quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ninguém aprende samba no colégio, infelizmente



A alusão ao samba de Noel Rosa, no título deste artigo, não é sem propósito. Sendo o samba, e o futebol, um dos componentes do DNA da identidade brasileira, a ironia do poeta da Vila é de deixar triste e cabisbaixo qualquer um que ame a cultura popular. Noel não se fez de rogado ao expor ao ridículo a tendência das elites culturais tupiniquins da época em afrancesar-se ou americanizar-se para se parecerem sofisticadas. Dizia ele num de seus sambas, eternizado na voz de Aracy de Almeida:

Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô,
Alô boy, alô Johny
Só pode ser conversa de telefone


Ao mesmo tempo que faz galhofa do vazio moral dessas elites, acusa também a cultura oficial escolar, preocupada em macaquear uma tradição que pouco lhe diz respeito e que, em contato com a realidade social brasileira, figura-se ridícula, porque postiça: não se aprende samba no colégio não porque não seja legítimo, mas porque o colégio está atolado no pedantismo que rejeita o Brasil real, com sua originalidade, em favor de um “glacê” simbólico que, deslocado do país de origem, não significa nada, ou antes, indica uma moléstia congênita e atroz, que Nelson Rodrigues definiu agudamente como “complexo de cachorro vira-lata”.

Ora, que nos idos dos anos 20 do século passado não se ensinasse samba no colégio é compreensível, embora não justificável. Agora, que depois da Revolução de 30, do golpe do Estado Novo, da redemocratização pós Segunda Guerra, dos anos JK, de uma nova ditadura ainda mais cruel que a primeira, de novo período de redemocratização dos anos 80, que depois de Noel Rosa e Nelson Rodrigues, para não estender demais a lista de citações, ainda não se ensine samba no colégio é pra lá de lamentável.

Quem não sabe que em sociedade letrada a cultura apóia-se no sistema educacional? Grande parte da vida de crianças e adolescentes é, nos dias atuais, vivida no interior da escola, o que significa dizer que aquilo que é experimentado no âmbito dela tem peso decisivo na formação de gerações e gerações de brasileiros.

Porém, qual é mesmo a atenção que se tem dado a que nosso sistema educacional volte-se para elementos formativos do povo brasileiro? Reclama-se do mau gosto generalizado o qual crescentemente propicia o sucesso de lixo cultural em volumes astronômicos, a congestionar a programação de rádio e TV. A que se deve essa situação senão ao fato de que hoje não se aprende samba nem no colégio nem em praticamente nenhum outro canto? A música brasileira sobrevive à margem da mídia e do sistema educacional oficial graças a gênios surgidos fora do colégio, a maioria já passada dos 50 anos e que vai deixando raros herdeiros.

Num momento em que a luta contra o analfabetismo e pela consolidação de uma cultura escolar mais consistente ganha relevo, seria alvissareiro que o Brasil pulasse os muros da escola de fora para dentro, porque, parafraseando agora Simone de Bouvoir, quer era francesa, mas nunca foi glacê cultural, não se nasce brasileiro: torna-se brasileiro.

É preciso, sim, ensinar samba no colégio (samba, aqui, é metáfora, colégio não): sua história, suas narrativas, seus temas e formas, seus poetas e intérpretes, pois a função da escola no Brasil não é formar um cidadão abstrato, ascético e anticéptico – que é o que se depreende da maioria dos atuais projetos pedagógicos das instituições de ensino oficial –, mas formar um cidadão brasileiro, cuja identidade é hoje indissociável da música brasileira, das cantigas de ninar à música instrumental.

Falei disso tudo para falar de outra coisa, o que dá na mesmo: se não é possível ser brasileiro sem o condimento da música brasileira, que dizer do nosso patrimônio audiovisual? Se é uma aberração que não se ensine samba nas escolas básicas brasileiras, é também anomalia bizarra que brasileiros, mergulhados numa cultura cada vez mais audiovisual, saiam analfabetos dessa gramática ao fim de 11 (agora 12) anos de escolarização – isso porque a expressão “inclusão digital” anda na moda... Crianças e adolescentes passam horas preciosas de suas vidas em frente de uma TV e não são capazes de saber se os estão fazendo de idiota ou outra coisa – e outra coisa, aqui, seria uma bênção.
Quem é que não sabe que o audiovisual é um setor estratégico para uma nação? Como é que se quer formar um “cidadão crítico” (os projetos pedagógicos amam essa expressão), se crianças e adolescentes são privados do be-a-bá da gramática audiovisual? Como ser crítico, ou antes, como ser cidadão, estando-se condenado ao analfabetismo desse idioma que já é mais universal que o inglês?

