segunda-feira, 12 de abril de 2010

Antologia Poética, de Carlos Drummond de Andrade

Esta Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, organizada pelo próprio autor em 1962, reúne poemas representativos de sua produção à época da publicação.

Os critérios empregados por ele dividem a Antologia em 9 partes: 1) O indivíduo: “Um eu todo retorcido”; 2) A terra natal: “Uma província: esta”; 3) A família: “A família que me dei”; 4) Amigos: “Cantar de Amigos”; 5) O choque social: “Na praça de convites”; 6) O conhecimento amoroso: “Amar-Amaro”; 7) A própria poesia: “Poesia contemplada”; 8) Exercícios lúdicos: “Uma, duas argolinhas” e 9) Uma visão, ou tentativa de, da existência: “Tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mundo”.

A essas subdivisões agregou-se ainda um Suplemento que, a partir da 5ª. edição, reúne poemas extraídos do livro Boitempo. O volume conta ainda, ao final, com uma “Cronologia” da obra de Drummond, com uma “Biografia” e com um “Índice de títulos de primeiros versos”, o que facilita a consulta dos poemas.

Os temas que preocuparam Drummond até a data de organização dessa reunião de poemas estão nela representados, e o que é mais importante, sob a ótica do próprio autor, a partir de poemas por ele mesmo selecionados.

Ler a poesia de Carlos Drummond de Andrade é mergulhar nos dramas vividos pelo homem ligado a seu mundo e a seu século por profundos laços intelectuais e afetivos.

Do indivíduo que, acometido de estranha sensação, deseja no poema “A mão suja” amputar a própria mão:

“Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
Suja há muitos anos”
;

ao cidadão do mundo que, tocado pela necessidade de intervir na realidade, estende a mão em gesto fraterno:

“Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”
;

Drummond viaja da geografia sentimental de uma Itabira como que suspensa no tempo, em “Cidadezinha qualquer”:

“Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.”;


à geografia de um mundo e de um tempo dilacerados pela guerra, em “Nosso tempo”:

“Este é um tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
Viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.”


Os poemas desta antologia pulsam o tempo inteiro, num movimento que vai dos cantos mais recônditos do indivíduo aos cenários sociais mais inóspitos e propícios ao esmagamento da individualidade; da mais remota e acolhedora Itabira ao mais tumultuado “Mundo mundo vasto mundo”, no qual o poeta se acha e se atordoa, sem se chamar Raimundo e sem solução para os dilemas, poéticos ou não.

Uma excelente atividade de leitura e estudo seria reunir os livros dos quais os textos foram retirados e observar cada poema à luz do contexto original. Que sentidos não ganharia o poema “Elegia 1938”, por exemplo, observado no conjunto do livro de Sentimento do Mundo, do qual foi extraído?]

E no contexto da Antologia, que sentidos assume esse poema, considerados aquele que o antecede e aquele que o sucede imediatamente?

FONTE: Andrade, Carlo Drummond de. Antologia Poética. 64 ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2009.

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