feios de doer por cima. Que ódio se pode ter da cidade ao ponto de se construírem pontes tão horríveis? Somente uma mentalidade muito atrasada, tipo, família Mesquita, explicaria. Ou não.
Cíbio Bote



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Minhocão vai desaparecer, olê olá!

Em 1986, saía do cineclube Oscarito, na praça Roosevelt, onde tínhamos lutas e brigas homéricas pelos rumos do cinema brasileiro, e ia bater cabeça pela cidade. Um de nossos sonhos era ver o Minhocão implodido e devidamente removido da cidade. Ontem, deu no noticiário que o novo Plano Diretor prevê sua desativação (leia aqui).

Este poema de 1986, então delírio de jovem cineclubista, ganha agora jeitão de profecia.
Cibio Bote.



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Sombra de passeio de inverno

Nem em meu mais alucinado pesadelo delirei que um dia o Cine Metrópole ia fechar. Era uma tarde-noite de domingo de início dos anos 80 e, em meio o chuvisco que não molhava mas picava o rosto, com as mãos nos bolso girando modinhas, eu andava pela praça Dom José Gaspar, o comércio todo fechado, salvo um mísero café bem próximo da galeria, sedento para ver um filme naquela sala de sonhos de olhos abertos. Minha sombra dobrou-se, meia chão, meia na parede do edifício. Entrei no café, fiz o poema no guardanapo. E fui ver um filme. O Cine Metrópole se foi, mas o poema é este:


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Leitura no Metrô

APANHO ÔNIBUS LOTADO DO MORRO DOCE À LAPA. NA LAPA, APANHO O TREM DA CPTM SUPERLOTADO ATÉ A BARRA FUNDA. NA BARRA FUNDA, PEGO O METRÔ LOTADO ATÉ A ESTAÇÃO D. PEDRO. LÁ, APANHO O ÔNIBUS JD. CELESTE, MENOS LOTADO, MAS TAMBÉM DE PÉ ATÉ O IPIRANGA. DUAS HORAS PARA IR, DUAS PARA VOLTAR PARA CASA, EM CAMINHO INVERSO. COMO SUPORTO ISSO? LENDO: 4 HORAS DE LEITURA POR DIA EM PÉ.

Dois túneis se completam, o que leva sob a cidade a alguma parte dela, o que penetra-se pelo vórtice das letras pretas nas página brancas - e que não se sabe aonde vai dar. Quem nunca perdeu uma estação por ficar preso no segundo túnel, que atire a última faísca.

Cibio Bote





quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A chuva cai, e o morro da Babilônia também

Conheci o morro da Babilônia nos anos 80. Era um pico agudo enfiado no meio da serra da Cantareira, já quase no município de Mairiporã. Erra assim que os moradores chamavam essa ocupação irregular de floresta em que os barracos de alvenaria ou madeira se apoiavam uns nos outros em franca desordem como uma verdadeira Babilônia. Ali traficava-se água por meio de caminhões-pipa, pois as tubulações da cia. de água lá não chegava. A guerra entre traficantes de água espalhava cadáveres pela serra. Fui parar lá a pedido de um morador que, por me conhecer, achou que eu podia ajudar. Narrou-me o desabamento da semana anterior (a foto em questão não tem anda a ver com isso). Disse-lhe, desconsolado: "Faço um poema". Ele respondeu: "Não é suficiente". "Então caia fora da serra da Cantareira, pois isso é dos macacos, nem rico nem pobre pode vir aqui encher o saco deles". Então, ele me deu uma porrada. Mandei-o àquele lugar. E assim acabou nossa amizade. Mas ficou o poema e a história.
Cíbio Bote.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Geografia de São Paulo

A geografia da cidade mostra muita coisa, e esconde outro tanto ainda maior. Quem tiver olhos para ver, que veja. No poema gráfico, uma bola rola geografia abaixo.











terça-feira, 5 de agosto de 2014

Trem do subúrbio

Um poema gráfico feito para uma manhã de 1984. Era fim de ano, um dia claro, sábado. Íamos em bando jogar bola em Lorena.