sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Vidas Secas


Resumo de aula
Prezados Alunos do curso de Metologia II da História-USP:

Em primeiro lugar, devo agradecer ao Professor Marcos Silva e a vocês a oportunidade de voltar a ministrar uma aula para o Ensino Superior. Desde que pus o pé na estrada da vida de escritor profissional exclusivamente, há seis anos, não enfrentava uma turma de alunos. Fiquei emocionado e me senti  um tanto enferrujado – tomara não os tenha decepcionado, nem ao amigo que me convidou. Em segundo lugar, vamos ao que interessa:

Os métodos de uma ciência ou de uma atividade intelectual específica podem ser extrapolados  para outras, todavia, com os devidos cuidados e ajustes. Os métodos da história (mas também os da Sociologia, Antropologia, da Geografia e das ciências ditas da natureza) foram amplamente empregados pela literatura, particularmente a partir do século XIX, seja na produção de obras literárias estrito senso, tais como romances, contos, poesia e teatro, seja na produção teórica tais como história literária, crítica ensaística, literatura comparada etc.

O chamado naturalismo explorou descobertas do evolucionismo darwinista, do positivismo comteano, do pessimismo sterneano à larga para representar literariamente a vida das sociedades ou para criticar e estudar textos. Aluísio Azevedo, no Brasil desse mesmo século, enquanto artista das palavras, não foi o único, nem o último, tampouco Silvio Romero enquanto historiador e crítico.

A busca de representar por meio da literatura a realidade climática, social, intelectual, emocional de uma época foi experimentada por vários autores brasileiros, entre os quais, a nossa joia da coroa, Machado de Assis.

Porém, tanto o desenvolvimento incipiente das ciências sociais, quanto o império das ciências biológicas sobre as demais resultou, num momento em que essa ciências resvalavam para explicações rácicas e mesmo racistas do homem, numa hipervalorização de aspectos relativos ao meio e à genética para explicar as relações sociais.

Assim, a aplicação mecânica de métodos originários principalmente no campo da biologia e da botânica evolucionistas levaram a literatura a depositar muitas vezes na conta da natureza as injustiças sociais resultantes da exploração do homem pelo próprio homem, no âmbito do império do capital.

Euclides da Cunha, citado em nossa aula, buscou explicação na genética e na natureza para a resistência do homem nordestino, que para ele seria antes de tudo “um forte”, mas por razões de adaptação do indivíduo, ao longo do tempo, ao meio inóspito, responsável por selecionar os mais aptos e mais fortes - assim, ele encontrou séria dificuldade para explicar como Canudos, um ajuntamento de esfarrapados e fanáticos, derrotou por várias vezes um exército bem armado e treinado.

Para Graciliano Ramos de Vidas Secas, objeto de nossa aula, o sertanejo é também um forte, mas não apenas por gozar de boa compleição física: ele é forte porque tem um sonho: alcançar as terras do sul, que também são suas para ver seus filhos bem tratados e na escola. O sul também é seu, uma vez que é brasileiro, e todo o Brasil lhe diz respeito e lhe pertence.

Muito se tem enfatizado nesse clássico de nossa literatura o aspecto bruto de Fabiano, sua linguagem feita de ruídos guturais, sua resistência aparentemente animalesca. Porém, dói nele ter de matarem o papagaio para comerem, tanto quanto o tortura pôr fim à amiga baleia, tratada como membro da família até que o drama se impusesse de forma violenta e incontornável.

A apropriação da realidade feita por Graciliano Ramos em Vidas Secas, como de resto em todos seus demais romances e biografia (Memórias do Cárcere), apoia-se não numa aplicação mecânica de teorias, métodos analíticos e interpretativos oriundos de campos das ciências da natureza, mas da reflexão sobre conquistas teóricas já no campo das ciências humanas, entre as quais a História, a Geografia human e a Sociologia, que na chamada Escola do Recife desenvolve um pensamento autócone, voltado para nossa realidade, para o bem e para o mal, haja vista o luso-tropicalismo freyreano. Porém, Graciliano se apoia igualmente, e com crescente ênfase, no marxismo teórico e militante, de que tomará partido franca e definitivamente.

