quinta-feira, 14 de junho de 2012

Leitura literária na escola

QUESTÃO DE SINTONIA

Este texto foi publicado na década de 1990 em meu LIVRO DO PROFESSOR, volume sobre práticas de ensino de literatura para os Ensinos Fundamental e Médio, publicado pela Editora Plêiade. Nas próximas postagens, publicarei os demais textos, com eventuais atualizações.

Lembro os leitores que na Bienal do Livro deste ano, em São Paulo, lançarei, pela Edtiora Nova Alexandria, ZONA SUL, o terceiro romance de minha série ERA UMA VEZ NO MEU BAIRRO.

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Este texto nasceu e cresceu da necessidade de sistematizar algumas experiências doces e não tão doces adquiridas durante a minha atividade de professor de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental e de Ensino Médio do ensino regular e do supletivo. A bem da verdade, as experiências “não tão doces” estimularam-me mais à produção deste texto do que as bem sucedidas.

Isto porque me pareceu não haver sentido em refletir acerca de coisas que deram certo num ou noutro momento. Não sei se erro, mas parece-me que as coisas que dão certo morrem potencialmente: nosso time foi campeão; ótimo, mas o que fazer dessa realidade, a não ser comemorar? Nosso time foi mal no torneio: há já aí uma questão viva a ser tratada, pensada, mastigada.

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Ao mesmo tempo professor do curso regular de Ensino Fundamental, durante o dia, e  do curso supletivo, durante a noite, senti a necessidade de estabelecer comparação entre as duas atividades. Por motivo de objetividade, tratarei apenas da questão leitura-literatura, que é o tema central destas reflexões. E por motivo de ordem ética não se especificará o estabelecimento de ensino em que as experiências se deram.

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 A convicção de que o texto é o objeto central do trabalho de leitura encontrou resistências. Da parte da direção do estabelecimento de ensino, da parte dos estudantes e da parte dos colegas. Não por questões teóricas, mas por questões práticas.

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Os estudantes do curso regular estavam habituados com as famosas “fichas de leitura”. Do total de aulas semanais de Língua Portuguesa, apenas duas aulas estavam reservadas à leitura e à produção de textos, nas quais o item “ortografia” era a questão dominante, da 5a. à 8a. série. Mas o item “ortografia” dividia espaço ainda com a atividade de leitura silenciosa. As restantes aulas consistiam em overdoses de manuais de gramática.

No curso supletivo a questão era dramática: língua portuguesa tornara-se sinônimo de análise sintática. Não é necessário dizer que as aulas de Língua Portuguesa tornaram-se a maior unanimidade da escola: eram absolutamente detestadas.

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Confesso que, de início, foi uma grande tristeza descobrir que a língua de Camões, de Pessoa, de Machado, de Graciliano, de Amado, de Drummond, de Mário, de Bandeira, de Clarice, de Braga, de Gullar, de Trevisan, de Vinicius, de Chico, de Gil,  de Cartola, de Elis, de Dalva, de Maria, de João, de José, de Ednalva, minha e tua era detestada.

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Que fazer?

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Obviamente, primeiro, comer o pão que o diabo amassou.  Depois, mas não muito depois, na verdade quase junto a isto, iniciar uma campanha de amplo esclarecimento das opiniões conflitantes, das divergentes, das opostas e das radicalmente contra  qualquer mudança.

De início a campanha sofreu ataques. Mas depois, sofreu verdadeiros bombardeios. Enfim, as forças contrárias eram tão poderosas que decretaram que eu era um chato. E que não valia a pena perder tempo comigo. Então decretaram que minha punição seria implementar aquilo pelo que eu tanto os aborrecia: o simples direito de, alterando o planejamento, reservar à leitura, como conteúdo curricular, não apenas como prática de ensino, o espaço que lhe é devido.

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Foi aí que começou o inferno deles.

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As 5as. e 6as. séries toparam de saída. Combinamos as mais incríveis técnicas de leitura. Dentre elas, algumas foram torpedeadas de saída. O conto “O ciclista”, de Dalton Trevisan, fez sucesso e polêmica - e barulho, muito barulho.

Combinou-se que iniciaríamos a leitura, todos os quase quarenta alunos mais este professor que vos escreve, numa velocidade tão lenta que “desse nos nossos nervos”. Paulatinamente acelerando a oração, teríamos de atingir o máximo de velocidade de leitura,, sem comer palavras ou sílabas pelo caminho, e o máximo de harmonia entre as vozes.

