segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

SEARA VERMELHA: Uma seara que resiste ao tempo – Parte 5

Este artigo, capítulo de minha tese de doutorado na Universidade de São Paulo, foi publicado na íntegra no encarte da revista Princípios (out/nov 2012), quando da comemoração dos 100 anos de nascimento de Jorge Amado.  Hoje, a quinta parte.

Não por acaso cangaço, messianismo e loucura são associados tão diretamente: as personagens que os representam são identificadas com a alienação, nível mais baixo da pirâmide simbólica criada pelo autor para representar os estágios de consciência de classe.

E também não é casual a ordem cronológica adotada para representar os eventos. À medida que a leitura avança pelas páginas, o leitor vai sendo conduzido sem tropeços pelo narrador pela rede de eventos até entregá-lo, são e salvo, à porta do comitê do PCB ao final do volume.

Durante essa aventura simbólica o leitor assiste às injustiças contra os inocentes, à penúria dos retirantes, aos insucessos e trapaças dos inimigos de classe, aos desvarios do cangaço e do messianismo, à violência contra os revolucionários etc.

E toda essa via crucis a que o leitorassiste tem a função de ensiná-lo que o acúmulo de quantidade resulta em salto de qualidade, noutras palavras, que quantidades dessas experiências dolorosas levam irremediavelmente à luta de emancipação (o salto de qualidade), nos moldes dos versos de Castro Alves que servem de epígrafe inicial do livro:

Cai, orvalho do sangue do escravo,
Cai, orvalho na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz...
(Amado, Jorge. Seara vermelha. 46 ed. Rio de Janeiro, Record,  p. 274).


Assim,tanto a estrutura hierarquizada dos planos narrativos– e no interior de cada um deles as personagens  – quanto a ordem cronológica linear contam em favor dos revolucionários: de baixo para cima da pirâmide de entes narrativos vai-se em direção à consciência revolucionária, cujo representante máximo é o próprio narrador; e do início ao fim do romance, em avanços cronológicos, vai-se em direção da revolução democrático-burguesa, cujo representante concreto no enredo é Neném, elo entre o enredo e uma da epígrafes iniciais do livro, assinada por Luís Carlos Prestes:

... está no latifúndio, na má distribuição da propriedade territorial, no monopólio da terra, a causa fundamental do atraso, da miséria e da ignorância do nosso povo.
Seara vermelha centra seu enredo numa família de flagelados da seca, expulsa da terra e forçada a cruzar a caatinga a pé . A família sofre baixas na travessia, se desmembra, mas não se extingue e atinge seu objetivo:
O trem resfolegava. A máquina começou a andar, vagarosa ainda. Aumentou a velocidade, Gregório saltara. Jucundina levantou-se então, afastou a mão de Jerônimo que a segurava, jogou-se para a janela. Jerônimo levantou-se também para obrigá-la a sentar-se. Mas em vez de fazê-lo debruçou-se sobre ela a tempo de ver ainda, no canto da estação, de vestido vermelho, a figura de Marta acenando com a mão. O trem apitava na curva. (Idem. O trem-14, p. 190).

Embora linear , o enredo assume forma de espiral quando Neném, ao final do romance, num tempo ficcional posterior, retorna à caatinga para realizar sua pregação revolucionária e para dar início a uma nova história, situada além do desfecho do romance.

*     *     *
Seara Vermelha, o filme (1964), por Rubens Ewald Filho:

Adaptação de um livro um pouco esquecido, sobre família que tem que se mudar para cidade grande e sua destruição. Embora este filme não seja reprisado, nem esteja disponível, nunca consegue esquecer desta adaptação do italiano Alberto D´Aversa (1920-69), importante professor e diretor de teatro. Nem da cena final nunca vista: quando a heroína enojada (Esther Mellinger) jogava uma cusparada bem na lente da câmera. Com Sadi Cabral, Fregolente, Margarida Cardoso.




7 comentários:

  1. Ola, eu estou procurando a letra original "Lamento da Morte de Dalva na Beira do Rio São Francisco" composta para uma musica de Moacir Santos com Jorge Amado que figura na banda sonora do filme Seara Vermelha de Alberto D’Aversa (ou sera de Rubens Ewald Filho?)
    Existe pouca informacao na internet. Eu apenas gostaria de cantar e tocar no violao a tal musica. Ela ficou poular por Joao Gilberto em 1973 que a renominou de Indiu..

    Sera que me pode ajudar? Abracos de Inglaterra

    Antonio Fernandes

    makuma@gmail.com

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  2. Caro Antonio:

    Estou encaminhando sua mensagem para o prof. Marcos Silva, da História da USP, amigo que tem um grupo de música popular. Ano passado estivemos juntos nas comemorações dos 100 anos de JA.
    Marcos: Poderia ajudar o Antônio Fernandes? Sua pesquisa sobre música popular é vasta, então talvez possa responder ou orientar a que se chegue a uma resposta.

    Abração do
    Jeosafá

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  3. Antonio:


    João Gilberto é co-autor e gravou a música sem letra (solfejando).
    Apresentamos a música, com letra, num espetáculo em homenagem a Jorge Amado (2012). Logo que eu encontre a letra, enviarei para vc.


    Marcos Silva

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  4. Diz-se que a composição é de João Gilberto com letra do próprio Jorge Amado, mas estou pesquisando as trilhas do Moacir Santos e encontrei um esboço da melodia em um manuscrito. No caderno de Santos a melodia chama "Tema da Marta".
    Pra mim não fica claro quem é o compositor, ou até se ambos tem uma parcela na autoria...

    Transcrevi a letra do filme assim, pode conter alguns erros:

    Sozinha no mundo
    Noite foi,
    Foi noite de penar
    O meu Amor morreu, morreu.
    Não volta mais

    Cadê Marta, meu Deus?
    Marta pra mim morreu,
    Não vou ver nunca mais

    Tão triste só
    Marta a penar
    Que noite de penar.
    Só eu sei, Meu Deus!
    O meu Amor morreu, morreu.
    Não volta mais, morreu

    Cadê Marta, meu Deus?
    Marta pra mim morreu,
    Não vou ver nunca mais

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    1. Prezado Lucas:

      Encaminhei sua questão ao prof. Marcos Silva da USP, que, além de historiador, é músico. Tão logo ele responda, publico neste espaço, ok?

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    2. Ótimo, qualquer coisa me mande um e-mail pra avisar que passo pra ver! (lucaszanbonetti@gmail.com)

      Abraços

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    3. Lucas: (Respondendo aqui e por e-mail)

      Apresento um ao outro, assim eu deixo de intermediar.

      Marcos, o Lucas, em comentário a meu blog, levantou a questão da autoria da canção que você interpreta em eventos do grupo Ô de Casa. Como você é pesquisador e historiador, eis algo que realmente pode dar... samba.

      Caro Lucas, agora pode falar diretamente com o Marcos, ok? Ele está preparando um dicionário sobre a obra de Jorge Amado - aliás estou em falta com o verbete que foi a mim atribuído. Marcos: ainda dá tempo? Eu fiquei com o que mesmo?

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