Formar público para nossa música e para nossas produções audiovisuais, de TV e de cinema, é, sim, obrigação de nossas escolas de ensino Fundamental e Médio. E se esses dois componentes genéticos do Brasil ainda não foram incorporados aos currículos oficiais, agradeçamos aos nossos sonolentos legisladores e aos nossos governantes faltos daquilo que Machado de Assis chamou “instinto de nacionalidade”, todos eles discípulos do malandro ironizado por Noel Rosa que: “Deixou de sambar dando pinote/ na gafieira dançando o foxtrote”. E ninguém tasca, segundo Aracy de Almeida.

3 comentários:

  1. Olá, Jeosafá, perdoe-me a demora em responder seu questionário. Vou tentar respondê-lo, mas não seguirei a orderm das perguntas, ok? Bem, atualmente trabalho apenas com o ensino médio em uma escola pública, mas até o meio do ano trabalhava também em uma instituição particular de ensino superior.
    É verdade, minha maior preocupação é dar voz ao meu aluno e compartilhar o poder. Inclusive minha dissertação de mestrado tem como título "O discurso da avaliação formativa no ensino de português e as identidades discentes". Quanto à bibliografia especializada sobre práticas de ensino, confesso que há muito tempo não leio. Fiz magistério, mas já faz muuuuuuuuuuuito tempo. A graduação também terminei há algum tempo. Mas, com certeza, muito do que li contribuiu para o que procuro fazer hoje em sala. Você perguntou da minha intuição. Talvez seja o que mais me auxilia na minha jornada. As observações de práticas de professores que tive e de colegas que tenho. Procuro ver o que dá certo, o que agrada a garotada. A análise de discurso crítica me ajudou mais ainda a ver o ensino de forma diferente do que ocorre.
    Embora minha formação seja em lingüística, amo literatura e levo muitos textos para sala. Gosto de ler para os meninos, ponho sempre um tom teatral na leitura, eles amam. Peço para aqueles que queiram ler que o façam. Gosto de trabalhar gêneros textuais bem diversos, desde histórias em quadrinhos a textos mais técnicos.
    Realmente alguns colegas se incomodam com as peças e , às vezes, acontecem discussões na coordenação. Mas há um grupo muito bom em minha escola, que pensa como eu, isso dá força para continuar.
    Meu desejo é que meus alunos sejam cidadãos pensantes, capazes de criticar, de forma coerente, a realidade que os cerca. Que sejam responsáveis e respeitadores. Sei que sonho muito alto, mas é isso que me estimula a continuar.
    Quanto Oa que você disse sobre a música, concordo. Nossos adolescentes (pelo menos na minha escola) ouvem quase que exclusivamente 'funk' (é assim que se escreve?) com letras vulgares e pobres. Uso muito MPB em minhas aulas, mas não é fácil, normalmente eles criticam e acham chato.
    Até breve.

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  2. Meu Caro Jeosafá,

    Na crônica desta semana contei um pouco das minhas magras experiências ao lado de uma rápida convivência com o cantor e compositor Zé Keti, nos idos de 1995/96... (suspeito que você já tenha lido). E ontem fui surpreendido com um e-mail da Geisa Ketti, filha desse sambista, elogiando minha crônica e solicitando liberação para publicação no sítio do compositor. Oportunamente leio (31/10/08) agora esse seu “Ninguém aprende samba no colégio, infelizmente”. Ou seja, coincidentemente, num espaço curto de tempo “combinamos” publicações que se dialogam...

    Como você sabe, penso que já é hora de iniciarmos um movimento nesse sentido. Ou se ensina nossa arte nas escolas, incluindo o audiovisual com ênfase, ou nossas crianças vão achar, daqui a pouco, que bruxa e abóbora dão à vontade por aqui, digo, no Sítio do Pica Pau Amarelo, em Taubaté.

    Nem vou entrar nessa questão da exclusão digital, que você já matou com os dedos da mão, nesse seu teclado, ao mencionar a questão do analfabetismo tecnológico!

    No mais, parabéns pelo texto! Agradável e necessário.

    Ambrejos e Ambrajos

    Cacá

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  3. Prezado Dr. Jeosafá, também autoridade em assuntos da Praça Roosevelt,

    Muito em breve lhe reponderei sobre as provocações todas, na altura do seu olhar... Estou traindo a poesia sim, mas a crônica, vizinha de cerca, sempre será a outra e nunca substituirá a primeeira. Fui.

    Abrajos

    Cacá

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