Vidas secas, diferentemente de Os sertões situa os problemas cruciais da literatura não nas relações entre homem e meio, mas nas relações injustas, desniveladas e de exploração do homem pelo próprio homem.

O drama que afeta a família de retirantes - representativa das milhares e mesmo milhões envolvidas no mesmo drama - é mais social do que climático , uma vez que a exploração rural aproveita o flagelo da seca para lançar seus tentáculos sobre as terras abandonadas pelo agricultores arruinados.

Estes vão-se embora, enquanto os donos do latifúndio, tão logo as terras sejam abandonadas, avançam suas cercas por sobre elas, de maneira que, superada a seca, seu império territorial se veja acrescido substantivamente, para uma nova fase de exploração concentrada da terra ainda mais aguda.

Subjacente ao drama de Fabiano, Sinhá Vitória, dos filhos mais velho e mais novo, Baleia e papagaio, está a luta de classes, que na nova etapa de acumulação de capital aberta pela revolução de 30, necessita de mão de obra para as lavoura de São Paulo e para a indústria nascente, com seus capitalistas ávidos por lucro fácil a partir de força de trabalho mal remunerada em escala industrial.

É por essa razão que Graciliano Ramos amargará futuramente o cárcere em Ilha Grande, e é também por essa razão que se filiará ao Partido Comunista: seu projeto literário, solidário da luta pelo fim da exploração do homem pelo próprio homem, não se contenta em pôr nas intempéries climáticas a culpa de injustiças decorrentes da ganância capitalista: os pobres sofrem na exata proporção em que os ricos concentram riqueza.

Agradeço a oportunidade de lhes ter ministrado aula na simbólica sala Edgard Carone, da Faculdade de História da USP.  E sendo o patrono dessa sala um guerreiro da liberdade e da justiça social, convido-os a lerem e a postarem comentários no Manifesto em defesa das bibliotecas públicas e escolares de São Paulo e por um política do livro e de incentivo à leitura em nosso município, clicando aqui:

Fórum de Cultura e Educação

Amplexos a todos do
Jeosa

6 comentários:

  1. Jeosafá, obrigada pela generosidade em compartilhar pelo blog a sua aula. São Paulo é difícil e eu adoraria ter estado lá. Felizmente tem jeito - o blog.
    Graciliano, cara, que coerência absurda. E seu texto foi iluminador (seus textos sempre o são - aliás, não te falta pilha nunca? risos)
    Abraço amigo
    Susana

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Susana: Essa é uma forma de sistematizar o dito. Gosto de fazer isso no quente, senão, depois sempre coisas aparecem e perdemos o chamado "time". Quanto à pilha que não falta, decidi há bastante tempo que um dia ela acabará, de uma vez. Antes disso, é só carga total, sempre. Por isso aposentadoria é algo que não passa pela minha cabeça. Saudades de nossas conversas.

      Excluir
  2. Muito obrigado pelo apoio, as anotações são de grande interesse, tenho certeza de que os alunos aproveitaram muito seus ensinamentos.

    Abraços,

    Marcos Silva

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Marcos:

      Eu que agradeço a oportunidade de, após mais de seis anos, enfrentar novamente uma turma de nível superior. Acho que estou meio enferrujado, mas talvez tenha dado conta do recado.

      Abração do
      JeosaFÁ

      Excluir
  3. Olá professor, gostaria de agradecer sua atenção em mandar o resumo da aula.

    Irá nos ajudar bastante para elaborar o trabalho.
    Também quero dizer que sua aula foi muito boa, estimulante e repleta de conteúdo. Mais uma vez obrigada.

    Você poderia nos dar mais aulas.

    Manoela

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Manuela:

      Há anos não dava uma aula para o ensino superior, desde 2006, precisamente. Me senti meio enferrujado, mas acho que, no tranco, consegui dar um modesto recado. Mas nossas conversas podem continuar via internet, uma vez que escrevo para este blog de literatura com frequência.

      Abração

      Excluir