sábado, 13 de novembro de 2010

Percurso de João Antônio até mim

Estou agora olhando para a capa da 7a. edição da Record do livro de contos de João Antônio Malagueta, Perus e Bacanaço. Esse exemplar eu ganhei de uma escola que fechou as portas quando eu lá trabalhava. Ela pagou o que pôde aos funcionários e professores da forma que pôde.

A mim couberam alguns livros que os donos arruinados do estabelecimento comercial da área da educação consideravam de algum valor, entre os quais este livro, do qual comento aqui a capa. Não estavam de todo enganados, pois boa parte do que me deram como paga aos meus serviços de professor era de boa qualidade. Pena que a imobiliária não os aceitasse para quitação do aluguel.

Um exemplar dessa mesma edição eu já tivera em mãos quando adolescente. Meu irmão, que já se encontra no andar de cima, trabalhava na Folha de S. Paulo e de vez em quando aparecia com um lançamento que enviavam ao jornal para divulgação. Na época eu me importava mais com o jogo de futebol do que com a literatura. Portanto, não dei a menor para esse livro maior. Quis o destino que ele me retornasse às mãos , anos depois, por vias transversas. Melhor dizendo, adversas.

O fundo da imagem da capa dessa edição é o Buraco do Adhemar à noite, com as lanternas traseiras dos automóveis esticando aquelas linhas vermelhas de cartão postal, em meio à paisagem escura enfeitada pelas placas luminosas, pelos imensos out-doors de néon e pelas poucas janelas dos edifícios com suas luzes acesas a denunciar o adiantado da hora.

Só quem conheceu a cidade de São Paulo quando ainda havia Buraco do Adhemar, placas luminosas psicodélicas e out-doors gigantes de néon saberá o quanto essa linda imagem, fotografada sem dúvida do viaduto Santa Ifigênia, tem de nostálgico e melancólico.

Na parte baixa da capa, aplicada sobre essa fotografia evanescente, ocupando toda sua largura, há uma ilustração em desenho colorido. Nela, uma mesa de bilhar com apenas três bolas, uma azul, uma branca e uma amarela.

À mesa, no taco, um jogador de face branca, bigode, mãos curadas, camisa de punho branca e colete preto. Atrás dele, apoiando-se na mesa, um observador moreno, de paletó azul claro, chapéu de malandro. Atrás deste, um último personagem de paletó branco, cabelos pretos longos e bigode idem. Com certeza, na ordem, ilustrações de Malagueta, Perus e Bacanço. Os três concentrados pela tensão da tacada, enquanto a cidade escura ao fundo escorre em listras sanguíneas pela obra de engenharia urbana de apelido pouco respeitoso, atribuída a Adhemar de Barros

O taco de bilhar está prestes a cutucar a bola branca na direção da azul. Tudo indica que ela será encaçapada no buraco de quina do fundo, na parte direita da mesa que ficou de fora da capa. Não deixa de ser intrigante que na mesa de pano verde falte o buraco, a caçapa, enquanto que na foto escura que serve de fundo à capa o ilustrador tenha escolhido fazer constar justamente a então caçapa mais famosa da cidade.

Aplicados em primeiro plano, no alto, o nome  do autor, em maiúsculas, em branco e bordas vermelhas: JOÃO ANTÔNIO. Logo abaixo, uma breve chamada em letras menores: Autor de Leão de Chácara. Imediatamente abaixo, o título do livro, em vermelho com sombreado amarelo: MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO. Em letras menores, ao centro da imagem, outra chamada, esta para o livro: “Um mergulho no submundo. É o clássico velhaco. Um dos livros mais premiados do país. Histórias já traduzidas em oito idiomas".

Esta edição é de 1980, mas a capa é toda ela segunda metade da década de 1970. Nessa época, os bares com bilhares em São Paulo já estavam indo para as cucuias. No lugar das mesas, foram sendo instaladas máquinas de fliperama e de jogos da Taito. Eu, então office-boy fora da escola por razões que a luta pela democracia me explicou depois, dava nesses bares com meus iguais, depois do expediente e às vezes no meio dele, por causa das máquinas. Porém, ainda dividimos espaço neles com personagens como as retratados na ilustração de capa do livro de João Antônio - e, como nela, eles não conversavam.

Ou antes, conversavam por gestos e olhares. No barulho das pancadas que dávamos nas máquinas para impedir que elas engolissem nossas bolinhas antes do tilt, víamos suas bocas se mexerem de raro em raro, em comentário a uma ou outra jogada, entre baforadas de cigarros mata-ratos comprados a granel.

Os mal educados éramos nós. Eles, com seus tacos de bilhar e seus olhares concentrados eram uns finos. Íamos embora e eles continuavam noite adentro e madrugada afora. Nunca reclamaram de nosso barulho de passarinhos pousados em galho talvez errado.

Novas edições dessa obra de João Antônio se esmeraram em manter vivo esse texto significativo de nossa literatura. Porém, mataram a capa.