Em uma aula, uma aula, não mais que uma aula, a técnica estava implementada. E os erros coletivos e individuais relativos à aprendizagem da técnica eram saboreados às gargalhadas.

Propôs-se que  alguns estudantes fossem selecionados para testar a técnica individualmente. Problema instalado, pois o clima de segurança e de não-censura estimulou todos a candidatarem-se.

Passado um tempo, descobriu-se que toda a turma treinava em casa para a aula de leitura. Égalité, liberté, fraternité.

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Fui chamado à diretoria do estabelecimento: as técnicas de leitura estavam atrapalhando as aulas dos outros colegas.

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Os alunos da 7a. e da 8a. séries foram reclamar à diretoria que o professor de português não ensinava as novas técnicas de leitura que ensinava às 5as. e 6as. séries.

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Numa reunião com os outros professores, acertaram-se pontos-de-vista. Programando e deslocando conteúdos, as práticas de leitura foram mantidas e ninguém se sentiu prejudicado.  O professor da sala vizinha àquela em que seria aplicada a ruidosa técnica de leitura programaria sua aula de modo a que as práticas pedagógicas não entrassem em contradição.

Obviamente que problemas continuaram a ocorrer. Todavia eram já problemas de adequação concreta, tais como: “Amanhã vou aplicar aquela técnica do barulho, tem jeito?” ou “Amanhã vai haver prova, será que dá pra...” É lógico que dá. Sempre acaba dando.

Mais tarde foi que refleti sobre o fato de que as práticas adotadas nas  aulas de leitura promoveram uma verdadeira alteração nas práticas dos outros colegas. Como que com susto verifiquei as proporções e extensões das atividades a que me propusera:  minha ação, transformada pelas ações de outros colegas e de professores do curso superior, agiu sobre a ação dos outros colegas, numa reação em cadeia.

Compreendia-se a resistência: era todo um cotidiano escolar em vias de ser alterado, não apenas o fórum interno das aulas de língua portuguesa.

Logo outros professores estavam experimentando novas técnicas e práticas em suas disciplinas específicas. Já se conversava sobre práticas adequadas a conteúdos, relações entre práticas disciplinares, resultados positivos ou negativos de práticas pedagógicas etc.

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O curso supletivo foi outra história. Os professores já insistiam por maior criatividade e liberdade na aplicação dos seus conteúdos específicos. Vencida a resistência da direção do estabelecimento, o problema centralizou-se nos estudantes.

As duas maiores de resistências vieram na forma de oposição à leitura coletiva de textos: muitos achavam “infantilidade” semelhante prática,  outros argumentavam que “ninguém poderia obrigá-los a ler”. Dois enfrentamentos, duas barreiras a serem transpostas. Tanto melhor que fossem duas - se os antigos estivessem certos  “quem tem um não tem nenhum”.

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Convenci a coordenação pedagógica e a direção escolar  da necessidade de que a leitura fizesse parte do planejamento não como prática pedagógica, mas como item de conteúdo. Pronto. Agora já podia-se avaliar o aluno pela sua leitura - entendida aqui como atividade vocal e interpretativa. Aqueles que desejavam ser obrigados conseguiram-no.

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A 7a. série supletiva ajudou a dissolver o argumento da “infantilidade”. Todos, adultos e bem-humorados, toparam as atividades: leram Mário de Andrade como um coral de canto gregoriano;  leram Mário como uma narração de futebol, leram Mário como numa marcha militar, leram Mário-funk, Mário-rap, Mário-samba, Mário-pagode, Mário-baião, Mário-triste, Mário-alegre, Mário-exaltado.
E tentaram ler Mário-Mário, para tanto realizando pequena pesquisa sobre o poeta. Houve divergências sobre como Mário leria o seu próprio texto. E houve divergência sobre quem era Mário. E aqui não houve sintonia. Mas até aí...

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 Até hoje ninguém sabe quem é Mário.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Morre Ray Bradbury

Em 2010 publiquei neste espaço esta resenha para Fahrenheit 451. Neste dia triste, reproduzo-a, em respeito a esse gigante que foi Ray Bradbury.


