quarta-feira, 1 de junho de 2011

Do lirismo à galhofa, num salto de Jerônimo

Este blog salta do lírico para a galhofa gritando: JERONIMÔÔÔÔÔ, o que explica a presença de Vinicius de Moraes neste espaço por uma semana e até hoje, e a de Bruno Azevêdo de hoje até quarta-feira próxima, isso se o Armagedon não acontecer ou se dele escapar este virtual espaço de meditargumentação litero-humorístico-cineclubeástica.

Escritor maranhense com cara de cineasta da boca do lixo paulistana, só porque São Luís está mais próxima de Nova Iorque do que São Paulo, Bruno Azevêdo se acha no direito de entrar de sola na cultura texana ianque pelo atalho goiano das duplas sertanejas de música de corno. Tudo bem, galhofa também é cultura.

Faço aqui uma digressão: dizem que vem da terra dos Sarney, mas também de Aluísio Azevedo, vamos mostrar o lado bom de todas as coisas, a anedota segundo a qual a espingarda de cano duplo foi inventada para matar dupla caipira. Maledicência contra os maranhenses, pois essa piada existe desde que os filmes de caubói entortaram a cabeça dos filhos dos verdadeiros caipiras, com micagens de chapéu de mocinho do velho oeste.

Breganejo Blues é um deboche hilário de Bruno Azevêdo, que junta dupla sertaneja oportunista com quadrinhos Tex, bate tudo no liquidificador de uma linguagem esperta, cheia de segundas intenções, despeja num copo de coquetel paródico, chacoalha mais um pouco e põe sobre o balcão do boteco maranhense, à frente do qual o leitor está sentado, e diz, toma aí, hombre, de una sola vez, sem gorgolejar.

Não sei porque, o andamento enredo me lembra A grande arte, de Rubem Fonseca. Há um clima de perseguição policial interessante, meio noir, muito embora o escracho explícito compareça a cada parágrafo, enquanto no escritor mineiro radicado no Rio esse escárnio de linguagem seja mediado pelo lirismo que, afinal, sobreleva, afinal, todo escritor mineiro tem dívidas enormes com Tomás Antônio Gozaga, não nega, e vai pagando de pouquinho.
Adailton, espada, e Adahilton, vulgo Ada Hilton, transformista assumido, porém clandestino, estão envolvidos em trapaças típicas do show business tupiniquim: jabaculê para emplacar sucessos, músicas compradas a terceiros, bacanais orgiásticos encobertos pela imagem de dupla sertaneja bom-mocista, tráfico de drogas com escolta policial em avião de turnê e otras cositas más.

Noutras palavras, nem metade do que essas turmas fazem de mal ao país e aos ouvidos está na vitrine, mas o leitor fica autorizado, pela amostragem, a inferir o que rola nos bastidores das duplas de sucesso que estragam nosso gosto musical com aquelas caras de vaqueiros texanos e com aqueles falsetes que não enganam ninguém, a não ser quem gosta desse gênero (se é que é gênero) musical (se é que é música) – aqui a gente é assim, arruína a imagens, arruma inimigo, mas conta a piada inteira.

Quem leu Galvez, Imperador do Acre, de Márcio Souza, não se frustará ao ler Breganejo Blues. Estão na mesma corrente da literatura picaresca, que no Brasil tem pratos e pratos e pratos cheios de assunto para chorar de rir, ou só chorar, ou só rir, a depender de o freguês conseguir engolir tudo sem gorgolejar.

De quebra, o leitor passeia pela mão de um narrador envolvente e matreiro por lugares proibidos, aos quais, no entanto, teria medo de ir sozinho, ou nos quais teria vergonha de ser flagrado acompanhado.

Como se está, porém, no mundo cínico da literatura picaresca, esse adjetivo cheio de segundas intenções, ninguém vai reparar quem está segurando na mão ou em outras partes de quem, que esses preconceitos no Brasil já acabaram, só não avisaram o Jair Bolsonaro e o lobie religioso  ultraconservador mal humorado, positvos e operantes por todo lugar, lobie para o qual, diferente de Mário de Andrade, os problemas do Brasil são três: a falta de fé e moral, as droga e o homossescualismo.

A não ser que se leia o livro no ônibus e um curioso ou uma curiosa pegue os olhos nas letras mal sediciosas dessa novela trezoitão, cano duplo, está o leitor liberado para ler o dito cujo no busão. Além do mais, o ônus de quem fica fuxicando as intimidades das páginas alheias recai sobre o próprio fuxicante.

No final deste mês, publico nesta mesma bat hora e neste mesmo bat blog ENTREVISTA TARJA PRETA com Bruno Azevêdo. Se você não sentir dor de barriga de tanto rir, cara e caro radiouvinte, mando a produção devolver o dinheiro da entrada. Aliás, para receber esse valor, o leitor deverá enviar mensagem para: http://bazevedo.blogspot.com, que não sou trouxa.

FONTE: Bruno Azevêdo. Breganejo Blues - Novela trezoitão. São Luís. Ed. Pitomba, 2009.

2 comentários:

  1. Olá, Renata, blz? Esse sítio é muito interessante, meu! E você, de onde eu te conheço? Que doidera! Gostei!

    Sílvio Alves da Silva

    ResponderExcluir
  2. Oi, Sílvio: Vivo metida em encontros de cultura, cinema, música, esses papos. Talvez tenha recebido mensagem de alguma amiga e retransmiti aos endereços dela. Faço bicos internéticos para amigos anarfas nesse quesito. Esse é um deles... A gente ganha um dindim e ainda ajuda a esse pessoal que aprendeu a escrever em máquina olivetti quiá quiá quiá.

    ResponderExcluir