Por isso guardo com tanto amor o exemplar dessa edição, que me chegou em primeira vez pelas mãos curadas de meu irmão, um fino, um boêmio, com quem tantas vezes frequentei esses mesmos bares, e em segunda pelas mãos de comerciantes da educação arruinados.

Tratando do assunto de que trata, e do modo como trata, não poderia imaginar percurso mais legítimo desse livro de João Antônio até mim. Nem melhor capa, cujo autor sequer mereceu da parte da editora os créditos na respectiva página interna da obra. Sob esse aspecto, é companheiro dos três malandros representados nos contos.

Com isso, ficam sendo, convocado o espírito de Plínio Marcos, sete perdidos numa noite suja, melancólica, mas poética: Malagueta, Perus, Bacanaço, eu, meu irmão, o autor dessa capa evanescente e o próprio Plínio Marcos, com quem, anos depois, convivi no saguão do Ciclube Bixiga, onde ele ia de vez em quando vender seus livros como um perfeito jogador de bilhar de João Antônio.

7 comentários:

  1. Adorei o texto, parabéns!

    Vânia Feitosa
    Administradora
    CECISP- Associação Centro Cineclubista de São Paulo e Ponto de Cultura Audiovisualistas

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  2. Muito legal. Sempre que passo por aquele trecho da Santa Efigênia tb sinto essa mistura de nostalgia com angústia...e alguma coisa acontece no meu coração...Abraços

    Fábio Wolf

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  3. Que bacana, Jeosafá!
    Uma análise histórica, artística, cultural e afetiva de uma capa. Gostei muito!
    Grande abraço.
    João.

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  4. ola meu amigo jeosafá, sou aquele aluno do supletivo do taboão da serra que não queria fazer leitura coletiva de texto,pois eu era muito ruim de leitura ,mais vi que tive um desepenho melhor ao ler na sala de aula ,vc fez até um livro e comentou sobre o supletivo ,que eu e mais um amigo era contra leitura coletiva na sala de aula,apredemos muito com vc josafa , assim que chamavamos vc na escola quando era nosso professor de Português,eramos dois que não queria ler mario de andrade em voz alta um era o julio o outro era eu ,acho que agora ja sab quem é ,vejo que cortou o cabelo mais continua com os oculos ,acho tambem que continua usando os tênis all star,tudo de bom na sua vida meu amigo que continue essa pessoa e que vc é sempre buscando o conhecimento e passando ao proximo como muita dedicação ,um abraço de uma pessoa que te admira muito

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  5. Você não pode imaginar o presente de aniversário que está me dando. Faço 47 na quarta e recebo a mensagem afetuosa de um ex-aluno de uma turma pra lá de especial para mim. Saiba que aprendi demais lecionando para vocês. Aquela turma do supletivo era minha alegria. Saía das aulas com a alma leve que nem passarinho. Não sei se vocês tinham consciência, mas o que fizemos ali juntos foi algo muito, mas muito significativo mesmo. O telhado era de lata, mas as pessoas eram de ouro. Algumas vezes saimos para tomar umas cervejas, na sexta, e eu lembro da papagaiada que dizíamos após as aulas... Obrigado pelo presente, mas vê se assina a mensagem, poxa, que esse presente não precisa ser anônimo, né?

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  6. me desculpe meu querido professor josafa por deixar anonimo ,sou eu o Edilzio lembra acho que sim ,um feliz aniverssario que eu nem msm sabia que chegaria numa boa hora esta mensagem ,fico muito contente em saber que não esqueceu da turma e me considero um amigo seu por mais que ja se passaram tantos anos ,realmente te admiro muito ,tenho seu livro até hoje ,o que vc fez com uma amiga e professora zuleika de felice,lembro na sala de aula quando vc levou um poema do mario quintana p gente que era assim "todos esstes que ai estão atravancando o meu caminho eles passaram eu passarinho"acho que era assim o poema adorei peguei gosto da coisa apresento vario mestres da literatura brasileira p gente como mario de andrade ,fernado pessoa ,antonio alcantra machado ,ferrera gullar,e dentros de muitos outros que a gente nem imagina que existia ,te confesso que o pouco de literatura que aprendi a conhecer foi atravez do seu lindo trabalho ,e a gente ensinou a vc beber uma cervejinha na tiazinha e conta piada ,parabems pelo seu aniverssario e que estes anos sejam comemorados muitas e muitas vezes um abraço do seu amigo Edilzio .o anonimo era so p ver se vc ia lembrar desse nome esquizito rsrsr.

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  7. Olá, Edilzio: É claro que lembro de vocês todos, inclusive do seu Agostinho, que ia às aulas pregado de sono porque levantava às 3 e meia da manhã para fazer o pão da padaria dele - ele e os coitados dos funcionários, que ele pôs para estudar junto. Gente batalhadora.É a minha. Mande seu endereço para meu e-mail (jeosafaescritor@gmail.com) que eu lhe envio meu livro mais recente "Era uma vez no meu bairro" (aliás, dá uma olhada no blog do livro: www.eraumaveznomeubairro.blogspot.com). É uma história que poderia ter acontecido em Taboão da Serra. Amplexos pra você.

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