quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

SEARA VERMELHA: Uma seara que resiste ao tempo – Parte 7


Este artigo, capítulo de minha tese de doutorado na Universidade de São Paulo, foi publicado na íntegra no encarte da revista Princípios, quando da comemoração dos 100 anos de nascimento de Jorge Amado.  Hoje, a sétima e última parte.

A linguagem do romance, situada entre o padrão culto informal, mais identificada com o narrador, e o popular-regional, mais identificado com as personagens centrais do enredo significa maior eficiência comunicativa em relação a um leitor não especializado, que o autor deliberadamente logrou incorporar ao universo de leitores.

Obviamente, organizar  em torno e a partir da literatura um público jovem e adulto antes alheio a ela não se faz sem que se empreguem esquemas introdutórios e mesmo facilitadores de leitura, tais comoclichês, repetições, redundâncias, desenvolvimentos lineares, reduções interpretativas, entre outros.

Em Seara vermelha esses recursos, voltados à intenção de transformação do leitor em militante, se dão como verdadeiro manual de doutrina política. Hoje, muitas restrições podem ser feitas, e o são, a essa poética e a esse estilo, porém, não se pode negar que eles já foram largamente apreciados pelas mesmas razões que hoje são apontadas como defeitos.

Se lembrarmos que a Semana de Arte Moderna foi organizada para despir a linguagem artística do fraque e cartola em que estava vestida, seremos obrigados a reconhecer, para além do sucesso de público, a importância de Jorge Amado em aproximar o espetáculo das palavras do homem comum, enquanto tema, enquanto personagem e enquanto endereçamento de discurso.

A verdade é que Jorge Amado jamais dirigiu-se à elite letrada: sua preocupação foi sempre escrever sobre o povo e para o povo, que nunca é o que as classes cultas, ai delas, desejam que ele seja.
Seara vermelha acrescenta a essa desconformidade à do registro literário de um estágio do pensamento e das práticas sociais revolucionárias da primeira metade do século XX brasileiro, de que o autor foi protagonista, em seus desacertos, mas também em seus momentos gloriosos.

Os caminhos da permanência de uma obra literária são quase sempre insondáveis. É o caso de perguntar como uma obra tão perseguida, queimada na fogueira, proscrita, acusada como vulgar e mesmo sem valor, resiste ao tempo, às objeções e permanece.
Talvez Jorge Amado tenha escutado, ao aproximar seu ouvido do coração povo, algo que parte de nossa crítica, tão subalterna em face de modelos importados, não tenha sido até hoje capaz – se é que um dia o será.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Almeida, Alfredo W. Berno de. Jorge Amado: política e literatura. Rio de Janeiro, Campus, 1979.
Bastide, Roger; Táti, Miécio et alii. Jorge Amado, povo e terra. São Paulo, Martins, 1972.
Carone, Edgar. O PCB. São Paulo, Difel, 1982.
Duarte, Eduardo Assis. Jorge Amado: romance em tempo de utopia. Natal, UFRN-Editora Universitária. 1995.
Gomes, Álvaro Cardoso. Jorge Amado. 2 ed. São Paulo, Nova Cultural, 1988.
___________.Roteiro de leitura: Capitães de Areia, de Jorge Amado.São Paulo, Ática, 1996.
Konder, Leandro. A derrota da dialética: a recepção das idéias de Marx até o começo dos anos 30. Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988.
___________.Intelectuais brasileiros e marxismo. Belo Horizonte, Ofina de Livros, 1991.
Martins, João de Barros. Jorge Amado: trinta anos de literatura. Rio de Janeiro, Record, 1993.
Raillard, Alice. Conversando com Jorge Amado.Trad. Annie Dymetaman. Rio de Janeiro, Record, 1991.
Rubin, Rosane; Carneiro, Maciel. Jorge Amado: oitenta anos de vida e obra. Salvador, Casa da Palavra, 1992.
Santos, Itazil Benício. Jorge Amado: retrato incompleto. Rio de Janeiro, Record, 1993.
Táti, Miécio.O baiano Jorge Amado e sua obra. Rio de Janeiro, Record, 1980.


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