quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes

Sob o signo da ambiguidade*

As menções que se fazem ao romance Os flagelados do vento leste, do escritor caboverdiano Manuel Lopes, freqüentemente estabelecem relações diretas entre ele e obras de autores brasileiros. Todavia, essas menções não são unânimes nem quanto aos autores, nem quanto às obras, nem quanto às classificações, nem quanto à natureza dessas relações (se de influência ou de livre apropriação).

A imprecisão no estabelecimento de tais relações tende a provocar uma distorção de juízo relativa a Os flagelados do vento leste: qualidades que lhe dão sentido como peça relevante de uma literatura específica do macrossistema das literaturas de língua portuguesa acabam relegadas a um segundo plano.

Esse reconhecimento de especificidade se vê freqüentemente perturbado por aproximações inescapavelmente hierárquicas, que alternam Brasil e Portugal na posição de matrizes culturais:

As idéias, já ultrapassadas, de Gilberto Freyre contribuíram, nos anos 40 e 50, para uma nova ideologia brasileira para exportação e que servia os interesses da burguesia nacional ao passo que dava certo prestígio ao Brasil na arena internacional. Assim compreendemos porque Balthazar Lopes e aquele grupo reduzido de amigos, que chegaram à maturidade intelectual nos anos 30, se viam tão inspirados pelo lusotropicalismo quanto limitados pela sua incapacidade de chegar a um tipo de compromisso entre o status político e a autonomia sócio-cultural do arquipélago. (Hamilton, Russel G. Literatura africana, literatura necessária. Lisboa, Edições 70, 1984, p. 98);

 (...) com a sua idéia do sucesso de um passado legítimo, de alguma maneira semelhante ao do Brasil, os intelectuais caboverdianos olhavam para o país sul-americano como um modelo e como uma sociedade irmã. (Idem, p. 122);

 (...) Os jovens do grupo’Certeza’ lançaram a sua revista sob a influência mais identificável do neo-realismo português e brasileiro (no caso do Brasil era uma questão da continuada e mais intensa influência dos nordestinos).(Idem, p. 125).

A busca de fontes de influência orienta não apenas a leitura de críticos, que visam estabelecer laços entre culturas, mesmo quando isso não resulte em hierarquização cultural: também os ficcionistas tendem a essa perspectiva, mesmo quando isso explique pouco a particularidade de suas obras:

Em Março de 1933, Balthazar Lopes escrevia no primeiro número do jornal semioficial Notícia de Cabo Verde que os cabo-verdianos deveriam ser ‘intransigentemente regionalistas’ para serem ‘inteligentemente portugueses’. Cada um poderia interpretar esta afirmação à sua maneira (Davidson, Basil. As ilhas afortunadas. Lisboa, Caminho, 1988, p. 67).

A aceitação desse ponto de vista – sobretudo de antemão – causa sérios prejuízos para o estudo concreto das obras, pois as enforma aprioristicamente num programa determinado.

Com relação à obra de Manuel Lopes, dois rótulos já se vão cristalizando, na senda do estabelecimento de fontes de influências e na de uma classificação literária peremptória, não sem implicações para sua recepção: o de que teria relação direta com o regionalismo nordestino brasileiro e o de que lhe cabe comodamente a classificação de neo-realista.

A leitura orientada pelo primeiro desses rótulos enquadra a obra do escritor caboverdiano sob o raio de influência estilística de uma das tendências do modernismo brasileiro; a que se faz direcionada pelo segundo, coloca-a também na órbita do neo-realismo português. Ou seja, sob dependência de duas literaturas, dois sistemas literários de língua portuguesa.

Quanto ao neo-realismo de Manuel Lopes e ao seu débito para com os escritores do chamado regionalismo nordestino brasileiro, vejamos o que já se observou, particularmente no tocante ao seu romance mais famoso:

Os Flagelados’ é um romance letúrgico-gótico (sic) algo na tradição de certos romances pós-realistas e positivistas, como o Canaã (1901) de Graça Aranha (1868-1931). Semelhante a esse romance brasileiro, Flagelados contém cenas arrepiantes de tragédias, crimes hediondos e sortilégios contados num estilo supra-realista e operático (sic) ( Hamilton, Russel . Cf. op. cit. 1984,  p. 155).

Assim como há espaço para considerá-lo neo-realista, há para considerá-lo outra coisa. Pós-realista seria sinônimo de pré-modernista? Além do mais, Canaã, versando sobre a imigração alemã no Estado do Espírito Santo, tampouco se enquadra nos limites da literatura regional nordestina.

A bem da verdade, a obra publicada de Manuel Lopes não constitui uma unidade homogênea desprovida de contradições e ambivalências. Por isso, classificações e aproximações taxativas explicam pouco de sua natureza. Tanto sua narrativa quanto suas técnicas só podem ser analisadas como resultantes parciais de um processo de maturação autoral coincidente com um momento bastante particular da vida de Cabo Verde, o da gestação da independência nacional, com toda sua complexidade, marchas, contra-marchas, contradições, antagonismos, soluções inesperadas e impasses políticos, econômicos, teóricos, ideológicos, culturais, lingüísticos e literários.

Se a aceitação prévia de classificações para fins de estudo muitas vezes resulta em erro, que dizer então quando elas nem são concordantes, como no caso particular da obra de Manuel Lopes?

De qualquer maneira, a quem caberia a responsabilidade por essas classificações por vezes díspares? Ao trabalho crítico? À obra do autor, ela mesma propícia a linhas divergentes de reflexões?

Creio que Os flagelados do vento leste, obra que maior prestígio angariou para Manuel Lopes, necessita ser compreendida como ponto de convergência das contradições e ambigüidades do próprio autor: neo-realista ou “gótico”, ou os dois e algo mais? Regionalista português? Nacionalista?

Ao propor o êxodo do excesso populacional como saída para a situação catastrófica do homem das ilhas, ele nos levaria a entendê-lo efetivamente como regionalista português:

A emigração foi o caminho que o Cabo-Verdiano buscou, não apenas quando era possível e fácil (lembre-se que a emigração começou com as baleeiras americanas, já no segundo quartel do século passado) mas agora e sempre, no objectivo de solucionar, à sua maneira, seus impasses financeiros. O caminho indicado, afinal, em circunstâncias tais como as presentes. Todavia, embora contrariada por toda espécie de obstáculos, a emigração representa, hoje, um contributo efectivo traduzido em divisas entradas e em melhoria do nível de vida das classe pobres com incidência no comércio (Lopes, Manuel. “Problemas e realizações”. Comunidades portuguesas. Revista trimestral da União das Comunidades de Cultura Portuguesa, no. 22, abril/1971, p. 33).

Já ao dar voz, por meio da linguagem literária, ao homem caboverdiano, poderia ser compreendido como um dos fundadores da identidade caboverdiana: 

[‘Galo cantou na baía’ é o] primeiro conto da literatura caboverdiana (Abdala Jr., Benjamin. (“Estado e nação nas literaturas de língua portuguesa: perspectiva política e cultural. Sentido que a vida faz – estudos para Oscar Lopes. 1 ed. Porto, 1997, p. 245.).

A obra de Manuel Lopes, Os flagelados do vento leste tomada como polo de comparação literária, ganha mais importância se problematizada nos diálogos com obras, autores e estilos por ela mesma propostos, do que se sua natureza específica e não poucas vezes contraditória for reduzida a classificações taxativas e submetida a uma sempre discutível contabilidade de influências que, mesmo quando estabelecidas, pouco elucidam.

O livro foi adaptado com o mesmo título para o cinema em 1987 por Antônio Faria.

* Parte de minha tese de doutorado em Letras.