Fahrenheit 451


Trad. Cid Knipel

Este excelente romance de Ray Bradbury já nasceu clássico. Adaptado para o cinema por François Truffaut, trata de um futuro não muito distante, quando os livros, proibidos, serão incendiados junto com seus leitores.

É uma contundente alegoria contra regimes autoritários, para os quais nada pode haver de mais perigoso do que certos tipos de livros. O que está em questão, aqui, é menos a ficção científica e mais a denúncia contra a censura e contra todos os totalitarismos.

O livro, na edição em questão, conta ao início com uma breve biografia do autor e com um esclarecedor prefácio, de Manuel da Costa Pinto. Ao final, escritos pelo próprio autor, dois contundentes textos alertam o leitor para práticas nocivas de censura que, apoiadas em senso comum ou em preconceitos, resultam no mau hábito de se amputar textos literários destinados à escola.

Nessa história cheia de simbolismos e alegorias, um bombeiro – numa época em que eles só são úteis para pôr fogo em livros – vê a fé em sua profissão paulatinamente ruir. A amizade com uma jovem vizinha, participante de uma comunidade clandestina de leitores, acrescenta dúvidas a sua insegurança acerca da ordem incendiária vigente.

Num mundo em que a ordem totalitária impera, só resta a clandestinidade e a marginalidade àqueles que não se encaixam nos padrões impostos literalmente a ferro e a fogo. Forçados a viver num mundo sem livros, os leitores mais radicais passam a se refugiar em áreas excluídas da urbe e a decorar obras inteiras, de modo a que o patrimônio intelectual seja preservado ao máximo enquanto cada um viver.

Diz um personagem, após uma hecatombe nuclear que, durando um segundo, faz toda a cidade opressora desaparecer do mapa:

“Agora, vamos subir o rio (...). E nos concentrar num só pensamento: não somos importantes, não somos nada. Algum dia, a carga que estamos carregando [os livros que decoraram inteiros, como fossem bibliotecas vivas e ambulantes] conosco poderá ajudar alguém. Mas, mesmo quando tínhamos os livros às mãos, muito tempo atrás, não usávamos o que tirávamos deles. Continuávamos a insultar os mortos. Continuávamos a cuspir nos túmulos de todos os infelizes que morreram antes de nós. Durante a próxima semana iremos encontrar muitas pessoas solitárias, tal como no próximo mês e no próximo ano. E quando perguntarem o que estamos fazendo, poderemos dizer: estamos nos lembrando”.




Lembrar-se no caso, não da catástrofe nuclear, mas de cada palavra, cada vírgula do texto que, proibido em versão impressa, foi decorado, como o fazem os atores de teatro.

Em certo sentido, o autor de Crônicas Marcianas e Algo Sinistro Vem por Aí nem sabia que estava inventando, em 1953, antes mesmo da internet, uma versão muito mais sofisticada do que o e-book.

Comparar o romance com o filme de François Truffaut é inevitável, até porque, embora ambos sejam primorosos, há enormes diferenças entre um e outro.

Agora, um  poema de Mário Quintana a Ray Bradbury:

Ray Bradbury - Mário Quintana

Eu queria escrever uns versos para Ray Bradbury,
o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas
como no tempo em que acreditávamos no Menino Jesus
que vinha deixar presentes de Natal em nossos sapatos empoeirados de meninos
e nada tinha a ver com a impenetrável Santíssima Trindade.
Era no tempo das verdadeiras princesas,
nossas belíssimas primeiras namoradas
- não essas que saem periodicamente nos jornais.
Era no tempo dos reis verdadeiramente heráldicos como os das cartas de jogar
e do bravo São Jorge, com seu cavalo branco, sua lança e seu dragão.
Era no tempo em que o cavaleiro Dom Quixote
realmente lutava com gigantes,
os quais se disfarçavam em moinhos de vento.
Todo esse encantamento de uma idade perdida
Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar
e os nossos antigos balõezinhos de cor
agora são mundos girando no ar.
Depois de tantos anos de cínico materialismo
Ray Bradbury é a nossa segunda vovozinha velha
que nos vai desfiando suas historias à beira do abismo
- e nos enche de susto, esperança e amor.

Mário Quintana

FONTE: Bardbury, Ray. Fahrenheit 451. Trad. Cid Knipel. São Paulo, Ed. Globo, 2003.