quinta-feira, 15 de março de 2012

O monumento do Borba Gato está afundando

Os acontecimentos em ZONA SUL orbitam em torno da bizarra estátua do Borba Gato, do escultor Júlio Guerra, inaugurada em 27 de janeiro de 1963. Digo orbitam, mas digo mal, pois as histórias dos quarenta e um episódios se passam em torno, acima, embaixo e mesmo dentro do seguramente mais polêmico monumento da cidade, que desperta pasmo em quem o vê de frente e ojeriza em que o vê pelas costas.
Este monumento situa-se exatamente sobre o que virá a ser a estação Borba Gato do Metrô, linha lilás, afundada em lama,cujas fraudes afofam o solo para receber a escultura bizarra.

Para produzir o texto, realizei uma cuidadosa reportagem fotográfica da região, numa área triangular que se estende da bifurcação das avenidas Santo Amaro e Adolfo Pinheiro até a Cidade Dutra, já à margem do autódromo de Interlagos, com o terceiro vértice situado no aeroporto de Congonhas. Isso geograficamente falando, pois também me debrucei sobre a imigração espanhola no Brasil, a partir de coleta de relatos de descendentes e pesquisa bibliográfica, num espaço de tempo que remonta ao distante ano de 1808, quando os franceses tinham ocupado a Espanha e Madri se encontrava levantada contra os invasores.

Por isso, dizer que o palco principal dos acontecimentos é o monumento do Borba Gato não é dizer tudo, pois o enredo que une os quarenta e um episódios de Era uma vez no meu bairro - ZONA SUL, se do ponto de vista cronológico parte desse ano perdido no tempo, geograficamente parte de uma Madri ocupada e mergulhada em fuzilamentos, passando ainda por terras do interior paulista, ziguezagueando pelo interior da Bahia e não deixando de fora nem mesmo uma certa região chilena dos Andes envolta em neblina, gelo e não menos sangue.

A genealogia estilhaçada pela violência no volume ZONA NORTE vai sendo , assim, recomposta com cacos do passado guardados na memória familiar não como relíquia, mas como elementos vivos, sem o quais todos os esforços de superação individual e coletiva perdem a coerência e mesmo o valor.



Em torno do Borba Gato, assim, orbitam valores, porém em crescente conflito. Muitos desses valores estão relacionados à tradição bandeirante, que em suas manifestações mais nocivas e anacrôncias alimenta ainda nos dias de hoje uma elite anquilosada e patética, que opõe paulistas ao restante do Brasil, desprezando a realidade inconteste do caráter mestiço, híbrido e generosamente solidário de nossa cultura, em que estão presentes caipiras e nordestinos, japoneses e gaúchos, italianos e espanhóis, libaneses e eslavos, alemães e índios entre muitas, muitas e muitas outras contribuições oriundas de toda parte do mundo.


Para explicitar o anacronismo e a natureza caquética dessas elites orgulhosas de seu passado de caçadoras de índios e negros, ousei incrustar no texto ficcional do romance trechos representativos de documentos senão oficiais, ao menos públicos, contemporâneos, em que essa arrogância “bandeirante” e biliosa, difusora de ecos revanchistas da revolução de 32, se apresenta nítida e bisonhamente.


O leitor identificará no corpo dos respectivos episódios essas incrustações. Tendo curiosidade, poderá digitar no Google frases dessas incrustações e será remetido diretamente ao documento público fonte. Seguramente se espantará pela nitidez do tom amargo e provocativo desses discursos que, ai de nós, são proferidos por nossos governantes atuais. Também, com certeza, não tivera eu aqui apontado a natureza real desses discursos, o leitor consideraria esses trechos de meu ZONA SUL a mais delirante caricatura dos políticos conservadores que ora não sei se nos governam ou importunam. Ai de mim,quisera eu que essas incrustações fossem fruto de minha fantasia predisposta ao exagero e, às vezes, à galhofa. Porém, não.



Por enquanto, mais não digo. Em breve informarei outras curiosidades de Era uma vez no meu bairro – ZONA SUL, que, antes de tudo, é fantasia, diversão – que se não dispensa a galhofa, muito menos lágrima sentida.

4 comentários:

  1. Moro na Zona Sul, escultura de mau gosto, Julio Guerra, escultor de qualidade discutida, acho o pior monumento da cidade de São Paulo e ainda mais Borba Gato foi um dos maiores matadores de Índio.Ainda está armado.Triste ver na entrada de Santo Amaro um monumento com arma na mão.

    Moacir Gonçalves

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    1. Caro Moacir: Assino embaixo de sua santa raiva. A questão é que as elites paulistanas caçadoras de índios e de negros ainda se inspiram nos aspectos mais deletérios da cultura bandeirante e da revolução de 32. Esse trabuco monumental do Borba Gato (ele, que está de frente para o centro da cidade e com a bunda voltada para a Zona Sul),não se iluda, está reservado para nós, trabalhadores, intelectuais, artistas, índios, pretos, brancos nordestinos, caipiras, descendentes de imigrantes etc. etc. etc. E, ai de nós, os representantes biliosos dessa elite ainda nos governam.

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  2. Parabéns, Jeosafá. A ideia é muito boa, a pesquisa é enriquecedora.
    Bjs eny.

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  3. Isso faz parte do que nós aprendemos nos livros de História a respeito dos heróis da nossa história, que não passam de dizimadores dos índios e de quem atravessasse seus caminhos, contrariando seus próprios interesses.
    Zósima Leal.

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